Luciano Andrade Photo Bahia

Olorum¹ quem mandou essa filha de Oxum tomar conta da gente e de tudo cuidar. Olorum quem mandou ô ô”. Quem lê esses versos de Dorival Caymmi (1972) logo se lembra de uma das mais respeitadas e reconhecidas mães de santo do Brasil: Menininha do Gantois, um dos símbolos da luta contra o preconceito e a intolerância religiosa. No dia 13 de agosto marcou os 27 anos do seu retorno ao Orum² e as yalorixás Mãe Beata de Yemanjá e Makota Valdina contam como, por meio do trabalho que realizam, mantém vivo o legado de Mãe Menininha do Gantois.

Foto: Divulgação

Filha de Exu com Iemanjá, Mãe Beata de Yemanjá é descendente de africanos escravizados e defensora da ancestralidade africana. Pelo trabalho desenvolvido no Ilê Omi Oju Arô, a sacerdotisa realiza ações de conscientização com a comunidade que a cerca e pelos lugares onde passa. “Quando eu observo que alguém está levando a conversa para caminho da intolerância religiosa, eu uso o respeito e vivência para derrubá-lo. Precisamos estimular a consciência de que o Brasil é uma mistura de todas as raças e religiões”.

Da experiência dos seus 83 anos, Mãe Beata sugere que a sociedade brasileira caminhe para unir a oralidade e os saberes tradicionais aos conhecimentos adquiridos nas universidades. Ela acredita que esse é um passo importante para a construção da igualdade. “Peço a Olorun que proteja nossos governantes para que eles consigam realizar uma política de diálogo e afirmação para a população negra brasileira”, declara.

 

Direito assegurado na Constituição – Makota Valdina Pinto, do Terreiro Tanuri Junsara, em Salvador/BA, defende o direito à crença religiosa assegurado pelo Artigo 5º, inciso 6º da Constituição Federal. Ela acredita que as políticas de ações afirmativas implementadas são ferramentas de compromisso ético e combate a discriminação racial e  o desrespeito às comunidades de matriz africana. “Não podemos falar de intolerância sem relacioná-la ao racismo praticado contra as religiões afro-brasileiras”, ressalta. Valdina é reconhecida como mestra nos ambientes intelectuais nacionais e internacionais pela articulação entre a prática e a teoria da sabedoria bantu.

Para o presidente da Fundação Cultural Palmares, Hilton Cobra, figuras como Mãe Menininha, Mãe Beata, Makota Valdina e outras yalorixás são as Candaces Negras brasileiras. “Mãe Menininha foi emblemática para a valorização das religiões de matriz africana. Mãe Beata e Makota Valdina perpetuam essa herança “, disse.

Mãe Menininha do Gantois – Mãe Menininha morreu em 13 de agosto de 1986, aos 92 anos e deixou como legado o Terreiro do Gantois, instituição religiosa de origem ketu que mantém historicamente a política do matriarcado e de sucessão hereditária de linhagem consanguínea.

O Terreiro do Gantois se tornou um dos mais procurados e respeitados casas de orixás da Bahia. A popularidade e o reconhecimento que Mãe Menininha foi decisivo para aumentar a aceitação do candomblé. A yalorixá enfrentou o preconceito que a sociedade tinha em relação aos adeptos do candomblé.

¹Olorum:  Em yorubá Criador do Orun.

² Orum: Em yorubá Céu dos Orixás.

Fonte> Palmares

Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

 

Maria Stella de Azevedo Santos|*

“Lá em cima do outeiro tem uma gata borralheira, quem falar primeiro, come tudo o que é porqueira Menos eu que sou rendeiro, que como carne de carneiro; menos eu que sou rainha, que como carne de galinha”.

Essa é uma parlenda, geralmente dita por um grupo de crianças, que vem sendo transmitida de geração para geração, com o intuito de treinar o ser humano para a importante capacidade de se manter em silêncio. O ato de silenciar-se, tão necessário na vida adulta, é também usado como forma disciplinar  através de um provérbio que diz: ” A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro”.

Parlendas, ditados populares, adivinhações, brincadeiras, lendas… tudo isso forma o conjunto de sabedoria popular, cuja importância é tão grande para a formação do indivíduo e da sociedade, que existe uma ciência específica para estudar este tipo de saber. Folclore é o nome dessa ciência. No dia 22 de agosto é comum encontrarmos as escolas em movimentação, festejando este dia e o que ele significa.

Quando pensei em falar sobre o folclore, neste artigo, eu tinha uma intenção muito séria, que era a de alertar as escolas e os professores sobre o pouco  aprofundamento que este setor da sociedade tem sobre o assunto e do quão pouco proveito está tirando dos valorosos saberes populares, na formação de seus alunos, tanto no aspecto intelectual, quanto emocional. Mesmo sabendo que apesar da pedagogia atual não incentivar a memorização dos conhecimentos, e sim a compreensão dos mesmos, não é possível negar a importância de exercícios de memorização em todas as fases da vida.

Aprendíamos na escola, por exemplo, a memorizar o nome e ordem dos planetas, recitando: “Minha velha, traga meu jantar, sopa, uva, nozes e pão”, onde a primeira letra de cada palavra coincidia com a primeira letra de um planeta. Hoje, é comprovado pela ciência que exercitar a memória é tão necessário quanto exercitar os músculos.

Infelizmente, ou felizmente, não possuo uma natureza doutrinadora; não consigo me sentir à vontade nem com direitos de chamar a atenção de quem quer que seja. Até mesmo porque minha experiência me diz que cada ser e cada instituição tem consciência do que precisa ser trabalhado no sentido de aperfeiçoar-se cada dia mais. Por todos os motivos anteriormente citados é que resolvi, mais uma vez, seguir minha natureza e também obedecer a minha mãe de santo que costumava orientar seus filhos espirituais dizendo: ” A vida é bela e gozá-la convém”.

Ao tomar essa decisão, minha memória começou a trazer à superfície de minha mente, alegres e sábios conhecimentos populares, que fizeram com que o fato de escrever este artigo se transformasse em uma grande diversão. Conhecimentos esses que, usando uma palavra típica da turma jovem, passarei agora a compartilhar com meus leitores, na esperança de que eles se divirtam tanto quanto eu.

Que forma interessante o povo escolheu para comunicar a sua família ou comunidade que está brigado com um irmão: “Éramos dois irmãos unidos, todos dois de uma cor; nunca eu fiquei sem missa, mas meu irmão ficou. Para festas e banquetes, a mim convidarão; para festas de cozinha, convidarão meu irmão”.

