Projeto para todos

Intérprete, compositora, sambista e deputada estadual. É difícil descrever Leci Brandão num só título, mas, se levarmos em conta não suas habilidades e sim seu histórico de vida, uma só palavra pode sintetizar essa mulher: guerreira!

Você foi a primeira mulher a entrar na ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira. Me conta um pouco dessa história.
Eu já era compositora desde 1964, comecei a fazer música por causa de uma desilusão amorosa, e o Zé Branco, componente da ala dos compositores da Mangueira, conhecido da minha família e que já sabia que eu era compositora, foi quem teve a ideia de me apresentar na ala. Nessa época os compositores faziam reunião no centro da cidade, na garagem da Limpeza Urbana. Ele resolveu me apresentar lá e houve um espanto para os quase 40 homens de uma escola de samba tradicional e respeitada como é a Mangueira. Essa reunião, para você ter uma ideia, tinha o Pelado, o Turco, Mãe Léo, Tantinho, Jurandir, todo esse pessoal. Grandes baluartes da ala dos compositores da Mangueira estavam presentes.

E como foi a reação?
Ficaram espantados e perguntaram o porquê da minha presença lá. O Zé Branco disse: “Ela é compositora, participou de festival estudantil e queria que ficasse na ala.” Eles falaram: “Então, você vem na semana que vem e traz uma carta explicando os motivos pelos quais gostaria de ingressar na ala.” Na semana seguinte fiz uma carta dizendo para eles que eu considerava a ala dos compositores da Mangueira a “Universidade do Samba” e queria aprender nessa universidade para saber a versão do Partido Alto. Ninguém sabe por que eu toco pandeiro. Toco porque via o Zagaia, que tocava pandeiro na ala deles. E colocaram uma condição pra mim: “Você vai ser aceita simbolicamente e durante um ano vai fazer samba de terreiro e, se passar no estágio, entra para a ala.”

E durante um ano fiquei apresentando sambas de quadra, de terreiro, os pagodes. Em 1972, recebi a carteira oficial e comecei a desfilar na Mangueira, inicialmente na ala dos compositores. Cheguei às finais de samba-enredo por seis vezes. Sou hexacampeã de vice-campeonato (risos). Não venci com os sambas por minhas músicas serem políticas e tal, passavam um recado um pouco mais sério e isso nem sempre agradava.

Você, ao lado de Luiz Melodia, faz parte de um raro grupo de artistas populares que fizeram sucesso sem aparecer na mídia. Como explicar isso?
São 36 anos de carreira, muita coisa mudou nesse caminho. Começo oficialmente em 1975, quando lanço meu primeiro LP pela gravadora Marcos Pereira. Mas por que eu tive um início assim bacana? Talvez porque não queria ser artista. Eu trabalhava na Universidade Gama Filho e fui parar lá por causa do programa Flávio Cavalcanti, onde me apresentei em janeiro de 1968 e fui a melhor da noite como compositora. O grande espanto do júri foi que a letra e a música eram minhas. “A letra também é sua?”, perguntaram. Era engraçado, uma menina negra, telefonista da Companhia Telefônica Brasileira (CTB), como compositora em um programa que era o de maior audiência na época. Um espanto!

E qual foi o prêmio? 
Ganhei uma bolsa de estudos da Universidade Gama Filho, consequentemente, acabei ganhando um emprego também, porque a CTB ia me promover por causa do resultado do programa, mas esqueceu o que prometeu. Eu, muito ousada, pedi demissão e fui trabalhar numa fábrica de cartuchos do exército em Realengo. Trabalhar com metal, ser operária perto da minha casa, não precisava pegar condução.

