IGUALDADE RACIAL NAS UNIVERSIDADES – PARTE 1

Veja trechos da entrevista com Ronaldo Barros, o pró-reitor de políticas afirmativas e assuntos estudantis da UFRB sobre sua luta pela igualdade racial nas universidades

 

O pró-reitor de políticas afirmativas e assuntos estudantis da UFRB Ronaldo Barros | FOTO: Thuanne Maria

Formado em filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre e doutorando pela Unicamp, o professor Ronaldo Barros é oriundo do Movimento Negro Unificado (MNU) e atual pró-reitor de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Especialista em filosofia política, movimentos sociais e relações parciais, tem artigos e livros sobre políticas afirmativas. Lecionou durante dez anos na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e há cinco ministra aulas na UFRB. Prestes a completar 3 anos como pró-reitor, o professor luta por igualdade racial na academia desde os anos 1990, e considera a implantação da lei 12.711 uma grande vitória para os estudantes vindos do ensino público. Para ele, a lei de cotas ajuda a promover a igualdade racial.

Leia trechos da entrevista com Ronaldo Barros:

Você tem um grande envolvimento com a UFRB. Comente a sua relação com a universidade.

A UFRB é uma experiência extremamente exitosa desde a sua formação. Inicialmente ela existia aqui em Rio das Almas, mas havia um desejo de mais de cem anos que a região tivesse uma universidade federal, por isso houve uma intensa mobilização, com mais de 60 audiências públicas para solicitar a sua criação ao governo federal. Foi a luta do povo do recôncavo, 88%negro, que fez o projeto vingar. O recôncavo nunca foi um grande produtor agrícola, nem de riquezas minerais, mas produziu grandes talentos como Castro Alves, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Jorge Portugal e Roberto Mendes. Aqui é um berço de celebridades. Voltado à universidade, é a primeira do país a ter uma pró-reitoria de políticas afirmativas e assuntos estudantis. Oferece cerca de 27 cursos pré-universitários na região e tem 4 quilombos educacionais para garantir às comunidades sazonais e religiosas de matriz africana, historicamente excluídas, um espaço dentro da universidade.

Esse percentual de mais de 80% de alunos afrodescendentes se dá por conta dessa política?

Não só por isso, a característica da região é ter o povo como maior investimento, eles participam da universidade, mas também temos uma política muito intensa para a preparação do ingresso. Nós temos 84% de negros autodeclarados, número muito superior à média nacional quando se trata da presença de negros nas universidades. Ainda somos a mais inclusiva do ponto de vista social, porque 72% dos alunos são oriundos das classes C, D e E.

Como é a permanência do aluno cotista na universidade?

Nós temos uma política robusta de permanência. São 8 residências universitárias, restaurante e dois programas, um de permanência qualificada e outro de ações afirmativas integradas, que cuidam da permanência dos alunos. As federais tem uma taxa de evasão em tornos dos 35%, aqui, com essas assistências e bolsas, temos somente 2% de evasão. Até nos cursos que historicamente tem um grande número de evasão, como o de física, por exemplo, que fica em torno de 50% ou 60%, nós temos uma taxa menor, de 6%.

E como é o desempenho e a aprovação deles com relação aos alunos não cotistas?

Uma revista nacional publicou alguns livros sobre as ações afirmativas e o medo que os intelectuais de renome nacional tinham com a implantação das políticas afirmativas. Um deles era que os alunos teriam uma qualidade tão fraca que não suportariam os grandes debates acadêmicos e sairiam. Na UFRB, quando vamos comparar o cotista que tem algum tipo de suporte com o não cotista, o desempenho do primeiro grupo é 0,15% superior. Existe outro mito também que fica em torno das ações afirmativas, o de que a presença dos estudantes cotistas nas universidades estaduais gera conflitos raciais. Nós sabemos que existe o racismo, nós sabemos que existe o racismo institucional, mas nós temos programas para isso. O PCRI – Programa de Combate ao Racismo Institucional tem como objetivo evitar que práticas sociais frequentes no nosso país ocorram no interior da universidade.

Fonte: Raça Brasil

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