Mundial «Africano»: o grande mal-entendido

Madiba magic. Estas são as duas palavras de demonstração de afecto dos sul-africanos a Nelson Mandela, o homem a quem devem quase tudo. A escolha do seu país, a 15 de Maio de 2004, para acolher um Campeonato do Mundo de Futebol foi para eles o prolongamento de uma década prodigiosa. Depois de ter banido o apartheid em 1994, a nova “nação arco-íris” tinha organizado e vencido sucessivamente, nos dois anos seguintes, um Campeonato do Mundo de rugby e um Campeonato de África de futebol.

A emoção do ex-preso de Robben Island não é fingida. Ele chora de alegria e confessa com a desarmante simplicidade dos seres excepcionais: “Sinto-me um rapaz de quinze anos.” A euforia do momento faz esquecer que a África do Sul não é a primeira a romper o monopólio exercido de 1930 a 1998 pela América Latina e pela Europa sobre o único acontecimento desportivo de dimensão planetária. Já tinha havido o parêntese americano de 1994 antes de ter chegado a vez, em 2002, da Coreia do Sul e do Japão.

Pouco importa, contudo, uma tão curiosa amnésia colectiva. O Campeonato do Mundo de futebol carrega tantas paixões obscuras que é normal perder a cabeça. A simples escolha do país anfitrião, tão mediatizado como a final, é um indicador do modo como cada sociedade humana se vê ou é vista pelos outros.

Lembre-se, por exemplo, que a atribuição à Coreia e ao Japão tinha passado quase desapercebida. Para toda a gente nessa época, estes dois países eram uma opção quase natural devido aos seus desempenhos económicos e ao mítico “espírito de disciplina dos asiáticos”. Além disso, ninguém sonhou dizer aos japoneses e aos coreanos que eles carregariam nos seus frágeis ombros a honra de toda a Ásia. Aliás, isso ter-lhes-ia dado realmente muita vontade de rir…

A escolha da África do Sul, pelo contrário, mostrou, mais uma vez, que, na cabeça de muita gente e por razões bastante misteriosas, todos os países africanos formam um só. Assim, a julgar pelo que tem sido dito e escrito há seis anos, Portugal e Brasil não vão confrontar-se a 25 de Junho na cidade de Durban, num país singular chamado África do Sul, mas em solo africano, esse lugar que todos julgam conhecer bem e que não se encontra em nenhuma parte da terra. Deve falar-se de racismo? É grande a tentação, mas talvez não fosse justo porque ainda que um postulado tão absurdo só se aplique aos países africanos de população negra, os próprios africanos são os primeiros a validá-lo.

Foto do artista angolano Kiluanji Kia Henda

E até porque isso não tem só aspectos negativos. Foi este sentimento espontâneo de solidariedade, por exemplo, o precioso contributo para a luta contra o apartheid. No Senegal, todas as manhãs, entre estudantes podíamos ler no quadro: “O apartheid é um crime contra a humanidade”. Na Nigéria, numerosos funcionários aceitaram a retenção mensal de uma parte do seu salário para alimentar um fundo destinado ao ANC (Congresso Nacional Africano). Os Estados africanos que tinham conseguido que a África do Sul racista fosse banida de todas as manifestações desportivas internacionais desempenharam um papel importantíssimo na sua designação para acolher o actual Campeonato do Mundo. Já em 1996, fora atribuído ao país de Mandela o direito de organizar o CAN (Campeonato Africano das Nações) de futebol: uma forma de lhe desejar as boas-vindas ao seio das nações livres do mundo.

É por isso normal que, de Dakar ao Cairo, South Africa 2010 seja sentido como um assunto que diz respeito a todo o continente. A missão da África do Sul é a de provar que África pode fazer tão bem, ou até melhor, que qualquer outro continente. Que o confessem ou não, os milhões de africanos pelo mundo que tremeram com a ideia da aposta poder não ser ganha. Todos compreenderam que as palavras injustas e insultuosas de Beckenbauer – entre muitos outros – tinham uma forte conotação racial. E se algum dia eles estiveram de acordo com Sepp Blatter, foi quando o patrão da FIFA, quebrando a sua reserva habitual, deixou explodir a sua indignação: “Durante o século passado os colonialistas foram para África tirar o que havia de melhor, e agora vão lá buscar os melhores futebolistas. E quando é a vossa vez de devolver o elevador, eles não querem entrar. É uma falta de respeito por África inteira!”.

