Arquivo da categoria ‘Personalidades’

Em 1942 a Música Popular Brasileira ganharia novos rumos com o nascimento de Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Paulinho da Viola. De todos esses talentosos nomes, quisemos conhecer um pouco da vida e obra deste senhor que dá voz às questões da negritude brasileira. Quem disse que intelectual não samba?

Nei Lopes é a prova de que, para pensar a música, pode-se também compor e cantar e, para pensar a origem das palavras, pode-se escrever. As culturas africanas, no continente de origem e na Diáspora, têm estado na matriz da sua reflexão, que muito contribuiu para conhecermos melhor as ligações culturais e históricas entre o Brasil e África.

Porque resolveu centrar a sua obra na temática africana e afro-descendente?

Desde muito cedo, ainda na pré-adolescência, chamou a minha atenção a má imagem daqueles a que então chamávamos de “pretos” e “mulatos”, na sociedade brasileira. Nos jornais e revistas que folheava, eu só os via em situações desvantajosas ou deploráveis; e mesmo os “artistas” e desportistas eram sempre focalizados de uma maneira condescendente e paternalista, como simpáticas excepções a uma regra geral desagradável. Senti isso desde muito cedo. E o que era pior: a minha família, de operários pobres (e embora eu tivesse irmãos de pele mais escura) deixava transparecer um certos alívio por nós não sermos “pretos” e sim “mulatos”, porque éramos pobres mas não miseráveis. Bem cedo eu percebi também que a aparência da minha família nuclear – mãe, pai e doze filhos, dos quais eu era o caçula (olha aí uma palavra banto-brasileira!) – mostrava uma evidente origem africana. Origem essa que, mais tarde, sem nenhuma certeza, passei a situar, empiricamente, na África Austral, por alguns traços de fisionomia. Muito cedo, repito, esse tipo de preocupação ocupou o meu pensamento.

foto de Daniel Ramalho Foto de Daniel Ramalho

E qual foi o primeiro contacto que teve com a música na sua vida?

Nos anos 50, na escola secundária, me aproximei bem mais de colegas pretos e mulatos, por uma afinidade natural; e o elo maior, já que não era bom de futebol, foram as batucadas do samba que preenchiam os nossos momentos de folga. Um desses colegas era de uma família ligada à escola de samba Académicos do Salgueiro; outro era filho de um militar da Marinha, que viajara ao exterior e tinha discos de jazz e música afro-cubana. Por aí então minha iniciação musical e existencial, aberta pelos violões e cavaquinhos que eu ouvia em casa, começou a tomar forma. Até que, no final da década de 60, através de meu primeiro casamento, me aproximei de pessoas que pensavam a questão negra politicamente. Assim, a africanidade que já me seduzia pela estética, passou a me tomar também pela consciência de que aquilo que me incomodava desde o início tinha de mudar. Até que me tornei profissional da música em 1972 e em 1981 publiquei o meu primeiro livro, sempre querendo entender melhor as questões e propor alguma coisa no sentido da transformação. Por isso é que meus livros, até hoje, são instrumentos e ferramentas de trabalho que eu produzo e disponibilizo; e meus poemas e canções (a maior parte não aceite pelo mercado) são, quase sempre, de consciencialização e denúncia, quando não são crónicas do quotidiano, irónicas e sarcásticas. O lirismo é mais questão de sobrevivência.

É conhecido como a “voz do samba” e da “consciência negra”, revê-se nesses atributos?

Eu não sou a única voz do samba nem da consciência negra. Mas fico feliz em ser reconhecido como uma dessas vozes.

Que relação ao longo da História se tem vindo a desenhar entre o Brasil e Angola?

Estive em Angola em 1987, com um grupo levado por Martinho da Vila. Conheci Luanda, Benguela e Lubango (na Huíla). Acho uma pena que a quase totalidade dos brasileiros desconheça os laços históricos e culturais que unem o Brasil a Angola. Se nós conseguíssemos a efectiva implantação da Lei 10.639, que obriga o ensino de História e Cultura da África nas escolas (sancionada mas sempre obstaculizada, principalmente pelo activismo neopentecostal) daríamos um grande passo nesse sentido. Principalmente se tirássemos o foco no escravismo (que para mim é apenas uma circunstância, um nexo causal; e cuja lembrança ainda faz muito mal às mentes em formação) e começássemos a contar a História desde o reino do Congo, que impactou os portugueses, chegando até à fundação da cidade do Rio de Janeiro e à guerra contra os holandeses, com todos aqueles personagens comuns aos dois países. Bom, também se nos fixássemos na importância económica das nossas relações nessa época, a qual levou àquela celebre frase do Padre Vieira: “Sem Angola não há negros e sem negros não há Pernambuco”.

Tem contacto com artistas e intelectuais angolanos, sente familiaridade nisso? Como foram as conversas públicas com Pepetela e Agualusa?

Conheço um pouco e converso por e-mail, de vez em quando, com o Agualusa, sempre atencioso e simpático; e de quem já li quase tudo, com bastante prazer, pois sua ficção me agrada muito, pela temática e pelo estilo. Com o Pepetela, dividi uma “mesa” numa Bienal do Livro, mas só trocamos cumprimentos e poucas palavras. Ele me passou a impressão de muita timidez. Mas eu, um pouco menos tímido, o presenteei com uns dois ou três livros meus, que ele não deve ter lido. De minha viagem a Angola, me ficou a amizade do Manuel Rui, que já me mandou livros de lá e que veio a um lançamento meu, uns três anos atrás. Na música fui surpreendido, um dia, com um DVD no qual o cantor Paulo Flores cantava “Gostoso Veneno”, um samba de minha autoria com Wilson Moreira, popularizado na voz da querida cantora Alcione.

Que imagem possui ainda o senso comum brasileiro sobre África?

Respondo com a tragicómica observação feita por um velho carioca, metido a sabichão, mostrada num filme documentário sobre o samba: “A África é um ‘país’ muito pobre, meu filho!” – disse ele, exemplificando o que o senso comum, por aqui, até hoje ainda entende como África. Lamentavelmente.

No Dicionário Banto do Brasil, que saiu em 2001, levanta interessantes hipóteses etimológicas para vocábulos do português do Brasil com influência das línguas bantu. Dê exemplos, como se processou esse contágio?

As hipóteses etimológicas que eu levanto têm por base inicial a minha familiaridade com resquícios de falares africanos desde a infância. O meu pai nasceu em Fevereiro de 1888 e minha mãe em Maio de 1900. Os padrinhos e madrinhas de meus doze irmãos e irmãs eram todos negros (pretos ou pardos, como nós) e velhos. Os carinhosos cognomes ou alcunhas (no Brasil, “apelidos”) desses irmãos e de alguns outros parentes eram ecos indiscutíveis de reminiscências africanas. Veja só: Jimbo, Tonga, Noco, Sioca, Xunha, Zeca, Mavílis, Dica, Juca, Vando, Biri… Nossa fala quotidiana estava impregnada de palavras que mais tarde descobri serem de procedência africana e muito principalmente de origem banta (bantu).

foto de Felipe Varanda Foto de Felipe Varanda

Por exemplo?

Lá em casa, quando um animal ou uma criança nascia muito frágil e doente, como foi o meu caso, os velhos achavam que não ia “vingar”. E esse verbo aí, para mim, não tem nada a ver com “exercer vingança” e sim com o quicongo vinga, herdar, suceder. Da mesma forma, o “indez” com que se qualificava a criança manhosa, chorona, não tem nada com “índice” como alguém já afirmou, e sim com o quicongo ndezi, criança. Os velhos falavam “banto” sem sentir! Tudo isso se explica pela anterioridade da presença banta no Brasil, em relação aos africanos de outras procedências; pela prevalência absoluta da importação de trabalhadores do centro-oeste africano para o trabalho escravo no Brasil; e pela disseminação dessa presença por frentes de trabalho criadas em quase todo o vasto território brasileiro face às exigências dos diversos ciclos económicos: da cana de açúcar, no sudeste e nordeste; do ouro, nas Minas Gerais; do café, no sudeste, etc, além do ciclo das charqueadas, no extremo sul, e do desenvolvimento da pecuária em várias regiões. O antropólogo Jan Vansina chamou a atenção para isso; e qualificou os bantos como os “ancestrais esquecidos” dos negros, em todas as Américas.

Uma presença que deixou muitas marcas…

Uma presença muito forte, visível no léxico, em praticamente todos os campos semânticos. Inclusive, há quem diga que o brasileiro comum, como os meus mais-velhos, fala “banto” sem saber, em palavras como: marimbondo, camundongo, cuíca, samba, carimbo, sunga, bunda, cachaça, maconha, dengo, dengue, cochicho, umbanda etc. São palavras de todo o dia, de todo o lugar, e de todo o Brasil.

Em que consistiu o projeto “Ouro Negro”, de homenagem ao maestro Moacir Santos? Quem era ele?

