Sinais de fogo ardem na nova literatura cubana

Há mais para além da tríade “sexo, palmeiras e regime” quando se fala de literatura em Cuba. E os escritores só querem fugir desses clichés.

Três avisos ao leitor. Primeiro: quando se fala de Cuba a linguagem tem um peso diferente para quem está dentro (e de dentro) e para quem está (de) fora. Por exemplo: quando se diz “dissidente” também se pode querer dizer “contra-revolucionário”. Nem tudo é preto e branco, negativo e positivo, socialismo (capitalismo) ou morte. É mais complexo, intricado e contraditório do que a redução da linguagem ao seu mínimo denominador comum. Se o leitor não consegue passar além dessa leitura simplista, além da linguagem e das suas nuances, dos seus duplos sentidos, dos seus ódios e das suas obsessões, passe à secção de música.

Segundo: esqueça o Che, o Raúl, o Fidel, os guerrilheiros heróicos e a política, os Castro. Um país e a sua literatura são (sempre) muito mais (e para além) dos seus líderes políticos (efémeros e circunstanciais).

Terceiro: que a autora destas linhas passou sete dos últimos catorze meses em Cuba, quase todos em Havana, e que, por isso, este ensaioreportagem é uma tentativa de ver na sombra o que de fora (à luz) por vezes não se consegue vislumbrar.

Tudo isto a propósito da publicação da nova tradução do romancebíblia- da-cubanidade Três Tristes Tigres, do apátrida-que-mais-amou- Havana, Guillermo Cabrera Infante (Quetzal). Os itálicos são todos dele.

– São sepulcros branqueados, Silvestre. Não é a Nova Jerusalém, meu velho. É Somorra. Ou se preferires Godoma.

(…)

– Conheces a topografia do teu inferno.

– A isso chama-se em espanhol La Rampa. Em cubano, desculpe.

La Rampa é Cuba. Cuba é a vida e a vida inteira cabe ali, da esquina da 23 com a avenida L descendo ao encontro com o mar, num beijo morno de brisa e sal. Esta Havana é Sodoma e Gomorra (Somorra e Godoma à la Cabrera Infante), uma mulher meneando as ancas pela avenida abaixo e homens queimando pestanas com o fumo dos habanos. É a cidade pré-revolucionária, iluminada pelos néons dos cabarets, pela luz das estrelas no Tropicana, ao som de uma dança frenética de rumba e jazz, do tilintar de copos esvaziados de rum, descapotáveis bolerizando-se pelo malecón.

Enrique de la Osa, fotoEnrique de la Osa, foto

É pré-revolucionária porque simplesmente já não existe. Agora, a esquina da 23 com a avenida L continua a ser o centro da cidade rivalizando com a Havana da Unesco, colonial e grandiosa, de lindas fachadas disfarçando a escuridão das ruas alumiadas por fios de lampiões tristes e sós, e prédios que desabam quase todas as semanas por velhice. Mas como dizer que ela ainda é a mesma (bela e decadente) cidade de Cabrera Infante, ainda que diferente da Havana da sua infância, tão diferente como as décadas que passaram entre o tal dia 11 de Agosto de 1958 de que fala em Três Tristes Tigres e hoje, neste 2012?

E já não existia em 1965, quando Cabrera Infante escreveu Três Tristes Tigres no seu “exílio siberiano” na Bélgica, aonde era adido da embaixada de Cuba, país que abandonou nesse ano por um refúgio londrino até à sua morte, em 2005.

Daí que este longo fragmento-de-romance seja o símbolo e o epitáfio da Cuba de Batista, da infância nostálgica do seu autor, da Havana ligada à Florida por um ferry diário, de casinos, de prostitutas e velhos americanos, de Hemingway a pescar ao largo lutando contra um tubarão. Mas este retrato imortaliza todos os clichés que (ainda) se propagam sobre Cuba: sexo, mulatas, rum, cigarros e praias paradisíacas, a Varadero das estrelas.

No centro do chowzinho estava agora a gorda (…) movendo-se ao ritmo da música, rebolando as ancas, todo o corpo, de uma maneira linda, não obscena mas sexual e lindíssima, meneando-se ao ritmo, cantarolando por entre os lábios entumecidos, os lábios gordos e roxos, ao ritmo, agitando o corpo ao ritmo, ritmicamente, deliciosamente, artisticamente agora, e o efeito total era de uma beleza tão particular, tão horrível, tão nova que lamentei não ter trazido a máquina fotográfica para retratar aquele elefante que dançava ballet.