Na verdade, isso é uma adivinhação cuja resposta é vinho e vinagre. No momento atual da humanidade, ela já pode contar com as técnicas dos fonoaudiólogos para conseguir que as palavras sejam bem expressadas. Mas no passado, a sabedoria popular aperfeiçoava a fala humana através de trava-línguas, um poderoso exercício de dicção que incentiva, de maneira lúdica, o gosto das crianças pela pronúncia correta de palavras difíceis:

“Num ninho de mafagafos, seis mafagafinhos há; quem os desmafagafizar, bom desmafagatizador será”. A rapidez da fala também podia ser treinada: “Quero ver você dizer, sete vezes encarrilhado; sem errar, sem tomar fôlego, vaca  preta, boi pintado”. Vamos falar de maneira ligeira, tomando cuidado para não dizer besteira: “Pedro tem o peito preto, o peito de Pedro é preto; quem disser que o peito de Pedro não é preto, tem o peito mais preto que o peito de Pedro”.

*Mãe Stella é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. 

 

Fonte: A Tarde

 

diadospais

Imagem  —  Publicado: agosto 11, 2013 em Notas!
Tags:,

A apresentadora de televisão norte-americana, Oprah Winfrey, relatou um episódio de racismo durante uma recente visita à Suíça. Oprah contou que um funcionário se recusou a atendê-la numa loja de malas de luxo em Zurique.

Oprah foi vítima de racismo

Numa entrevista a Larry King, na Ora.tv, Oprah Winfrey disse que uma vendedora recusou-se a mostrar-lhe uma mala, afirmando para a apresentadora que era “muito cara”.

A vendedora explicou-lhe que a mala, em pele de crocodilo, havia sido criada pela atriz norte-americana Jennifer Aniston. Oprah Winfrey disse a Larry King que teve vontade de rir e brincar à “Pretty Woman” (filme em que a personagem da atriz Júlia Roberts passa por uma situação semelhante), comprando toda a loja, mas desistiu ao perceber que, ao fazê-lo, a funcionária receberia a respectiva comissão pelas vendas.

Contactada pela agência de notícias AFP, Trudie Götz, a proprietária da cadeia de lojas de luxo “Trois Pomes”, explicou que se tratou de um mal-entendido.

“A minha vendedora queria ser muito gentil. Explicou que se tratava de uma mala de 35 mil francos suíços e que poderia mostrar-lhe outras versões menos caras em couro, veludo e pele de avestruz”, defendeu-se.

A proprietária da loja acrescentou que não vai aplicar sanções disciplinares contra a funcionária.

“Esta funcionária é qualificada. Trabalha também numa loja em Saint-Moritz e está habituada a tratar com clientes de prestígio”, afirmou.

Trudi Götz disse que estava a refletir sobre a resposta que iria dar face às acusações e que iria ainda consultar o seu advogado.

A Suisse Tourisme, organização que promove o turismo no país, apresentou as suas desculpas à apresentadora pelo Twitter.

“Esta vendedora teve um comportamento inadequado. Nós pedimos desculpas”, escreveu a organização.

Fonte: Noticias ao Minuto

O ex-Presidente sul-africano Nelson Mandela, hospitalizado há dois meses em Pretória, está a respirar normalmente, afirmou a sua ex-mulher, Winnie Madikizela-Mandela, numa entrevista concedida à estação de televisão Sky News.

“Os médicos conseguiram controlar a situação e ele está a respirar normalmente agora”, acrescentou, sem precisar o que entende por “normalmente”. Segundo as visitas que recebeu no início de julho, Nelson Mandela estava “com respiração assistida”.

“Ele sempre teve problemas respiratórios e infeções pulmonares, que regressam regularmente. Agora, na sua idade, ele debate-se com isso e não se cessa de drenar o fluido presente nos seus pulmões”, explicou Winnie.

Para a ex-mulher de Mandela, que foi a sua mais fervorosa apoiante durante os 27 anos que este passou nas prisões do regime racista do apartheid, a situação é “cruel” porque as pessoas se comportam como se o Prémio Nobel da Paz 1993 já tivesse morrido.

“À nossa volta, vemos pessoas prestarem-lhe homenagem, dá-lo como morto e preparar-se para o funeral”, observou.

Nelson Mandela

 

Fonte: Raça Brasil

images (15)

Imagem  —  Publicado: agosto 10, 2013 em Candomblé
Tags:,

“É surpreendente que se tenha tão pouco a dizer justamente a respeito de acontecimentos tão extremos. A linguagem humana foi inventada para outros fins.” – Ruth Klüger

Se não há lugar no simbólico, não vai existir narrativa capaz de recobrir os acontecimentos humanos, restando apenas as marcas indeléveis da experiência traumática. Os assassinatos de dona Vilma Santos de Oliveira,66, a sempre querida Yá Mukumbi, de sua mãe, Alial de Oliveira dos Santos, 86, e neta, Olívia Santos de Oliveira,10, em uma investida psicótica de um vizinho no último sábado, 3, em Londrina, é um desses terríveis episódios traumáticos que alojam-se além da capacidade de qualquer nomeação, das possibilidades de representação. As palavras resistem às tentativas de conferirmos sentido ao ocorrido e como toda experiência traumática, a perda brutal de Yá Mukumbi e parte de sua família deixam feridas abertas na memória coletiva e abrem um flanco para questionamentos irrespondíveis: Por que aconteceu? Por que elas? Como uma mulher da estatura de dona Vilma tem sua vida interrompida por um homem inteiramente tomado de surto psicótico, conforme atestou laudo médico? De onde vem desmedida loucura? Houve fundamento religioso no bárbaro ataque? Acrescente-se à tragédia na casa de mãe Vilma, o fato de que minutos antes, o assassino cometera uma outra, matando a própria mãe, num forte prenúncio de que quando se mata a própria mãe tudo o mais é possível.  Um crime só contra mulheres, velhas e nova, de quatro gerações, perpetrado por um homem em trajes menores de posse de uma faca.

Emborasucedam-se casos semelhantes ao ocorrido na Rua Olavo Bilac, no fatídico dia 3, o horror que cada história singular evoca é sempre sem par. Não existem parâmetros nem reincidências com os quais podemos nos apaziguar em termos narrativos. Comoção, perplexidade, dor, vazio, revolta, nos assaltam sem podermos sequer acomodar o luto, que parece se arrastar indefinidamente. O que nos resta, então, num “cenário de terra arrasada”?

Os estudos psicanalíticos nos ensinam que embora o trauma habite o campo do indizível, impõe-se a necessidade dese tecer uma narrativa do depois, um discurso que rearranje o que ficou fora de lugar, de se produzir um efeito de tempo, uma (res)significação do choque, a deflagração incontornável de um processo de reconstrução. Qual seria, então, a narrativa possível? Quais as possibilidades de representação do inominável?