O maestro Moacir Santos, que se radicou nos Estados Unidos nos anos 60, era um negro pernambucano. Aclamado lá fora, seus temas melódicos, incluídos até em filmes de Hollywood, receberam letras de famosos autores norte-americanos. Mas ele achava que muitas delas eram apenas funcionais, não transmitindo o que a música dele queria dizer. Já no final da vida, ele exteriorizou essa insatisfação aos produtores do projeto “Ouro Negro”, então em curso, no qual uma grande orquestra, formada por conhecidos músicos brasileiros, gravou 28 de suas obras. Para minorizar a insatisfação do Maestro em relação às letras, os produtores selecionaram cinco para receberem novos textos. E o saudoso produtor Paulinho Albuquerque, um dos maiores impulsionadores da minha carreira, me indicou como letrista capaz de resolver a questão. Então, na posse de um resumo autobiográfico do grande músico, tive a honra de criar novas letras para as cinco canções, que antes se chamavam April Child, Luanne etc. E elas, evocando as raízes de Moacir Santos, a sua africanidade e as suas inquietações existenciais passaram a se chamar: Odudua (cantada por João Bosco); Maracatu Nação do Amor (Gilberto Gil); Sou eu (Djavan); Navegação (Milton Nascimento) e Orfeu (Ed Motta).

Em 2012 fez um depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, que disse de mais relevante?

No depoimento do MIS-RJ, eu falei da minha vida, da minha trajectória profissional, dos meus parceiros, do meu processo criativo… De tudo o que pude e de que me lembrei…Falei também da discriminação contra o samba, que, além de ser estética, é também uma expressão do racismo brasileiro. Imagine você que tem gente, hoje, dizendo que o samba não é um património do povo afrobrasileiro. Observe que eu falo de “património”, sem qualquer pretensão de uma “reserva de mercado”, para os afrodescendentes, no ambiente do samba. O depoimento durou mais de quatro horas; e, pelo que dizem, está disponível na Internet. Você não quer aceder?

Conte-nos um pouco como era o Rio na década de 50 do ponto de vista do negro, que poderemos ler no seu livro Rio Negro 50

O livro ainda está no prelo, com lançamento previsto, pela Editora Record, para 2015. Ele procura mostrar, através de várias tramas simples, que se entrecruzam, o que foi, na cidade do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, a década de 1950, do ponto de vista dos afrodescendentes. Foi o tempo do Teatro Experimental do Negro e da companhia de danças étnicas “Brasiliana”, de fama internacional; da fundação do Renascença Clube, uma associação recreativa da classe média negra; da revolução estética negrista da escola de samba Académicos do Salgueiro, que inclusive se exibiu em Havana, a convite do governo revolucionário de Fidel Castro; da Copa do Mundo de 1950 (cujo final, trágico, em que se culparam os negros pelo fracasso, deflagra a linha principal do romance); do surgimento de Pelé; da peça teatral Orfeu da Conceição que gerou o filme Orfeu Negro; dos luxuosos espectáculos musicais do produtor Carlos Machado, nos quais o samba tinha papel importante. A década foi também a do suicídio do presidente Getúlio Vargas, após um crime que teve como mandante o chefe de sua segurança, conhecido como o “Anjo Negro”; foi também a do planejamento do, então, maior assalto da História brasileira, o do “Trem Pagador” tendo como mentor e executor o famigerado Tião Medonho, um bandido negro. A década foi, ainda, tempo de forte repressão ao candomblé, que ameaçava, pelo prestígio conquistado entre a intelectualidade; e do início da cooptação da umbanda, pelo branqueamento. Foi muita coisa! E está tudo lá no romance.

Também refere uma “pequena África” no Rio de Janeiro, que lugar é esse?

A “Pequena África” é um espaço, não contínuo, no antigo centro da cidade, que abrigava a comunidade emigrada da Bahia, antiga capital do Império do Brasil, e que foi o principal nascedouro das tradições de matriz africana no Rio, como o samba e os candomblés, além de ser o último reduto das tradições islâmicas dos negros no Brasil, é cenário de outro dos meus romances: Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova (Rio, Editora Língua Geral, 2009).

Quais são as principais matrizes africanas que contagiaram a música e cultura brasileiras afinal? 

A africanidade brasileira assenta, basicamente, nos conteúdos advindos do centro-oeste africano (de Congo, Luanda e Benguela) e do Golfo da Guiné (dos actuais Nigéria, Benin, Togo e Gana). Mas presenças de civilizações da Contracosta índica (Moçambique) e da região da Senegâmbia são também detectáveis. Esses “contágios”, como você diz, são perceptíveis no léxico e também em muitas tradições culturais.

Em que se traduz a grande diferença entre as civilizações conguesa e iorubana?

A grande diferença é que a civilização conguesa procedeu a um contágio amplo, enquanto que a iorubana, em conjunto com a daomeana (jeje, chamada arará em Cuba), deixou a sua marca a partir da religiosidade, que inclusive contribuiu para uma reconfiguração da tradição religiosa conguesa no Brasil. Através dela foi que se formataram os candomblés “de Congo” e “de Angola”, criações tipicamente brasileiras. A tradição daomeana também foi muito importante do ponto de vista religioso: graças a ela o actual estado do Maranhão tornou-se, ainda no século XIX, um raro repositório do culto a ancestrais da família real do antigo reino do Daomé, na actual República do Benin.

Porque a MPB se distancia dessas matrizes africanas? 

O samba urbano, nascido na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, constitui uma amálgama de vários tipos de sambas e batuques praticados por africanos em várias regiões do Brasil; e, por isso, foi reprimido e perseguido. Entretanto, quando passou a ser visto como instrumento político, de aglutinação e controlo das massas populares, passou a ser consumido como arte do povo e acabou reconhecido como género musical. Aí, nasce a música popular brasileira, que tem o samba como sua espinha dorsal. E, aí, também, o “produto” samba (reconhecido como bem económico, gerador de direitos, inclusive patrimoniais) começa a ser deliberadamente desafricanizado, afastado de suas raízes ancestrais. Prova disso é a dicotomia aí criada, distinguindo o “samba do rádio” do “samba de morro”, que é o das comunidades afrodescendentes. O “do rádio” privilegiava os instrumentos harmónicos em detrimento da percussão; e isso culminou com a bossa-nova (de início rotulada como “samba moderno”) que baniu da sua estética instrumentos que remetessem ao samba primordial, como pandeiro, tamborim, cuíca (aclimatação da mpwita congo-angolana), cavaquinho (machete) etc. O cantor João Gilberto, consolidador do estilo, fez releituras de muitos sambas antigos, inclusive “de morro”, mas sem a percussão característica. O compositor e pianista Tom Jobim declarou, nos momentos iniciais da bossa-nova que a polirritmia do samba dificultava sua compreensão no plano internacional; e, aí, a percussão foi praticamente banida.

foto de Adriana Lorette Foto de Adriana Lorette

Diz que as músicas do Caribe têm uma relação mais intensa com essas origens, porque será?

Essa, no meu entender, é a grande diferença entre a estratégia de expansão global da música cubana em relação à brasileira. Os cubanos expõem aberta e claramente suas raízes musicais africanas, inclusive com repertórios marcados por musicas de inspiração religiosa afro, e fazendo uso intenso e saudável de tambores e outros instrumentos percussivos. Os brasileiros costumam usar um tipo de percussão tímida, que eu chamo de “envergonhada”, o que tem sido altamente prejudicial. Restaram as escolas de samba, com as suas gigantescas e electrizantes orquestras rítmicas, varias delas dirigidas por verdadeiros maestros “do morro”. Infelizmente, elas são aprisionadas no estreito âmbito da música de Carnaval, relegadas ao gueto espaço-temporal dos “sambódromos”, os quais, absurda e inexplicavelmente, só são palco de espectáculos de samba nos três dias de Carnaval.

Etimologicamente samba vem de uma língua bantu, eventualmente dos quioco (chokwe) ou bacongos, há várias teorias mas a ideia de umbigada é central, certo? E o semba, qual é a ligação?

Na minha opinião, o verbo semba (que em quimbundo tem, entre outros, o sentido de “galantear, agradar, encantar”, e em quicongo se traduz como “reverenciar, honrar” etc.), é a raiz do substantivo “semba”, que denomina a dança angolana. Nela, a mesura que o cavalheiro tradicionalmente faz, diante da dama é, sem dúvida, um gesto de galanteio reverente. Corrija-me, se estou enganado! Já nas danças de roda banto-brasileiras, o gesto é mais um entrechoque de ventres, na clássica umbigada, e de peitos. Daí, alguns estudiosos terem buscado a etimologia do termo “samba” em uma outra acepção do verbo semba que é a de “separar, apartar”, ocorrente na língua bunda (mbunda), do grupo Chokwe-Lunda, correspondente no quioco (chokwe) a semba “cortar, separar”. Aí, no meu entender, estaria o étimo remoto do brasileiro “samba”, palavra aliás que já está no dicionário, por exemplo, no chokwe e em outras línguas, assim mesmo, como em português, para designar um tipo de dança. No quimbundo, a palavra, de sonoridade semelhante que talvez se aproxime da ideia de “umbigo” ou “umbigada” é nzemba, colo, regaço. Por outro lado, observe que, no quimbundo, o verbo “separar” se traduz como –batuka, de onde teriam provindo “batucar” e “batuque”. A discussão é longa. Mas é muito interessante, não é?

