Capoeiristas -uma luta por inclusão

Professor analisa tentativa de controle do ensino da capoeira. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 13.11/2010

Gildeci de Oliveira Leite

Quando li o romance O cortiço, ainda na adolescência, fiquei revoltado pela falta de solução do assassinato do capoeirista Firmo. Embebedaram o capoeirista. Aproveitaram de sua boa fé e o corpo fora jogado em um precipício. Há algumas décadas que não me reencontro com o romance de Aluísio de Azevedo. Lembro-me de minha angústia esperando por toda a narrativa que algo fosse feito para solucionar o assassinato de Firmo. Comentei com meus pais sobre a minha tristeza. Meu pai me disse que ele desistiu de aprender capoeira na Pero Vaz por conta da perseguição policial. Ele nunca tinha me dito isso antes, mas a minha tristeza o fez rememorar uma de suas histórias. A capoeira ainda sofre rechaços, mesmo com sua dimensão internacional.

Desde 15 de julho de 2008, a capoeira foi reconhecida como patrimônio cultural brasileiro. Do seu valor nós nunca duvidamos, contudo, o que era para ser somente festa e alegria revelou-nos outro problema. Se antes não aceitavam a capoeira e os capoeiristas, agora com reconhecimento formal, a capoeira ganha espaço e os capoeiristas tradicionais, sem diploma de Educação Física, correm o risco de continuar na exclusão. O interesse das escolas por colocarem em suas atividades extras a nobre arte brasileira aumentou, mas desde que o professor tenha a graduação em Educação Física, desde que seja um capoeirista universitário. Só não entendo qual o motivo de não exigirem o mesmo para professores de karatê, judô, jiu-jitsu, kung fu.

Estamos enfrentando uma nova face da exclusão. É preciso refletir sobre o que é realmente necessário e sobre o que pode se constituir, ainda que sem o propósito, em um artifício para discriminações. O capoeirista pode, se preferir, fazer uma graduação que não seja a Educação Física ou optar por não ter diploma universitário. Mestre Bimba, mestre Pastinha e tantos outros não eram graduados pela universidade. O que está em jogo é a possibilidade de uma neomarginalização, repito, mesmo que não haja o intuito.

Apesar das vitórias obtidas no Congresso Nacional e em demais instâncias, as discussões opositoras aos mestres tradicionais continuam. Os atletas tradicionais da capoeiragem estão recebendo um novo golpe à traição.

Historiadores e romancistas narram que as formas preferidas de assassinar “os capoeiras” eram pelas costas; a tiros; aproveitando-se de distrações e/ou em outros requintes de covardia. Leiam Sete Histórias de Negro, livro de contos do historiador Ubiratan Castro de Araújo. Leiam narrativas amadianas. Leiam O Cortiço. Nessas e em outras obras irão constatar os requintes das covardias. Entretanto, principalmente, não deixem de ler a revolta de quem festejou o reconhecimento da capoeira como patrimônio brasileiro, dia 15 de julho de 2008, e recebe um novo golpe.

Prefiro acreditar em equívocos e em miopia cultural e política, pois como exigiríamos de mestre Bimba, Doutor Honoris Causa pela Ufba post mortem (após sua morte), que frequentasse um curso superior para ter o direito de ensinar o que ele reinventou? Como exigir de outros mestres da capoeira que eles sejam graduados em Educação Física para ensinar capoeira? Estes homens deveriam ser professores nas universidades através de oficinas e de atividades de extensão.

A exigência do curso superior em Educação Física pode ecoar como uma tentativa de diminuir a conquista obtida com o reconhecimento de 15 de julho. Durante muito tempo relegou-se à capoeira a condição de filha bastarda com guardiões tratados como desimportantes (os mestres). Agora, ao permitirem o registro tardio de nossa luta, tirando-a da condição de bastarda oficial, querem excluir aqueles que nunca deixaram a capoeira na orfandade: os mestres tradicionais. A exclusão dos mestres tradicionais da capoeira pode gerar um esvaziamento de conteúdo em nossa nobre arte, além de conduzir e despertar um turbilhão de injustiças e de discriminações. Precisamos entender o potencial das trocas culturais que podem ocorrer entre a tradição e a universidade, sem tratar os capoeiristas tradicionais como meros informantes.

Gildeci de Oliveira Leite é mestre em letras e professor de Literatura Baiana na Uneb

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