Há dez anos, calou-se a voz de um cantor cujo nome artístico refletia os mais de 50 anos de carreira, entre shows em boates, bailes, eventos noturnos e em gravações madrugadas adentro. Seu nome? Noite Ilustrada

Uma mensagem do amigo Gerdal José de Paula me trouxe lembranças de um baile no Clube 13 de Maio, de Piracicaba, nos anos 70, cuja atração principal era o cantor Noite Ilustrada. Recepcionado por Dona Leleza, diretora daquele clube centenário, o artista teve dificuldade para chegar ao camarim, tal o número de pessoas a abordá-lo, abraçando e pedindo autógrafos. Um astro, em momento de glória.

Ao longo da carreira, Mário Sousa Marques Filho – nome verdadeiro jamais revelado ao público – viveu muitos momentos gloriosos, como aquele, mas não faltaram quedas, que o colocaram quase em total ostracismo. Mesmo assim, até poucos dias antes de partir definitivamente, em julho de 2003, insistia em repetir os versos de seu primeiro sucesso, de 1963: “Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”. E o sucesso foi tanto que só muitos anos depois o público começou a associar esse samba com seu autor, o biólogo boêmio Paulo Vanzolini.

DO INTERNATO AO PALCO
A história desse personagem se iniciou 35 anos antes, em 1928, na cidade mineira de Pirapetinga, na Zona da Mata, de onde foi levado ainda pequeno para a casa da avó, em Além Paraíba, pois a mãe, separada do marido, havia se mudado para o Rio de Janeiro para trabalhar de empregada doméstica. Aos sete anos, o pai foi buscá-lo para também levá-lo a então Capital Federal, onde trabalhava como motorista dos executivos em uma multinacional e, nas horas vagas, dava aulas de inglês. Sem condições de cuidar da criança, ele a colocou num colégio interno, o Instituto Getúlio Vargas, em Bonsucesso, onde Mário permaneceu até os 16 anos. Pelo menos dois de seus colegas de internato se tornaram artistas como ele: Nelson Martins dos Santos, o Nelsinho do Trombone, e Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum.

Foi no internato que a música entrou em sua vida. Aprendeu a tocar violão e criou suas primeiras composições. Em busca de trabalho, foi à Praça Tiradentes, o ponto dos músicos. Ali, foi contratado para acompanhar os cantores da caravana do humorista baiano Zé Trindade. Enquanto esperava no camarim, fazia palavras cruzadas na revista de variedades Noite Ilustrada e, ao ser avisado que era hora de entrar no palco, a dobrou e colocou no bolso do paletó. O humorista ia anunciá-lo, mas faz uma pausa. Esquecera o nome do violonista. Olhou para ele, nos bastidores, viu a revista e anunciou; “Com vocês, Noite Ilustrada!”. A gracinha o deixou irritado, mas o apelido pegou.

Noite Ilustrada, com Pelé e o cronista esportivo Odair Pimentel

SOB AS BÊNÇÃOS DA ÁGUIA
Acompanhando, ao violão, os compositores da Portela, participou de uma apresentação em São Paulo, em 1955. Recebeu convite para trabalhar em casas noturnas e não retornou com o grupo. Assinou contrato com a Rádio Nacional e a TV Paulista e, três anos depois, gravou seu primeiro disco, mas teve de esperar mais cinco anos pela explosão de sucesso, com “Volta por Cima”.

Uma das casas em que Noite Ilustrada trabalhou na noite paulista foi o Captain’s Bar, do Hotel Comodoro, onde conheceu Jorge Costa, seu parceiro em várias composições. Foi ali que cantou pela primeira vez outro grande sucesso, “O neguinho e a senhorita”, do salgueirense Noel Rosa de Oliveira. Ilustrada foi um dos grandes intérpretes de composições de Ataulfo Alves, como “Meus tempos de criança”, “Laranja madura” e “Pois é”.

Numa das quedas, foi trabalhar como motorista de caminhão de coleta de lixo, em São Paulo. Numa das voltas por cima, mudou-se para Recife, onde permaneceu, por dez anos, vivendo exclusivamente de música. Ao retornar às terras paulistas, em 1994, foi morar no bucólico município de Atibaia, onde viveu momentos de boas recordações e serestas ao lado do caboclinho Sílvio Caldas.

Dias antes de falecer, gravou um CD, cuja faixa-título, “Perfil de um Sambista” é composição do violeiro Adalto Santos. Ao partir, deixou dois discos inéditos: um tributo a Ataulfo Alves e outro a Lupicínio Rodrigues. Foi ou não foi uma boa maneira de dar adeus?

Fonte: Raça Brasil

Os livros didáticos de história contam a trajetória do Brasil, da colonização à independência, da abolição da escravatura aos tempos modernos. Apesar de todo o conhecimento cultural e intelectual que transmitem às crianças e jovens, deixam para trás muitos personagens importantes, que merecem ter suas histórias exaltadas ou, no mínimo, contadas. Coincidência ou não, existem figuras negras emblemáticas que fazem parte da “lista dos esquecidos”. A ausência de registros nos livros escolares pode e deve ser compensada pela internet e por veículos segmentados como a Raça Brasil. Assim sendo, nas próximas páginas apresentaremos um sujeito que poucos conhecem, mas que foi um grande herói na luta contra a ditadura militar. Militante comunista e figura de destaque na Guerrilha do Araguaia, ocorrida entre o final da década de 1960 e o início dos anos 70, Osvaldo Orlando da Costa, ou Osvaldão, como era conhecido, até hoje é lembrado pelo povo local por sua compleição física, inteligência e bondade

“ELE [OSVALDÃO] ERA MUITO HÁBIL NA FLORESTA, TINHA DOM PARA CAÇAR E PESCAR. OS ÍNDIOS FALAM DA TÉCNICA DELE PARA IMITAR OS SONS DOS ANIMAIS. OSVALDÃO SE INTEGROU À NATUREZA E À VIDA DE CAMPONÊS”