Sim. E qual é a relação do samba e do fado com o lundu?

Neste caso, eu vejo, sem nenhuma certeza, que o lundu chorado, difundido no Brasil do século XVIII, pode ter influenciado o fado em Portugal, através do poeta, cantador e violeiro Domingos Caldas Barbosa. Quanto ao samba, o lundu mais repinicado e menos chorado, certamente contribuiu para sua formação. Tanto que, no ambiente rural baiano, pelo menos até à década de 1960, ainda existia um tipo de lundu, à base de viola e pandeiro, cuja coreografia, individual, se desenvolvia com passos complexos, como o do samba “de morro”.

Em que altura e como surge o candomblé e a umbanda?

Antes do candomblé e da umbanda, houve no Brasil o “calundu”, forma de religiosidade que não se expressava coletivamente. O termo nasceu, pelo que aprendi, do quimbundo kilundu, espírito (plural: kalundu). E estar “de calundu” (como minha mãe dizia) ou “com seus calundus” era estar amuado, com um mal estar ou um mau-humor sem causa aparente, atribuído, pelos ritualistas, à ação de um ou mais espíritos insatisfeitos por não estarem sendo reverenciados com agrados e oferendas. Então, a denominação da indisposição, pretensamente causada por “calundus” estendeu-se à ação utilizada para neutralizá-la. Daí a expressão “quilombo de calundu”, designativa de cada um dos locais onde os “exorcistas”, digamos assim, punham em prática a sua profilaxia, com banhos, defumações e outros rituais, destinados a afastar a negatividade. A chegada massiva ao Brasil de africanos do Golfo da Guiné, desde a passagem para o século XIX, trouxe uma religiosidade organizada colectivamente, com hierarquia sacerdotal, doutrina, liturgia, local fixo de culto e, consequentemente, um corpo de seguidores. E isso, pelo que se depreende, atraiu a atenção dos antigos “calunduzeiros”, que teriam não só aderido a essas novas formas de culto, como efetivamente reorganizado o modo de cultuar suas entidades protetoras, principalmente bantas, como foi o caso da “cabula”, prática assinalada no atual estado do Espírito Santo, no sudeste brasileiro, no final da época imperial.

O que é a cabula? 

A cabula, certamente uma resultante do “catolicismo angolano”, originado no reino do Congo, entre os séculos XV e XVI, é, com certeza, a velocidade inicial da umbanda (do quimbundo umbanda, arte de curandeiro), a qual, curiosamente, gerou uma vertente conhecida como “quimbanda”. Já a forma proveniente do Golfo da Guiné originou, a partir do modelo jeje-nagô, as diversas modalidades do que hoje se conhece como “candomblé”. Vale a pena acrescentar que, em, Cuba, as resultantes das matrizes bantas (congo), iorubanas (lucumí) e jejes (arará), embora também sobreponham elementos católicos, não se confundem, como no Brasil, parecendo guardar mais fidelidade às suas respectivas matrizes.

No processo de reafricanização do Carnaval em São Salvador da Bahia, qual foi o papel dos afoxés e dos blocos afro?

Em Salvador, os afoxés e principalmente os blocos afro surgiram precisamente como propostas expressas para reafricanizar o carnaval baiano, buscando a retomada das características africanas que ele apresentava no final do século XIX. E isto se deveu à reaglutinação dos movimentos negros a partir da década de 70, como ressonância da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Mas, apesar do sucesso internacional do bloco afro Olodum, por exemplo, os meios de comunicação preferem, hoje, o “Carnaval-show” das estrelas da televisão e do disco, que raramente são afrodescendentes.

Que outros elementos mais visíveis deixaram os africanos na cultura brasileira, além da língua e da música?

A tradição do candomblé me impressiona muito, da mesma forma que a santería (ou regla de ocha, culto aos orixás) cubana. Em ambos os ambientes cultuam-se, de modo idêntico, com os mesmos cânticos, cantados com resíduos de línguas africanas, mas identificáveis em sua essência. É impressionante constatar que essas práticas, palavras e músicas estão no Brasil, em Cuba e em outros países das Américas desde pelo menos a metade do século XIX, há quase duzentos anos. É a maior prova da continuidade africana, sobrevivendo a todas as tentativas de extermínio; e se recriando.

É comum falar-se de uma grande originalidade no sincretismo cultural e religioso brasileiro…

“Sincretismo” é uma palavra perigosa, assim como “mestiçagem”. Muitas vezes essas duas palavras são usadas para diminuir a importância das verdadeiras matrizes. Na religião, por exemplo, é preciso ter em conta que, muitas vezes, o culto a determinados orixás é muito mais antigo que o dos santos católicos a que eles são associados. E, no geral, querer “rejuvenescer” a cultura popular, sob a visão de que a cultura de massa é superior porque vem de fora é muito pouco saudável. O bom é fazer conviverem, sim, mas cada coisa em seu devido lugar. Esta é a minha opinião.

Saiu recentemente um estudo da ONU que conclui que o racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado. A par disso, como tem crescido o movimento negro e a contestação ao racismo?

O racismo no Brasil, que afeta acima de tudo a afrodescendência, é uma erva daninha, daquelas que você mata hoje aqui, mas amanhã ela aparece ali, com outro aspecto. As modernas entidades do movimento negro vêm da década de 70. E na seguinte, as suas demandas começaram a ser canalizadas para repartições públicas criadas nos âmbitos municipais, estaduais e federais. Em 1995, o presidente da República admitiu publicamente que o Brasil é um país racista; e o assunto parecia entrar com força na pauta governamental. Após a Conferência Mundial contra o racismo, realizada na África do Sul, o novo governo, atendendo a uma antiga demanda do movimento negro, criou uma secretaria, com estatuto de ministério, para promover a “igualdade racial”. Entretanto, todos esses órgãos, sobretudo pela falta de orçamentos adequados, jamais conquistaram admiração e prestígio. E do ponto de vista legislativo, são raros os congressistas afrodescendentes efectivamente eleitos pelo voto das entidades negras ou, pelo menos, comprometidos com a causa. No momento em que escrevo estas linhas, o Brasil está na iminência de eleger, como presidente da República, uma mulher afrodescendente, nascida de mãe negra e pai branco, como ela mesma declarou antes das eleições de 2010. Entretanto, nem ela nem ninguém tocam neste assunto. Isso é um tabu, e certamente não convém a ela, neste momento, exibir essa condição. Nem ela é, pelo que sei, representante de nenhum sector do movimento – aliás bastante ausente do processo legislativo, embora, como disse Frei David Santos, um de nossos maiores lutadores pelas acções afirmativas, o eleitorado afrodescendente some hoje 55 por cento do total de votantes. A candidata afrodescendente não apresentou programa específico para o povo negro, o que, diante do crescimento deste contingente, de que eu faço parte, e sua lenta mas crescente inclusão no sistema social, causa estranheza.

Publicado originalmente no Rede Angola.

Fonte: Buala

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Fonte: Mundo Afro

Duas horas com Mia Couto numa envolvente conversa que atravessa vários aspectos dos seus interesses e percursos. Como chegou até aqui, as suas geografias afectivas, Moçambique e os duros momentos de violência, a utopia da Independência, a diversidade de povos e seus modos de vida como inspiração para as histórias, o ambiente e o modelo de desenvolvimento a descobrir. Não é uma entrevista onde predomine o assunto literário, apesar do autor moçambicano desejar ter mais tempo para se dedicar à escrita. Pensando também em como levar o prazer da leitura mais longe e como ajudar a fazer surgir novos escritores.

 

Um escritor no terreno 

Como consegue articular o mundo corrido de escritor, cheio de entrevistas e viagens, com a vida de biólogo em Moçambique?

É difícil. Antes era um problema, agora é uma angústia. Tenho de resolver isso, retirando tempo de algum lado. A questão não é ter mais tempo, pois inventamos o tempo que se tem, é mais ser um tempo nosso, que a escrita nos pede. Um tempo para estar com as personagens. É inevitável que transporte problemas, o que me faz ser menos disponível para as histórias.

 

E como pensa resolver isso?

Para escrever mais a tempo inteiro preciso de criar condições no meu trabalho para que possa continuar a dar assistência à empresa e trabalhar no mato como biólogo, que gosto muito.

 

Ser biólogo é também uma ferramenta para a escrita?

