“Rostos de mulheres” ao espelho do cinema da África Subsariana (dos anos 1960 a 1990)

Por Sophie Dulucq*

Entre 27 e 29 de Junho, o ISCTE-IUL irá a acolher a quinta Conferência Europeia de Estudos Africanos (ECAS 2013).  Paralelamente aos painéis temáticos haverá uma mostra de cinema africano, o ECAScreenings, e uma mesa-redonda, The State of the Art: African Contemporary Cinema in Focus. BUALA colabora com o ECAScreenings e inicia hoje a publicação de artigos sobre o cinema africano.

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 Enquanto o cinema ocidental deu ensejo a múltiplas investigações, especialmente nestes tempos de centenário da invenção dos irmãos Lumière, os estudos centrados em cinematografias mais “marginais” no espaço da produção mundial têm sido mais esporádicos. O cinema africano, difundido a conta-gotas nos circuitos europeus – e até frequentemente marginalizado nos próprios países africanos malogrados os esforços – tem entretanto perto de meio século de existência. Este revela uma visão original dos realizadores africanos sobre as suas próprias sociedades, longe dos estereótipos veiculados pelo cinema colonial ou pelos filmes de aventura europeus e colocam naturalmente em primeiro plano, diretamente no cerne da ação, jovens raparigas, esposas, mães e avós. Por conseguinte, as mulheres, tal como são desalinhadas pelos autores africanos, são bem diferentes das imagens geralmente contraditórias veiculadas na Europa pelos filmes ou pela literatura, sobretudo os da primeira metade do século: ora objetos eróticos ambivalentes (nuas, animais, ninfomaníacas e/ou frígidas), ora objetos de repulsão (selvajaria e torpeza).

            De acordo com uma cultura cinematográfica lacunar, uma grande quantidade de imagens aflui as heroínas do cinema africano. Figuras femininas vibrantes, de todas as idades, de todas as condições, dominam este ou aquele filme: quer pensemos na mulher de negócios, verdadeira “mãe coragem”, ou na mulher adúltera de Visages de femmes (Désiré Écaré, 1985), na jovem epónima de Den Muso (“La Jeune Fille”) (Souleymane Cissé, 1975), na avó suspeita de feitiçaria em Yaaba (Idrissa Ouedraogo, 1987), na estudante de liceu que muda de sexo em Quartier Mozart (Jean-Pierre Bekolo, 1992), na emigrante desenraizada de La noire de… (Ousmane Sembène, 1966), passando pela lendária rainha Sarraounia no filme homônimo (Med Hondo, 1986) e pela rapariga que percorre o continente africano no último filme de Cissé (Waati, 1995). Tal como no cinema europeu ou americano, a filmografia da África Subsariana tem privilegiado as mulheres mas de acordo com uma perspectiva que lhe é, naturalmente, singular. Estamos bem longe das Garbo ou das Marlène Dietrich, das “galdérias”, das “prostitutas com um grande coração” representadas por Arletty ou por Anna Magnani, as raparigas dignas à Morgan, as “bombas sexuais” à Bardot ou à Sophia Loren. Tão-pouco são frequentes as corajosas pioneiras, animadoras de kolkhozes ou revolucionárias inveteradas, retratadas em série pelo cinema soviético dos tempos áureos. É por via de outros registos, em busca de outros “eternos femininos”, segundo outras problemáticas, que o cinema africano atribui um lugar às mulheres. São essas as temáticas que trataremos em demonstrar aqui.

Identificação… das mulheres

            Mas para tal suceder, convém analisar a questão de maneira rigorosa com o intuito de ultrapassar o estado de impressões difusas, inevitavelmente facciosas: havia definido uma metodologia num trabalho anterior consagrado à temática da cidade/zona rural no cinema subsariano; este método foi em parte retomado e aplicado à mesma fonte: o Dictionnaire du cinéma africain publicado em 1991. Esta obra de referência elabora uma lista completa de obras realizadas por cineastas africanos desde a sua origem. Cada artigo comporta, para além das características técnicas dos filmes, os grandes traços do argumento. Infelizmente, tendo o primeiro tomo permanecido o único, o campo de investigação restringiu-se, como é natural, à área geográfica coberta pela obra: a África lusófona, hispanófona e francófona. A África anglófona, e em primeiro plano a Nigéria, o Gana e a África do Sul, escaparam assim à análise do mesmo.

