Preto e Branco

Estive recentemente na Fundação Pierre Verger, em Salvador, compreendendo que estava no templo de um europeu com alma baiana. Excepcional fotógrafo e etnólogo, o franco-brasileiro autodidata Pierre Verger fotografou em preto-e-branco – e com fecunda sensibilidade – a Bahia, e os corpos que ele retratou são peitos, troncos e bundas enrijecidas pela história e pela vida dura. São homens açoitados pela escravidão numa Bahia que é graça, prazer, leveza, mas também luta. Após a idade de 30 anos, depois de perder a família, Verger assumiu a carreira de fotógrafo, usando uma máquina Rolleiflex. Durante os quinze anos seguintes, ele viajou os quatro continentes e documentou muitas civilizações que seriam apagadas logo através do progresso, publicando suas expressivas fotos em revistas como Paris-Soir, Daily Mirror, Life e Match.

Na cidade de Salvador, apaixonou-se pelo lugar e pelas pessoas. Seduzido pela hospitalidade e riqueza cultural que encontrou, acabou ficando. Como fazia em todos os lugares onde esteve, preferia a companhia do povo, os lugares mais simples. Os negros monopolizavam o lugar e também a sua atenção. Além de personagens das suas fotos, tornaram-se seus amigos, cujas vidas Verger foi buscando conhecer com profundidade. Quando descobriu o candomblé, acreditou ter encontrado a fonte da vitalidade do povo baiano e se tornou um estudioso do culto aos Orixás, passando a investigar a diáspora africana – o comércio de escravos, as religiões afro-derivadas do novo mundo, e os fluxos culturais e econômicos etc. Depois de estudar a cultura Yorubá e suas influências no Brasil, tornou-se um iniciado da religião Candomblé, assumindo o nome religioso Fatumbi (“renascido pelo Ifá”) e exercendo seus rituais como babalawó (sacerdote Yorubá). Ele definia o Candomblé como: “uma religião de exaltação à personalidade das pessoas. Onde se pode ser verdadeiramente como se é, e não o que a sociedade pretende que o cidadão seja. Para pessoas que têm algo a expressar através do inconsciente, o transe é a possibilidade do inconsciente se mostrar”.
As contribuições de Verger para a etnologia constituem em dúzias de documentos de conferências, artigos de diários e livros, e foi reconhecido pela Universidade de Sorbonne, que conferiu a ele um grau doutoral em 1966 — um real feito para alguém que saiu da escola secundária aos 17 anos de idade. Ele continuou estudando e documentando sobre o assunto escolhido até a sua morte em Salvador, aos 94 anos. Em seus últimos anos de vida, a sua grande preocupação passou a ser disponibilizar as suas pesquisas a um número maior de pessoas e garantir a sobrevivência do seu acervo. Seu trabalho como fotógrafo influenciou notadamente nomes consagrados da fotografia contemporânea como Mario Cravo Neto e Sebastião Salgado, entre outros. A entidade sem fins lucrativos Fundação Pierre Verger guarda mais de 63 mil fotografias tiradas por ele, como também seus documentos e correspondência.

Algumas publicações:
“Pierre Fatumbi Verger: Dieux D’Afrique” (1954), de Paul Hartmann;“Notas Sobre o Culto aos Orixás e Voduns” (1999);“Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos” (1985);“Ewé, o Uso de Plantas na Sociedade Iorubá” (1995);“Retratos da Bahia – Pierre Verger” (l980).

Fonte: Buala

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