E o emprego na Gama Filho, onde entra? 
Minha mãe, que tem o mesmo nome que eu, era servente de escola e foi levar ofícios da escola Nicarágua, onde morávamos, para a Secretaria de Educação, no centro da cidade. Na hora de assinar o protocolo, a moça falou: “A senhora tem o mesmo nome daquela menina do Grande Chance“. “É minha filha”, disse minha mãe. “Parabéns, ela foi promovida, está bem na CTB, né?”. “Não está nada, ela está numa fábrica em Realengo, pediu demissão.” A moça ficou indignada. “Nossa, mas será que o secretário de Educação sabe disso? Aqui foi um comentário quando a Leci se apresentou no Flávio Cavalcanti, menina tão inteligente…” Eu sei que a moça colocou a minha mãe para falar com a secretária do Gonzaga da Gama Filho, que morava no Leblon. Pediu para eu falar com a irmã dele. Eu morava em Realengo e, em um sábado, saí mais cedo da fábrica, peguei um trem na Central do Brasil e um ônibus para o Leblon, cheguei lá no prédio com um apartamento por andar. Nunca tinha entrado num negócio daquele. Mostrei as minhas mãos cheias de calos para a filha do Gama Filho. Eu ficava examinando as balas de festim, era um serviço sujo mesmo. Ela chorou e disse: “Como é que você está assim desse jeito, uma moça que se apresentou no programa do Flávio e a CTB ia fazer tanta coisa por você.”

 “EU AS PESSOAS PODEM ESPERAR DE MIM DIGNIDADE NO MEU MANDATO, VOU PROCURAR DE TODAS AS FORMAS ATENDER E CUMPRIR AS PROPOSTAS QUE APRESENTEI NA CAMPANHA. NÃO É FÁCIL TER PROJETOS APROVADOS NO PRIMEIRO ANO DE MANDATO, ATÉ PORQUE NÃO ESTOU FAZENDO PROJETO PARA RECEBER PALMAS DA GALERA”

Quando isso tudo aconteceu?
Em 1968. Cantei no Flávio em janeiro, em junho fui para a fábrica e em novembro fui à casa da dona Palmira Gama Filho. “Aguarda um pouco, liguei para o meu pai que é dono da Universidade”, ela disse. Daí a pouco, ele chegou, cabelo branco, tudo para trás, todo vestido de branco. Entrou naquela sala enorme, sentou e falou: “Eu vi a sua apresentação, mas não fizeram nada por você? Fala com o seu chefe que você fica trabalhando até o final do mês, para não perder o seu salário e, a partir de 1º de dezembro, vai começar a trabalhar lá na universidade em alguma secretaria. Quanto é que você ganha?” “Eu ganho CR$ 60,00 cruzeiros, quando faço serão, consigo um pouco mais”, respondi. “Tudo bem! Vai começar com CR$ 300,00 cruzeiros”. Eu quase cai, desmaiei. Comecei a trabalhar no departamento pessoal da Universidade Gama Filho a partir de 1º de dezembro de 1968.

Já ouvi várias declarações suas render muitas homenagens e até certa gratidão por São Paulo, considerado por muitos como o túmulo do samba. Como analisa isso, você, uma sambista carioca fazendo sucesso em São Paulo?
Em 1986, conhecia bastante coisa em São Paulo. Conheci Seu Chiclete, Tobias, Dona Sinhá (comi camarão na moranga, nunca tinha comido na minha vida), Seu Nenê, Juarez. Fui conhecendo São Paulo, os anos 70, depois que comecei a me tornar uma artista profissional. Sendo da Magueira, as pessoas me convidavam, tanto é que o Cartola fez uma miniturnê comigo, em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, depois acabamos convidados para fazer o programa Ensaios, com Fernando Faro, que virou um DVD que a Trama fez em preto e branco, super chic. Ainda não tinha gravado. Estava começando na Mangueira, e Cartola já se apresentando no programa de televisão.

Então, essa coisa de dizer que São Paulo é o túmulo do samba, não é bem assim. Naquele show no Centro Cultural Vergueiro, a gente já cantava “Me perdoa poeta quem disse que São Paulo é o tumulo do Samba?”Estive em Pirapora e foi muito bom porque conhecemos o pessoal do samba rural, coisa maravilhosa, muito legal. Você não pode dizer que um Estado com escolas com mais de 70, 80 anos não tinha história de samba. Tem muita história, é claro que é uma batida diferente, mas aqui tem o berço cultural do samba de São Paulo.