  Munida pelo viático do Dictionnaire du cinéma africain, criei uma base de dados consagrada às obras de ficção com a finalidade de identificar todos os que, de uma maneira ou outra, colocam em primeiro plano as mulheres (quer elas sejam personagens centrais ou quer o filme aborde mais especificamente temas relacionados com a condição feminina). Esta abordagem permitiu reconhecer os temas privilegiados pelos autores. Pareceu-me necessário distinguir os filmes de ficção, representativos de uma sensibilidade artística individual, dos documentários, sendo a maior parte destes últimos obras de encomenda financiadas pelos poderes públicos, que eu evocarei mais resumidamente. Na verdade, esta abordagem que faz a economia de análise de diferentes campos pode parecer sucinta mas, sendo unicamente aplicada a mais de 500 documentários e 300 obras de ficção, ela permite alcançar uma série de conclusões tangíveis.

            Determinemos para começar que – era expectável – vamos essencialmente ter de nos confrontar com os olhares dos homens por detrás da câmara: dos cerca de 450 realizadores recenseados (documentaristas e autores de ficção misturados), só há 20 mulheres: ou seja cerca de 4% (mas a que valores chegaríamos nós no Ocidente?). Mas se o lugar das mulheres é derisório atrás da câmara, elas são uma multidão perante a objectiva. Das 315 obras registadas, 127 colocam em cena, de modo não marginal, mulheres, isto corresponde a aproximadamente 40%. Sejamos claros: não se faz questão aqui de enumerar os filmes que contam simplesmente com intérpretes femininas ou papéis secundários femininos, mas mesmo ficções em que as mulheres desempenharam um papel fulcral na ação, ou nos quais o tema se encontra diretamente relacionado com a condição das mulheres enquanto indivíduos ou grupos.

            Deste cenário emergem vários temas – leitmotivs ou motivos secundários – que se individualizam, se entrelaçam, se complementam e projectam os “rostos das mulheres” próprios ao cinema da África Subsariana.

Masculino/ Feminino

            Das 127 curtas, médias e longas-metragens analisadas, o sentimento dominante associado às mulheres é indubitavelmente o sentimento amoroso. Amores contrariados, amores conjugais, amores não concretizados, paixonetas, desamores: independentemente do que for, a sentimentalidade escorre em torrente e despedaçando os casais.

            Mas excluindo esse assunto geral, que não constitui algo distinto, um tema estabelece por si só um verdadeiro “gênero” cinematográfico aparentemente inesgotável: o dos dissabores conjugais. A difícil relação marido-mulher constitui diretamente a trama de mais de uma vintena de filmes (16% do total), tão numerosos nos anos sessenta como nos anos oitenta, dando lugar a comédias mais ou menos ligeiras onde marido é repetidamente um corno em potência. Estes filmes inscrevem-se na sua maioria numa veia anti-feminista manifesta, sendo a mulher volúvel quem, regra geral, introduz a desarmonia no lar. A poligamia, raramente abordada neste tipo de filmes, é apenas tratada de modo humorístico e resultando em situações divertidas. De facto, estas histórias, tantas vezes tingidas de misoginia, abraçam sempre o ponto de vista de marido; não nos encontramos longe do teatro de revista e do triângulo marido-mulher-amante: é, aliás, antes de qualquer outro, a um público popular a quem estes filmes ligeiros se dirigem.

Da “mulher que chora” à “Mama Africa”

            De uma maneira menos cômica, um outro tema domina o conjunto de produções: o da mulher que sofre. Seduzida, abandonada, potencial mãe solteira (7% do total), a mulher é vulnerável e é forçada a pensar duas vezes antes de se entregar. Mais frequentemente ainda, o cinema aborda os dois temas intercalados do casamento forçado e dos amores contrariados pela família: estas temáticas representam quase 20% dos argumentos, ou seja cerca de 25 filmes. As histórias destes acasos bloqueados têm uma trama similar de filme para filme, em que os Romeu e Julieta africanos triunfam muito raramente perante os obstáculos impostos pela razão social: quer o noivo seja de uma casta interdita (ferreiro, nomeadamente) ou muito pobre e muito jovem, ele não pode pagar o dote. A solução é quase sempre dramática: morte violenta dos amantes, homicídio, suicídio, loucura, prisão. É difícil as mulheres jovens amarem alguém fora dos seus círculos circunscritos.