A vida plena, a vida digna, a vida austera sem ser pesada, a vida terna, a vida leve, a vida lúdica, a vida comprometida, a vida engajada, a vida vivida de Yá Mukumbi – uma vida desproporcional ao seu desfecho – nos restitui a possibilidade de contar uma história e construir memória sobre ela, sua mãe e neta.

Mãe Vilma ou Yá Mukumby Alagangue, nome de origem quimbundo, movimentava-se sobre um largo espectro: zeladora do terreiro do Ylê Axé Ogum Mege, militante histórica do movimento negro de Londrina, mulher altiva, integrante de fóruns e associações locais e nacionais, coordenadora do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, cantora de estirpe, dona de uma voz altissonante, mãe de seis filhos, cozinheira de mão cheia, gestora cultural e política dos expedientes da população negra, convicta defensora das cotas raciais para jovens negros nas universidades públicas (protagonizou a implantação das cotas na Universidade Estadual de Londrina, em 2005, e manteve-se fiel a luta ao engrossar as fileiras pela manutenção desta política, em 2011), generoso ser humano, diuturnamente atenta àqueles que vivem nas franjas da sociedade,construiu um biografia sólida, sagrou-se pessoa extraordinária, sempre pôs-se acima do banal. A densidade e força que lhe eram peculiar renderam-lhe um livro “Yá Mukumbi: a vida de Vilma Santos de Oliveira”, escrita por professores e estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 2010.

Do lugar em que via o mundo, a partir de múltiplos prismas, não abriu mão de princípios éticos e de justiça para combater o racismo, o sexismo e a intolerância religiosa. Do alto de sua sabedoria, sabia “converter” jovens para o combate contra a discriminação racial ofertando a eles possibilidades de tecerem um trajetória vinculada à ética, ao bem fazer e ao bem viver. Sempre pronta para as lides dos movimentos negros, deixava um lastro de esperança para aqueles que supunham estar tudo ou quase tudo perdido. Nunca se omitia frente às injustiças e problemas sociais e, habitualmente, se lançava de maneira proativa para equacionar os dramas de quem dela se aproximava. Crianças, para ela, era patrimônio de primeira linha; delas, costumava dizer, tínhamos o compromisso de cuidar. O abate de sua neta de dez anos confere à tragédia, por esses e outros motivos, uma carga ainda mais brutal.

Consagrada figura pública, Yá Mukumbi prestou serviço para o Estado brasileiro, fez sua voz ecoar no ambiente acadêmico, desarmou teorias caducas para pensar a sociedade, atraiu a atenção de figuras públicas, como Gilberto Gil, que pediu-lhe artigo para uma publicação; mantinha vínculos afetivos com tantas outras, a exemplo de Dona Zica.  Inegavelmente, esta mestra fincou raízes para substantivas mudanças sociorraciais, ampliou o escopo das culturas negras, protegeu e salvaguardou o patrimônio africano no Paraná, construiu fronteiras para a manutenção das manifestações artísticas orientadas pelo protagonismo do negro, sem, contudo, erguer delimitações, tampouco promover distinções e exclusões. Direta e indiretamente, reorientou as políticas públicas no campo da cultura e da religião…

A Fundação Cultural Palmares (FCP) prestou-lhe singela homenagem em 2008. Na época, como agora, sabia do alcance das práticas de Yá Mukumbi. Sente-se, como todos, imersa em uma experiência por ora dolorosa, em que o poder público se apequena com a perda de uma gestora cultural imprescindível. Mas, acredita-se: no horizonte do possível, torna-se compromisso inadiável da FCP e outras instituições pinçar, do oceano de  iniciativas de Yá Mukumbi, referências e práticas para a emancipação da sociedade, livre de racismos, sexismos, intolerância religiosa.Entre o irrepresentável da tragédia e o narrável da esperança, fiquemos com esta última possibilidade, virtude que mãe Vilma sempre nos legou e continuará assim fazendo.

Rosane da Silva Borges

Coordenadora geral do CNIRC (Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra)/ Fundação Cultural Palmares/MinC

Professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Fonte> Palmares

AfroPop é identidade!

Publicado: agosto 8, 2013 em Arte, Música
Tags:, , ,

Vocês conhecem as origens do pensamento AfroPop brasileiro? Diante de sua vastidão, os registros que existem sobre essa ótica conceitual ainda sãoFoto: Estúdio Gato Louco / Divulgação vagos. Para se ter uma ideia, não encontrei em minhas leituras um pesquisador sequer que tenha se aprofundado no assunto, estudando cada elemento e procurando respeitar a história e a colaboração de cada ponto de fusão que culmina nessa identidade afro-urbana, tão viva e atuante no país.

Minha reflexão começa pela história nacional. Conhecemos personalidades e ícones negros que foram defenestrados pela história oficial, sendo os seus feitos diminuídos diante da sociedade de maioria branca, que, durante anos, impôs sua visão como palavra final na construção de nossa identidade. Essa história, encoberta e manipulada pela ignorância e prepotência de alguns falsos historiadores, terminou por gerar uma deformação no processo social.

Oculta-se, por exemplo, que o Brasil recebeu, durante o período da escravatura, visitas de negros livres vindos de países da África. Uns para alforriar seus pares, e outros, porque tinham negócios com a corte de Portugal. Oculta-se o aparecimento paulatino de professores negros das escolas primárias e universidades. Penso que, quando a história nega os valores das nossas ações – nos resumindo a coadjuvantes na construção da imagem social, cultural e acadêmica do Brasil – nega também nossa legitimidade de representação como cidadãos. Só para registrar, os irmãos baianos Antônio e André Rebouças – que nomeiam ruas e construções em todo o país, como a Avenida Rebouças, em São Paulo – eram engenheiros negros, formados pela escola militar, que ajudaram a construir belas obras arquitetônicas. Como eles, há muitos outros afro-brasileiros que formaram o Brasil moderno.

É preciso reconhecer também que não seríamos os mesmos sem a colonização portuguesa, sem os imigrantes e, sobretudo, sem nossos índios. Esta monumental mistura de culturas deu um molho diferenciado ao desenvolvimento da nossa gente e da nossa expressão criativa. Nesse contexto, o AfroPop brasileiro é contemporâneo, mas não se desliga de elementos ancestrais, de identidade forte. Assim, quando visto como comportamento musical contemporâneo, tem influências que vão da black music americana às guitarras do rock fundidas com tambores afro-brasileiros e indígenas, além dos trabalhos d’Os Tincoãs, Clementina de Jesus, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Moreira da Silva e outros que ajudaram a formar essa marcante identidade brasileira.