A Guerrilha do Araguaia
O golpe mais duro do governo militar na democracia, o AI-5 (Ato Institucional número 5), deu poderes absolutos ao regime. No dia 13 de dezembro de 1968, entrou em vigor como forma de represália ao discurso do deputado Márcio Moreira Alves, que havia pedido ao povo brasileiro que boicotasse as festividades de 7 de setembro daquele ano. Na verdade, o ato determinava uma série de proibições e concessões de poder ainda mais extremas aos militares. Entre os absurdos, concedia ao presidente o poder de dar recesso à Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores, sendo que neste período o Executivo Federal assumiria todas as funções; permitia que o presidente interviesse nos estados e municípios e cassasse mandatos de deputados federais, estaduais e vereadores; e o mais importante dentro do contexto do Araguaia: suspendia o direito ao habeas corpus e impunha a censura prévia sobre os meios de comunicação, espetáculos de arte e obras musicais.

Toda essa repressão fomentou lutas de grupos esquerdistas, entre eles, os guerrilheiros do Araguaia, em sua maioria integrantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), instalados nas proximidades do rio Araguaia, entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins. Eram várias frentes de resistência. No Vale do Ribeira, o político e fundador do partido comunista, Pedro Pomar, liderava as ações. O Araguaia era um ponto estratégico por conta da sua geografia – a mata fechada servia de refúgio e esconderijo para os guerrilheiros. Com a instituição do AI-5, muitos militantes do sudeste do país migraram para lá, a fim de manterem-se em segurança.

Carlos Marighella
Carlos Lamarca

Os guerrilheiros buscavam inspiração tática nas guerras populares de China e Cuba, com pensamento alinhado aos dos líderes Mao Tsé-Tung, Che Guevara e Fidel Castro. “A ideia era a população se levantar contra a tirania, a ditadura no Brasil. Neste tipo de guerra, montam-se diferentes núcleos e se faz uma preparação com a população local para que a revolução possa acontecer”, explica Osvaldo Bertolino, jornalista e pesquisador da Fundação Maurício Grabois.

E com a estratégia de ganhar o apoio da população rural, os guerrilheiros ocuparam o Araguaia e se prepararam para uma luta armada. Foi formada a Comissão Militar, responsável por coordenar três agrupamentos, cada um composto por cerca de 21 militantes. Embora estivessem na região já há alguns anos, os comunistas não foram descobertos prontamente pelo governo militar. Os primeiros indícios de que havia um grupo organizado ali foram notados pelos militares no final dos anos 1960. “Tudo que formos falar sobre os militares, é algo mais da nossa percepção, porque não há versão oficial. Uma das pistas pode ser a forma dos camponeses negociarem com os latifundiários. No final dos anos 1960, houve um aumento do preço das matérias-primas da região e o latifundiário começou a estranhar. Até então, eles viam os camponeses quase como escravos, o que os levou a achar que estes estavam recebendo orientações para negociar. A mineração é outra questão importante. Foi descoberta, no mesmo período, a Serra Pelada, e há quem diga que foram os guerrilheiros paulistas que a encontraram. A exploração articulada dos minérios e a comercialização despertaram a atenção do governo e do exército”, afirma Vandre Fernandes, pesquisador e diretor do documentário “Camponeses do Araguaia” e do longa-metragem “Osvaldão”, que ainda esta em fase de produção.

Em 1972, o exército brasileiro avançou até a região para encontrar os guerrilheiros que viviam entre os civis. Os quase 70 militantes estavam misturados à população local, exercendo tarefas profissionais na agricultura, como professores e comerciantes. Na primeira investida, o exército não sabia o que iria encontrar na região e acabou sofrendo algumas baixas. A partir daí, percebeu que se tratava de uma resistência organizada militarmente. Na segunda campanha, saíram novamente derrotados, após combates em diferentes localidades; veio então a terceira e derradeira investida militar, segundo Bertolino, marcada pelo desrespeito à Convenção de Genebra, que estabelece normas relativas aos direitos humanos em tempos de guerra. “A última campanha do exército foi suja, foram praticados crimes contra a humanidade. Criaram um vazio em torno da guerrilha, prenderam praticamente toda a população masculina e todos foram submetidos a torturas bestiais. Na pior delas, eles amarravam pessoas nas árvores e jogavam açúcar para que as formigas vermelhas atacassem. Muitos camponeses morreram. Até mesmo napalm foi usado, arma química, para criar campos de pouso para os helicópteros”.

“NÃO TEM IMAGENS EM MOVIMENTO DE CARLOS MARIGHELLA E CARLOS LAMARCA, POR EXEMPLO, QUE SÃO ÍCONES DE RESISTÊNCIA. DO OSVALDO TEM, E FORA ESSA QUESTÃO, ELE TEM UM LEGADO FORTE NA REGIÃO. É O ÚNICO NEGRO QUE PEGOU EM ARMA [...] PRECISA ESTAR NO PATAMAR DE HERÓI BRASILEIRO”

Tamanha violência pode ser explicada, do ponto de vista do exército na época, pela importância da região para os militares e porque consideravam ser causa de segurança nacional. O governo difundia para a população que era necessário proteger o país dos comunistas e rebeldes alinhados com as ideias dos soviéticos e cubanos. A guerrilha resistiu por quase dois anos, mas foi derrotada definitivamente no Natal de 1973, quando a Comissão Militar foi aniquilada pelo exército. Uma equipe do Major Curió, responsável pelo combate ao movimento no Araguaia, conseguiu chegar a uma reunião do corpo pensante da guerrilha e liquidou quase todos os presentes, com poucas exceções. Uma delas foi Osvaldão, que conseguiu fugir para a mata.