Sim, o trabalho de campo é muito enriquecedor pelo contacto com a diversidade. Com este trabalho atravesso Moçambique de norte a sul, muitas vezes em tendas, próximo da vida das pessoas. Falo com elas e recolho histórias que são núcleos para outras histórias.

 

Tem preferência por algum território ou etnia específica? Pressente-se por vezes um certo animismo e o mundo invisível dos macuas ou aquelas aldeias com rituais religiosos…

Essa religiosidade é uma espécie de chão comum, apesar de ter variantes. Sabe-me bem estar na região onde nasci. Alguma coisa me recorda das línguas que ali se falam, embora já não as fale, mas acredito que rapidamente conseguiria recomeçar. É curioso como é importante conhecer essa música de infância.

Mia Couto, fotografia de José Eduardo Agualusa. Mia Couto, fotografia de José Eduardo Agualusa.

 

Foi vencedor do Prémio Camões e este ano integrou o júri. O que este prémio muda na carreira de um escritor?

Na minha não mudou muito. Mas, claro, fiquei muito feliz com o prémio.

 

Não manifesta interesse em estreitar as literaturas de língua portuguesa?

Alguma coisa tem de mudar na própria natureza do prêmio. Pode contemplar um autor, claro, mas percebe-se que a nossa comunidade linguística é mais uma utopia do que uma coisa real. No Brasil, o Camões é pouco divulgado. Uma das intenções do prémio Camões era a de suscitar a curiosidade e divulgar a obra. Por exemplo, no caso do vencedor deste ano, Alberto da Costa e Silva, não se percebe porque é que a sua obra é tão pouco conhecida fora do Brasil. Este fundo deveria permitir que a obra dele fosse contemplada, que editoras a pudessem publicar e o escritor viajar. No Camões, deve ser importante a obra não especificamente o autor. Há prémios que se organizam num sentido mais formal e de reconhecimento, mas outros organizam-se para que jovens e alunos conheçam a obra. Quando há festa, toda a gente nova que está empenhada participa. Festa é isso, é um processo, não só um momento.

 

O prêmio está de costas voltadas para quem pode realmente beneficiar com o conhecimento?

Acho que sim, alguma coisa tem de mudar. Mas é também uma preguiça nossa. Os escritores têm de brigar mais, não se pode abdicar e dizer “são eles”. Estamos numa posição estranha, deixamos que as iniciativas sejam daqueles de quem dizemos mal, dos políticos etc. Temos de ocupar esse espaço.

 

Concorda que a lusofonia constrói-se mais na base dos interesses económicos do que culturais e está muito centrada em Portugal?

Acho que tem de haver uma aprendizagem. Este projecto ou é de todos ou vamos ter Institutos Camões como institutos de Portugal. É preciso que exista uma instituição da lusofonia suportada por todos. Porque é que no júri do Camões estão Portugal, Brasil e África em conjunto? Não é justo. Mas a verdade é que os países africanos nunca deram um passo em frente para dizer que também queriam participar. O que custa a Angola e a Moçambique participar? Estão só numa posição de reclamar. Preocupa-me que Moçambique tenha uma posição menos ambivalente, menos de queixa. Mesmo em relação à língua. Depois destes anos todos, a língua portuguesa ainda é vista como a língua dos outros? Ou se assume e vamos tratar dela como coisa nossa, ou não se pode pedir aos portugueses que tenham acções em relação à língua como se fosse deles.

 

A língua inglesa também vai ganhando terreno em Moçambique…

Sim, mas é um pouco um fantasma. A língua portuguesa não tem comparação com o que era, no tempo da independência só 4,5 % dos moçambicanos falavam português, hoje, nos centros urbanos, já são 40% a tê-la enquanto língua materna.

 

E as outras 20 línguas, como são cuidadas?

É um pouco hipócrita, publicamente toda a gente faz um grande discurso sobre as línguas indígenas, mas isso implica trabalho e financiamento, e não está a acontecer nada.

 

Por serem línguas mais ligadas à oralidade?

Acho que é sobretudo uma grande preguiça. Como sempre, está-se à espera que o mundo venha resolver, se não há fundos… não há prioridades.

 

Que próximo africano poderia ganhar o Prémio Camões?

Entre outros, o Agualusa, o Ungulani Ba Ka Khosa, o João Paulo Borges Coelho ou o Ondjaki.

 

 

Os vindouros

 

Como justifica não surgirem mais vozes novas?

A guerra em Moçambique ajudou a destruir a ligação, que já era tão frágil, à escola, e as pessoas só tinham contacto com a língua portuguesa através do livro. Houve uma geração que foi sacrificada na relação com a leitura e o livro. Nas cidades talvez não tanto. Agora estão a ressurgir valores, e é curioso que Moçambique retoma a espécie de natureza mais ligada à poesia – como Angola, mais ligada à prosa – e há muitos jovens promissores no domínio da poesia. É que os escritores nascem de outros escritores, as ideias nascem de onde há ideias. Lembro-me da geração do Ungulani Ba Ka Khosa, frequentavam a esplanada do Charrua, Goa, das cervejarias, debates, tertúlias em Maputo, o café Scala, onde se reunia o Rui Knopfli e o Craveirinha, isso agora não existe.

 

Espaços de contágio onde se começa a discutir, a ver filmes e a ler livros.

Sim, e não existindo esses espaços, os jovens estão desamparados. Não há semana que não me apareça um com um papel: “Ó Mia Couto, veja lá isto!” Na nossa família tivemos a ideia de criar uma fundação com o nome do meu pai – que morreu o ano passado – ele teve uma editora, queria fazer escritores, trabalhava muito com jovens. Foi agora aprovada no Conselho de Ministros e pus parte do dinheiro do prémio de maneira a que haja como acolher esses jovens, oficinas de escrita etc. Existem pessoas que criam grupos de trabalho, clubes de leitura, há uma grande vontade de quem ama os livros para fazer coisas, mesmo que não se saiba como.

 

Presentemente escreve um novo romance…

Sim, sobre o Gungunhama mas entretanto fui atropelado por um livro de poesia. É sistemático, sempre que estou a fazer um livro de prosa só me aparece a poesia.

 

É o tal ‘poeta que conta histórias’ que às vezes se fica só pela poesia.

A poesia diz “olha lá, que não sais daqui”. Mas funciona, com essa emanação da poesia a história que quero ver fica limpa.

 

livros de Mia Couto, excerto de infografia de Ivone Ralha Livros de Mia Couto, excerto de infografia de Ivone Ralha

 

Parece ter algumas resistências à narrativa realista, crua, ao compor todo um idiolecto literário. Na Confissão de Leoa tentou abrandar essa marca estilística, experimentar outras coisas. Isso acabou por fixá-lo num certo estilo? 

Sentia-me muito sufocado, de repente parecia que aquilo tinha uma só dimensão, engraçada, bonita, da qual não me apetecia ficar prisioneiro. Não quero fazer um exercício estilístico, quero contar uma história e aquela história pedia aquilo. Quero surpreender-me. Nunca vou fazer uma coisa puramente realista, não sou desse estilo.

 

É impossível reportar a realidade sem a transformar mas, ao encobri-la com essas outras formas, de dizer as coisas às vezes parece perder-se a violência da própria situação, não concorda?

Nisso, de facto, sou mesmo moçambicano, nós não falamos directamente, não conseguimos dizer não, andamos às voltas, em discursos concêntricos, até chegarmos a algum lado. A distância da guerra talvez me ajude, ela foi tão cruel que, para falar dela, da maneira que me tinha ensinado, tinha de fazer de conta que não a aprendi, precisava de manter uma certa elegância metafórica para conservar o meu lado poético perante uma coisa tão cruel. Haverá histórias que pedem para dizer as coisas puras e duras como elas são. Mas tenho dificuldade, agora a escrever o Gungunhana volto a confrontar-me com coisas que foram muito violentas. Tenho uma relação muito difícil com a violência. Quando me ofereci para a Frelimo, felizmente havia aqueles que não tinham de lidar directamente com a violência, senão não sei como iria fazer.

 

Na sua vida desiste facilmente de uma discussão?

Não me interessa ter razão, não tenho apetência para esse tipo de poder, de marcar uma posição, dar um murro na mesa. Se entro numa discussão é à maneira chinesa, simplesmente para sugerir que pode haver outra maneira de olhar para as coisas.

 

O consenso também nem sempre faz sentido.

Eu retiro-me, há uma sabedoria de evitar o confronto que não tem a ver com a falta de coragem.

 

Não gosta do imediato?

Não, se nos colocarmos no território de ganhar, vamos suscitar no outro apetites enormes numa vida onde se perdeu quase sempre, e as pessoas agarram-se a esses pequenos triunfos. Se conseguirmos retirar o assunto do território da disputa é mais fácil convencer as pessoas de que há outros modos de olhar. Dou-me bem com esta forma de fazer guerras. O provérbio chinês “o general que ganhou a guerra sem fazer nenhuma batalha” é um lema da minha vida.