            A denúncia do casamento forçado é quase unânime em todos os filmes que amiudadamente estigmatizam a submissão forçada das mulheres – transformadas por vezes em autênticas mercadorias – aos valores obsoletos do grupo. Um tema adjacente insere-se ao dos casamentos forçados: o da mulher vítima da “tradição” (10% do total). Segundo estes filmes, o conflito entre tradição e modernidade – tema recorrente na cinematografia subsariana – é particularmente doloroso para as mulheres: a dificuldade em coabitarem com as outras co-esposas, a dificuldade em escaparem às tradições do grupo (tatuagens rituais), a dificuldade em escaparem à sua educação, a dificuldade em escaparem ao levirato, a dificuldade em ocidentalizarem-se sem se alienarem, a dificuldade em ser uma mulher só numa sociedade que valoriza a esposa e a mãe. Quanto à questão da excisão, esta assume um papel preponderante em muito poucos filmes – apenas dois, no total, abordam o problema (para o denunciar) – e raros são os documentários que a discutem. A excisão permanece verdadeiramente um tema tabu, enquanto em vários países – sendo o Burkina-Faso um exemplo – esta prática deixou de ser aceite por unanimidade.

 Por esse motivo, todos os filmes não têm uma mensagem a emitir ou uma vontade didática bem vincada. Muitas destas películas centram-se nesta ou naquela heroína, mas numa perspectiva mais leve, menos “engajada”, mais lúdica. Acompanhamos o personagem indo de aventura em aventura ao sabor dos seus encontros, das suas descobertas, das suas ambições: nada mais comum para um herói do cinema.

            Numa grande minoria de ficções (cerca de 13%), a personagem feminina central é por conseguinte retratada por si e só casualmente, por pequenas pinceladas, através de um caso individual, é que o autor evoca um dado aspecto da condição das mulheres, do seu lugar na sociedade. Temos retratos individualizados, de momentos de vida, de estudos de costumes sem pretensão, que testemunham problemas, sentimentos ou dificuldades no dia-a-dia das mulheres nas suas sociedades e revelando por vezes muito mais do que apologias extensas e filmes “tese”.

            Contudo, estes retratos individuais, aparentemente isolados de toda a crítica social, não são numerosos. As personagens femininas encarnam, com efeito, muitas vezes valores que as ultrapassam. Vimos, em muitos filmes, a mulher a ter que se insurgir contra a tradição correndo o risco de quebrar as asas: ela personifica o sacrifício individual noma sociedade bloqueada ou, sendo mais optimista, a modernidade em luta. Numa perspectiva contrária, a mulher – ou pelo menos aquela que teve a capacidade para se conservar uma “verdadeira africana” – pode também tornar-se uma alegoria da tradição e da autenticidade (12% dos filmes): um homem perdido numa cidade descobre o sossego e a sabedoria ao lado de uma aldeã; um africano chega a Paris para levar consigo de volta um individuo expatriado ao país; uma esposa “tradicional” permanece fiel ao marido enquanto a sua co-esposa ocidentalizada o abandona entre discussões… A mulher simples é a depositária dos “verdadeiros valores”. Só de uma forma perfeitamente marginal é que ela encarna uma tradição condenável (em 2 de 16 filmes); nos restantes, ela é um verdadeiro valor-refúgio.

Black Girl

            Em alguns casos limites, podemos mesmo dizer que a mulher encarna a África eterna. As personagens femininas lendárias apresentadas em cena são numerosas, e este gênero cinematográfico (11 filmes) floresce desde os anos sessenta: estas simbolizam a resistência à colonização, são princesas heroicas, intercedem junto dos espíritos, etc. Mais prosaicamente, vemos várias vezes uma africana a restituir um indivíduo expatriado na Europa, por momentos acompanhado por uma companheira branca, aos amores mais sadios, não conseguindo este resistir, assim, aos apelos de África.

A mulher enquanto objecto sexual e as suas variações infinitas (“mulher fatal”, “mulher-criança”, “mulher-objecto”, “galdéria”, “vamp”, etc.) é suficientemente pouco representada, ainda que seja uma figura central no cinema ocidental (com todas as ambiguidades que conhecemos). Uma certa manifestação de pudor ou de pudor fingido faz que, tal como nos primórdios do cinema do Ocidente, a sexualidade surja aqui disfarçada sob a máscara do sentimentalismo. As mulheres atraentes e desejáveis existem todavia, mas são usualmente estigmatizadas: esposas adúlteras, mulheres demasiado ocidentalizadas e alienadas, mulheres levianas. Não temos muitos retratos de mulheres “livres” em assumir os seus desejos, incluindo os sexuais. Em contrapartida, algumas belas figuras com vista a serem conquistadas – a serem desposadas – sobressaem de um conjunto bastante assexual16: muitas mamãs e poucas putas…

            Sem dúvida alguma, excluindo o tabu cultural, esta ausência de sexo no cinema é também motivada por uma visão distinta das mulheres na sociedade africana: vistas antes como raparigas, esposas ou mães do que como amantes – e sem dúvida mais enquadradas (controladas) pelo seu grupo social de origem -, elas são igualmente chamadas para desempenhar esses papéis no ecrã. Não estamos muito longe dos fantasmas coloniais!