Imagem original de uma gravação feita durante o período em que Osvaldão esteve na Tchecoslováquia para estudar (cena do filme “Osvaldão”)

DICA: O longa-metragem mencionado, “Osvaldão”, produzido por Ana Petta e dirigido por Vandre Fernandes, está em fase de produção e recebe apoio da Fundação Mauricio Grabois. A Raça Brasil irá noticiar a estreia do filme. Aguardem!

Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão
Osvaldão foi a figura mais forte da Guerrilha do Araguaia. Mineiro de Passa Quatro, foi o primeiro comunista do PC do B a chegar à região, entre 1966 e 1967. Negro, quase 2 metros de altura, ficou marcado e é até hoje lembrado pelo povo local por sua coragem e generosidade. Lá, é considerado um herói, e muitas pessoas o enxergam como um ser mítico, conforme descreve Ana Petta, atriz e produtora do filme “Osvaldão”. “Ele era muito hábil na floresta, tinha dom para caçar e pescar. Os índios falam da técnica dele para imitar os sons dos animais. Osvaldão se integrou à natureza e à vida de camponês. Mesmo não sendo nativo, ele ensinava as pessoas a sobreviverem na mata. Perguntei a um índio se eles o ensinaram a imitar os sons dos bichos e, para a minha surpresa, ele respondeu: ‘não, ele que nos ensinou’”.

Inteligente e hábil para aprender, Osvaldo dominava a língua francesa, idioma que aprendeu junto com o pai, um padeiro, por causa da amizade com um chefe de cozinha francês. Aprendeu também o tcheco, após uma passagem de 6 meses pela então Tchecoslováquia, em 1962. Antes disso, Osvaldão morou na cidade de São Paulo, onde fez o curso Industrial Básico de Cerâmica na Escola Técnica. Mudou-se para o Rio de Janeiro e se formou na Escola Técnica Federal como Técnico de Construção de Máquinas e Motores, em 1958. Seu porte físico avantajado o colocava sempre entre os melhores nos esportes que praticava; como atleta, foi campeão de boxe pelo Botafogo Futebol e Regatas após servir o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR – do Rio de Janeiro, onde adquiriu preparação militar.

“A ÚLTIMA CAMPANHA DO EXÉRCITO FOI SUJA, FORAM PRATICADOS CRIMES CONTRA A HUMANIDADE”

Não se sabe ao certo quando Osvaldão foi visto pela última vez, acredita-se que tenha sido em 1973 ou 1974. Durante os quase oito anos em que esteve na região do Araguaia, tornou-se grande referência entre guerrilheiros e camponeses. “Andei pela região do Araguaia e conversei com as pessoas que conviveram com Osvaldão. Eles se lembram dele com orgulho e carinho. Ele era mariscador, o cara que entra no mato para tirar pele dos animais. Naquela época ainda não era proibido. Ficava dois, três meses lá, vivendo de caça, pesca e mariscando. Voltava com uma montanha de peles sobre as costas. Ele tinha esse poder do carisma, era capaz de interagir com pessoas de diferentes segmentos com a mesma simpatia e inteligência”, comenta Vandre. O cineasta acredita que Osvaldão merece um lugar de maior destaque na memória do brasileiro. “Não tem imagens em movimento de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, por exemplo, que são ícones de resistência. Do Osvaldo tem, e fora essa questão, ele tem um legado forte na região, algo que os demais não possuem. E, ainda, um terceiro fator muito importante: ele é o único negro que pegou em arma. Em uma população majoritariamente negra como a nossa, a história é contada sem Osvaldão. Falam de Zumbi dos Palmares e Antônio Candido, mas fica uma lacuna. Ele precisa estar no patamar de herói brasileiro”, completa.

Osvaldão era o guerrilheiro mais bem preparado para o confronto armado. Lendas à parte – muitos camponeses e até mesmo membros do exército acreditavam que ele transformava-se em pedra e em animais –, era temido pelos inimigos e admirado pelo povo local por sua força, coragem e pontaria. Foi comandante do Destacamento B, onde participou com êxito de vários combates. Em um confronto na região próxima ao Suruí, povoada por índios, foi dito pelos militares que Osvaldão baleou um oficial. Deste momento em diante, sua captura e morte tornou-se o principal objetivo do exército. “Os militares sabiam que ele havia passado pelo CPOR no Rio de Janeiro, sabiam da educação militar que ele tinha. Sem contar o treinamento de guerra que fez na China. Ele era o inimigo número um, pegá-lo era questão de honra e um grande troféu para o regime militar. Tanto que, quando ele foi morto, passearam com o seu corpo amarrado no helicóptero como forma de comemoração. Fazendeiros e mateiros contam que foi feito um grande churrasco em Xambioá, uma zona de prostíbulo. Todos foram convidados a participar de uma grande festa, e ficou só um núcleo do exército responsável por enterrar Osvaldo. Até hoje não se sabe o paradeiro da ossada dele”, conta Vandre.

“O POVO NEM SABIA DA GUERRILHA ATÉ O FIM DA DITADURA E, NA VERDADE, ATÉ HOJE NÃO SE SABE EXATAMENTE O QUE ACONTECEU [...] A GUERRILHA FOI RESULTADO DE UM PENSAMENTO POLÍTICO COMUNISTA”

Estima-se que o conflito tenha deixado 76 mortos. Além de Osvaldão, outra figura emblemática não teve seus restos mortais encontrados: Dinaelza Coqueiro. Dina esteve junto dos companheiros de guerrilha pela última vez em 30 de dezembro 1973, e foi vista pela última vez enquanto estava presa na base dos militares em Xambioá, onde insultava e cuspia nos oficiais que a interrogavam, incluindo o Major Curió. “Ela estava sendo procurada pelo Curió e suas tropas, e a ordem destes para os camponeses era que, se a vissem, deveriam capturá-la, do contrário poderiam ser fuzilados. No desespero, os camponeses a pegaram quando ela apareceu em busca de água e comida na aldeia. Conseguiram amarrá-la e foram avisar o Curió, mas Dina conseguiu fugir para a mata. Nas buscas pela floresta, a encontraram em cima de uma árvore. Ela ainda tentou lutar, mas foi a última vez em que foi vista”, detalha o pesquisador Osvaldo Bertolino.

Na época, a censura não permitia a divulgação de notícias sobre a guerrilha na imprensa local e nacional, ordens diretas do presidente Ernesto Geisel. O sigilo fazia parte do controle que o governo exercia sobre a população, que poderia ser inflamada e ter reações contra o regime militar por conta dos acontecimentos no Araguaia. Todo e qualquer vestígio do conflito deveria ser apagado. “O povo nem sabia da guerrilha até o fim da ditadura e, na verdade, até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu, porque os arquivos do Araguaia não foram abertos. Mas a partir do fim da ditadura, começaram a aparecer reportagens e livros para esclarecer que a guerrilha foi resultado de um pensamento político comunista. A história não foi divulgada, pois a guerrilha poderia ter um apelo popular, não digo nos grandes centros, mas a massa camponesa e empobrecida do norte e nordeste poderia ter se motivado pela luta. A ditadura varreu qualquer vestígio, os corpos dos guerrilheiros são considerados desaparecidos. Os arquivos estão fechados, não há detalhes sobre as mortes e ainda hoje há receio em se falar no assunto. Há gente por aí que teria de se retratar pelo que aconteceu naquela época, por exemplo, Curió, que continua vivo. Mas há essa resistência porque o Exército e a Marinha têm culpa, foi um crime de Estado”, avalia Bertolino.

Com o abafamento da revolta, foi ocultada a história de Osvaldão, de maneira que ainda hoje poucos têm conhecimento de um dos principais líderes da luta contra os abusos cometidos na época da ditadura militar. “O Osvaldão sempre foi uma figura forte para quem se aproximou da história da guerrilha. Tem algo especial por ser um líder negro, por ter despertado diversas emoções, ódio e medo para os inimigos, sendo ao mesmo tempo uma figura carismática, um homem carinhoso. Merece ter a sua história contada”, conclui Ana Petta.

Fonte: Raça Brasil

De 12 a 17 de dezembro, será realizado na UnB o Seminário Internacional Universidade, Arte, Cultura e Desenvolvimento. 
 
A programação inclui mostras de artes visuais, conferências, debates (a artista visual Rosana Paulino e a escritora Conceição Evaristo são algumas das convidadas) e exibições de filmes, que visam estimular a exposição, o intercâmbio e a construção de uma visão plural para abordar os desafios que a diversidade cultural oferece na atualidade. 
 
Veja a programação completa e faça sua inscrição no link: http://www.unb.br/administracao/decanatos/dex/uacd/programacao_uacd.pdf
 
Os inscritos receberão certificado!!!!!
 
Participem e divulguem!!!!!

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Imagem  —  Publicado: dezembro 8, 2013 em Notas!
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A mídia trata Mandela como um semideus, o que ele obviamente não foi. Mas os elogios são merecidos diante das conquistas alcançadas pelo líder sul-africano

Por Claus Stäcker*

África do Sul

Em reunião do Congresso Nacional Africano, o partido de Mandela, sul-africanos rezam em frente à casa do ex-presidente da África do Sul, em Johannesburgo

Nelson Mandela certamente não foi um santo, embora este seja o tom da mídia: cada manchete o torna um pouco mais sobre-humano, a admiração assume traços de idolatria. E algumas testemunhas juram que, na presença dele, eram invadidas pelo especial carma de Mandela. Sempre que a África do Sul precisava de um milagre, falava-se em “Madiba Magic”.

Para ele, o culto à personalidade era antes algo embaraçoso. Só com relutância aceitava emprestar seu nome a ruas, escolas e institutos ou ver a construção de estátuas de bronze e museus Mandela – uma tendência que agora só tende a aumentar.

Em várias ocasiões, Mandela se referiu à resistência como um poder coletivo, a pioneiros históricos e companheiros de luta como Mahatma Ghandi, Albert Luthuli ou seu amigo e companheiro Oliver Tambo, cujo nome se encontra injustamente à sombra de Mandela.

Foi Tambo o primeiro a trabalhar para que a luta de resistência do Congresso Nacional Africano (CNA) fosse aceita mundialmente. E foi Tambo o primeiro a encenar o conto de fadas mundial de Mandela, no qual toda pessoa justa poderia se reconhecer – em Spitzbergen ou na antiga Berlim Oriental, em São Francisco ou em Pequim.

Quando o prisioneiro de número 46664 foi libertado, depois de 27 anos no cárcere, ele era uma marca, um ídolo mundial, um mito – associado a projeções, desejos; abarrotado de expectativas, que uma pessoa só não poderia cumprir.

Mas quem iria arranhar sua imagem? Enumerar seus pecados juvenis, seus filhos bastardos? Sua fraqueza pelas mulheres, sobretudo por mulheres bonitas: modelos, estrelinhas pop e jornalistas, com quem flertava da forma mais politicamente incorreta até como antigo estadista? Quem iria se atrever a condenar seus planos de ataque quando era líder da tropa de combate do CNA Umkhonto weSizwe (lança da nação)? E a criticar seu jeito exaltado e arrogante, do qual os companheiros de cela e ex-funcionários hoje sorriem?