 

Em Maputo ou Luanda é fácil “deixar de ver” e embrutecer pelo facto de as imagens das desigualdades sociais estarem banalizadas.

Como ver e dar resposta a isso é uma das grandes questões nestes territórios. Por exemplo, fiz uma intervenção numa escola, e surgiu a questão do transporte de trabalhadores em carrinhas de caixa-aberta como se fossem gado, o seu perigo e etc. Mas as pessoas, com rapidez e certeza, acham que é assim e que deve continuar a ser. Mas o meu discurso foi repetido passou a olhar-se para isso de outra maneira.

 

Como vê a “luandização” de Maputo: uma cidade cara, extremamente classicista, com territórios demarcados para os brancos, com inseguranças e todas essas coisas de uma grande cidade capitalista?

Para mim é quase fúnebre, apesar de não ser muito dado à nostalgia. Mas também entendo que é difícil de escapar pois é este o modelo, não sei se temos uma grande força para fazermos outra coisa. Faz-me confusão a falta de resistência civil que pelo menos entrasse em confronto com a facilidade com que se toma a cidade de Maputo.

 

Certamente não vem das ONGs.

 As ONG’s andam sempre à volta dos direitos das mulheres, de questões políticas, as questões de espaço urbano, património, quase que não existem.

 

Como vê a realidade angolana?

Vejo com alguma preocupação, por perceber que uma certa elite moçambicana olha para Angola como modelo do ponto de vista dos comportamentos, economias, gestão da sociedade, o lado fashion. Os angolanos passam férias em Moçambique e vêm buscar namoradas, há um certo fascínio. Claro que Angola não é só isso, há muitas Angolas.

 

A literatura angolana tem documentado a história do país, vai acompanhando?

A minha preocupação é ler bons livros. Angola ao mesmo tempo é um país muito curioso para nós porque tem algo que nunca tivemos: um grau de urbanização mais apurado, muito mais consolidado e antigo. Como a literatura é um fenómeno da cidade, Angola tem de facto uma literatura mais sedimentada que a nossa, tem várias gerações, é resultado de sociedade crioulas. É uma experiência que gostava de visitar em Angola.

 

E a oralidade?

O fenômeno do português ser a língua principal interessa-me, como os vários traços sociais que manejam a língua, como a tornam plástica.

 

Em defesa do Ambiente

 

Enquanto biólogo, como vê a procura de recursos e o quadro de Moçambique enquanto nova potência econômica? Será possível um equilíbrio entre o “desenvolvimento” e a agricultura sustentável?

 

Essa dualidade está mal desenhada. Não sei está relacionado com este modelo de desenvolvimento, se há outros mais felizes. Talvez seja uma coisa utópica, mas não deve deixar de ser dita e pensada. Acabamos por aceitar como modelo único possível. Pode haver problemas ambientais, mas as grandes questões são de ordem social: como são desarrumados os modos de vida, culturas inteiras arrancadas do seu habitat social e histórico. A solução não pode ser deixar como está. Existe a ideia irrisória de que as coisas estão bem porque as comunidades estão lá, mas elas estão dentro deste modelo e são empurradas para modos de sobrevivência muito agressivos.

 

As populações utilizam os recursos de forma inconsciente, por exemplo o caso dos mangais.

Por exemplo, nesses mangais, os viveiros dos peixes estão a ser assaltados pelas próprias comunidades que precisam de sobreviver e pescam com redes-mosquiteiro, cortam onde antes não cortavam. Dantes havia gestão e códigos próprios, e até zonas sagradas que eram poupadas.

 

Mangal perto de Pemba, fotografia de António Gouveia Mangal perto de Pemba, fotografia de António Gouveia

O fenómeno do land grabbing, o ataque a zonas de cultivo para massificar explorações, condenando populações à fome. Temos o hemisfério sul a produzir menos para sustentar as energias renováveis do norte?

Obedece a modas. Os biocombustíveis eram uma palavra de ordem e não chegou a acontecer com a dimensão que se pensava. Mas a questão está lá, mesmo em menor grau.

 

Como se combate esse aproveitamento?

Isto é quase uma questão psiquiátrica, é preciso dizer a estas pessoas como é que se pode combater, mas de maneira a que não surja como um fantasma, para não parecer: “estes tipos estão a travar o desenvolvimento, estes tipos não olham pelo seu país, estão a impedir que as pessoas saiam da pobreza com este discurso”. Até em nome dos próprios povos se acaba por empurrá-los para uma situação sem saída.

 

Para a dependência?

É preciso ter alguma criatividade e perceber que há um momento em que se tem de negociar. Por exemplo, com os mangais, se dissermos “é preciso defender a biodiversidade” não vamos ter sequer a adesão das comunidades, a biodiversidade é um conceito abstracto. Outra coisa é alertar aqueles que mandam na economia – que não são, obviamente, só os nacionais – e falar na língua deles, no economês: “Se se perde o mangal, perde-se o camarão”. Uma das principais exportações do país acaba por estar em risco. Alertar que as próprias lógicas de rentabilidade desse modelo ficam em risco com esta maneira selvagem. Não faço parte de ONGs, algumas são sérias mas a maior parte vivem de retro-alimentação, podem ser empresas disfarçadas, são discursos que se repetem. Um discurso alternativo que possa surgir tem de ganhar espaço e tempo, ter possibilidade de recuo táctil. Sem esse diálogo não funciona, não sabem a tua língua, não pensam da tua forma.

 

Faz muitas vezes esse papel de intermediário?

Sim, com o risco de ser acusado de transigente, demasiado aberto, evitando o confronto. Se acho que isto tem de mudar radicalmente? Sim. E o que tenho a sugerir? Não sei, mas há coisas que se pode ir pensando. Por exemplo, aquilo a que chamamos “recursos”. A palavra está errada à partida, significa que se está a legitimar uma ideia de que aquilo que lá está, seja renovável ou não, existe em função da nossa necessidade. Como se a espécie humana estivesse feita para fazer uso disso, credenciada por uma ordem qualquer divina.

 

Antropocentrismo?

E a maneira como nós chamamos, recursos humanos. São pessoas!

 

Mas as empresas de impacto ambiental – e o Mia tem uma empresa nessa área – apresentam muitas condicionantes, pela clara promiscuidade com os clientes que lhes encomendam os estudos. Sente alguma frustração com isso?

As empresas de impacto ambiental são pagas pelo próprio cliente, pode-se questionar a idoneidade deste processo, sim. O que seria correcto era as empresas pagarem ao Estado, que constituía um fundo, que indigitasse uma empresa que estaria à vontade para chumbar uma empresa. Percebemos que isso é uma limitação. Há casos que não aceitamos à partida, e outros que chumbamos ou obrigamos a redesenhar.

 

Na questão dos 300 mil hectares da Portucel, conseguiram minimizar alguma coisa?

Ainda está em andamento.

 

Podiam mostrar que a eucaliptização é um erro repetido?

Os projetos de plantio têm regras estabelecidas pelo Banco Mundial para ser seguidas. Hoje acredito que esses critérios são dos mais bem construídos, do ponto de vista técnico, para defesa do ambiente. Se fossem respeitados estaríamos bem melhor. O que falta é a capacidade de controlar e fazer alguma fiscalização. A Portucel teve que redesenhar o seu próprio projecto. Onde as comunidades não querem, nem onde há florestas nativas eles não entram, há uma contenção.

 

Sente-se um combatente nesses assuntos?

Um pouco, na luta para aproveitar zonas de fratura para poder ocupar terreno.

 

Se a alteridade fosse uma coisa a aprender e não uma ameaça, o que seria interessante valorizar fora da lógica hegemónica de que “este é o único modelo”? O que teríamos a aprender com essas outras formas de vida, outros modelos económicos e sócio-culturais sem ser o da economia do crescente?

Parece que é uma coisa muito filosófica – e sou um homem que vem de uma cultura misturada -, noto que para mim foi muito benéfico ter aprendido a necessidade de harmonia com os outros, com o espaço, o convívio com os mortos etc.

 

Não falar da natureza como um “recurso” mas como um amigo?

Ou como uma coisa que não tem nome. Uma das dificuldades que tenho no campo é dizer que sou biólogo e estou a trabalhar na natureza. Não tem tradução para as línguas locais.

 

Estamos a começar a preocupar-nos?

Com este lado mais holístico e a compreensão humana, parece que também andamos à procura. Mas estas pessoas já vivem num certo entendimento daquilo que as circunda. Com uma certa religiosidade mais permissiva, que não se guia pelo Livro, seja ele qual for. Há uma relação que me parece mais livre entre o corpo. As pessoas parecem mais felizes.

 

 

Como se defende isso sem defender um certo obscurantismo? Por exemplo, se existe electricidade não é melhor ser para todos?

