Em Cachoeira, a Irmandade da Boa Morte

De todas as festas religiosas da Bahia, ela é considerada a mais importante, a mais negra e com maior volume de sincretismo e força feminina no Estado.

Por volta das oito e meia da manhã de um domingo ensolarado, chegamos à Cachoeira, no Recôncavo Baiano, distante pouco mais de 100 quilômetros de Salvador. Logo ao descer do carro, às margens do rio Paraguaçu – do outro lado está São Félix, coisa de cinema, tamanha a beleza de sua simplicidade – percebo o quanto o dia será produtivo e agradável. Primeiro por ver (e sentir) toda a religiosidade da Festa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, celebração com mais de 150 anos que une cultos católicos com manifestações de matriz africana, cujo ápice aconteceria dali a algumas horas com a procissão das irmãs – todas negras, mães de santo, ligadas ao candomblé e com idade acima de 50 anos. A outra satisfação seria por conta da arquitetura do local. Cachoeira, depois da capital Salvador, é a cidade baiana que tem o maior acervo no estilo barroco do país. Na época do Brasil império, foi uma das mais importantes e ricas cidades brasileiras, devido à sua privilegiada localização (com rotas fáceis para o sertão, o recôncavo, Minas Gerais e Salvador). Impossível não se impressionar com o casario, as igrejas e os prédios históricos, além, é claro, da tranquilidade que reina por aquelas bandas. Cachoeira – em qualquer época do ano – é um importante polo turístico da Bahia.

EXPRESSÃO A juíza perpétua mãe Estelita - a mais idosa do grupo, com 105 anos.

PIPOCA EXPECTATIVA E EMOÇÃO

Devagar, percorri as ruas do local que, pouco a pouco, iam se transformando com a chegada de vendedores, devotos e turistas de todas as partes, muitos estrangeiros e, em sua maioria, americanos. Todos tomavam a direção do entorno da sede da Irmandade. No caminho, pedi pipoca. Um banho, literalmente! O ritual – ligado a São Lázaro (ou Omulu) e São Roque (ou Obaluaê), santos protetores dos doentes no catolicismo e no candomblé, respectivamente, serve para pedir, agradecer pelas coisas boas ou cura de alguma enfermidade e, claro, para limpar o corpo, tirar o olho gordo ou qualquer outro tipo de problema. Uma espécie de proteção que, por via das dúvidas, não deixei passar. Chegando à sede, uma multidão se aglomerava em frente ao portão onde era possível ver os

últimos preparativos para o cortejo. Dentro da casa, senhoras elegantemente vestidas davam os últimos retoques para viverem o seu momento de celebração, de celebridades. Exagero? Nenhum, se contarmos o número de fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas ali presentes.

Reverência das irmãs à Virgem Maria (no detalhe) dentro da igreja lotada de fiéis - católicos ou do candomblé.

ABOLICIONISTAS, SIM SENHOR!

Quando o portão se abriu, palmas, muitas palmas para reverenciar a juíza perpétua (cargo maior da Irmandade), mãe Estelita – a mais idosa do grupo, com 105 anos – e as outras irmãs. Afinal, elas representam o que é considerado o primeiro movimento abolicionista de mulheres da história. Uma resistência negra que participou ativamente de rebeliões cujo objetivo maior era a liberdade e o direito dos negros na sociedade brasileira, além de alforriar escravos ou facilitar fugas. A Irmandade da Boa Morte surgiu na Barroquinha, em Salvador. Ex-escravas ou descendentes reverenciavam a Virgem Maria em locais católicos, porém, longe de padres e igrejas, a atenção era voltada aos orixás. Quando a prática tornou-se pública, foram expulsas de Salvador e seguiram para a região de Cachoeira, fortíssima em relação à cultura africana, com muitos quilombos, e ideal para a prática e preservação dos costumes religiosos, até então proibidos no Brasil.

Em outros tempos, a Irmandade da Boa Morte chegou a contar com cerca de 200 irmãs. Hoje, tem apenas 23. Infelizmente, devido a falta de interesse das novas gerações, a tradição corre sério risco de acabar. “A gente não vê a renovação das irmãs, a nova geração participa mais dos eventos, não do processo. Entrar na Irmandade é uma coisa difícil, muito fechada, como era a religião do candomblé antigamente. A nossa preocupação é essa, não deixar que a tradição se acabe”, comenta Billy Arquimino, coordenador de Turismo Étnico Afro da Bahiatursa. As irmãs também se preocupam, mas existe uma pré-seleção, um estágio e muitas etapas para chegar a ser uma delas. O processo é demorado, cheio de exigências e segredos centenários.

SACRO E PROFANO

De volta ao cortejo, a emoção fica estampada nos rostos dos fiéis, seja católico ou candomblecista. Aliás, a parte católica da festa é a reverência à Virgem Maria que entrou em dormição (a tradição substitui a palavra morte por dormitio – dormição) e, levada a um sepulcro pelos apóstolos, eles não a encontraram no local, três dias depois, tendo subido ao céu de corpo e alma. Já o lado do candomblé é um grande mistério, fato que caracteriza a Irmandade.

A festa sagrada tem antigos rituais estabelecidos e seguidos à risca. No primeiro dia, as irmãs fazem o cortejo com o esquife de Nossa Senhora saindo da Capela D’Ajuda em direção à capela da Irmandade, onde é celebrada uma missa em memória das almas das irmãs falecidas, seguida da sentinela e da Ceia Branca, composta por pão, vinho, peixes e frutos do mar – sem dendê. No segundo dia, uma missa simbólica de corpo presente abre a programação, seguida da procissão de enterro de Nossa Senhora da Boa Morte. No domingo, último dia da chamada “parte religiosa”, tem a missa de Assunção de Nossa Senhora da Glória e a procissão. As roupas usadas pelas senhoras são um espetáculo à parte. O luto pelas irmãs já falecidas é representado pelo branco. Para o ritual simbólico do sepultamento de Nossa Senhora, elas se apresentam de saia preta, blusa branca bordada e lenço branco no cabelo. Um xale de veludo, com faces vermelha e preta, é utilizado durante o percurso, com o lado preto voltado para fora. Já na procissão de Assunção de Nossa Senhora da Glória, a face vermelha fica à mostra, em meio à beca, às joias e aos orixás.

A procissão pela cidade – após a missa – é a última etapa da festa religiosa. Depois da caminhada, as irmãs almoçam com convidados na sede da Irmandade e a programação é fechada com samba-de-roda no Largo D’Ajuda.

A partir daí, inicia-se o lado profano da Festa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, que se estenderia até terça-feira. Eu não fiquei muito tempo por lá para contar toda a história, mas as ruas se inflamam de gente a fim de diversão. Como diz o bom baiano: “Pense em uma festa popular, um carnaval, com samba, reggae, forró, músicas comerciais (o espaço é democrático). Pensou? Pronto!”

Traje de gala: face vermelha à mostra, em meio à beca, às joias e aos orixás.

Fonte: Revista Raça Brasil

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