A AFETIVIDADE DA MULHER NEGRA

Matéria aborda o cotidiano afetivo da mulher negra. Saiba mais

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Sangoma | Adaptação web: David Pereira

Especial sobre a afetividade da mulher negra | FOTO: Sangoma

Vira e mexe dizem por aí que “tem muita mulher solteira”. O que não se diz é que a maior parte das mulheres solteiras no Brasil são negras. De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras, ante 24,88% negras casadas e 2,60% divorciadas. Os números assustam, mas viver essa estatística no cotidiano e saber que isso é uma herança histórica é muito pior.

Autora do livro “Virou Regra?” (2010/Scortecci), a pesquisadora, ex-vereadora e presidente do SEDIN – Sindicato de Educação Infantil, Claudete Alves, explica: “A mulher negra enfrenta a solidão independente do extrato social. Não se trata de uma exceção, é a regra, um sintoma histórico que indica um comportamento real, as mulheres negras não têm (em sua grande maioria) a experiência do amor”.

Na mesma linha, a pesquisadora Ana Claudia Lemos Pacheco, autora do recém-lançado “Mulher Negra: Afetividade e Solidão” (2013/EDUFBA), reitera: “A solidão tem origem na estrutura familiar, o que as mulheres negras solteiras têm em comum? A origem social e a família. Já nascem e crescem com o racismo e o sexismo como sistemas cruzados de opressão. Muitas nunca vivenciaram relacionamento fixos, duradouros e saudáveis. A mulher negra, além de sozinha, é a maior vítima da violência doméstica”.

Pautados nesse debate, dois coletivos negros de teatro de São Paulo, a Cia Capulana de Arte Negra e Os Crespos, montaram os espetáculos “Sangoma” e “Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas”, respectivamente. Para o ator Sidney Santiago (Os Crespos), tratar do tema nos palcos faz do “teatro um espaço de reunião, debate e cura. A arte tem como dever do presente inserir temáticas caras à nossa sociabilidade negra e pensar que nossa saúde emocional é tão importante quando todas as outras inserções”.

Coletivos negros de São Paulo montaram espetáculos sobre o tema | FOTO: Sangoma

As dramaturgias assinadas pela pesquisadora Cidinha Silva têm em comum o uso de relatos reais e a própria experiência das atrizes, que em cena dão voz às solitárias mulheres negras. “Sangoma e Pari Cavalos têm em comum o abandono e a solidão pelos quais passam as mulheres negras e a busca do amor como forma de curar, principalmente de curar a elas mesmas à medida em que aprendem a se amar mais”, explica Cidinha.

Os textos, feitos a partir das próprias histórias das atrizes, mexiam com o público. “Muitos homens se incomodaram com o espetáculo, outros reconheceram a história da mãe, da avó… Não tenho como não falar das nossas experiências. A solidão, o silêncio, a dificuldade de reconhecer quando o amor chega, já que nos foi tirada a experiência do amor e de se gostar”, relata a atriz e bailarina Débora Marçal (Cia Capulanas).

O sonho do príncipe encantado, do casamento de véu e grinalda incutido no inconsciente feminino ao longo dos séculos, não faz parte da realidade da mulher negra, a educadora e atriz Adriana Paixão (Cia Capulanas) explica: “Seguimos modelos postos, grande parte das mulheres negras não vivem e nunca viveram esse modelo ocidental de relacionamento. Discute-se outras liberdades, outros temas, sequer olhamos para mulher negra”.

De acordo com a atriz Flavia Rosa (Cia Capulanas), “o racismo atinge todos os campos, muitas vezes a primeira referência de amor já vem com racismo, dentro de casa na relação com a mãe, com o pai (quando este está presente) e irmãos. A partir do momento em que esse desprezo é naturalizado, os demais segmentos e espaços de relacionamento também naturalizam esse descuido. Você não sabe o que é ser bem tratada, isso se estende às relações afetivas e institucionais”.

Os grupos, que tiveram como ponto de partida e inspiração para pesquisa o artigo da ativista e feminista norte-americana bell hooks (seu nome é grafado em letras minúsculas), cujo o artigo “Vivendo de Amor” coloca o dedo na ferida e leva o público a refletir sobre o papel afetivo e a construção de identidade da mulher negra. Segundo a dramaturga, “a autoestima de hoje é o velho amor próprio de nossas avós e bisavós. O enfrentamento ao racismo cotidiano que afeta as mulheres negras e suas famílias, pelas quais elas são responsáveis, rouba-lhes o tempo e o espaço do cuidado consigo mesmas, enfraquecendo o amor próprio”.