Desde o início de sua carreira, você sempre levantou bandeiras difíceis. 
O dia que eu vi um homossexual sofrendo bulling em Copacabana, fiz uma música chamada Ritual, que falava daquele povo que ia ao teatro gritar “maravilhoso” para o Nelson Cavaquinho. No 1º LP, chamadoGrêmio Recreativo Escola de Samba, cantava a pedra do que ia acontecer no carnaval, que já estava mudado. Saía da raiz para essa coisa hollywoodiana e tal, ali já começava a crítica. No segundo eu já começava… No terceiro, foi coisa do meu pessoal, arrebentei! Tinha um samba chamado Status, eu brinquei com essa palavra, fiz em homenagem a João Nogueira, contando que o meu povo trabalha a semana toda e, quando chega o final de semana, vai para o baile, vai pra cá, pra lá. Fiz Marias, falando da diferença da Maria da cidade e da Maria do subúrbio, uma tem uma vida, outra tem outra, né! Era muita crítica.

 “EU AINDA SINTO FALTA DA MULHER NEGRA EM PROFISSÕES LIBERAIS. NUNCA VI UM COMERCIAL COM UMA NEGRA MÉDICA, ENGENHEIRA. GOSTARIA DE VER MAIS MÉDICAS NEGRAS, MAIS ENGENHEIRAS NEGRAS, PORQUE A QUESTÃO SOCIAL PESA E É POR ISSO QUE A GENTE TEM QUE VIR PARA A ASSEMBLÉIA E BRIGAR PELA EDUCAÇÃO, PELO ACESSO DAS PESSOAS”

Essa trajetória de luta te levou a optar pelo Partido Comunista do Brasil? 
Não escolhi o partido. Fui convidada. Foi o ministro Orlando Silva e o Netinho de Paula, dois homens negros e políticos, que me convidaram. Demorei quase oito meses para dar a resposta, não queria me meter nisso. Acho que o meu trabalho musical, como compositora, é um trabalho político, é um trabalho consciente.

Qual foi a sua primeira reação ao convite? 
Falei que não queria. “Não é por aí, não quero me meter na política.” Aí os movimentos sociais fizeram uma pressão danada. “Você tem que ir, é a única negra que a gente pode confiar. Temos que ter lá dentro uma pessoa da gente, uma Assembleia conservadora, só teve a Dra Theodosina, nunca mais mulher negra … Somos onze deputadas aqui, como mulher negra, sou a segunda na história dessa Assembleia, é um fato histórico. Mas uma coisa percebi: pensei que os jornais fossem fazer matérias comigo, mas dar uma página inteira para a Leci Brandão é complicado, hein? A segunda mulher negra… Se eu fosse de um outro estilo, uma gostosinha, bonitinha, como fizeram com a mulher do Temer no dia da posse. O que eles querem é isso. Como não faço a linha estética que a mídia gosta, ninguém teve interesse.

E sua votação? 
Mais de 85 mil votos, não é qualquer coisa. Eu tenho consciência de que o meu público é, em sua maioria, C, D, E, é zona leste, zona sul, o povo que me acompanha, o povo que samba, os meninos do hip hop. É claro que tenho uma galera intelectual que me admira pela minha história e pela minha atitude, tanto é que nunca fizemos um discurso racista contra o branco. Você pode pegar todos os meus LPs que têm a questão da etnia, eu falo defendendo a gente, não falo contra o outro. Muita gente disse para mim: “Nem gosto de samba, nem tenho seus LPs, mas ouço as suas entrevistas, a sua postura, gosto de você cidadã, você é muito humilde, muito simples. Acho que cheguei até aqui também porque os negros e as negras de São Paulo votaram na gente, com certeza.