“O AFROPOP É UMA IDENTIDADE ARTÍSTICA E DE COMPORTAMENTO, NÃO SENDO, PORTANTO, APENAS UM RÓTULO MUSICAL”

Não é só uma questão de cor, e sim de amor a nossa maravilhosa força de expressão. O Brasil AfroPop está no samba-funk do Rio de Janeiro, nas fusões afro contemporâneas de Minas Gerais, nas batidas dos blocos afros da Bahia, na irreverência roqueira do manguebeat, no som de MC’s afro-brasileiros como MV Bill, em nomes como Seu Jorge, Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Novos Baianos, A Cor do Som, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Djavan, Luiz Melodia, Tatau, Jau, Daniela Mercury, Tony Garrido, Sandra de Sá, Mart’nália, Paula Lima, Lenine, Zeca Baleiro, o meu e muitos outros.

O AfroPop é uma identidade artística e de comportamento, não sendo, portanto, apenas um rótulo musical. Precisamos pensar o Brasil com mais pertencimento, mais propriedade. Nosso referencial nativo é necessário para construir um presente seguro. A cultura que não se renova fica estática no tempo, endurece e envelhece dentro da sua rotunda. Nestes tempos de constante modernização, nós, afro-brasileiros, temos o direito e o dever de nos posicionarmos.

O AfroPop brasileiro aposta no Brasil real, no Brasil moderno e no Brasil igual!.

Fonte: Raça Brasil

foto: Carol Beiriz
Gravado na rua da casa da cantora, o documentário “Live in Juruna” promete dar o que falar

Sucesso nas rádios de todo o Brasil, a cantora Gaby Amarantos assume sua negritude e conversa sobre carreira, música, racismo e família.

Quem ainda não ouviu falar de Gaby Amarantos está perdendo a chance de conhecer umas das maiores artistas que o Brasil tem revelado nos últimos anos. Com um visual marcante e uma voz poderosa, Gabriela Amaral do Santos saiu da periferia de Belém do Pará para conquistar o país e mundo, com sua apresentação no festival de Cannes.

Nascida e criada no bairro do Jurunas – onde faz questão de morar até hoje – a cantora tem orgulho de suas origens. Com uma família de sambistas, desde pequena já cantava e dançava nas rodas de samba familiares, embora sua vontade, mesmo, fosse ser atriz. Sempre alegre, a energia que a cantora demonstra no palco é diferente do que ela apresentou no dia da entrevista: uma pessoa calma, de fala mansa, que pensa muito antes de tecer um comentário equivocado. Esta calma faz parte de uma rotina rígida do cotidiano da artista: segundo ela, ao acordar ela passa duas horas sem falar, tudo para poupar a voz. Mas ela não reclama. “Faz parte, eu faço uma coisa que gosto. Amo meu trabalho e me dedico inteiramente a ele”.

Em 2012, a paraense conseguiu emplacar seu segundo hit em novelas da Globo em menos de um ano. Depois de tocar no Brasil inteiro com “Ex Mai Love”, tema de abertura da novela Cheias de Charme – um dos recordes de sucesso na novela das 7h até o momento – , a cantora reaparece com “Beba Doida”, que integrou a trilha sonora da novela Salve Jorge. Seu sonho de ser reconhecida também como atriz começou a se tornar realidade quando fez uma pequena participação em Cheias de Charme. Atualmente, ela é uma das atrações da série “Contos do Edgard” (Fox). O projeto é produzido pela O2 Filmes e a direção é assinada por Fernando Meireles. Isso tudo, além de outros planos, ela contou na entrevista exclusiva à Raça Brasil. Confira agora:

Foto: Danilo Tanaka

Raça Brasil: Você sempre quis cantar? Como você se descobriu como cantora?
Gaby:
 Eu sempre quis ser professora. Eu nunca tive esse repente de infância “Ah, quando eu crescer eu quero ser artista ou cantora!”, nada disso. Minha vida traçada por mim na infância era fazer uma faculdade de alguma coisa, ser professora; porém, eu sempre gostei de artes, sempre fui muito artista desde criança, queria usar roupas diferentes, etc. Eu tinha uma tia que era educadora, e fazia umas manifestações culturais no bairro – por exemplo, na época do Natal fazia a encenação do nascimento de Jesus, e eu sempre queria ser a Maria, eu sempre queria ter o papel principal de tudo.

Foi então que fizeram um karaokê lá na comunidade. E, então, lá fui eu, presepeira, cantar, e o pessoal do grupo falou “olha, você tem uma voz boa, poderia vir cantar com a gente de verdade”. Eu falei “sério?”, e eles “sério!”. Até então eu nunca tinha percebido, nunca tinha nem me tocado que eu podia fazer isso. Fui pega de surpresa, mas uma surpresa muito gostosa. Então, comecei a cantar com esse grupo e não parei nunca mais.

Raça Brasil: Como que era sua vida antes de se tornar cantora?
Gaby:
 Aos quinze anos, eu fui à companhia de teatro em Belém e fiz um trabalho de atriz, mas um trabalho ainda amador. No Pará a gente tem uma tradição muito forte de quadrilha junina e de grupos folclóricos regionais, (o Carimbó, o Sírio), e eu era de um dos grupos. Eu estava envolvida nas artes de uma forma muito voluntária e prazerosa, aquilo pra mim era um hobby e não uma profissão: eu fazia porque gostava e isso tudo me agregou muito valor. A gente tem a Fundação Curro Velho em Belém, que tem vários cursos – dança, artes, música. Eu já queria fazer um pouco de tudo, mas não sabia porque eu queria fazer tudo. E quando eu entendi que poderia cantar eu falei “caramba, agora eu entendi porque estudei um pouco de tudo.” Hoje em dia na minha carreira, eu tenho uma equipe para fazer figurino, uma equipe para cuidar da agenda, uma equipe para cuidar da venda, mas eu estou ali sempre coordenando tudo.

