O Hip Hop e a rima denúncia

Jaime Sodré analisa força política do hip hop. Foto: DJ Branco | Divulgação

 Por Jaime Sodré*

Estávamos em Blacktude na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, cedida pela dinâmica Maria Roseane, a diretora, para reflexões adultas em um ambiente infantil. A mesa era composta por Nelson Maca, excelente na Literatura Negra, GOG-Genival Oliveira Gonçalves, excepcional Rap, e Albino Rubim, Secretário de Cultura, democrata, aliado.

Os primeiros reivindicavam e havia para mim um clima de déjà vú ao contemplar o chapéu, no estilo dos velhos sambistas, ostentado por GOG, em contraste com a cabeleira de Maca e a escassez na cabeça de Rubim, careca de saber.

Estavam para cobrar, o Rap tem esta função. Assim como faziam os bambas de ontem, de forma melódica denunciando a exclusão: “Ai barracão pendurado no morro e pedindo socorro a cidade a seus pés.” Nada mudou?

O que se nota é a eterna luta. A arma melódica de hoje é o Rap, “Mas esteja convencido: Quem fere com ferro, é serio, Um dia com ferro será ferido”, recita GOG no seu livro A rima denuncia. Mudou-se a trilha sonora, mas a realidade parece persistente. O Rap e o Hip Hop, (Afrika Bambaataa foi o primeiro a utilizar este termo), são bem aventuradas expressões políticas, artísticas e rebeldes de forte sabor juvenil onde o SCRCRAAANTSHHH é o deslizar da agulha no velho vinil.

Destaco na cena baiana o magistral DJ Branco, da Evolução Hip Hop, na Rádio Educadora, mas que história é esta? Rap significa Rhythm and Poetry, ou seja, Ritmo e Poesia. De singular melodia, caracterizada por suas letras recitadas, onde a comunidade periférica, em especial a negra, o “gueto”, expõe suas questões.

Para alguns tem como berço a Jamaica dos anos 60, com os seus Sound Systems e bailes com os seus “tagarelas”, MC’s, que “cronificavam” a violência nas favelas de Kingston, aspectos políticos, sexo e drogas. Deslocaram-se para os Estados Unidos na década de 70 em função da situação de crise.

Credita-se a Kool Herc, jamaicano, a instalação em Nova Iorque da tradição dos Systems e o canto falado, mais tarde incorporando o SCRATCH. Nos anos 70 tivemos o genial Kingtim III da Banda Fatback, ativista do Rap, colaborando na divulgação das questões negras. O movimento chega ao Brasil nos anos 80, ganhando espaço em 90 na indústria fonográfica, aqui os “tagarelas” somam-se aos Breakers, sendo realizado o primeiro registro com Nelson Triunfo, Thaide & DJ Hum, MC/DJ Jack, Código 13, dentre outros.

O Hip Hop chega nos 80, com bailes e movimentações na 24 de Maio, em São Paulo, espaço dos Metralhas e o “icônico” Racionais MC’s. Assim como historicamente aconteceu com o samba, este movimento fora perseguido pela polícia, instalando-se porém em São Bento e outros na Pç. Roosevelt. Lá estavam, enfezados, rolando no solo, com saltos característicos, resistindo.

Ao contrário do samba, não tem remelexos, são gingados agressivos, bordoada contra o racismo, o desemprego, a polícia, os políticos e as injustiças. Uma cultura visceral, agressiva, rebelde, com códigos corporais e gírias. Em um cenário urbano ou periférico, expõe as mazelas sociais, com suas calças largas, bonés, tênis, e expressão artística que incorpora as artes plásticas com os grafites, de traços particulares e riqueza de cores.

Os Rappers, os Fanqueiros, “não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também”, em um compasso diferente, sem esconder as mazelas sociais e raciais. “Vozes Marginais na Literatura” é o livro de Érica Peçanha do Nascimento onde fala desta cultura periférica, ornada pelas questões sociais e econômicas, necessitando de oportunidade para a afirmação da sua estética e respostas aos “novos-velhos” questionamentos.

DJ Bandido, B.Boy Ananias e B.Girl Tina, Fúria Consciente, Graffite Lee 27, DJ Môpa, Daganja, Negro Davi, Anjos do Gueto, Calibre Mc e Fall, Quatro Preto, RBF e Os Agentes, “é a Bahia aí mermo, mano”. São 15 anos de Hip Hop em movimento na Bahia, mas isto é outra história. Versos longos, insubordinação, dança robótica, grafite são os elementos artísticos de um questionamento que merece atenção e respostas.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé

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