Mas isso é o logro que faz com que as pessoas que vivem em sistemas rurais, na pobreza, muito carentes, acreditem que esse modelo dá resposta a tudo. Essa é a ilusão, de que para terem água, energia ou infra-estruturas têm de pagar e engolir a pastilha toda. Não sei se haverá uma maneira de fazer diferente.

 

E atrás disso vêm todas as outras necessidades que são criadas.

O problema é que quem não tem torneira, não quer ter só a torneira, quer ter a casa e outro tipo de vida. É como dizer a um filho para não namorar com determinada pessoa. O direito a fazer a aprendizagem, a ter opções, tem de estar lá. A grande esperança destes países está em gerações que possam ter algum distanciamento crítico em relação ao próprio país, gente que sai e olha para Moçambique de outra maneira.

 

Que já não têm tanta voracidade de enriquecer?

Percebem que há outras coisas, que estas sociedades não são felizes. É uma questão de tempo.

 

 

A violência

Nos últimos anos tem havido situações de violência em vários contextos. Os miúdos do subúrbio que vieram para as ruas manifestar-se, houve motins. Agora este regresso do fantasma da guerra. Os moçambicanos aparentam ser pessoas muito passivas e tímidas mas depois há uma certa cultura de violência, concorda?

Podemos explicar desta forma: predomina uma sabedoria antiga de sociedades que não tinham Estado, nem instituições mediadoras para a violência. Resolvia-se pela via das famílias, dos chefes tradicionais, etc. Quando chegámos à Independência, muitas das comunidades ainda estavam assim, o Estado colonial era muito frágil, só localizado nas cidades. No pós-independência, também se manteve frágil, não teve tempo, houve a guerra. A mentalidade é “eu não me vou expor, nem vou criar um conflito com o meu vizinho se não tiver a certeza de que vou ganhar.” Na Europa é fácil: tenho um problema, vou à polícia, acredito que há tribunal, uma força mediadora. Aqui não, a pessoa não expõe a sua opinião, e não vai arriscar individualmente, só fala quando pode gritar ou quando se está em maioria. É a explosão que acontece.

 

O peso da sociedade gregária, o indivíduo por si não tem muito valor?

O indivíduo está feito para negociar, entrar em consenso. Os moçambicanos recebem bem, não conseguem dizer não, algo muito oriental. Como é que este mesmo povo, tão cordial, fez uma guerra com um milhão de mortos? Mas acontece, não quando é gota, mas quando é onda, gota somada a gota.

E agora com a iminência de algo que pode destroçar o dia-a-dia, como se sentem as pessoas, afastam-se sentindo que é uma coisa localizada?

Primeiro receio: haver outra vez guerra é inaceitável. É difícil imaginar, quem viveu 16 anos de guerra nunca mais quer guerra. A grande força que une os moçambicanos é precisamente “não queremos guerra”.

 

Ainda se tem medo de pronunciar a palavra guerra. Nas cheias de 2000 havia pessoas a saltarem dos telhados nos resgate com medo dos helicópeteros sul-africanos ainda com a memória da guerra.

Está a acontecer uma situação caricata, a certa atura põe-se ao mesmo nível Renamo e Frelimo, sentem-se, dialoguem. Tem de se pedir isso à Renamo, um partido político que tem armas.

 

 

Contra a chantagem da força, não há vontade política pela via diplomática?

 

Mia Couto, fotografia de José Eduardo AgualusaMia Couto, fotografia de José Eduardo Agualusa

Existe alguma ambivalência. Não culpo o governo porque acho que se estivesse a governar não iria aceitar esta chantagem da força. A primeira coisa é que a Renamo tem de se convencer a ser um partido político. Se lhes pedem para entregar as armas e não entregam, tem sentido então utilizar a força para tirar aquela gente da via da violência. Eu próprio estou dividido, nas negociações, a Frelimo foi fazendo cedências e não me parece que se possa continuar a ceder só de um lado, principalmente porque agora o discurso da Renamo é que, em nome da despartidarização do Estado e das Forças Armadas, quer uma partidarização a meias. E eu como cidadão também quero ser consultado.

 

Não pode ser um aviso para que a promiscuidade entre Estado e partido acabe, a exigência de uma democratização?

Sim, mas que o façam de outra maneira, todo o argumento é discutível. A Renamo tem assento no parlamento. É uma coisa esquizofrénica: acontecem ataques, estão a morrer pessoas e os tipos sentados a discutir a lei do Orçamento ou qualquer coisa como se fosse noutro país. Portanto, pode-se acusar este governo de muita coisa, mas não de falta de tolerância. E sendo que isto é intolerável.

 

E o fator econômico, alguém estar a sentir-se fora do “acontecimento” não é uma das razões para a chantagem da Renamo? Porque é que nos anos em que se vivia numa pobreza extrema não aconteceu nada e agora, assim que a economia cresce, vêm ao de cima estes conflitos?

Acho que tem mais a ver com o Dlakhama perceber que é a última vez que se pode candidatar, é um processo pessoal. Acredito que na própria Renamo haja gente que também discorda desta via.

 

Democracia e participação

 

Apesar disso, em Moçambique tem havido alguns passos no sentido da democratização, novos partidos etc.

Sim, e a atitude do cidadão que perdeu o medo de falar e dá a cara. O risco de alguém que se assume como cidadão, estou aqui e digo o que tenho a dizer, é muito recente. É um avanço, e está a causar medo. Mas é isso ou 2010 com jovens a partir tudo. Essa fase de manifestação serviu de grande aviso, e depois começaram a acontecer coisas no mundo.

 

Foi uma conquista, os jovens indignaram-se e houve recuo da parte do governo…

Sim. Há pouco tempo também, uma manifestação de 20 mil pessoas, com elegância, organizaram-se e mostraram um grande grau de civismo. Até então uma manifestação significava partir tudo, e esta foi um grande exemplo.

 

Jornal do povo, fotografia de Marta Lança Jornal do povo, fotografia de Marta Lança

 

Em Luanda as manifestações são reprimidas com prisões e repressão policial. Em Moçambique é mais brando?

Desse ponto de vista não tenho vergonha do meu país. Há uma atitude civilizada do governo que aceita. Obviamente que há intimidação, mas é feita num quadro que hoje é comum em todo o lado.

 

 

Os tempos de militância

 

E então vai para Maputo aos 16 anos para estudar, e um ano depois entra na clandestinidade.

Em 1973 comecei a ter algumas ligações com a Frelimo, a fazer algum trabalho no movimento estudantil a que eu tinha aderido. Em 1974 era formalmente da Frelimo.

 

Viveu a Independência com 20 anos. Foi uma grande utopia?

Foi o grande sonho da minha vida. Mesmo quando a Frelimo me pediu para abandonar o curso de Medicina, e eu naquela altura queria mesmo ser médico, psiquiátrico…

 

Não era compatível, não era altura para estudar, não havia condições?

Porque se pensava que havia poucos jovens capazes de infiltrar-se nos órgãos de informação dos portugueses, quer dizer, portugueses de extrema-direita. E isso tomava-me o tempo todo. A ideia era que eu ficasse um ano, mas fiquei doze. Foi um tempo muito feliz, de grande generosidade, estávamos todos muito empenhados num país, um mundo e homem novo. Os principais erros dessa altura deveram-se à grande ingenuidade, uma simplificação do mundo. As coisas são mais complexas.

 

Não se sentia limitado?

No princípio não, quando havia dúvidas o argumento da guerra fazia suspender essas questões, estava envolvido numa coisa maior. Em 85 pensei “já não acredito”, e tinha uma grande urgência sair.

 

A figura do Samora Machel cativava-o?

No próprio momento percebi alguns grandes erros que ele cometeu. Eu era director de um jornal e nessa condição assistíamos às reuniões do Comité Central. Era o modo dele nos envolver naquilo que chamava o “Pensamento Comum”, que eu não percebia que era o pensamento único. Mas havia uma certa confiança, éramos envolvidos no processo. Havia coisas muitos grandiosas e violentas, sim. O meu amigo Carlos Cardoso foi preso a mando do Samora. Eu próprio seria preso se não fosse a poesia. Chamavam-me e diziam “ah, ele é poeta”, como se fosse assim uma doença. O Samora tinha uma visão, uma entrega aos outros e uma sensibilidade que o fazia ser ele, não estava auto-centrado, queria saber de cada um.

 

E a imprensa que dirigia na altura era o braço direito do pensamento único?

O direito e o esquerdo.

 

Samora tinha consciência do valor da comunicação, valorizava as pessoas da imagem. No interesse de criar uma unidade nacional?

Sim, ele tinha a noção de que era preciso construir uma nação e isso nasce de uma narrativa, por via da rádio e da imprensa. A primeira coisa que ele pensava era nos órgãos de informação, nos jornalistas, se havia meios. Era o primeiro a saber tudo, onde vão dormir, etc. Era formidável, vinha visitar-nos a saber se tínhamos comido e se estávamos bem.