            No que se refere aos documentários, estes mantêm um discurso prolixo (cerca de trinta filmes) e mais “neutro” sobre as mulheres. Trata-se de mostrar as mulheres no trabalho ou desempenhando diversas atividades (do tipo: “Être femme au Burkina”, “Femmes de Guinée”, “Maputo Mulher”…); as cabeleireiras têm deste modo as honras de várias reportagens, assim como as camponesas (“La pileuse de mil” ou até “Bénin. Le temps au féminin”). Alguns retratos mais “políticos” centram-se em dirigentes (nomeadamente em Moçambique: “9500 Mulheres”). Muitos documentários educativos, também, incorporam as mulheres, visando um público feminino (planeamento familiar, higiene, educação sanitária, segurança das crianças, etc.). Quanto à excisão, como nas ficções, a colheita é bem escassa: somente dois documentários abordam a questão. Um, zairense, expõe-na como parte integrante dos ritos de iniciação das raparigas (1973); o outro, burquinês, é um docu-ficção com um título militante: “Ma fille ne sera pas excisée” (1989). Assinalemos por último os trâmites um quanto raros da documentarista senegalesa Safi Faye: “As Woman see it?” (1980); nesta média-metragem, são as mulheres ocidentais que são escrutinadas atentivamente por uma africana, formada pela escola de antropologia: o resultado deve ser sofrivelmente interessante.

            Seguramente, muitos filmes africanos não atribuem um grande benefício às mulheres, quer estes se concentrem num herói masculino – as personagens femininas estando apenas lá quase como meros adereços (a famosa “presença feminina”…) ­-, quer estes destilem uma misoginia ordinária – as mulheres aí aparecendo volúveis, interesseiras, ciumentas, egoístas ou frívolas, ou todas essas características misturadas de uma só vez!

            A par desta produção desigual, encontramos toda uma categoria de obras que se relacionam com personagens femininas, sem uma mensagem demasiado identificável, a não ser para demonstrar a vontade de desenhar retratos individuais: não podemos, aliás, legitimar mais essa maneira de pensar. Mas numa parte não negligenciável da produção fílmica, as mulheres encontram-se associadas às temáticas fortes, caras ao coração dos realizadores mais engajados: à linha condutora surge com conteúdos nítidos uma reflexão ansiosa acerca da liberdade individual, da dialética “liberdade individual/ respeito do grupo”, o conflito entre “modernidade” e “tradição/autenticidade”, ou o controlo social (relacionado com a geração dos pais, a família, o casamento…).

            Ainda mais que as personagens masculinas, as heroínas alimentam essas interrogações centrais de todo um grupo de cineastas. Em geral pouco preocupados pelas investigações puramente formalistas – ao ponto de que podíamos taxar o cinema africano de academismo – mas antes interessados em sondar as suas sociedades e em refletir sobre a “modernidade” e a “identidade” africanas, estes realizadores fizeram das mulheres os pilares das suas obras. Por conseguinte, as mulheres encarnam dois polos opostos: na maioria dos filmes, vítimas principais das tradições, elas erguem-se contra a ordem tradicional, correndo o risco de serem aniquiladas; por outro lado, elas simbolizam também muitas vezes os verdadeiros valores, até mesmo a “África eterna”. Discursos contraditórios, porventura irreconciliáveis, no seio dos quais as mulheres pouco espaço encontram para falar sobre elas mesmas…

 

* Professora de História Contemporânea na Universidade de Toulouse-2 e especialista em colonização da África Subsariana (séculos XIX e XX).

 

Fonte: Buala

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Um comentário sobre ““Rostos de mulheres” ao espelho do cinema da África Subsariana (dos anos 1960 a 1990)

  1. Diz: Ruy Crisostomo Barbosa
    Mulher defeza ocuta, misterio, intenas, são os centimentos que define a mulher: Toda mulher é misteriosa, mulher se defende silenciosamente, Internas elas são iqueis ao seu orgão genital interna, vc para descobrir o caminho da mulher vc tem de ser bastante pespiscaz, esta é a defeza da mulher o silencio, não existe ninguem mais corajosa D”K, uma mulher, para fazer, dizer, pra tudo a molher é mais corajosa. A cada dia a mulher se sobre sai, porque ela é menos afoita ela é descreta não temos muitos adjetivos para definir a mulher ela é quase completa: Passiencia se o Homem é diferente. Quantos homens se envolvem em crimes, em batida de transito numa turma de medicina quantos homens tem e elas quantas são. E quantas mulheres se envolvem nestes mesmmos crimes, Então elas são + perfeitas.
    Ruy.

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