Raça Brasil: Você tem uma carreira de quase vinte anos, mas apenas nos últimos três anos que ganhou fama extraordinária – desde o clipe “Xirley”, até a abertura da novela das sete, “Cheias de Charme”. Como você esta lidando com o sucesso desde então?
Gaby:
 Para mim sempre foi de uma forma muito tranquila. Exatamente nos últimos três anos, o país começou a me conhecer e eu tive essa visibilidade, mas na minha terra a dez anos eu já era muito famosa. Eu era de uma banda que foi um “bum!” no início de 2002. A banda chamava-se Tecno Show – foi a primeira banda de tecno-brega a fazer sucesso, e eu já era uma popstar lá. Por isso, eu já lidava com a fama, com o assédio, eu lidava com a falta de privacidade etc; mas, claro, que com uma proporção bem menor, mas sempre de forma muito tranquila – tanto que até hoje eu ainda moro no meu bairro de periferia no Jurunas, onde eu nasci. Isso na cabeça das pessoas é muito confuso, porque quando o artista estoura assim, ainda mais nacionalmente, primeira coisa que ele faz – até por uma questão de status, de ter que provar para a sociedade que esta ganhando dinheiro – é se mudar para um lugar com condomínio fechado, tem que comprar um carro muito caro, ou vários. Não é que eu seja contra nada disso, mas a minha filosofia de vida é continuar sendo a mesma pessoa e, principalmente, valorizar muito as minhas raízes. Então essa coisa de fama, de sucesso é uma coisa que eu não dou muita importância.

Raça Brasil: Você citou seus figurinos e a forma como coordena tudo. Qual é a importância do seu figurino no show?
Gaby: 
Essa parte de identidade visual para mim é tão importante quanto a música. Eu notava que as pessoas escutavam a música, mas que elas não prestavam atenção em mim, então falei: “caramba, preciso fazer alguma coisa para esse povo me notar!” Foi então que comecei a usar “os figurinos”. Comecei a colocar brilho nas minhas roupas, essa coisa de paetê, que nem isso era muito usado em show. E aí, sim, eu vi que quando eu entrava, as pessoas ficavam… Tinha várias bandas que tocavam na casa que eu era residente, mas quando eu tocava, as pessoas já esperavam para me ver: “Com que roupa que ela vem?”, “O que ela vai aprontar?” Eu vi que isso também chamava atenção para a própria música. Hoje em dia, eu tenho uma equipe que é coordenada pelo Diogo Carneiro -que é figurinista, amigo, cabelereiro, maquiador, faz tudo. A gente se preocupa muito com essa identidade visual, e as pessoas esperam, a cada show, por algo novo, por alguma surpresa.

foto: Divulgação/Ac ervo Live in Jurunas

“EU TIVE QUE MONTAR A MINHA PRÓPRIA BANDA, PORQUE EU IA FAZER TESTE E AS PESSOAS NÃO ME QUERIAM POR EU SER NEGRA, NÃO ME QUERIAM POR EU ESTAR ‘ACIMA DO PESO’… DIZIAM: ‘VOCÊ NÃO É O PERFIL QUE A GENTE ESTÁ PROCURANDO’…

Raça Brasil: Desde a novela, onde você também fez uma participação, você tem mostrado essa desenvoltura como atriz, principalmente na série da Fox “Contos do Edgar”. Como está sendo pra você essa carreira, se descobrindo como atriz?
Gaby: 
Para mim é como se fosse um regresso a uma página, um capítulo da minha vida que me ensinou muito e que eu queria muito fazer. Mas a gente tem essa cultura no Brasil de que o artista brasileiro só pode ser uma coisa. As pessoas agora que começam a entender que o ator também pode cantar, que pode ser artista plástico, que pode ser outras coisas… Eu tinha muito medo de estourar como atriz e não conseguir me firmar como outra coisa, então eu falei “vou fazer ao contrário, vou me consolidar como cantora e quando minha carreira estiver consolidada aí eu retomo minha carreira de atriz”. E eu estou muito feliz! Contos de Edgar foi uma série que me abriu muitas portas, eu agradeço muito ao Pedro Moreli, que é o diretor e que teve coragem de apostar em mim como atriz. Agora eu vou fazer o filme do Agnaldo Silva, o Crô, vou fazer uma personagem que é bem eu: vou praticamente me interpretar. E estão surgindo outros convites.

foto: Divulgação/Ac ervo Live in Jurunas

Raça Brasil: Você começou a cantar em um grupo de igreja. Qual a sua relação com a religião hoje? Você frequenta alguma igreja, como é?
Gaby:
 Eu sou católica e eu sou muito espiritualizada. Eu tenho um respeito imenso por todos os tipos de religiões e manifestações religiosas do nosso país, que é super-diversificado. Tem muito haver com a cultura do meu bairro, no Jurunas. Eu era de um movimento jovem e a minha mãe quem levava e quem incentivava a gente -, mas na rua paralela de casa havia um terreiro de Tambor de Mina. Tambor de Mina é uma linha da Umbanda muito praticada na Amazônia, e a mamãe ia rezar no terreiro de Umbanda. Nos levava com roupa de primeira eucaristia, arrumados. Havia uma procissão que começava no terreiro de Umbanda e acabava na igreja Católica. Então esse sincretismo do Jurunas é muito forte, e isso me fez não ter preconceito com nenhuma religião, respeitar a todas e até frequentar. Creio que toda religião é a sua forma de se conectar, você procura a sua forma de conectar com Deus, com o que você acredita, e sou muito religiosa. Eu gosto de rezar. A gente tem o Sírio de Nazaré, que é uma manifestação cultural do Pará. É o Sirio paraense que reune três milhões de pessoas. Essa procissão é a maior do Brasil, toda feita na imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Eu sou muito ligada a tudo isso.

Raça Brasil: Você revelou a pouco tempo que sofreu racismo aos quatro anos em uma escola de balé. Como foi isso? Como aconteceu?
Gaby
: A minha mãe queria me colocar para fazer balé e quando ela chegou comigo as pessoas não tiveram boa vontade em me matricular, nem em conversar com a minha mãe, nem em dar informação. A escola, que hoje nem existe mais, era uma escola tradicional em Belém, de classe média-alta, mas a minha mãe sempre quis o melhor para mim. Ela queria me colocar para fazer – nem que ela tivesse que lavar três vezes mais roupa para fora, mas ela queria. Na cabeça dela aquilo ia ser bom para mim; e eu também queria fazer. Então, por eu ser negra, eles ignoraram a nossa presença, e eu lembro da minha mãe sair de lá e ela me disse: “Não, minha filha, esse lugar aqui não merece você”, e eu me emociono de lembrar essas coisas. Eu estudava em escola particular, que era uma escola cara, meus pais se sacrificavam para pagar essa escola, e eu era a única aluna negra da turma. Então eu sofria muito bullying quando era criança, as minhas coleguinhas todas tinham o cabelo liso e eram loiras; ou então tinham o cabelo preto, mas liso, e eu era a única que tinha o cabelo mais crespo, encaracolado. Elas me apelidavam e eu sofria muito com isso. Hoje em dia a gente tem toda essa preocupação do bullying na escola, mas na minha época, a escola tinha uma assistente social que não era uma pessoa que achava que aquilo fosse algo que poderia prejudicar a educação da criança. Como eu tive uma educação em casa e uma formação muito boa – meu pai é negro e meus bisavós foram escravos então a minha família sempre cresceu rodeada de saber como lidar com o preconceito. Meu pai sempre me ensinou muito em relação a isso, e eu nunca tive autoestima baixa por conta de ser negra, sempre me declarei negra e sempre tive orgulho de ser negra; mas isso muito por conta da minha família, a escola nunca me amparou muito nesse sentido.

