Por um ambiente com amor

Mãe Stella faz bela reflexão sobre importância de preservar o meio ambiente. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag A TARDE | 05.10.2010

No dia 27 de abril, o artigo versou sobre o Dia das Mães, que só aconteceria em 8 de maio – futuro; o de 25 de maio foi sobre o Dia da África – presente; agora o tema é Amor ao Meio Ambiente – passado, já que estamos em 8 junho e o dia do Meio Ambiente foi dia 5. Sinto que este artigo começa de maneira um tanto quanto enfadonha, mas me despreocupei quanto a isso quando lembrei que a vida é feita de momentos diversificados e muitos deles têm que ser “maçantes” mesmos, pois são necessários por algum motivo.

A minha razão para iniciar assim este artigo é dar uma explicação para o fato de escrever sobre algo que já aconteceu, uma vez que um jornal tem como uma de suas principais funções fornecer notícias, isto é, aquilo que se constitui em novidade. Mas como se diz que “de um limão se faz uma limonada”, aproveito-me para lembrar a todos sobre a importância que devemos dar ao tempo, constituído de passado, presente e futuro.

Um pensamento leva a outro e relembrei-me de uma “historinha”: os sentimentos moravam em uma ilha, condenada a ser tragada pelo mar. Eles teriam que fugir dali o mais rápido possível. O Amor ajudou a todos e ficou só, sem saber como salvar-se. Via as canoas passarem com os diversos sentimentos e começou a pedir a socorro, mas cada um deles encontrava uma desculpa: Riqueza disse que sua canoa estava carregada de jóias e que não tinha espaço; Tristeza disse que não tinha ânimo para socorrer ninguém; Egoísmo foi ainda mais longe ao condenar o Amor por se preocupar tanto com os outros e se esquecer dele mesmo.

Cada um encontrava um motivo. O Amor ficou desesperado, até que surpreendentemente parou uma canoa para socorrê-lo – era o Tempo. Curioso, o Amor quis saber porquê somente ele lhe auxiliou. O Tempo disse: porque só eu – o Tempo – sou capaz de entender a grandiosidade do Amor.

O tempo e o amor estão nos acordando para a urgência de cuidarmos do ambiente em que vivemos e para a obrigação que cada um tem de fazer sua parte, com atos mínimos como: conservar o solo limpo (falar nisto, nunca mais vi uma pessoa varrer o passeio de sua casa!); separar o lixo da residência; evitar fazer compras com sacos plásticos (engraçado, por que será que antes sobrevivíamos sem eles e agora não?) e outras “coisitas” mais.

Eu, a fim de ter minha consciência tranqüila enquanto cidadã, no dia 5 de junho me reuni com um grupo de pessoas e “pessoinhas” também atentas ao tema, para juntos nos fortalecermos no que diz respeito a essa luta. Pois, “nós podemos muito, juntos podemos muito mais”.

Esta é a filosofia da palavra axé que, por ser tão empregada na Bahia, temos o dever de entendê-la muito bem. Na língua yorubá, o imperativo das palavras se chama “oro ìpàxé”, vindo daí a palavra axé, significando poder e comando místico. Toda pessoa tem axé pessoal, mas o axé coletivo possui muito mais força.

Por isso, tudo que eu faço no candomblé, procuro convocar a comunidade. É uma forma que tenho de dizer: “É máa pe k’óxé”, que cada um coloque seu axé para apoiar esta minha oração. Ao que todos devem responder: “axé”, que assim seja. Pois “ohun èwí ayé báwí òun” – aquilo que a coletividade quer (e um forte e coletivo querer, gera poder) é o que as divindades aceitam e aprovam.

Meu encontro com vários pais e filhos que escutaram a estória de Epé Laiyé – Terra Viva, contada de maneira deliciosa por um grupo de voluntários, foi uma espécie de oração coletiva, pedindo a Olorun que olhe para nosso Planeta e nos inspire a cuidar dele como amor, carinho, respeito e, acima de tudo, gratidão.

Tenho certeza que seremos ouvidos! Afinal, quem resistiria a pedidos feitos por crianças, que encontraram uma forma própria e toda especial de evocar as divindades? Elas rezaram através de desenhos. E que desenhos lindos!

Refletimos sobre a responsabilidade com o meio ambiente, mas também sobre o amor e o tempo. Vem aí o Dia dos Namorados. Você está dando um tempo para o amor ou está dando um tempo no amor? Este sentimento precisa ser vivido no tempo presente, com presença e presente.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

 

Fonte: A Tarde

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