Candomblé e transplante- parte II

Por Vilson Caetano*

Em outro texto, quando iniciamos a discussão sobre este tema, trouxemos imagens sugeridas pelos mitos que falam sobre a imortalidade de Osiris e as que nos remetem às ideias de que somos partes do Sagrado. Assim demonstramos que o Todo é mais do que a soma das partes e, mais do que isso, cada parte contém o Todo. Desta maneira cada parte pode estar ou participar de qualquer outra, uma vez que somos nada mais do que fragmentos deste Divino.

Participamos dele através da idéia de “ara”- corpo. Em principio, não existe outra forma de estarmos no mundo prescindindo de nossa corporeidade. A novidade está na suposição de que esta corporeidade não nos esgota, ou melhor, que os olhos nos informam parte da realidade, há outra que permanece invisível entrelaçada daquela que vemos. Até mesmo a realidade é entendida como corpo.

Na filosofia das religiões de matriz africana, Exu, principio de comunicação, é o dono do corpo. Exu é o próprio corpo. Desta maneira cabe a ele a função de fazer com que as partes se comuniquem, se juntem, mantendo a harmonia inicial.

Há um mito que explica esta função do orixá Exu. Aquele onde ele é evocado como “senhor(a) do corpo”, Elegbara. A história conta que após Orunmilá, um dos amigos do velho Oxala, trazer aquela criança para casa, ela começou a comer tudo. Exu comeu de tudo que a boca come. Comeu todas as aves, todos os peixes, todos os quadrúpedes, répteis, como diz o provérbio: “meran mekun”- comeu tudo. Comeu a própria mãe.

Voltando para Orunmilá, este logo apressou-se em fazer uma oferenda e uma batalha sem fim travou-se entre os dois. O corpo de Exu era dividido pela espada de seu pai e, ao final, cada parte voltava a ser o corpo inicial. Estava inventada a ideia de probabilidade e infinito.

Acabado de percorrer todos os espaços da terra, Orumilá e Exu fizeram um pacto. A partir daquele momento ele participaria de tudo como primeiro e assim foi feito. Orumilá foi ordenando e Elegbara foi vomitando tudo que havia engolido, mas agora cada ser tinha seu próprio ara, corpo e participava ao mesmo tempo de Elegbara, o corpo inicial, que, segundo outro mito, teria sido modelado pelo próprio Oxalá.

Desta maneira, Oxalá também se liga ao corpo. Ele é o nosso corpo ancestral, corpo presente nas pedras, nas folhas, na terra e nos antepassados. Desta maneira se diz que Oxalá rege a vida e a morte. Daí ele acompanhar todos os ritos de renascimento como um pano branco sem forma, sem costura, chamado alá. Sob o Alá de Oxalá somos todos iguais. Participamos de sua divindade, nos tornamos divinos.

Que outra ideia podemos evocar para sugerir novas leituras a respeito dos transplantes para o povo de candomblé? Lembrando de alguns mitos, me veio à memória, a história do Orixá Obá que teria tirado uma parte de seu corpo e oferecido em forma de comida ao seu marido a fim de ser considerada por este como a predileta.

Este orixá ainda hoje, nas poucas aparições que faz nos terreiros de candomblé surge com uma folha que ao contrário de esconder o pedaço da orelha tirada, visa mesmo recompor, regenerar, substituir, parte daquele órgão. Isso só é possível graças à crença de que no universo todas as coisas podem ser representadas pelas outras, afinal, no começo somos iguais, a separação veio depois, como lembrou uma tia certa ocasião.

É este fato que dá possibilidade à folha de recompor a orelha de Obá, sem falar no fato que já lembramos que há folhas que representam o corpo todo. Acredito haver outras histórias contadas pelos nossos tios e tias que podem contribuir com esta discussão ou ao menos nos ajudar a romper o silêncio e o preconceito quando se trata de transplante e gente de candomblé.

No mais, para uma conversa inicial, acredito que trouxemos algumas provocações. Agora é refletir ao menos de que forma podemos marcar a nossa participação no mundo.

*Vilson Caetano é doutor em antropologia

Fonte: Folha Online

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