A sombra de uma nova guerra

No caminho de um novo país, uma nova guerra. Assim pode ocorrer com o sul do Sudão.

O plebiscito sobre a independência dessa parte, que corresponde a 25% do atual território do país, está marcado para janeiro. Se ele realmente acontecer, é batata que vence a opção separatista.

O governo promete respeitar o resultado e deixar o sul seguir seu próprio caminho. Mas isso pode ser da boca para fora. O sul tem petróleo, e os obstáculos para um divórcio pacífico são muitos. A começar pelo fato de que os dois lados estão se armando.

Essa guerra deixou dois milhões de mortos, entre 1983 e 2005 (antes, nos anos 60, já havia ocorrido outra guerra). Em Juba, entrevistei o major-general Kuol Diem Kuol, porta-voz do SPLA (o Exército do Sudão do Sul).

Afirmou, sem maiores constrangimentos, que nos últimos anos foram adquiridos “vários” tanques T-72, comprados da Ucrânia e levados ao sul do Sudão, provavelmente atravessando território queniano. “Compramos no mercado internacional”, limitou-se a afirmar o general Kuol. Ele não disse quantos foram adquiridos, citando “razões estratégicas”.

“Não queremos a guerra e estamos mobilizando nosso povo para um plebiscito pacífico, a menos que o Norte tenha más intenções. Eles têm uma história de não cumprir acordos assinados”, disse.

O Exército do sul do Sudão é inchado, herança dos tempos da guerrilha na selva. Estimativas variam de 100 mil a 300 mil homens, numa população de 10 milhões (os EUA, com 30 vezes mais habitantes, têm um Exército dez vezes maior).

A desmobilização prometida pelos acordos de paz avança a passos lentos. A maioria dos soldados permanece ociosa, sem saber fazer nada além de lutar e sugando os parcos recursos orçamentários.

Em fevereiro desse ano, a ONG Small Arms Survey divulgou relatório baseado em fotos de satélite em que diz ter identificado três carregamentos de armas para os sudaneses do sul. Além de tanques, foram comprados lança-foguetes, metralhadoras e artilharia antiaérea.

São armas que um dia poderão acabar nas mãos de John, 22, recém-graduado da universidade que se alistou imediatamente no Exército para “defender seu país”. Franzino, não parece capaz de causar grande prejuízo num combate contra o norte, mas fala grosso. “Minha educação é para servir a um país livre. Estou pronto para a luta”.

A missão da ONU tenta ver a situação com otimismo. “Os cinco anos desde o acordo de paz foram de vários obstáculos e crises, mas a paz se manteve. Não vejo disposição para a guerra”, disse David Greesly, coordenador no país.

Para o norte, cancelar o plebiscito, rasgando o acordo assinado na presença de autoridades internacionais (inclusive o então secretário de Estado dos EUA, Colin Powell), seria provocar o isolamento internacional mais uma vez para o presidente Omar al-Bashir. Mas pode ser um preço a pagar para manter a integridade territorial sudanesa e o acesso aos campos de petróleo do sul.

Um pretexto pode ser afirmar que não há condições de segurança para um voto justo em janeiro. Agnes Lukuda, chefe do partido de al-Bashir na região sul (e portanto contrária à independência), disse que a eleição no mês passado foi um mau presságio.

“Houve intimidação e prisão de nossos apoiadores. O plebiscito certamente será muito pior. Se as pessoas não puderem votar por medo, o resultado não será válido”, afirmou.

Fonte: Por Fábio Zanini para UOL

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