 

Só nas cidades, ou havia delegações nas províncias?

Havia a preocupação de descentralizar, criaram-se redes de correspondência populares. Era gente muito humilde. As primeiras notícias que chegavam à Agência de Informação eram impressionantes, distribuímos bicicletas para virem entregar as notícias. A ideia era o país reconhecer-se nas suas diferenças.

 

 

O caso Carlos Cardoso

 

Carlos Cardoso já era perseguido nessa altura, preso pelo Samora?

Foi preso com a mais alta acusação de Sabotagem ao Estado Popular. O homem podia desaparecer e foi graças a um grupo de colegas que reunimos provas que ele não tinha feito o que se pensava. Mas Samora falava com ele em particular e gostavam-se. Foi pontual. A reportagem do Cardoso contrariava a versão oficial do que o Exército fizera numa operação militar. O Cardoso era várias pessoas ele tinha essa crença turco, sueco e norueguês.

 

Foi assassinado em 2000. Teve a persistência da luta pela verdade, justiça. Como era?

Ele aparecia em casa de uns amigos de casa em casa, sabia que já andava a ser perseguido. Quando se foi ver nos dossiers que ele andava a mexer, nos bolsos e nas gavetas descobrimos umas 12 razões para ser assassinado. Era uma pessoa incrível, tinha perfeita noção do que ia ser na próxima reencarnação.

 

O que há a preservar da lição do Cardoso?

O nome dele está vivo, e entre alguns sectores acha-se que o jornalismo de intervenção é a via certa. Mas acho que aí houve um grande recuo. O que ele fazia era ímpar, apontar nomes, apresentar provas.

 

 

Filho da terra

 

Como está a Beira?

Luta para não se reconhecer morta. A Beira era um porto que servia as economias do interior, através do seu corredor, sendo a sua razão de ser o Zimbabué.  A Beira entrou em decadência, e até que o Zimbabué volte a ressurgir das cinzas… Uma hipótese seria servir de escoamento ao carvão que se está a descobrir em terra, mantendo a vocação de linha de saída. Por outro lado, o carvão também foi uma história cor-de-rosa que não acabou bem.

 

Beira, Annie CoelhoBeira, Annie Coelho

 

Nota-se um certo esplendor de outrora que contrasta com a decadência. Ainda tem ligações ou família por lá?

Tenho um primo e amigos. Por ser filho da terra, na Beira sempre me cobram para lançar os livros primeiro lá. Sinto essa obrigação. Eu e os meus irmãos juntámo-nos para reabilitar a escola primária onde estudámos. Demos livros para a escola secundária. Aquela cidade deu-nos muito, fui muito feliz por lá. Apesar do período difícil de quando comecei a perceber o mundo, foi na Beira que despertei para essa consciência.

 

Do que sente mais saudades?

Das férias nas montanhas do Rovuma, perto do Zimbabué, aquilo era a ausência quase absoluta do medo. Nós ficámos durante um mês, nas férias grandes, acampados nessas montanhas. Não havia telemóveis, os pais não sabiam nada de ninguém, mas não lhes passava pela cabeça que pudesse acontecer algum mal. Esse mundo já acabou.

 

 

Tinha contato com o Grande Hotel da Beira, que entrou em colapso muito antes da independência?

Tenho uma lembrança muito vaga mas nunca vi aquilo vivo. E até morei perto desse bairro. Saltitávamos muito, quando o meu pai tinha um problema mudava de bairro, se tinha um problema maior mudava de cidade.

 

 

Publicado originalmente no jornal Rede Angola.

 

 

 

por Marta Lança

Fonte: Buala

Leia o que a atriz Ruth de Souza falou em entrevista à Raça Brasil sobre sua carreira

atriz Ruth de Souza | FOTO: Kadão Costa/Estúdio Líquido

Entre existir e ser notado há uma única diferença: a coragem. Coragem é aquilo que faz com que uma pessoa subverta a ordem, desobedeça as regras, rasgue os dogmas e aja. Assim fez Ruth de Souza, que ressignificou a presença da mulher negra no mundo das artes cênicas. Ela ousou ver mais do que estava à mostra e desbravou horizontes até então desconhecidos para a maioria das atrizes negras brasileiras. Historicamente, a mulher negra de sucesso faz da audácia e do novo sua bandeira. Nesta entrevista, nada mais justo que recordar algumas revoluções que uma profissional negra precisou enfrentar para obter êxitos que ainda hoje ecoam na arte – mais precisamente na televisão e no teatro. Foram mudanças que, de uma forma ou de outra, influenciaram a vida e a obra das gerações seguintes. Ela poderia ter sido mais uma que não se libertou dos serviços domésticos, no entanto encontrou neles a matéria-prima de seu talento. Foi a primeira negra a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, está na TV globo desde que a emissora foi inaugurada, e ainda hoje se destaca pelo longo currículo, feito que pouquíssimos profissionais tem a honra de alcançar. Ruth recebeu a equipe da Raça Brasil no apartamento onde vive, na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo um pouco debilitada fisicamente, mostrou que a cabeça continua atuante como sempre. Com bom humor e irreverência ela falou sobre sua trajetória profissional, racismo e os estereótipos que os negros enfrentam na carreira de ator.

Veja trechos da entrevista com Ruth de Souza

Sua trajetória profissional já é bastante conhecida. E pessoalmente, quem é Ruth de Souza? 

Alguém simples que adora as pessoas, gosta de fazer amigos e de manter os amigos. Sou eu, Ruth.

A senhora é uma atriz que trafega aparentemente à margem das querelas estéticas que sempre marcaram a teledramaturgia. Fale um pouco sobre sua infância e suas heranças culturais.

O meu trabalho é uma espécie de terapia. Adoro trabalhar, bom seria se todos fossem assim. Meu pai era analfabeto, era lavrador no interior de Minas Gerais. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro, mas fui para Minas ainda pequenininha. Quando meu pai morreu, voltamos para o Rio e minha mãe foi trabalhar como lavadeira para sustentar a casa.

Qual foi a primeira personagem que a senhora interpretou?

Eu fiz uma velhinha. Na época eu tinha 18 anos e interpretei uma velhinha caquética igual eu estou agora (risos). Era a história do imperador do Haiti. Atravessei o palco do Theatro Municipal com uma trouxinha nas costas. 

“Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um” | FOTO: Kadão Costa/Estúdio Líquido

 

 

É verdade que você foi a primeira atriz negra a pisar no palco do Municipal?

É verdade, eu fui a primeira atriz negra.

E como a senhora se sente quanto a esse pioneirismo?

Foi uma responsabilidade muito grande, e ao mesmo tempo me encheu de orgulho. Era uma fase muito difícil para o ator, muito difícil para o negro. Não havia negro na TV, só havia o Grande otelo fazendo comédia. 

Qual foi a personagem que mais marcou sua vida e que fez seu coração bater mais forte?

Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um. Gostei muito de fazer na TV a “Cabana do Pai Tomás”, “ossos do Barão”, onde eu fazia a neta de um barão e “Sinhá Moça”, que foi um grande sucesso. Já no cinema foi muito bom fazer “Filhas do Vento”. 

A senhora já viveu alguma situação de racismo em sua vida ou em sua carreira?

Senti que em alguns papéis eu tive que cobrar, aquela coisa que o papel tem que ser assim e que negro fala assado. Me lembro de uma vez que o diretor da Companhia Cinematográfica Vera Cruz me disse que eu era muito magra para interpretar uma escrava de fazenda, na época eu pesava 45 quilos. Ele tinha a concepção que a negra tinha que ser gorda risonha e ser boa de fogão. Logo após esse trabalho, fui interpretar outra personagem com o mesmo nome da anterior, aí perguntei ao diretor: “Por que toda vez eu tenho que fazer um personagem de nome Bastiana? Porque toda negra se chama Bastiana, ele respondeu. Eu disse: Não. Eu me chamo Ruth”. Eles estavam habituados ao negro na fazenda e à negra dentro da cozinha. Mas sofrer discriminação eu não sofri, sempre tive uma postura que me ajudou muito. Às vezes nossa gente tem certas posturas que não ajudam muito.

Como a senhora avalia o trabalho dos nossos autores de novelas, hoje, especialmente os que rejeitam os personagens negros? O negro brasileiro recebe os papéis que merece nas telinhas?

Não, de jeito nenhum. Agora, por acaso, o Lázaro está conseguindo, a Camila e a Taís também. Está aí o meu orgulho de ter começado a abrir caminho para essa família toda, tanto que eu recebi uma homenagem da Academia de Cinema. Na ocasião, chamaram todos os atores jovens para me homenagear, me deu um acesso de choro… Foi tão lindo saber que eu abri o caminho para todos aqueles que estavam ali presentes.