“Cuba é o centro dessa periferia na América Latina que é o Caribe. E mais do que Porto Rico, Panamá ou República Dominicana, Cuba ainda monopoliza o imaginário sobre o Caribe e todos os seus estereótipos exóticos”, explica Magdalena López, especialista em literatura Caribenha no Centro de Estudos Comparatistas, em Lisboa. Esse imaginário é o paraíso idílico de praias, coqueiros, rum, sexo e mulatas. Mas Cuba também é diferente: “Tem a particularidade histórica de ser a única revolução marxista ‘de sucesso’ a consolidar-se no poder na América Latina. Essa excepcionalidade diferencia-a dos outros países da América, não só porque representa a utopia da esquerda, mas também o fracasso dessa mesma utopia, um fracasso ainda muito difícil de reconhecer por alguns intelectuais de esquerda”, continua López.

Nesse sentido, o escritor que mais tem propagado essa imagem de deboche associado à falência moral da revolução socialista na ilha é Pedro Juan Gutiérrez que, com a sua Trilogia Suja de Havana (Dom Quixote) transformou a Cuba nostálgica de Cabrera Infante na ruína final do país no pós-Muro de Berlim.
Enrique de la Osa, fotoEnrique de la Osa, foto

Essa falência moral está ligada ao outro elemento de exotismo associado a Cuba: a política. O editor do cubano Leonardo Padura em Portugal, Manuel Alberto Valente (primeiro na Asa, agora na Porto Editora) conta que Padura, hoje talvez o mais traduzido e popular escritor cubano da sua geração, se queixa de que “gostaria de ser apenas um escritor a quem lhe fazem perguntas sobre os seus livros”. Isto é, nenhum escritor cubano, na ilha ou na diáspora, consegue livrar-se da pergunta sobre política. Eles querem ser escritores e fugir desse estereótipo, como explica Karla Suárez, escritora cubana que vive em Portugal: “Agora já estou mais habituada, mas no início era estranho. Estava a apresentar o meu livro e perguntavam-me o que ia acontecer a Cuba depois de Fidel. Não sabia responder, ainda não sei responder. Sou uma escritora, não sou analista política. Escrevi um livro, com uma história, e ninguém me faz perguntas sobre o meu livro.”

Cuba é tão complexa que nem mesmo os escritores conseguem explicá-la, assim, numa frase que vaticine o futuro “e depois de?”. Ainda que muitos cubanos se façam a si mesmos essa pergunta, isso não determina a forma como o dia-a-dia se vive na ilha. “Não tenho problema nenhum em falar de Cuba, mas como escritora tenho outras coisas, literárias, muito mais interessantes para discutir. Fidel já tem imenso protagonismo, não quero que a minha literatura seja sobre ele, porque não é e nós escrevemos sobre outras coisas também.

– Vou para o Sierra.

– É muito cedo para a noite e muito tarde para a madrugada. Não está aberto.

Para a Sierra, não é para o Sierra.

– Para Nicanor del Campo, a esta hora?

– Não, porra, vou para a serra. Vou revoltar-me. Tornar-me guerrilheiro.

– O quê?

– Juntar-me ao Fiel, ao Fidel.

– Estás mas é bêbedo, irmão.

Um ano antes de Três Tristes Tigres, o escritor Jesús Díaz publica Los años duros, considerada a obra que inicia um género na literatura cubana: “a literatura da violência”. A par de Jesus Díaz estão Norberto Fuentes, Manuel Cofiño, Rafael Soler ou Eduardo Heras León. Destes, apenas os três primeiros têm obras publicadas em Portugal, mas as mais contemporâneas e não as do período revolucionário, sobretudo porque tanto Díaz como Fuentes se tornaram polémicos dissidentes no exílio (Fuentes publicou em Portugal Autobiografia de Fidel Castro, Casa das Letras).