Por fim, quando uma antiga estrela do futebol alemã, Uli Hoeness, declarou: “Eu não irei, nunca fui a favor de um Campeonato do Mundo no continente africano!”, foi como porta-voz de todos os africanos que o embaixador da África do Sul em Berlim, lhe respondeu em termos acutilantes.

O mínimo que se pode dizer, é que, face a esta campanha hostil, a África do Sul nunca esteve só. E não é isto óbvio? A África do Sul combateu o apartheid com – mas também em nome de – a África. A famosa canção do ANC, «Nkosi Sikelelel’ iAfrica» (« Deus abençoe a África», en xosa) é, aliás, o seu hino nacional actualmente. Além disso, a ideia do “renascimento africano” e da Nova Parceria para o Desenvolvimento de África, NEPAD (New Partnership for African Developpement), são caros a Thabo Mbeki, desde cedo testemunharam a vontade de ligar o destino da África do Sul ao do continente. Para melhor assumir esta ambição, colocou como objectivo ter uma embaixada em cada país africano. Last but not least, um dos slogans da presente « World Cup » é «Africa united».

Long Street, Cape Town

No entanto, o costamarfinense ou o ganês que desembarca em Joanesburgo não tarda a descobrir, por trás destes ardentes testemunhos de fraternidade, uma realidade infinitamente mais complexa. Pode ser resumida assim: “Ao mesmo tempo que deseja ser um país completamente africano, a África do Sul sonha ser um país muito diferente”. Decididamente voltada para a Europa e para a América, em grande parte pelo facto do peso económico e cultural da sua minoria branca, o seu longo isolamento durante a ditadura racista pesa ainda hoje sobre ela. O sul-africano médio conhece bem o Botswana, o Zimbabwé, Moçambique e os seus outros vizinhos, mas – muitas vezes tive essa experiência, até na cosmopolita Joburg (Joanesburgo) – se, em conversa, se falar em Dakar, Ouagadougou ou Tunis, o taxista ou o comerciante fica perdido. Efectivamente, damo-nos conta com estupefacção que o afro-pessimismo foi uma arma terrível ao serviço do apartheid. A propaganda dizia constantemente aos negros que a sua situação, apesar de má, era ainda melhor que a dos países onde reinavam tiranos loucos como Idi Amin e Bokassa. Separados do mundo, os habitantes da Cidade do Cabo ou de Tshwane/Pretória só recebiam imagens de uma África faminta, mal educada e cruel. Em suma, tinha-lhes sido dado um certo olhar ocidental, redutor e deformador, e eles não procuraram ver mais além… Certamente que estas mentiras não impediram que o apartheid se desmoronasse, mas deixaram marcas profundas na consciência colectiva sul-africana:

A norte do Limpopo, começa para os negros o mundo obscuro daqueles que, ainda mais miseráveis que eles, querem vir arrancar-lhes o pão da boca. Um tal estado de espírito pode causar danos terríveis: em Maio de 2008, as revoltas xenófobas da “township” de Alexandra fizeram 62 mortos.

No entanto, pode acontecer que o desejo de se separar da África se exprima de forma muito mais positiva. A África do Sul também está preocupada em aparecer aos olhos do mundo como uma força económica emergente, um Estado de direito moderno e eficaz onde o conta apenas o mérito pessoal. Esta ambição transparece a cada esquina, nas imagens televisivas bem como nos comportamentos quotidianos. Entre os milhares de cartazes que se pode ver por estes dias em Sandon ou Hillbrow, um deles apresenta Joanesburgo como uma “cidade africana de nível mundial”. A formulação é típica da vontade de assumir a sua africanidade sem, no entanto, se deixar aprisionar numa identidade sinónima de caos e de estagnação. E efectivamente, em Joburg tal como na Cidade do Cabo ou em Durban, a paisagem urbana com os seus arranha-céus e as suas avenidas iluminadas, pode sustentar a comparação com Chicago, Montreal ou qualquer outra megapólis do mundo.