 

Fonte: Raça Brasil

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

 

Maria Stella de Azevedo Santos

Mais uma polêmica para que possamos refletir e dar um passo rumo a um estágio evolutivo elevado que ajude a construir uma sociedade harmônica e equilibrada. O noticiário televisivo deu a seguinte manchete: “Juiz não reconhece manifestações afro-brasileiras como religiões. A decisão gerou polêmica e surpreendeu líderes do candomblé e da umbanda e o Ministério Público Federal.” Sou uma líder do candomblé e confesso que eu não fiquei nem um pouco surpreendida.

Venho de um tempo em que a referida religião era perseguida pela polícia, em virtude de na época o Brasil ter uma religião oficial – o catolicismo. A atitude do juiz precisa ser compreendida, porém jamais pode ser aceita. Optei por não dizer seu nome, pois o nome de uma pessoa é tão sagrado que não deve ser pronunciado quando o dono dele comete atos impensados e infelizes.

Um belo e significativo ensinamento da Ordem Rosa Cruz diz: “Eu te compreendo, mas em nome do verdadeiro amor não posso aceitar.” Podemos compreender uma atitude que tem por base o preconceito, que é fruto da ignorância sobre o tema que o juiz ousou julgar. O ignorante é assim mesmo: é insolente, “grosseiro nos gestos, nas palavras ou nas ações.”

Não fiquei surpresa, fiquei indignada. Senti repulsa, não pelo cidadão em si, mas pelo seu ato vergonhoso. Quanto a meu irmão que praticou tal ato, verdadeiramente, senti pena e, consequentemente, desejo de ajudá-lo. Afinal, ele é meu irmão, somos filhos de uma única energia, que para o candomblé é chamada de Olorum – o Deus Supremo, que vive no céu (no orum), o qual se expandiu e Dele fez surgir todos os seres vivos que habitam a Terra.

Essa é uma explicação que dou para ajudar meu irmão a entender que as religiões de matriz africana têm, sim, um texto base no qual se baseiam para realizar seus rituais, mas principalmente para ajudar seus adeptos a se tornarem cidadãos “assentados” no bem e na verdade. Esse texto base nos ensina que não basta sentir pena. O Código de Ifá, conjunto de ensinamentos no qual se baseia o candomblé, ensina a seus adeptos que a ignorância precisa ser perdoada, compreendida, mas nunca aceita, e que cabe àquele que conhece os mistérios, instruir aqueles que não os conhecem. Obedecendo, portanto, às orientações dadas pelos seres superiores, esclareço a meu irmão alguns detalhes do candomblé sobre o qual ele demonstra não ter o conhecimento necessário para realizar um julgamento.

A religião trazida para o Brasil por um povo possuidor de dignidade e generosidade inigualáveis tem um texto base, o qual é inclusive codificado através de códigos matemáticos. Não podemos, nem devemos esquecer-nos que um texto, em seu sentido amplo, é um conjunto de palavras expressas de maneira oral ou escrita, que pode ser longo ou breve, antigo ou moderno. Preciso pacientemente repetir que o texto base do candomblé é o Código de Ifá, pois um educador é educado para ser paciente. E nós, sacerdotes de qualquer religião, somos educadores de almas. Explicando ainda mais um pouco, o Código de Ifá é um sistema longo e antigo, considerado axiomático por revelar verdades universalmente dignas e válidas, ditas de maneira simples para expressar a complexa realidade da vida.

Também pacientemente repito que o candomblé possui um Deus Supremo, sendo os orixás divindades que servem como intermediárias entre Olorum e os humanos. Quanto à hierarquia, este é um dos grandes e fortes pilares dessa religião milenar, tanto no que se refere ao mundo das divindades quanto à comunidade dos “terreiros”.

No mundo sagrado se tem: Olorum, orixás funfun (descendente direto do hálito do Deus Supremo), orixás vinculados ao ar, água, fogo e terra, seres humanos, animais, vegetais e minerais. Nas comunidades do candomblé a hierarquia está em tudo: nos cargos (iyalorixá, iyakekere egbomi, yaô, abian); no respeito à idade de nascimento do corpo (os “nossos mais velhos”) e à idade de nascimento, na Terra, da essência divina de cada um. Encerrarei este texto com um provérbio contido no Código de ifá: “O tempo pode ser longo, mas uma mentira não cai em esquecimento.”

 

Fonte: Mundo Afro

 

O ano de 2014 promete para Lupita Nyong’o. Depois de ganhar o Oscar de atriz coadjuvante pelo filme “12 anos de escravidão” e ser anunciada como o novo rosto da Lancôme Paris, a atriz foi eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista “People”.

“Foi emocionante e um enorme elogio. Minha mãe sempre disse que eu era bonita, e agora, finalmente, acredito nela de certa forma”, disse a atriz.

Jess Cagle, diretor da “People”, explicou a escolha no programa de televisão “Today”. “Ela é fantástica. (…) Ela é a última moda. Não houve competição possível. Ela era a única opção. Geralmente, há muito debate, mas, desta vez, estávamos todos de acordo. Ela é obviamente talentosa, obviamente bonita, incrivelmente estilosa, mas o jeito com que ela se porta, com tanta graça e humildade, foi o que a colocou no topo”

Fonte: globo.com

Nascida em 1914 no dia 14 de março, na cidade rural de Sacramento, Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus até hoje i415609tem a sua importância subestimada dentro da literatura brasileira. A escritora teve uma vida complexa e tensa como só pode ser a vida de uma mulher negra. Estudou por dois anos “as primeiras letras”, como diziam, mas interrompeu os estudos porque foi obrigada a migrar com a mãe para outras cidades, na luta pela sobrevivência. Vagou, segundo suas anotações em diários, por algumas cidades do interior de São Paulo, até que por fim migrou para a capital paulista (1947), como empregada doméstica acompanhando os patrões.

Inquieta e questionadora, Carolina não se adaptou às exigências do emprego doméstico, nos quais as relações de trabalho se assemelhavam ao extinto regime escravista. Acabou indo morar na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, uma das que surgiam com o processo de crescimento da cidade de São Paulo. Crescimento esse que teve como uma das consequências a ocupação de habitações precárias pela população preta, pobre e migrante, aglomerada em locais sem infraestrutura. Ela buscava e encontrava no lixo aquilo que a cidade desprezava, sua fonte de renda para sustento dela e dos três filhos. Perambulando pela cidade que observava, admirava sua ostentação: luzes, casa, flores, pessoas e avenidas, contrastando com sua realidade vivencial. À noite, em seu barraco, apinhava a família além da miséria. Entre o ronco da fome, os pedidos dos filhos e os burburinhos da vizinhança, tão esquecida e desprezada como ela, extraia a matéria prima para a sua escrita dos livros, para o seu sonho de se tornar escritora, mais precisamente poeta, e abondar aquela vida de precariedade.

Carolina arquitetava outra vida para ela e os filhos. Escrevia constantemente e procurava os jornais e editoras para publicar o seu trabalho, como relata em seu diário. Obviamente não conseguiu sucesso nesta investida, visto que não logrou credibilidade ao mostrar seus manuscritos registrados em papéis reutilizáveis, grafia e gramática que denunciavam os seus poucos anos de estudo formal, que para uma arte elitista como é a literatura escrita, não coadunava. Insistentemente, ela escrevia o seu dia a dia, repórter de si mesma e da cidade, que olhada pelo ângulo dos pobres à margem do rio Tietê não consegue ostentar nem o glamour, nem a ilusão de um progresso igualitário.

O que muitos chamam de coincidência é na verdade intencionalidade por parte de Carolina, que mostrava seus escritos aos profissionais da assistência social e religiosos que iam prestar assistência aos “favelados”. Em 1958, mostrou a um jovem repórter, Audálio Dantas, da Folha da Noite, designado para fazer matéria sobre a favela do Canindé, os seus escritos em cadernos que reaproveitava. Impressionado com o que leu, Audálio compilou algumas páginas e intitulou “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”. Publicado em agosto de 1960, foi recorde de vendas. A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana. Depois, foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e na Europa. Carolina de Jesus logrou realizar os seus dois intentos, tornou-se escritora e, no mesmo ano da publicação de seu livro (1960), se mudou da favela do Canindé para uma casa de alvenaria, comprada com o resultado editorial de venda de “Quarto de Despejo”. Recebeu homenagens, nacionais e internacionais, viajou por vários estados do Brasil. A vida de Carolina Maria de Jesus, se fosse ficção, terminaria com letreiros de fim e final feliz.

Pressionada pela editora, ela escreveu “Casa de Alvenaria”. Lançado em 1961, o livro não teve o mesmo impacto que antecessor. A escritora passou a questionar as desigualdades sociais a partir da “sala de visita”, termo que usava para designar um lugar digno. Houve uma mudança de lugar físico, mas não do local social de onde De Jesus fala, em relação à sociedade.

Fonte: Raça Brasil

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.

 

Fonte: Mundo Afro

Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos*

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

* Por Maria Stella de Azevedo Santos – Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. 

 

Fonte: A Tarde Online