“EU LEMBRO DE UMA SENHORA QUE ME ABRAÇOU CHORANDO E ME AGRADECEU POR EU FALAR QUE ERA DE JURUNAS, DE BELÉM E QUE TINHA ORGULHO DELES … ENTÃO, ESSA É A MILITÂNCIA SOBRE AS MINHAS ORIGENS: A MÚSICA QUE EU FAÇO.

Raça Brasil: Em que outros momentos você sentiu que sofreu preconceito social ou racial, mesmo após sua carreira ter começado?
Gaby: 
Quando minha carreira começou, para eu poder ter essa visibilidade de vocalista de uma banda como tenho hoje. Eu tive que montar a minha própria banda, porque eu ia fazer teste e as pessoas não me queriam por eu ser negra, não me queria por eu estar “acima do peso”… Diziam: “você não é o perfil que a gente esta procurando, estamos procurando uma cantora que seja diferente de você”. E eles estavam dizendo que queriam uma branca de olhos azuis. Eu resolvi, então, montar minha própria banda. E na minha banda eu ia ser a estrela e ninguém ia me tirar; e foi quando eu montei a Tecno Show, que foi a banda que me consagrou no Pará. Foi quando as pessoas começaram a conhecer a Gaby, e depois veio a carreira solo; enfim, foi onde tudo aconteceu na minha vida.

foto:Divulgação/Acervo Live in Jurunas
foto: Divulgação/Ac ervo Live in Jurunas

Raça Brasil: Seguindo essa linha, no VMB (Video Music Brasil da MTV) do ano passado, você ganhou como artista revelação e tudo mais. Na ocasião você falou que tem muito orgulho de ser do jeito que é e trazer uma nova identidade visual para a música brasileira. Como você enxerga o papel social que você exerce nos seus fãs?
Gaby: 
Eu considero muito como um reflexo do que eu realmente sou. Ontem eu tive um dia muito especial no meu bairro. Eu estava fora do Belém; cheguei, e no Jurunas tem uma escola de samba que é a terceira mais antiga do Brasil – a gente tem uma tradição de carnaval muito forte, eu venho de uma família de sambistas -, e eles me prestaram uma homenagem, e eu não sabia o que ia acontecer! Falaram que ia ter uma entrevista no bairro, e que queriam que eu fosse. Eu falei que ia chegar cansada, que tinha que voar para São Paulo, mas que passaria rapidinho por lá. Cheguei, e tinha a escola de samba no meio da rua: umas mil pessoas do bairro, entre crianças e adultos. Eu lembro de uma senhora que me abraçou chorando e me agradeceu por eu falar que era de Jurunas, de Belém e que tinha orgulho deles; porque o bairro em que eu moro… Se você chegar em Belém e falar que vai no Jurunas, eles falam para você não levar o celular porque vão te roubar, e eu cresci ouvindo isso. Então, essa militância sobre as minhas origens, a música que eu faço, é diferente do meu estado. Eu tive a coragem de trazer uma sonoridade nova, apresentar esse meu biótipo de mulher que é fora dos padrões que a sociedade impõe. Eu estou conseguindo conquistar meu espaço por ser quem eu sou, assim, com essa personalidade, e isso influencia muito os jovens, as crianças, os velhos. O meu público tem sido muito assim, essa minha militância contra a homofobia e contra qualquer tipo de preconceito, e pela preservação da Amazônia – porque eu sou de lá e para nós isso é muito importante. Essa, inclusive, é uma questão muito forte, a do meio ambiente, da sustentabilidade. Eu sou madrinha de muitas ONGs, eu faço vários trabalhos sociais no meu bairro e isso tudo serve de exemplo para as pessoas. Assim, a música passa a ser um instrumento de transformação na vida, para o jovem e para a comunidade. Na periferia não tem só coisa ruim, existe coisa boa lá também. Essa é minha militância: mostrar esse lado positivo da periferia e da música que a gente faz. Eu tenho recebido o depoimento de muitas pessoas agradecendo, e também tendo coragem de fazer coisas que talvez não fizessem antes. Por isso, eu tenho noção que eu contribuo de alguma forma para que a vida das pessoas seja melhor.

Raça Brasil: Você fala sempre da sua família, e divulga muitas fotos com a sua família nas redes sociais. Como é a relação da sua família com a sua carreira, e como você é com ela no dia-a-dia?
Gaby:
 A minha família é o meu esteio. Eu tenho muita sorte, pois o meu maior tesouro é exatamente ela. Eu brinco muito com essa história de ser rica, de que eu sou rica, mas a riqueza a que me refiro é essa: a minha família. Eu tenho um filho de quatro anos, sou mãe solteira, e ele não tem babá; quem fica com ele é minha mãe, minha irmã, meu cunhado, meu irmão, meu pai… Nós moramos todos juntos na casa, e eu viajo tranquila porque sei que ele está todo amparado e cheio de amor. Eles me dão força para eu poder dar uma vida melhor para eles. Hoje em dia meu irmão pode fazer uma faculdade, pois eu posso contribuir; o meu pai já se aposentou porque eu posso ajudar; a minha mãe não precisa mais trabalhar, ela pode viver só para o neto e para ser feliz, porque é o que eu quero que ela faça; a minha irmã hoje tem o negócio dela porque eu pude contribuir. Então, eu sei que sou o esteio dessa família, mas essa família é o meu esteio também. Eles são minha fortaleza, e, por isso, eu posso viajar pelo Brasil todo, e quando não estou trabalhando, a minha diversão é estar com eles, é colocar a nossa piscina de plástico na frente de casa e ficar lá comendo churrasquinho com os amigos. Eu tenho a mesma vida que eu sempre tive, não tenho porque mudar as minhas rotinas.

O meu pai é um herói para mim, a história de vida dele é algo que me emociona muito, e a da minha mãe também. Eu sei que se hoje eu tenho uma boa educação e se eu consigo dar para o meu filho uma criação e uma formação boa, é por conta de tudo o que eles me deram. Então, a coisa mais importante que eu tenho na minha vida são eles.