Los años duros venceu em 1966 o prémio Casa de las Américas, um dos mais prestigiosos da América Latina. Os “violentos” iniciam uma nova literatura da revolução, testemunhos da luta na clandestinidade ou em Girón, escritores que foram milicianos, revolucionários, guerrilheiros e que começam a escrever uma literatura profundamente comprometida com os ideais da revolução cubana. A década de 60 são os “anos dourados” da revolução, quando intelectuais europeus passavam por Cuba como quem vai ali ver a revolução acontecer, quando a orgia revolucionária estava no auge: da Serra à Baía dos Porcos, da “luta contra bandidos” às campanhas de alfabetização. A Portugal chegaram ecos destes autores, sobretudo a partir dos anos 70 quando se publicaram várias antologias de contos cubanos da revolução (na Estampa, Presença ou Edições 70).

Carlos Barria, fotoCarlos Barria, foto

O professor e investigador em literatura cubana da Universidade de Sevilha, Emílio Gallardo explica que, ainda que Três Tristes Tigrescoincida no tempo com “os violentos”, eles são de gerações diferentes. Nos “anos dourados” da revolução “convivem em Cuba alguns dos maiores génios da cultura daquele país (no cinema, pintura e literatura) em todo o século XX. Uns mais marcados pela ideologia, outros menos”, explica o professor. “A cultura cubana reflectia, naquela época, várias cores, vários estilos, várias vozes. Mas tudo se vai estreitando a partir do final dos anos 60.” Ao sair de Cuba em 1965, Cabrera Infante escapou ao período de silenciamento de vários escritores que, dentro da ilha, sobretudo a partir de 1971, começaram a ter dificuldades em publicar. A esse período negro da história de Cuba chama-se “quinquénio cinzento”, uma “travessia amarga” a que foram remetidos vários escritores que sofreram censura, impossibilidade de publicar ou até mesmo repressão ideológica. Aí se incluem os casos de Heberto Padilla ou de Reinaldo Arenas, cujas obras foram consideradas “contra-revolucionárias” ou com graves “problemas ideológicos”. Os dois escritores estiveram presos. O “caso Padilla” teve um enorme eco internacional e levou à cisão de vários intelectuais de esquerda com a revolução cubana. “Com o quinquénio cinzento em vez da pluralidade de vozes temos um monólogo, uma única maneira de ver o mundo que exclui todas as outras. Em vez do conflito natural da convivência e discussão ideológicas dos anos 60, temos uma visão muito ortodoxa do que tinha de ser a cultura, a literatura, o cinema, e fixam-se de forma clara quem são os intelectuais desejados pela revolução e quem são os excluídos”, explica Emílio Gallardo. Diferenças religiosas, ideológicas, de orientação sexual foram simplesmente “abolidas”.

Apesar de o “quinquénio cinzento” durar oficialmente até 1976, só na década de 90 é que Cuba começa a recuperar desse período de silêncio e a falar sobre ele abertamente. Repare-se, lembra Gallardo, que Cabrera Infante, porque escritor dissidente no exílio, não figura no Diccionario de la literatura cubana (1980), mas figura já, assim como vários escritores da diáspora, na História da Literatura Cubana publicada em três tomos na década de 2000. “A partir do final dos anos 80 e nos anos 90, escritores que tinham sido injustamente postos de lado como Piñera, Antón Arrufat, Lezama Lima são recuperados através de prémios nacionais, de artigos em revistas especializadas ou de reedições”, diz Gallardo.

“Vários escritores a partir dos anos 90 recuperam também esse período negro na literatura”, explica Gallardo, como é o caso de Leonardo Padura em Morte em Havana (edição Asa). Estas obras começam a abordar o caso de escritores, actores, encenadores, homossexuais ou com “problemas ideológicos” e que foram editorialmente silenciados, empurrados a trabalhar numa biblioteca (como Arrufat) ou numa fábrica (como Heras León).

– O Batista quer que [a cidade] atravesse a baía.

– Mas não tem futuro. Vais ver.

– Quem, o Batista?

Olhou para mim e sorriu.

– O que é que tu queres?

– Eu? Nada.

– Sabes que nunca falo de política.

É essa a minha política.

– Mas sei como pensas.

– Sim, está bem, as duas coisas.

– Eu também acho – disse. – Não há quem consiga fazer esta cidade atravessar a baía.

Esta é a imagem negra de Cuba que se continua (erradamente) a perpetuar no interesse que o exterior tem sobre a ilha. Emílio Gallardo explica que a edição de literatura cubana em Espanha é diferente da portuguesa, por razões óbvias que têm a ver com a língua e com as relações entre os países. Ou seja, Pedro Juan Gutiérrez e Padura (ambos escrevem de dentro), ou Zoe Valdés (hoje a voz mais popular da dissidência) publicam em grandes editoras como Alfaguara ou Anagrama. Mas há pequenas editoras independentes que continuam a publicar cubanos (ficção e poesia).

Em Portugal, “talvez devido à natureza do mercado”, explica Manuel Alberto Valente da Porto Editora, “é raro que um livro seja publicado se não fez sucesso noutros mercados europeus ou no anglo-saxónico.” João Rodrigues, editor da Sextante, que tem publicado (ainda que timidamente, reconhece) alguns cubanos nos últimos anos, diz: “Às vezes os autores vêm já prefigurados de campanhas internacionais. O que chega cá é uma repercussão do êxito francês ou espanhol. Quando queremos publicá-los do zero é uma dificuldade brutal.”

Os editores reconhecem que, ainda que procurem literatura de qualidade, é fácil cair na tríade “sexo, palmeiras, regime” precisamente porque o trabalho de divulgação da literatura cubana nos mercados internacionais é limitado. “Chega muito pouco cá fora. Há uma certa preocupação em publicar autores cubanos quando eles espelham estereótipos em relação a Cuba: a revolução, o exotismo local, dificuldades económicas. Contra mim falo no sentido em que em Portugal aproveitamos essas tendências. Mas também porque praticamente não sabemos o que se passa dentro da ilha a nível literário, senão com um ou dois autores que conseguiram furar esse bloqueio”, diz Valente.

Claudia Daut, fotoClaudia Daut, foto

– Sabes que a literatura cubana não trata do mar? Por muito que estejamos condenados àquilo a que Sartre chamaria a ilheitude.

– Não admira. Ainda não notaste que o Maceo equestre está de garupa virada para o mar e para as suas ondas? E as pessoas que se vêm sentar no paredão fazem o mesmo que eu faço no sonho e viram as costas ao mar, ensimesmadas nesta paisagem de asfalto e betão e automóveis que passam.

Claro que a dissidência vende, mas as coisas estão a mudar. Começam a ouvir-se vozes interessantes, como Karla Suárez, publicada primeiro na Asa, agora na Quetzal (o seu último romance, Havana, ano zero, saiu em 2011). Mas também Senel Paz (a Sextante publicou No céu como diamantes, 2010) ou Ena Lucía Portela (na Âmbar, ainda com João Rodrigues, Cem garrafas numa parede, 2004 ). João Rodrigues tem na gaveta um romance “muito entusiasmante” de Portela sobre a vida da escritora americana Djuna Barnes em Paris, que ainda não publicou “por falta de oportunidade”. Senel Paz já tinha publicado o conto O lobo, o bosque e o homem novo (Difel, 1996), dois anos depois do famoso filme Morango e Chocolate (de Tomás Gutiérrez Alea) o ter levado ao cinema.

Senel Paz, hoje vice-presidente da União de Escritores (UNEAC) em Cuba, é uma das vozes mais respeitadas na ilha. Esteve duas vezes em Portugal, onde passou praticamente despercebido, conta João Rodrigues, ainda que o seu livro tenha recebido o prémio Casa da América Latina. Tanto Paz como Padura são referências em Cuba. Padura é talvez o escritor mais popular: em 2011 na feira do livro de Havana o romance O homem que gostava de cães (Porto Editora) esgotou. A fila para os autógrafos tinha centenas de metros. Em várias livrarias da cidade havia mensagens nas portas dizendo “já não temos o livro do Padura”. Este ano, também na feira, Padura lançou um livro de crónicas. Também esgotou. A escritora cubana Maria Elena Llana disse-lhe, no lançamento: “Padura, os teus livros têm de ser lançados no Parque Central. A salita da UNEAC já é demasiado pequena para ti.”

Ainda que Karla Suárez viva fora de Cuba, tem uma relação forte com a ilha, aonde vai sempre que pode. Em Fevereiro deste ano esteve na feira do livro de Havana a lançar Carroza para actores, livro de contos. Suárez esteve também no debate sobre literatura cubana na diáspora, conduzido por Paz e Padura. Todos defenderam que os escritores cubanos a viver fora da ilha devem ser considerados e lidos. Ou seja: que a literatura cubana é uma só, e não apenas de fora ou de dentro. “Temos sido testemunhas, lamentavelmente, de uma ruptura política bastante fundamentalista (de parte a parte) em relação à literatura que se escreveu nos últimos 50 anos dentro e fora da ilha”, disse Padura no debate. Estas posições, diz Karla Suárez, “geraram muitos ódios”: escritores como Cabrera Infante, por exemplo, recusaram-se a publicar em Cuba; ainda hoje a viúva do escritor não consente que contos seus sejam incluídos em antologias na ilha. “Há muitos ódios na história de Cuba, são três gerações de ódios, mas isso não nos levou a nada”, diz Suárez.

Juan Barreto, fotoJuan Barreto, foto

São escritores como Padura ou Senel Paz que estão a “abrir buraquinhos no sistema”. É “muito injusta” a visão “simplista” de que todos os escritores que vivem em Cuba são “a favor” do governo, explica Suárez. “Todos trabalham para o governo, porque tudo é do governo, mas não quer dizer que todos sejam cem por cento a favor de tudo o que acontece em Cuba. Há pessoas em editoras que atravessam muitas dificuldades, chocam com muitas resistências mas lutam todos os dias para que as coisas mudem.” Há uma vitalidade literária, um burburinho intelectual na ilha que não passa cá para fora: os escritores continuam a encontrar-se, em tertúlias, em debates, em lançamentos, discutem, criticam-se regularmente.

É uma ilha de equívocos ditos por um gago bêbedo que significam sempre o mesmo.

Há toda uma geração de escritores cubanos que ainda permanece na penumbra editorial. Não querem “vender-se” aos estereótipos e querem continuar a escrever a partir da ilha, porque aí, simplesmente, pertencem. Aí é o seu lugar. Os chamados “novíssimos” são exemplo.

Com o “período especial”, após a queda do bloco socialista, Cuba abriu-se ao mundo e toda uma “nostalgia pela ruína do socialismo” entrou no imaginário ocidental, explica Magdalena López. É essa a nostalgia veiculada pelo Buena Vista Social Club de Wim Wenders.

Mas a ruína já estava lá, no final dos 80, quando os “novíssimos” começaram a fracturar o sistema com temáticas polémicas como homossexualidade, prostituição, travestismo, a guerra de Angola, balseros, ou dificuldades económicas. Eles são Alberto Garrido, Amir Valle, Ángel Santiesteban, Raúl Aguiar, Alberto Guerra Naranjo ou Yoss (alguns publicados numa antologia da Caminho em 1996). São a primeira geração nascida com a revolução. Já nem todos vivem em Cuba, mas foi com eles que a literatura se despiu de todos os preconceitos. “Esse é o momento em que Cuba deixou de ser excepcional e começou a mostrar problemas comuns a toda a América Latina, ainda que provenientes de um sistema diferente, o socialismo”, explica López. O submundo, a criminalidade, as drogas, temáticas comuns em literaturas do México ou do Brasil, passam a surgir na literatura cubana. Isto é: no “período especial” “a literatura latino-americanizou-se”, diz López.

No “período especial” não havia papel, editoras faliram, a produção literária entrou em colapso. Karla Suárez estava lá, a começar. Com ela: Ena Lucía Portela, Ana Lídia Vega e os “novíssimos” que chegaram aos 90 quase sem publicar, senão contos isolados em revistas. “Mas éramos uma geração nova, fora do establishment”, diz Suárez. Não havia papel, mas os escritores encontravam-se num ambiente de tertúlia, apoiavam-se, ouviam-se e liam-se uns aos outros, escreviam contos em “facturas da luz”, livros circulavam em “folhetos” agrafados. “Muitos contos apenas ouvi”. “Era uma espécie de literatura oral, muito livre, porque não tínhamos pressão de publicar, não tínhamos um público, não havia censura, escrevíamos para nós.”

Claudia Daut, fotoClaudia Daut, foto

O país mudava tanto, todos os dias, como Karla Suárez descreve em Havana, ano zero. Foi um grau zero da existência dos cubanos, o fundo do poço. Mas havia, naquela literatura, “uma coisa linda de verosimilitude literária, de pureza, de verdade, que tinha a ver com o nosso quotidiano”.

O mercado, enfim, mudou tudo. Não foi por acaso que o papa Bento XVI disse, quando visitou Cuba em Março: “Que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba.” Lentamente, isso está a acontecer. Agora, os escritores cubanos só querem ser lidos, mas fugindo aos clichés.

originalmente publicado no suplemento Ipsilon do jornal português Público 

Fonte: Buala

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