Entrevista com Abdias Nascimento

“Eu tenho um sonho…

… ainda quero ver o negro mandando nesse país. e vou ver! Acho que ainda vou ver isso vivo. O negro que realizou realmente a construção do país, e não só no sentido material, não só na cana-de-açúcar, no café, no algodão, não somente na produção dessas riquezas, mas o que também construiu a riqueza intelectual, cultural, esportiva”. palavras de Abdias Nascimento, de 95 anos, artista, intelectual e, para muitos, o maior ativista do movimento negro no Brasil. nascido em franca, interior de São paulo, em 1914, tornou-se referência quando o assunto é igualdade racial. também político (foi deputado federal de 1983 a 1986, além de senador), seus discursos e ideias no congresso nacional foram todos, sem exceção, sobre a questão racial no Brasil. em 1944, fundou no Rio de Janeiro o teatro experimental do negro (TEN) que ajudou a romper as barreiras raciais no teatro brasileiro formando a primeira geração de atores negros no país. para ele, o sonho de ver negros em postos de direção no Brasil é mais que um desejo pessoal, é um direito. “e não é nenhuma coisa exorbitante!”

Qual o principal desafio que o negro enfrenta nos dias de hoje?

É o negro acreditar no negro. Quando é político, não acreditamos, preferimos votar no outro, quando é um médico, logo olhamos com certo descrédito, se é um jornalista, a mesma coisa. É preciso que acreditemos em nós, no potencial dos nossos irmãos para mudarmos definitivamente esse estado de coisas.

Mas, ao que se deve esse descrédito?

Aos séculos de desmoralização que a mulher e o homem negros foram submetidos aqui neste país, sempre tivemos empregos ruins, desprestigiados, nunca fomos valorizados e remunerados decentemente, nunca investiram em nossas capacidades, também nunca tivemos status, responsabilidade, dignidade. Parece que o negro já nasce incompetente, então, esse aspecto vem de longe, da época da escravidão e transpassou por quase todo o século XX este desrespeito, violação de direitos humanos e aviltamento que a mulher negra e o homem negro sofreram. Fizeram com que nós não acreditássemos em nós mesmos. Fomos submetidos ao desemprego, aos empregos ruins, e isso tem gerado em nós, muitas vezes, um descrédito em nós mesmos.

“O Obama deu uma lavada no brasil! aqui sempre se propagou nos quatro cantos do planeta como sendo o país da harmonia racial. embora tenhamos essa fama, nunca tivemos uma figura de destaque que fosse canonizada pelas urnas”

Então o senhor acha que devemos creditar a esse estado de coisas o fato de ainda não termos criado uma classe econômica e política negra forte no Brasil?

Não tenha dúvidas! Se o próprio negro não acreditar no negro, isso faz com que os negros que tem um pouco mais de destaque na sociedade não deem crédito àqueles que têm menos do que eles. Isso gera um circulo vicioso.

Em pleno século XXI, o senhor não acha que isto está mudando?

Sim, tem aparecido um ou outro caso isolado. Um exemplo que talvez possa ser lembrado é o que estão tentando fazer em São Paulo na Universidade Zumbi dos Palmares. Parece que estão querendo quebrar este tabu, esse preconceito contra a capacidade do negro, inclusive de se organizar em setores como o do ensino. É preciso que os negros acreditem que uma empresa educacional negra funcione para que a coisa vença, para que os negros vençam. É preciso que haja jornais de negros, mais revistas, falta o negro acreditar em sua própria capacidade em gerir negócios na sua própria raça, fazendo coisas importantes e com responsabilidade. Ter uma universidade no Brasil administrada por negros parece pouca coisa, mas não é.

André Rebouças, Cruz e Souza, Theodoro Sampaio, Luiz Gama… por que no século XIX havia mais negros com prestígio nacional como parte da intelectualidade brasileira, do que nos dias de hoje que, proporcionalmente, somos em maior número nas universidades? Onde estão os intelectuais negros de destaque nacional?

Estão enfurnados aí, escondidos fazendo suas coisas, meio envergonhados. Mas nós temos sim um grande número de intelectuais negros. Temos o Joel Rufino dos Santos, por exemplo, temos o Muniz Sodré e vários outros. O que acontece é que muitos estão fazendo o seu trabalho e talvez não estejam sendo destacados pela mídia como deveriam ser.

O senhor foi praticamente testemunho de tudo o que aconteceu em termos de avanços e retrocessos na vida social e política do negro no século XX. Presenciou fatos como a organização da Frente Negra Brasileira e o surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU) nos anos 1970. O que o senhor acha que poderíamos fazer diferente, se pudéssemos voltar no tempo?

Tanta coisa poderia ter sido diferente… Um bom exemplo é o futebol brasileiro. No século XX predominamos neste setor e tínhamos que exigir uma maior participação de negros na direção do futebol, assim também como uma maior participação desses negros em nossa luta. Quando esses jogadores passam a treinadores ou dirigentes, eles ficam lá meio que escondidos, não aparecem e acabamos não mostrando o nosso potencial de administradores, de líderes. Existem vários técnicos de primeira linha, mas ficam ocultos, não tem pretensão e, na hora que precisa de um técnico para o futebol, para uma olimpíada, não são os negros que são escolhidos, são outros. Falo do futebol, mas tem várias áreas em que deveríamos mostrar mais esse lado de liderança do negro.

