BBB – Bom,bonito, barato

Mãe Stella faz reflexão sobre uso do dinheiro no âmbito da espiritualidade. Foto: Reuters/Bruno Domingos

Maria Stella de Azevedo Santos

Uma grande liquidação é considerada por muitos baianos o verdadeiro Big Brother Bahia – Grande Amigo da Bahia –, mais precisamente de sua capital, onde terminou de acontecer a “Liquida Salvador”, momento em que muitos pontos comerciais colocaram seus produtos à venda por um preço bem mais baixo. Isso, pelo menos, foi o prometido. No entanto, para um bom observador, como em qualquer setor, há os que cumprem o prometido e os que se aproveitam do interesse consumista do ser humano para tentar obter lucros de maneira abusiva.

Nada contra o ato de comprar, muito pelo contrário! A compra e a venda conscientes geram prosperidade, prazer e uma melhor qualidade de vida para o povo, que é para quem a economia deve estar a serviço. E quando falo povo, estou referindo-me a toda a população, e não dividindo esta em classes: A, B, C, D, E… O que quero aqui, na verdade, é aproveitar o momento para falar sobre o dinheiro, de modo a chamar a atenção de todos para que deem a ele o valor na medida certa: sem supervalorizá-lo, nem subestimá-lo.

Uso aqui a palavra Troca com letra maiúscula para demonstrar a importância deste comportamento, que é uma Lei Universal. A terra nos alimenta, mas pede em troca os nossos corpos como alimento. A Lei da Troca, como todas as leis que entendemos regular o Universo, não está limitada a nenhum setor. Como seu próprio nome diz, ela é universal, tendo a obrigação de fazer parte da vida, nos seus diversos e diferentes setores: na família, somos cuidados quando crianças e em troca cuidamos de quem de nós cuidou; entre amigos, um “muito obrigado” pede um “não há de que”; no trabalho, entregamos serviços e recebemos salários… A palavra salário, inclusive, serve para lembrar que a troca, exatamente por ser uma Lei Universal, sempre existiu. Se nos dias atuais o elemento material representativo da troca é o dinheiro, já houve tempo em que foi o sal, de onde deriva a palavra salário.

Sempre existiu e sempre existirá a troca. E por ser esse um comportamento tão essencial, o elemento material que o representa, nas diferentes épocas, deve ser tratado com cuidado e respeito, pois se sua falta faz falta, seu excesso pode fazer um grande estrago para a caminhada de quem o possui e até mesmo para a de seus descendentes. É por essa razão que as religiões têm cuidado com o uso do dinheiro, encontrando cada uma sua maneira de ensinar seus adeptos a lidar com ele de modo a colaborar, e não prejudicar, a espiritualidade deles: algumas religiões estipulam o dízimo, tendo como um dos objetivos doutrinários lembrar permanentemente que, pelo menos, dez por cento de suas vidas deve ser dedicada à espiritualidade; outras deixam os adeptos livres para que suas consciências se lembrem de presentear seu deus no ritual do Ofertório; há ainda aquelas que se recusam a usar dinheiro vinculando-o à espiritualidade, tendo em vista trabalhar o valoroso comportamento da caridade; no candomblé, a Lei da Troca é transmitida a seus adeptos com o chamado “dinheiro do chão” e “dinheiro da mesa”, onde os serviços espirituais são trocados por dinheiro, lembrando que a vida espiritual e a vida material devem ter o mesmo grau de importância.

Cada religião tem sua maneira de ajudar seus devotos a cumprirem a Lei da Troca. Creio que todas estão certas. Criticar qualquer uma delas, sem possuir conhecimento sobre o tema, é mais uma forma de preconceito, como tantas que temos ainda que conviver. Por isso, aproveito-me do tema em questão para dizer a meu povo, o “povo-de-santo”, que se não queremos que nossa prática religiosa seja condenada sem que se tenha conhecimento da causa, devemos ter cuidado para não condenar, nem mesmo criticar, a dos outros. Orumilá, deus da divinação, orienta que nenhum sacerdote tem direito de estipular um preço para seus serviços espirituais, que vá além das possibilidades materiais de quem o buscou. Orumilá diz: “Oye ti o ba wu eni ni a ta Ifá eni pá”, provérbio yorubá que significa: “Qualquer que seja a soma que a pessoa tenha, é aquela pela qual se deve receber para jogar Ifá”.

Fonte: A Tarde Online

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s