Este voluntarismo permitiu à África do Sul construir pesadas infra-estruturas – aeroportos e estados em particular – em menos de seis anos. Apesar da insegurança continuar a suscitar preocupações, o país está preparado. Os seus detractores, que duvidavam que pudesse fazer o suficiente, reprovam-lhe hoje, com uma má fé quase cómica, ter feito demais… No entanto, não é tempo de euforia para os homens de negócios sul-africanos. Houve desistências em massa – 450 mil noites de hotel e 45 mil reservas de voos foram pura e simplesmente cancelados – e só 300 mil visitantes estão presentes, em vez dos 450 mil esperados.

Desejoso de provar que é capaz, o estado sul-africano decidiu tomar as rédeas sozinho. Daí que as considerações do sociólogo etíope Abebe Zegeye, da universidade de Witwatersrand, lamentando que a África do Sul não tenha associado os seus vizinhos ao acontecimento, tenham sido tão mal acolhidas. Uma rádio convidou-o a debater esse assunto com os ouvintes que rejeitaram todos a ideia de partilhar o seu “Mundial” com o Botswana ou a Namíbia.

Aliás, viu-se a ambivalência da sociedade sul-africana face a África durante a venda dos bilhetes. O discurso oficial era: “venham, queridos irmãos africanos, acolher-vos-emos de braços abertos porque este Campeonato do Mundo é vosso”. Decidiu-se inclusivamente que o visto – inexistente para os europeus e os americanos, mas muito difícil de obter em tempo normal pela maior parte dos africanos! – seria automático para cada detentor de bilhete. Mas as autoridades temiam ao mesmo tempo que os candidatos à imigração clandestina aproveitassem a situação para se instalarem no país. Por isso, as fronteiras entreabriram-se com reticências e de 2.88 milhões de bilhetes postos à venda, só 40 mil – isto é, 11 mil pessoas – foram adquiridos por africanos.

Há uma questão que merece ser levantada: Nelson Mandela, que não pôde ser testemunha do desafio entre os Bafana-Bafana e o México no Estádio Soccer City por causa da morte acidental de uma das suas bisnetas, quis este “Mundial” para a África do Sul ou para… toda a África? Seria necessário ser muito ousado para dizê-lo. Parece no entanto – e como criticá-lo por isso? – que, relativamente a este acontecimento, ele pensou, acima de tudo, no seu país. Logo depois da sua eleição em 1994, ele aproveitara o Campeonato do Mundo de rugby – desporto favorito dos brancos – para tentar uma audaciosa passagem em força entre as linhas raciais. No dia 11 de Junho, foi dado o pontapé de saída da segunda parte deste mesmo desafio que a África do Sul joga contra os seus próprios demónios.

O paradoxo é que o resto do continente, que tem muito pouco a ver com estes desafios internos, vai sofrer as consequências de um eventual fracasso. Aos migrantes do Zimbabué, de Moçambique e de outros lados também lhes interessa que tudo se passe da melhor forma. Um inquérito do Observatório da Região de Gauteng, GCRO (Gauteng City Region Observatory), feito a 6636 pessoas, acaba de revelar fortes sentimentos xenófobos em 69 por cento dos residentes da província de Gauteng, que inclui Joanesburgo. Segundo o professor Annsilla Nyar, membro deste importante Observatório, “muitas pessoas que esperavam demasiado do Campeonato do Mundo, vão ficar desiludidas”. E o grupo de investigadores adverte: esta desilusão corre o risco de desembocar em novos ataques contra os estrangeiros – quer dizer, contra os africanos – logo após o campeonato.

Contudo, podemos ter a certeza que, entretanto, sempre que a Argélia, os Camarões, o Gana, a Costa de Marfim e a Nigéria, descerem ao relvado do Soccer City ou ao Estádio Peter Mokaba, o público vai apoiá-los com um fraterno e atroador concerto de vuvuzelas. Jogo duplo? Não: parece antes a esquizofrenia de uma sociedade profundamente fracturada durante tanto tempo…

Publicado originalmente no Neue Zurcher Zeitung – em Zurique, en alemão.

fotos da Cidade do Cabo de Marta Lança

Tradução: Maria José Cartaxo

Fonte: Buala.org

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