Por falar em liderança e entrando na política internacional, o que o senhor achou da eleição de Barack Obama e quais reflexos que essa eleição pode ter para os negros aqui no Brasil?

O Obama deu uma lavada no Brasil! Aqui sempre se propagou nos quatro cantos do planeta como sendo o país da harmonia racial. Embora tenhamos essa fama, nunca tivemos uma figura de destaque que fosse canonizada pelas urnas, no mais alto posto do escalão da república, nunca houve isso! Quando fui senador, foi através de apoios de padrinhos políticos. No nível que chegou o Obama, o chamado país da democracia racial (o Brasil) não chegou nem perto ainda.

Sua presença no Congresso Nacional foi marcante. Sem dúvida foi o negro que mais se posicionou como tal em toda a história da república. Como foi aquele período?

Ali foi uma questão de coerência, não podia ser diferente, dediquei a minha vida toda a tocar em assuntos que, em geral, ninguém tocava, que foi a questão do racismo no Brasil. Quando cheguei ao Congresso Nacional não podia ser de outra forma, coloquei meu mandato a serviço do negro, foi uma atuação de negro para negro.

Exatamente! Lembro-me que todos os seus discursos e proposições eram direcionados ao negro em nosso país.

Fico feliz de ouvir essa afirmação de alguém da revista RAÇA BRASIL que, na época, não repercutia o meu trabalho. Nunca falei sobre outra coisa enquanto permaneci no congresso que não fosse relacionada a nós. Queria mostrar que o negro que estava ali reconhecia que ele era fruto desta grande maioria negra que é o Brasil, entretanto, a voz era abafada nesta comunidade e eu falo isso sem falsa modéstia. Fazia discursos memoráveis naquela casa e nada se falava na imprensa sobre isso, então, eu os publicava em livros porque aqui fora não tinha a menor repercussão, ninguém sabia que tinha um negro lá no congresso gritando e lutando por essa maioria aqui fora.

O senhor encontrou muitos obstáculos?

Encontrei! Até Jesus Cristo eu tive que enfrentar. Como sabe (embora digam que vivemos em um estado laico) as sessões no congresso começam com uma saudação a Deus nosso senhor. Eu, diferente de todos ali, começava o meu discurso todas as vezes invocando Olorum, pois Olorum é que é o nosso Deus. É para ele que eu batia a cabeça e mais ninguém. Imagina o mal-estar que isso causava em alguns congressistas que sempre começavam suas falas saudando o nome de Cristo? E eu pedia licença a Olorum e a força e a palavra a Exu. Todas as vezes fazia aquilo enfrentando figuras importantes e não tinha apoio de ninguém, nem da população negra, até porque fui eleito como suplente. Agora tenho que reconhecer que houve uma resposta sim de uma parcela do mundo acadêmico que tem suas teses e dissertações de doutorado e mestrado acerca da minha contribuição.

Sua passagem pelo Congresso foi memorável não só pelo posicionamento, mas pelas ações. Trajava roupas africanas, diferente do terno e gravata ocidental do Congresso. Não acredito que isto ficou apenas na memória de algumas teses.

Você que é bem informado! Para o povo comum não existe essa consciência e não sabe quem sou eu. Pergunta aí para os negros da maioria deste país quem é Abdias Nascimento? Eles não sabem, ninguém sabe, não me atrevo a dizer que o povo sabe, por que não sabe! Sou um ilustre desconhecido como tantos outros negros, talvez muitos saberão agora por conta da revista.

O que é necessário para que possamos começar a mudar esse jogo e fazer com que o Brasil reconheça mais os seus Abdias?

A comunidade negra não tem apreço por seus valores, é claro que se eu tivesse prestígio com a comunidade negra eu estaria lá no senado hoje porque eu não fui lá para ganhar dinheiro, fui lá para trabalhar e trabalhei. Não tive nada de reconhecimento, tive sim um ou outro indivíduo que vem, me abraça, me beija. Por tudo isso que sou muito grato, mas reconhecimento é uma outra coisa, está relacionado a coletividade e assim é a mesma coisa com todos que trabalharam com o negro. Aqui mesmo no Rio de Janeiro tem um negro que fundou vários colégios, mas, coitado, ele também é menosprezado e está esquecido.

E qual a perspectiva que o senhor tem para essa gigantesca comunidade negra brasileira?

Eu tenho um sonho: ainda quero ver o negro mandando nesse país. E vou ver! Acho que ainda vou ver isso vivo. O negro que realizou realmente a construção do país e não só no sentido material, não só na cana-de-açúcar, no café, no algodão, não somente na produção dessas riquezas, mas o que também construiu a riqueza intelectual, cultural, esportiva. E meu sonho é ver o negro nos postos de direção do país. Não é nenhuma coisa exorbitante, nada demais querer isso porque o negro tem direito a isso, direito de ocupar qualquer posto, qualquer cargo na política, na administração pública, no ensino. Essa é a minha perspectiva, este é o meu sonho e eu ainda acredito que verei isso realizado.

Fonte: Revista Raça Brasil

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