Raça Brasil: Você está falando da sua rotina. Então como é a Gaby Amarantos fora do palco? No dia-a-dia?
Gaby:
 Bom, a minha rotina acontece quando não estou viajando a trabalho e estou em casa. Eu gosto muito de estar com meus amigos, minha família, enfim, fazer programas com eles. A minha vida é bem corrida, eu tenho uma empresa, uma produtora, e a gente tem vários projetos paralelos à minha carreira. Eu sou gestora da minha empresa junto com minha sócia, e já acordo tendo de ir para o escritório trabalhar. Muita gente me pergunta: “Porque você ainda mora no Pará?”. A resposta é porque lá eu tenho qualidade de vida: meu escritório é na frente da minha casa, não preciso pegar transito, volto para casa para almoçar com minha família e tudo que eu faço é com eles. No final de semana a gente vai almoçar fora, no meio do rio, no meio da floresta, sempre com minha família, sempre. Os meus amigos de fora do Brasil vão até Belém me visitar só para conhecer o Jurunas e para conhecer a minha familia, que é muito festeira. Quando a gente se reúne, são sempre pre farras homéricas, de um dia para o outro, com muita dança, muita comida… É aquela coisa mesmo de família de periferia: muito barulho! A gente gosta de música alta, e tudo o mais.. Vou à igreja, gosto de ir à novena. A minha rotina é sempre assim.

Raça Brasil: Como você administra a sua carreira? Você escolhe aonde quer ir e quanto tempo quer ficar, ou fica mais presa à sua agenda?
Gaby: 
Outra riqueza da minha vida é poder ser dona do meu nariz. Eu tenho hoje uma sócia que é a Priscila Brasil, que é a cineasta que dirigiu o meu clipe de Xirley, a partir do qual as pessoas passaram mesmo a me conhecer. A Priscila é minha amiga há dez anos e me deu o clipe de presente. Foi ela a pessoa com quem eu sempre chorei, me abri, que sempre me ajudou… E de repente, conversando com um dos empresário que supostamente iria me empresariar, ele falou para ela: “Mas porque você não vira empresaria dela? Você fala dela com tanta propriedade, com tanto amor, você acredita tanto, porque vai procurar outra pessoa?” e foi aí que “a nossa ficha caiu” e decidimos nos juntar, criamos a nossa empresa – que se chama Amarantos Brasil – e eu sou livre. Em tudo que eu faço na minha carreira, ela respeita muito a minha vontade. Ela é a grande mentora da minha identidade visual. Por trás da minha carreira, ela é a pessoa com quem eu consigo finalmente descansar e me despreocupar, porque sei que ela está lá tomando conta de tudo e trabalha, muitas vezes, até mais do que eu – e eu nunca tinha encontrado alguém que trabalhasse mais que eu. Eu sou uma grande workaholic, mas ela consegue ganhar.

Esse trabalho comigo dando certo, contribui para que eu possa abrir caminho para outros artistas do Norte. Por tudo isso, a gente encara o nosso trabalho não como um comércio, mas sim, como uma missão de vida para a gente posicionar a música, a cultura do nosso estado e os artista talentosos que tem por lá.

Foto: Divulgação/Acervo Live in Jurunas

Raça Brasil: Você já cantou ao lado de muitas personalidades brasileiras e vai cantar agora ao lado de Elza Soares. Quais foram os cantores que te influenciaram, que te inspiram?
Gaby:
 A música brasileira para mim é minha maior inspiração. A Elza é um dos grandes ícones. Foi muito emocionante esse encontro com ela. Falar dela é, para mim, algo difícil, porque eu tenho um amor imenso por ela e, de repente, um ídolo seu dividir o palco com você, tornar-se amigo, alguém que se preocupa com você, te dá conselhos, é fantástico! E a gente tem essa relação. O nome da minha mãe é Elza, também. Então, eu brinco falando que ela é minha mãe na música, e ela diz que, além de todos os filhos ela já tem, vai adotar mais uma, que sou eu. Clara Nunes é outra grande expresão da música e eu tenho uma ligação inexplicável com ela. É como que se ela estivesse aqui, me dando força. Há ainda vários artistas da música, como Gilberto Gil, Martinho da Vila – pois tenho essa ligação muito grande com o samba. Daí, também, Clementina de Jesus, a quem eu tive o prazer de prestar uma homenagem; Juvenida Perola Negra; Alcione; Ney Mato Grosso; Maria Alcina; Fafá de Belém; os tropicalistas todos, bem como Itamar Assunção, que deviam ser mais celebrado; os artistas da cena brega como Valdique Soriano e Reginaldo Rossi; e os da cena do meu estado, que as pessoas estão começando a conhecer, como o mestre de carimbó Pintuca; os da guitarrada: Mestres Vieira, Alducena, Curica, Chico Braga do carimbó; Dona Onete, que é uma cantora que só agora o Brasil também está começando a descobrir, e é uma senhora de setenta e poucos anos, que canta um estilo música que se chama carimbó chamegado; Dona Helena, que canta samba de cacete, que é um outro estilo regional – também ela uma negra com uma história linda. Então, essas pessoas todas e mais outras tantas, que se eu for falar não vou parar… A música brasileira é minha grande inspiração.

“MEU PAI É NEGRO E MEUS BISAVÓS FORAM ESCRAVOS, ENTÃO A MINHA FAMÍLIA SEMPRE CRESCEU SABENDO COMO LIDAR COM O PRECONCEITO… EU NUNCA TIVE AUTOESTIMA BAIXA POR CONTA DE SER NEGRA, SEMPRE ME DECLAREI NEGRA E SEMPRE TIVE ORGULHO DE SER NEGRA”.