Em sua campanha você declarou que queria se candidatar para levantar bandeiras contra o preconceito e a injustiça social. Agora, como deputada, já se deparou com esses temas?
Nós já fizemos, inclusive, reuniões com gestores de igualdade racial, reunião com os religiosos de matriz africana, pais e mães de santo. Não audiência pública, trouxemos para dentro da Assembleia para fazer uma reunião, discutir as coisas, quais os encaminhamentos que aqui faltam. O primeiro ato que fizemos aqui foi a comemoração do Dia do Orgulho Gay, entregamos placas em homenagems às pessoas importantes desse segmento. Dentro do gabinete, temos uma representante do LGBT, a Marcia Cabral, muito inteligente. A nossa assessora de comunicação é do Pará, tem uma carinha de índia. Tem a Dra Andrea, uma das pessoas que faz toda a parte dos processos e acompanha as comissões, a Dra Eliane, esposa do Mano Brown, Roberto Almeida, Eliseu, a Rosina UBM, o Julião, da Unegro. Todo mundo que estava na campanha eu trouxe para o gabinete.

Lembro que um de seus primeiros grandes sucessos falava nas mulheres negras – Benedita da Silva, Ruth de Souza, Winnie Mandela e até nas mães da favela. Quase trinta anos depois, o que mudou nessa realidade? 
Talento de verdade, essa música nasceu da seguinte forma. Tudo tem uma razão. Uma vez conversando com uma menina, perguntei qual era a sua profissão. Ela respondeu que era mulata”. “O quê? O que é isso, eu não sei.” Aí cantei: “Mulher deixa de bandeira, mulata não é profissão (…) se você quer saber o que é seriedade, é Benedita da Silva…”. Eu ainda sinto falta da mulher negra em profissões liberais. Nunca vi um comercial com uma negra médica, engenheira. Gostaria de ver mais médicas negras, mais engenheiras negras, porque a questão social pesa e é por isso que a gente tem que vir para a Assembleia e brigar pela educação, pelo acesso das pessoas. Um curso de medicina é caro, e as famílias negras não têm uma estrutura financeira para sustentar um filho numa universidade. Os livros são caros, tudo muito caro. Quando chega na hora do vestibular, ele contempla o pessoal que pode fazer o cursinho caro também. Então, o nosso povo não pode. Por que eu aplaudo o Luiz Inácio Lula da Silva? Porque o Prouni e todos esses programas que foram feitos na questão da educação, cotas mesmos, dando oportunidades aos pobres de poderem cursar uma universidade sem precisar pagar, é o único caminho que a gente tem para chegar lá.

O que o povo do samba e os negros paulistas podem esperar da deputada Leci Brandão? 
Não só os negros, mas a população do estado de São Paulo. As pessoas podem esperar de mim dignidade no meu mandato, vou procurar de todas as formas atender e cumprir as propostas que apresentei na campanha. Não é fácil ter projetos aprovados no primeiro ano de mandato, até porque não estou fazendo projeto para receber palmas da galera. Queremos fazer projetos que sejam interessantes, que atendam a população no todo. Não estou fazendo projeto só para negro, para branco, para índio, e sim projetos para as pessoas, para o povo do estado de São Paulo, seja ele da capital ou do interior. Embora seja carioca, a gente sempre enfatizou, na nossa fala, aonde for, em qualquer tipo de entrevista, que sou uma pessoa que ama São Paulo, devo tudo de positivo que aconteceu na minha vida nos últimos 25 anos. Se não tivesse vindo para este Estado, não sei se minha carreira teria continuado. Não sei se teria sido comentarista de Carnaval por oito anos, de 2002 a 2010. Devo muito ao povo do samba, às torcidas, aos menos favorecidos, principalmente, ao povo trabalhador. É aquela história, sou filiada ao PC do B, mas outros partidos também colaboraram para a minha eleição. Todos eles foram importantes.

Fonte: Raça Brasil

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