Mesmo seu balanço como chefe de governo, entre 1994 e 1999, não é de forma alguma celestial. O seu mandato foi marcado pelo pragmatismo e pela indulgência política. Decisões necessárias eram procrastinadas, as tarefas do dia a dia eram deixadas nas mãos de outras pessoas. Ele também tomou decisões erradas quanto à escolha de algumas amizades políticas – o comandante líbio Muammar Khadafi, por exemplo, que deu nome até mesmo a um neto de Mandela. Em retrospectiva, nem tudo se encaixa na imagem de visionário e gênio.

Tudo isso é perdoado, porque, apesar de tudo, Mandela realizou algo praticamente inumano. Nesse contexto, o longo cativeiro desempenha um papel importante. A prisão não o dobrou, ela o marcou. Mandela disse uma vez que, para ele, a prisão na ilha de Robben foi uma “universidade da vida”. Lá, ele aprendeu a ter disciplina, e no diálogo com os guardas, aprendeu humildade, paciência e tolerância.

Sua ira juvenil desapareceu, dando lugar à suavidade e à sabedoria da idade. Finalmente livre, Mandela não era mais um cidadão irado, nem mesmo um revolucionário. Essa é a crítica, mesmo que velada, de alguns de seus companheiros. Eles queriam um golpe de Estado, uma revolução nacional.

Ele desejava a reconciliação, a quase qualquer preço. E a sua própria metamorfose mostrou ser o seu ponto mais forte: saber se libertar de padrões de pensamento ideológicos, reconhecer o todo a partir do próprio movimento. Não encarar quem pensa diferente como um inimigo. Ser capaz de ouvir. Espalhar mensagens de reconciliação até quase o limite da abnegação. Somente assim ele pôde servir como exemplo a negros e brancos, a comunistas e empresários, a calvinistas e muçulmanos.

Ele foi um missionário, um pregador do amor ao próximo. “Perto dele todos eram iguais”, exaltou o músico sul-africano Sipho Hotstix Mabuse após uma recepção para Mandela em Londres. Mandela lhe deu a sensação de não ser menos importante que Bono, o príncipe Charles e Bill Clinton na mesa ao lado. Ele respeitava músicos e presidentes, rainhas e faxineiras. Ele memorizava nomes e perguntava pelos familiares. Indagava educadamente, levava todas as questões a sério. Com um sorriso, uma brincadeira, algumas saudações direcionadas, ele ganhava qualquer público. Sua aura conquistava a todos, mesmo inimigos políticos.

Certamente isso não o qualifica a semideus, mas ele é endeusado com razão. Ele tem de ser mencionado no mesmo patamar que Mahatma Gandhi, Dalai Lama ou Martin Luther King. Mandela fez história no melhor sentido da palavra – e nem mesmo Barack Obama seria presidente dos EUA, segundo suas próprias palavras, sem tê-lo tido como exemplo.

Por tudo isso é secundário que Mandela seja agora tratado como um deus. Que ele não tenha podido realizar tudo na política equivale apenas a uma nota de rodapé na sua biografia. Seu mérito está em ter apresentado um exemplo credível de humanismo, tolerância e não violência.

Mandela não foi nenhum santo, mas um ser humano com pontos fortes e fracos, marcado pela sua época e lugar. Ainda assim será difícil encontrar alguém maior. E um pouco mais de Mandela todos os dias movimentaria muita coisa. Na África, mas também em Berlim, Jerusalém ou Moscou.

*É chefe do Departamento África da DW

Fonte: Carta Capital

Os restos mortais do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela passarão em cortejo fúnebre nos três dias em que ele será velado em Pretória, informou o Serviço de Informação do governo do país neste sábado. No período, o corpo também ficará exposto na sede do governo do país.

Mandela morreu na noite de quinta (5), aos 95 anos, após complicações provocadas por um histórico de infecções pulmonares. Após o anúncio da morte, milhares de sul-africanos lembraram sua memória com flores e gritos de guerra contra o regime do apartheid em diversas cidades do país.

Segundo a diretora do órgão de comunicação, Neo Momodu, as autoridades sul-africanas farão três cortejos entre quarta (11) e sexta (13) durante a manhã, no traslado do caixão de Mandela do necrotério militar onde foi embalsamado à sede da Presidência, a Union Buildings, onde ficará em uma capela.

Admiradores de Nelson Mandela cantam em homenagem em frente à casa do ex-presidente sul-africano que se tornou um ícone de luta conta o apartheid

Momodu pede que a população fique ao lado do meio-fio das ruas, de modo a evitar tumultos durante os cortejos. Os que desejam se despedir de Mandela na capela dos Union Buildings serão obrigados a fazer um cadastro.

Se aprovados, os visitantes seguirão ao local com um ônibus do governo. Durante a passagem pelo local onde estará o caixão do líder negro, não serão permitidas fotos nem filmagens.

A previsão é que o corpo de Mandela seja enterrado no próximo dia 15, em Qunu, aldeia onde nasceu no leste do país, com a presença de autoridades, celebridades e outras milhares de pessoas.

No domingo (8), o governo sul-africano convocou à população para um dia de orações pela memória do líder negro nos templos do país. A missa em lembrança ao ex-presidente será realizada na terça (10), no estádio Soccer City, no Soweto, bairro negro de Johannesburgo, de onde seguirá de volta para Pretória.

PERSONALIDADES

Para o velório e o sepultamento, estão confirmadas as presenças do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e do Brasil, Dilma Rousseff, o príncipe Charles e o primeiro-ministro britânico, David Cameron.

Os ex-presidentes americanos Bill Clinton e George W. Bush também viajarão à África do Sul para o funeral. Outras autoridades ainda não se manifestaram, mas deverão estar na cerimônia.

Além dos representantes políticos, celebridades como a apresentadora americana Oprah Winfred, o ex-capitão da seleção de rúbgi sul-africana François Piennar, campeão do mundo em 1995 e o vocalista da banda U2, Bono Vox, também são esperados na África do Sul.

A expectativa é que o funeral de Mandela reúna milhões de pessoas e tenha número de personalidades similar ao sepultamento do papa João Paulo 2º, em 2005. A companhia estatal South African Airways colocou voos extras para trasladar parte dos visitantes ilustres.

Mandela, então presidente da África do Sul, com Pelé, então ministro dos Esportes, em 1995

 

 
 

Zwarte Piet é um tradicional personagem do folclore natalino holandês, mas tem despertado críticas de quem diz que ele reforça estereótipos.

Uma antiga tradição popular está gerando debates sobre racismo na Holanda.

A icônica figura do Zwarte Piet (ou Negro Pedro, em tradução livre) é parte das festividades natalinas holandesas e acompanha o Papai Noel na distribuição de presentes e nos desfiles de rua. O personagem costuma ser representado por uma pessoa branca com o rosto pintado de preto e uma peruca afro.

No último final de semana, milhares de pessoas foram às ruas de Amsterdã para assistir ao tradicional desfile que abre a temporada de festas de fim de ano no país, mas parte do público aproveitou a ocasião para protestar, alegando que Zwarte Piet é um símbolo racista, que remete à escravidão em antigas colônias holandesas no Caribe.

A polêmica ganhou força em outubro, quando uma acadêmica do Alto Comissariado da ONU para direitos humanos enviou uma carta ao governo holandês queixando-se que Zwarte Piet “reforça estereótipos negativos”.

A Unesco, órgão de cultura da ONU, disse que a consultora que assinou a carta não estava autorizada em falar em nome das Nações Unidas. Mas o episódio fomentou o debate em um país famoso por promover a igualdade.

Estereótipos

O poeta caribenho Quinsy Gario foi preso em 2011 por ter participado de um protesto durante um desfile natalino. E hoje lidera a campanha pela abolição do personagem, argumentando que ele perpetua estereótipos racistas.

Enquanto ele conversa com a BBC em Roterdã, dois homens passam pela esquina gritando o nome de Zwarte Piet – que, nesta época do ano, é onipresente nas ruas holandesas.

A reportagem pede que os homens se expliquem. “Ele (Gario) nos faz lembrar do Zwarte Piet”, dizem eles, sem parar de caminhar.

É uma contundente ilustração do tipo de discriminação que Gario diz sofrer.

Há algumas décadas, a Holanda deixou de ser um país homogêneo. Após a 2ª Guerra Mundial, chegaram muitos imigrantes da Turquia e do Marrocos, bem como de antigas colônias caribenhas.

Dos cerca de 17 milhões de habitantes, 3,5 milhões são cidadãos holandeses nascidos no exterior ou filhos de imigrantes.

Tradição

Mas as manifestações contra Zwarte Piet – bem como a carta enviada pela ONU – provocaram revolta em muitos que defendem a tradição holandesa.

Jornais fizeram reportagens com leitores de diversas origens étnicas apoiando a prática de pintar o rosto de preto.

Uma página do Facebook chegou a ser criada em defesa do personagem – e mais de 2 milhões curtiram.

Dentro de um estúdio de tatuagem em Roterdã, um artista explica que essa defesa é uma reação à sensação, entre muitos holandeses, de que a cultura tradicional estaria se perdendo com o avanço da imigração.

Uma das clientes do estúdio está justamente fazendo uma tatuagem de Zwarte Piet. “As pessoas têm o direito de expressar e preservar sua cultura”, diz. “Enquanto essa cultura não violar direitos humanos, ela é um direito humano.”

Já Rita Izsak, uma das autoras da carta da ONU enviada ao governo holandês, diz que o racismo “pode ser invisível, mas isso não significa que ele não está lá”.

Fonte: G1

A Paraíba é o 3º estado mais violento do Brasil para pessoas negras, segundo estudo divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA). De acordo com um levantamento feito pelo órgão em 2010,na Paraíba a taxa de homicídio para a população negra atingiu, em 2010, a razão de 60 para cada 100 mil habitantes. No ranking geral, a Paraíba ficou atrás apenas dos estados do Espírito Santo e Alagoas (2º e 1º lugar, respectivamente) em termos de maiores proporções de negros vítimas de violência do que não-negros.

Não é a primeira vez que o estado de Alagoas figura em primeiro lugar neste ranking. No estado, um homem negro tem sua expectativa reduzida em 6,2 anos ao nascer. Em seguida estão Espírito Santo, com 5,2 anos, e Paraíba, com 4,8 anos a menos. Santa Catarina possui o índice mais baixo (2 anos a menos).

Ainda segundo o instituto, taxa de homicídios de negros no Brasil é de 36 para cada 100 mil; para não negros, ela é de 15,2. Ou seja, para cada homicídio de não negro no país, 2,4 negros são assassinados. Em Alagoas, estado que encabeça a lista, o índice sobe para 17,4 negros mortos para cada não negro assassinado. O Paraná é o único estado do país onde há mais mortes de não negros.

O estudo mostra, ainda, que 39 mil negros são assassinados por ano no Brasil, contra 16 mil indivíduos não negros. Segundo o Ipea, o objetivo do levantamento é analisar as mortes violentas e os impactos na expectativa de vida da população, mostrando que, além de características socioeconômicas, a cor da pele aumenta a probabilidade de alguém ser assassinado. Segundo o documento, apenas 6,8% dos negros estão entre os 10% brasileiros mais ricos, enquanto que, dentre a população pobre, os negros prevalecem: representam 55,28% da população entre os 50% mais pobres do país.

“O negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele. Tais discriminações combinadas podem explicar a maior prevalência de homicídios de negros vis-à-vis o resto da população”, diz um trecho do estudo do Ipea. “Por um lado, a letalidade violenta de negros no Brasil associada à questão socioeconômica, em parte, já decorre da própria ideologia racista. Por outro lado, a perpetuação de estereótipos sobre o papel do negro na sociedade muitas vezes o associa a indivíduos perigosos ou criminosos, o que pode fazer aumentar a probabilidade de vitimização destes indivíduos, além de fazer perpetuar determinados estigmas”, afirma também o estudo.

Fonte: Uol

Para todos os que se interessam pela renovação do pensamento crítico fora do Ocidente, o maior acontecimento intelectual da rentrée é incontestavelmente a publicação, nas Edições La Découverte, em Paris, de Critique de la raison nègre do Camaronês Achille Mbembe. Anunciado há já alguns anos, e no seguimento do sucesso que foi Sortir de la grande nuit, este novo ensaio representa o livro mais complexo e ousado de um autor que se afirmou como o pensador africano mais completo da sua geração e com maior projeção internacional, a avaliar pelo número de traduções dos seus textos em línguas estrangeiras e pelo impacto das suas  posições académicas e públicas.

Esta nova obra abre com uma poderosa declaração que se assemelha a um Manifesto. «A Europa já não é o centro de gravidade do mundo», escreve; e «esta desclassificação abre novas possibilidades — mas também arrasta perigos — para o pensamento crítico». São estas possibilidades e perigos que Mbembe explora. A outra tese forte do livro tem a ver com aquilo a que o autor chama «o devir-negro do mundo». Do seu ponto de vista, o «nome Negro já não remete apenas para a condição atribuída às pessoas de origem africana na época do primeiro capitalismo». Hoje em dia, o negro designa toda uma humanidade subalterna de que o capital já não necessita no momento em que se define, mais do que nunca, pelo modelo de uma religião animista, o neoliberalismo. A temática da diferença racial é explorada até às suas últimas consequências.

Neste novo livro, Mbembe permanece fiel ao seu estilo, isto é, um pensador atípico e um escritor de língua francesa de primeiro plano. Força da escrita, fulgor das ideias, profundidade histórica, uma afirmada estética da provocação, originalidade dos argumentos e erudição colossal — Tudo se equilibra para fazer deste ensaio um verdadeiro fogo de artifício das ideias.

De la postcolonie em 2000. Sortir de la grande nuit  dez anos mais tarde. E agora, Critique de la raison nègre. Estamos perante os contornos de uma verdadeira obra. Pode, no momento em que se publica este novo ensaio, desenhar em poucas palavras as grandes linhas do seu projeto intelectual?

A minha preocupação é contribuir, a partir de África onde vivo e trabalho, para uma crítica política, cultural e estética do tempo que é o nosso, o tempo do mundo. É um tempo marcado, entre outras coisas, por uma crise das relações entre a democracia, a memória e a ideia de um futuro que a humanidade no seu conjunto poderia partilhar. Esta crise é agravada pela confluência do capitalismo com o animismo e a recodificação em curso do conjunto dos campos das nossas existências na e pela linguagem da economia e das neurociências. Esta recodificação volta a pôr em questão a ideia que construímos do sujeito humano e das condições da sua emancipação a partir pelo menos do século XVIII.

Uma das teses fortes do seu novo ensaio é a de que um dos efeitos do neoliberalismo é o de «universalizar» a condição negra». Que entende por «neoliberalismo»?

O pensamento contemporâneo esqueceu que, para o seu funcionamento, o capitalismo teve sempre, desde a sua origem, necessidade de suportes raciais. Melhor dizendo, a sua função sempre foi não apenas a de produzir mercadorias, mas também raças e espécies. Por neoliberalismo, entendo a idade no decorrer da qual o capital quer ditar todas as relações de filiação. Ele procura multiplicar-se numa série infinita de dívidas estruturalmente insolventes. Deixa de haver distância entre o facto e a ficção. Capitalismo e animismo não são senão uma e a mesma coisa.

Sendo assim, os riscos sistémicos aos quais apenas os escravos negros foram expostos na altura do primeiro capitalismo constituem doravante se não a norma, pelo menos a situação de todas as humanidades subalternas. Há, pois, uma universalização tendencial da condição negra. Esta vai a par com o aparecimento de práticas imperialistas inéditas, uma re-balcanização do mundo e a intensificação das práticas de delimitação de zonas. Estas práticas constituem, no fundo, uma forma de produção de novas subespécies humanas votadas ao abandono, à indiferença, quando não à destruição.

O seu ensaio abre com uma declaração retumbante que é quase um Manifesto. Afirma que a Europa já não é o centro de gravidade do mundo. No entanto, não deixa de recorrer aos seus arquivos. Porquê?

Somos obrigados a confrontar este arquivo. Ele contém uma parte de nós próprios e, por isso, também é nosso. Quando se trata dos mundos euro-americanos, não podemos dar-nos ao luxo da indiferença ou permitir-nos o da ignorância. A ignorância e a indiferença são privilégios dos poderosos.

Porquê esta inflexão pelo Ocidente quando, na sua opinião, a sua hegemonia está totalmente destruída?

Não se trata de um desvio. Trata-se de habitar esta tradição uma vez que, de qualquer forma, ela não nos é estranha e, nela, nós não somos estrangeiros. Somos parte essencial no processo da sua constituição. Seria, por isso, uma perda se nos separássemos daquilo que ajudamos a fazer existir. Penso nos Afro-americanos, por exemplo, ou no Afro-Europeus. Eles são, de pleno direito, Ocidentais.

No que respeita aos Africanos, o desafio consiste em habitar vários mundos e formas de inteligibilidade ao mesmo tempo, não num gesto de distanciamento gratuito, mas de vaivém, que autoriza a articulação de um pensamento da travessia, da circulação. Esta espécie de pensamento comporta riscos enormes. Mas estes riscos seriam ainda mais graves se nos enclasurássemos no culto da diferença.

O que reprova no pensamento europeu?

Há quem lhe reprove o seu solipsismo, o seu apego à ficção segundo a qual o Outro é o nosso reverso. Ou ainda a sua incapacidade para reconhecer que há cronologias plurais do mundo que nós habitamos e que a tarefa do pensamento é a de atravessar todos esses enlaçamentos. Neste gesto que implica circulação, tradução, conflito e também malentendidos, há questões que se dissolvem por si próprias e esta dissolução permite que surjam, com uma relativa clareza, exigências comuns; exigências de uma possível universalidade. E esta possibilidade de circulação e de encontro de inteligibilidades diferentes que o pensamento-mundo requer.

Existe um pensamento europeu?

Não há «um» pensamento europeu. Existem, em contrapartida, relações de força no seio de uma tradição que, aliás, não tem deixado de se transformar. E no esforço em curso, nomeadamente ao Sul, para desenvolver uma reflexão verdadeiramente à dimensão do mundo, o nosso trabalho consiste em jogar com estas relações de força e em refletir sobre estas fricções internas, não para cavar o fosso entre a África e a Europa ou para «provincializar» esta última, mas para alargar vias que permitam resistir às forças do racismo que são, no fundo, forças de violência, de fechamento e de exclusão.

Devemos apresentá-lo como um teórico do pós-colonialismo?

É preciso não me ter lido para me apresentar como um teórico do pós-colonialismo.

E, no entanto, em França, incluem-no nesta corrente. Aliás, é o que acontece também em África.

Aqueles que o fazem raramente sabem do que falam. Muitos esgrimistas dos estudos pós-coloniais em África utilizam argumentos ideológicos no lugar de uma análise crítica rigorosa e disciplinada das obras a que pretendem opor-se. Efetivamente, não há melhor crítico da corrente pós -colonial que a própria corrente pós-colonial. Em França, são muitos os que gostavam que fôssemos mudos, pessoas que não falassem e sobretudo entre elas. Podiam, assim, construir o nosso discurso em vez decontinuar a qualificar-nos. O pensamento pós-colonial veio interromper este poder exclusivo de qualificação. E é por isso que ele incomoda.

Até agora, tinha trabalhado com sequências históricas relativamente curtas. Com Critique de la raison nègre, torna-se um pouco historiador. Como explica esta inflexão?

A própria natureza do assunto exigia um regresso a um tempo longo. O Negro é uma invenção daquilo a que, no livro, eu chamo «o primeiro capitalismo». O tempo do primeiro capitalismo — pelo menos tal como eu o concebo é dominado pelo Atlântico. A época moderna propriamente dita começa com a expansão europeia, a dispersão dos povos e a formação de grandes diásporas, um movimento acelerado de mercadorias, de religiões e de culturas. O trabalho do escravo negro desempenha, neste processo, um papel relevante. Era, assim, necessário determo-nos neste tempo longo sem o qual não se percebe nada da realidade contemporânea.

O «Negro» não passa de uma invenção do capitalismo atlântico? Que lugar atribui aos mundos do oceano índico e árabes transaarianos na sua construção?

A escravatura atlântica é o único complexo servil multi-hemisférico que transforma pessoas de origem africana em mercadorias. É, por esse facto, a única a ter inventado o Negro, isto é, uma espécie de homem coisa, de homem metal, de homem moeda, de homem plástico. É nas Américas e nas Caraíbas que os seres humanos são transformados, pela primeira vez na história universal, em criptas vivas do capital. O Negro é o protótipo deste processo.

Atribui um lugar bastante central à história diaspórica e, nomeadamente, afro-americana. Insiste em particular na ambiguidade das relações entre os afro-americanos e a África.

A história das pessoas de origem africana, nos Estados Unidos em particular, é uma história que sempre me fascinou. O africano americano é, em larga medida, o fantasma da modernidade. A história dos Negros nos Estados Unidos devia ser ensinada em todas as escolas, em particular, em África .

Consagra longos desenvolvimentos ao conceito de «raça» e de «racismo». Na sua opinião, em que é que se reconhece o racismo?

Além de consagrar uma estruturação desigual das relações sociais, o racismo é uma figura da nevrose fóbica, obsessiva e até histérica. O racista é aquele que se tranquiliza, odiando, constituindo o Outro não como seu semelhante, mas como um objeto ameçador do qual era necessário proteger-se, desfazer-se ou que, pura e simplesmente, seria necessário destruir, no caso de não se conseguir dominá-lo totalmente. Em larga medida, o racista é um homem doente, carente de si próprio, e que desfalece.

O capítulo mais poético, mas também o mais desconcertante do livro intitula-se « Requiem pour l’esclave ». 

Este capítulo constitui o subsolo do livro. Aqui, procura-se dizer o modo como, em África e nas coisas negras, muitos viram duas forças ofuscantes: ou uma argila ligeiramente tocada pela estatuária ou um animal assombroso, e sempre uma figura hierática, metamórfica, capaz de explodir em cascata. Procura-se igualmente mostrar como o escravo negro foi, no fundo, um sujeito plástico, ou seja, um sujeito que sofreu um processo de transformação por destruição.

A sua escrita é uma das mais belas por parte de um pensador africano contemporâneo. A que atribui este dom?

Para dizer a África de uma forma que não seja repetição pura e simples, eu sou obrigado a recorrer a uma escrita figural, uma escrita que oscila entre o vertiginoso, a dissolução e a dispersão. E uma escrita feita de aneis entrecruzados e cujas arestas e linhas se juntam no ponto de fuga.

Nesta altura, qual é o objeto das suas investigações e qual será o tema do seu próximo livro?

As minhas investigações focalizam-se no que designei por «o afropolitanismo».

Fonte: Buala