Raça Brasil: Você tem novos trabalhos em mente? O que o público pode esperar?
Gaby:
 A gente acabou de lançar um trabalho lindo que chama “Live in Jurunas” que foi gravado na porta da minha casa: é um show documentário, e esse registro mostra bem a Gaby pessoa física: a minha preparação para o show. Foi gravado a dois anos atrás, então eu não estava nesse momento que eu estou hoje: não tinha nem disco, não tinha música em novela, não tinha nada. Estamos mostrando bem eu ali em casa, de dona de casa, fazendo meus afazeres de mãe. Depois a mulher se transforma em artista, e vai para o palco no meio da rua, junto com o povo. Esse trabalho foi dirigido pela cineasta francês Vincent Moon, junto com a Priscila Brasil. O Vincent é um dos grandes cineastas que viaja o mundo fazendo registro de vários artistas, e tem um site que chama globopac – que é um site super bombado na Europa. Ele é um nômade que chega no país e procura um artista com que ele se conecta e faz um clipe, e ele foi para o Jurunas. Só que ele ficou tão encantado com o lugar que ele resolveu fazer um show, e foi a primeira vez que ele fez um show inteiro de um artista, junto com a Priscila – eles dirigiram juntos -; e é um trabalho que mostra muito a periferia, o bairro, os meus vizinhos ali fazendo a produção local, ajudando. Tem cenas incríveis que mostram o quanto a periferia é mente aberta, o quanto o preconceito é bem menor na periferia; é uma lição de vida, uma lição de realidade. É um trabalho pelo qual eu estou muito apaixonada por ter feito. Está tudo no youtube. A gente não vai comercializar, quem quiser assistir ou baixar é só procurar Live in Jurunas; esta também no sitewww.gabyamarantos.com. Por outro lado, já estou na pré-produção do meu segundo disco, vou fazer clipe novo também e vou fazer um DVD ainda esse ano. Este, sim, um trabalho a ser comercializado e com participações especiais. A gente ainda está planjando esse DVD, que deve ser gravado no segundo semestre. Agora, em julho, a gente sai para a nossa primeira turnê internacional: vamos fazer sete shows na Europa e Estados Unidos. Estamos na lista da Time Out, que é a bíblia dos eventos dos Estados Unidos, como um dos dez show mais esperados no verão de lá. Também estamos na lista do Barbican, dos dez show mais esperados na Europa. A gente vai tocar para gringo – não só para brasileiro – tanto no Central Park quanto no Barbican. Eu estou muito feliz, porque esperei muito tempo para fazer uma turnê. Eu queria fazer algo que fosse realmente bem planejado, e agora a gente está saindo para fazer esses trabalhos lá fora.

Raça Brasil: Boa sorte!

Fonte: Raça Brasil

A parceria com as Representações Regionais do MinC tem como objetivo garantir a maior participação de mulheres negras na premiação

Num esforço para garantir a participação dos agentes culturais negros nos editais públicos de incentivo à cultura a Fundação Cultural Palmares, em parceria com as Representações Regionais do MinC (Ministério da Cultura), realiza de 30 de julho a 15 de agosto oficinas de capacitação para os Editais Carmen Santos de Cinema de Mulheres, em São Paulo e em Salvador/BA.

Em ambos os estados a maioria do cursos serão ministrados por Cidinha da Silva, representante da FCP em São Paulo. Cidinha ressalta que a Palmares planeja movimentar as organizações de mulheres negras, ligadas à produção de audiovisual e artes visuais, para participar desse edital, que é exclusivo para o público feminino.”É fundamental pluralizar o possível perfil dos sujeitos contemplados”, pontua.

Formação para outras iniciativas – As oficinas serão simples e dinâmicas, para esclarecer as dúvidas mais frequentes sobre editais. Nesse sentido, Cidinha explica que existe uma mecânica similar entre os editais do MinC. Ela acredita a preparação para um concurso facilita participação em outras oportunidades.

Estratégias de alcance – A cidade de Salvador/BA recebe duas oficinas. Fábio de Santana, representante regional da Palmares para Bahia e Sergipe, conta que dois lugares foram escolhidos na tentativa de atingir públicos distintos. “A primeira oficina será realizada na periferia de Salvador, um lugar simbólico da cultura negra, para chegarmos nas pessoas que tem acesso aos editais, mas que demandam formação”, disse Fábio. A outra será no Pelourinho e “vai contar com a participação de agentes culturais do centro da cidade”, completou o representante.

Já no estado de São Paulo serão cinco. Cada atividade contará com o apoio de diversas entidades da sociedade civil e gestores de cultura municipais.

Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres 2013 – Apoio para Curta e Média-Metragem – O edital apoiará obras audiovisuais cuja titularidade e direção sejam de mulheres.Podem ser inscritos trabalhos de ficção ou documentário, com a possibilidade de utilização de técnicas de animação. As obras devem apresentar a temática da igualdade entre mulheres e homens, os direitos da mulher e de sua cidadania. A inscrição dos trabalhos é gratuita e deve ser realizada até 19 de agosto por meio de sistema online SALICWEB, no site do Ministério da Cultura (www.cultura.gov.br ). Serão premiadas 10 obras audiovisuais de curta-metragem, de até cinco minutos, no valor de até R$ 45 mil, cada; e seis obras audiovisuais de média-metragem, de 26 minutos, no valor de até R$ 90 mil, cada. Os vídeos premiados serão exibidos pela TV Brasil.

 

Serviço

 

Oficinas em Salvador (BA)

 

OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013.
Data: 30 de julho de 2013
Horário: 18h30
Local: Centro Cultural Alagados – Rua Direta do Uruguai (fim de linha) – sem número – Uruguai.

OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013.
Data: 31 de julho de 2013
Horário: 14h
Local: Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americano – CEPAIA/UNEB -Largo do Carmo, 04 – Centro Histórico.

Para maiores informações entre em contato com o telefone:(71) 3322-3488 ou pelo e-mail:fcp.bahia@palmares.gov.br

Oficinas no estado de São Paulo
OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013. Capital – Zona Oeste

Data: 30 de julho de 2013, terça-feira

Horário:19:00

Local: Espaço Cultural Elo da Corrente – Rua Jurubim, 788, Pirituba, São Paulo

Parceria: Coletivo de Mulheres Esperança Garcia e Coletivo Cultural Elo da Corrente

 

OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013. Capital – Zona Sul

Data: 05 de agosto de 2013, segunda-feira

Horário:19:00

Local: Casa de Cultura de M’Boi Mirim – Av. Inácio Dias, S/No, Piraporinha, São Paulo

Parceria:CineBecos

 

OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013. Campinas e Região

Data:6 de agosto, terça feira

Horário:14:00 as 17:30

Local:CIS – Guanabara- UNICAMP -Rua Mário Siqueira, 829 – Botafogo

Antiga Estação Mogiana – atrás da Unimed/Barão de Itapura/final da Rua Sacramento/Praça Mauá

Parceria:CIS-Guanabara e Instituto Ibaô

Mais informações: (19)32337801

OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013. Taubaté e Região

Data:8 de agosto, quinta-feira

Horário:19:00

Local: Biblioteca Zumbi dos Palmares – Av. das Camácias, s/n – Bairro Estiva

Parceria: Associação dos Templos de Umbanda e Candomblé de Taubaté e Região

 

OFICINA – Capacitação para o Edital Carmen Santos de Cinema de Mulheres – 2013. Capital – Centro

Data: 15 de agosto de 2013

Horário:19:00

Local: Auditório do MinC – Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos, São Paulo

Parceria: Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop