“O meu trabalho é a arte”

Publicado: janeiro 16, 2013 em Arte, África, Livros
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Akinwande Oluwole Soyinka, ou simplesmente Wole Soyinka, como é conhecido mundo afora, esteve no Brasil (Belo Horizonte, Salvador e Brasília) para discutir a participação do país no Festival Internacional de Arte Negra (FAN), que será realizado no próximo ano, em Lagos, na Nigéria

Trata-se de um evento internacional e tem se consolidado como espaço privilegiado para o debate sobre as artes na África e suas diásporas. Na capital mineira, Wole disse ter esperanças que sua presença no Brasil significa que o início de maior proximidade do estado com o país africano. “No nosso caso, não acredito em intercâmbio, pois estou aqui no Brasil para dar continuidade a uma integração cultural que já existe entre nossos países, e o Festival de Arte Negra só reforçará ainda mais esses laços.”

As últimas edições do FAN aconteceram em 1977, 2009, 2010, 2011 e 2012, sob curadoria geral do próprio Wole Soyinka. O FAN tem como objetivo celebrar a criatividade africana nas diversas linguagens artísticas como a dança tradicional e contemporânea, música, pintura, fotografia, teatro, design, cinema entre outras expressões artísticas e intelectuais. A próxima edição acontecerá de 25 de março a 1º de abril de 2013. “Dessa forma, caminhamos para consolidá-lo como um programa cultural de grande porte, cruzando e articulando com solidez as diversas linguagens artísticas da Nigéria e dos países convidados”, afirmou Soyinka.

“DEPOIS QUE GANHEI O NOBEL, CONTINUEI ESCREVENDO COMO FAZIA ANTES, NÃO PRECISO QUE O GOVERNO ATESTE A QUALIDADE DO MEU TRABALHO E MINHA DEDICAÇÃO.”

Num esforço para ampliar e aprofundar o conhecimento da África de si mesma e suas influências culturais, a curadoria do FAN/Lagos desenvolveu um conceito de mapeamento da presença negra africana no mundo. Sua realização em séries temáticas, ano após ano, irradia essa ideia para fora de cada país da diáspora selecionado. Depois da Itália, o Brasil será o segundo país homenageado, em 2013.

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

Wole, o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda e Olusegun Akinruli Michael

Pode-se dizer que Wole Soyinka passou sua longa e bemaventurada vida em “estado de literatura”, um dos casos mais notórios de autor cuja atualidade se revela tão intimamente aderida à obra, espelhando a política nigeriana à cultura ioruba, na qual cresceu e viveu inserido.

Nascido em 13 de julho de 1934, em Abeokuta, próximo a Ibadan, no oeste da Nigéria, filho de um respeitado professor e líder comunitário ioruba, Wole revelaria desde cedo um gosto singular pela leitura. Ao se recordar como a literatura entrou em sua vida, ele afirma que é uma relação de infância. “Desde criança, eu lia, lia. Era fascinado com qualquer coisa impressa, eu li todos os livros do meu pai”, relembra.

Em 1954, então com 20 anos de idade, após ter concluído seus estudos no Instituto Superior de Ibadan, Wole se matriculou no curso de Literatura Inglesa da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Foi nesse período que se apaixonou pelo teatro. Formou-se em 1959 e, no mesmo ano, levou aos palcos algumas peças de sua autoria. Em 1960, retornou à Nigéria, onde fundou uma companhia de teatro, The 1960 Masks.

Nesse mesmo ano produziu A Dance In The Forests, peça que celebrava a independência da Nigéria. Durante a guerra nigeriana, em 1967, Soyinka publicou um artigo em que apelava pela paz e foi imediatamente aprisionado e acusado de conspiração com os rebeldes. Foi proibido de escrever durante o período em que esteve preso, mas isso apenas dificultou o seu ofício, na verdade, nunca o impediu. “A dificuldade inicial foi encontrar uma tinta para escrever. Depois comecei a procurar papel, inicialmente utilizei o único disponível, que foi o papel higiênico, depois permitiram que eu recebesse livros para a minha leitura. Além de lê-los, eu usava as entrelinhas entre uma frase e outra para continuar escrevendo e, assim, não tinha dificuldades para repassar meu texto para fora da prisão quando devolvia os livros”, afirmou. Depois de libertado, Soyinka foi obrigado a deixar o país e se exilou nos Estados Unidos, só voltando à Nigéria no início dos anos 1990, onde passou a ser novamente persona non grata, por se opor ao governo ditatorial de Sani Abacha.
Wole ocupa uma posição peculiar entre os intelectuais: foi o primeiro e único africano negro que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986. Na ocasião, foi enfático ao falar da premiação. “A quem ache que o Nobel torna a pessoa à prova de balas, eu nunca tive essa ilusão.” Em Belo Horizonte, voltou a falar sobre o assunto e afirmou que o prêmio foi mais importante para o resto do mundo do que para ele mesmo. “Depois que ganhei o Nobel, continuei escrevendo como fazia antes, não preciso que o governo ateste a qualidade do meu trabalho e minha dedicação.”

Suas obras são recheadas de um humor irônico e, há quem diga que Wole é ainda um grande político, mas ele não se vê como tal. “O meu trabalho é a arte, eu instigo o político quando escrevo. São eles que entram em minha obra, não eu que entro na política.”

Quando questionado sobre o que foi mais prazeroso em sua trajetória, contribuir com a arte ou com a política, a resposta veio sem hesitação. “Com a arte, a política é muito frustrante.” Ele ainda demonstrou sua simpatia pela recente reeleição de Barack Obama. “Acho extremamente importante a vitória de Obama, quebra o paradigma do preconceito, ainda mais em uma potência como são os Estados Unidos. Além de dramaturgo, poeta e ensaísta, Wole Soyinka leciona em duas universidades nos EUA, onde reside atualmente.

Fonte: Raça Brasil

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