De acordo com o Censo 2010, 52,89% das mulheres negras estão solteiras | FOTO: Sangoma

Lucélia Sérigio, atriz e diretora do espetáculo “Pari Cavalos…”, acredita que a solidão não afeta apenas as mulheres negras e pobres, mas é uma constante entre mulheres cuja formação intelectual e cultural é acima da média. Além disso, temos muitos estereótipos sexuais, temos mulheres que precisam ser fortes para não sucumbirem e isso também é um problema no amor. Não somos o ideal de beleza, não estamos em bons empregos para ajudar o companheiro a crescer, somos duras demais, ou cultas de menos, entre muitas outras coisas. Não estamos nem nas novelas! Uma negra bonita é vista como exceção para a maioria dos brasileiros, culta e inteligente, mãe de família e companheira, então… Damos barraco, somos gostosas e cozinhamos bem, é pra isso que servimos. Nossa luta é conquistar alteridade, dignidade e integridade. Isso só é possível através do amor. Começa por nossas escolhas e nossos limites, mas passa por uma consciência coletiva de brancos, pretos, amarelos, azuis, vermelhos, todos. É isso que queremos ao falar de nossos afetos e desafetos”.

Trazendo à tona questionamentos, críticas e reflexões sobre a afetividade da mulher negra, a Cia Capulanas tratou do tema avaliando o histórico da saúde e das doenças que atingem a mulher afrodescendente. “Dentro dessa construção histórica, não temos o direito de ser frágil. Mesmo sendo a base da pirâmide, a mulher negra cuida de tudo. Vivemos o arquétipo da guerreira, da mulher forte, por isso implodimos e nascem os calos, tumores e miomas. Somos essa grande teta que amamenta tudo e todos, mas quem cuida da gente? Isso não significa que queremos uma relação de submissão, o que queremos é uma relação de troca. Se ninguém olha para a gente, vamos a gente se olhar. Estamos sempre com o outro, olhando para o outro, que horas nós olhamos para nós mesmas?”, completa a atriz, poetisa e arte-educadora Priscila Preta (Cia Capulanas).“A nossa afetividade vai sendo sepultada diariamente por conta das agressões cotidianas. Sempre precisamos cerrar os punhos, engolir o choro, secar as lágrimas e silenciar, sempre saímos perdendo nesta matemática da barbárie. Estamos enquadrados em recortes que falam dos nossos atributos físicos, da nossa temperatura, da nossa musicalidade, ou seja, sempre sendo objeto do outro”, reitera o ator Sidney Santiago.

Para uns, falar de amor tornou-se piegas; para outros, pensar e falar sobre afetividade e experiência do amor dentro do segmento afrofeminino ganha conotação “rancorosa” e vitimizada. Contudo, são anos de silêncio, submissão e incompreensão das relações. “Quanto mais quebramos o silêncio, mais vamos nos empoderando e mudando o que está posto historicamente”, afirma Flavia Rosa.

“Dentro dessa construção histórica, não temos o direito de ser frágil. Mesmo sendo a base da pirâmide, a mulher negra cuida de tudo. Vivemos o arquétipo da guerreira, da mulher forte, por isso implodimos e nascem os calos, tumores e miomas. Somos essa grande teta que amamenta tudo e todos, mas quem cuida da gente?” – Priscila Preta | FOTO: Sangoma

À medida que essa mulher se empodera e encontra histórias iguais à dela, a solidão perde a conotação de dor e passa a ser sinônimo de liberdade, ou, no caso dos espetáculos, um ato politico e curativo. “O corpo ressignifica esse processo com a autoestima. A corporalidade pode ser revista e traz uma reconstrução da autoimagem. São mulheres que têm algo em comum, mas não são todas iguais”, explica Ana Claudia Lemos Pacheco. “A saída é um empoderamento da mulher negra, lembremos que somos nós que educamos esses homens e que alguns estereótipos precisam deixar de ser reafirmados por nós, mulheres negras. É a nossa verdade, quando a mulher negra fala, incomoda e gera o inconformismo”, reitera Claudete Alves.

O que esses dois grupos debatem extrapola a dimensão sexual e erótica do estereótipo da mulher afrodescendente. “Não estamos falando de sexo, mas de saúde emocional. Uma família saudável e pessoas equilibradas é o mínimo que podemos desejar para nossa sociedade. Uma das personagens do espetáculo diria ‘imaginem só o que pode fazer uma mulher fortalecida, quando resolve reagir contra toda a opressão?’. O amor é político, nossas escolhas também. O importante é aprendermos a olhar para além desse espelho distorcido que nos afasta de nós mesmos. Não falamos de nos forçarmos a nos relacionar somente entre negros, estamos falando do porquê as mulheres negras sentem que não são amadas e muitas delas não têm companheiros, além dos filhos. Citando bell hooks, ‘a nossa cura está no ato e na arte de amar’”, afirma Lucélia Sérgio.

Fonte: Raça Brasil 

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