Balaio de Ideias: A guerra segue

Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés no Cabula, realizada ontem na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE
Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés (Cabula)

 

Por Wlamyra Albuquerque* 

Nunca se tinha ouvido falar da Vila Moisés antes da chacina. O lugar não existia no mapa da cidade, exceto nas escalas da RONDESP. Lá não tem qualquer sinal de presença do Estado, lá não tem iluminação pública, asfalto, rede de esgoto, escola nem creche. Na Vila Moisés, o Estado se faz presente com as patrulhas policiais. O Cabula é um bairro repleto de histórias de insurgência, revoltas e pobreza negra desde os primeiros tempos da escravidão. Quilombolas, escravidos fugidos, libertos, adeptos do candomblé e tantos outros insurgentes viveram lá. Nem por isto se trata de um lugar marginal na Salvador do século XXI. No Cabula estão a Universidade do Estado da Bahia, escolas públicas e particulares, condomínio pra classe média e shoppings center. Nada disso existe na Vila Moisés.

A chacina aconteceu pouco antes do carnaval, nem os fartos confetes do Momo baiano enterraram doze cadáveres de jovens, que tinham entre 15 e 24 anos. Assim que os camarotes e arquibancadas baixaram as cordas e acordes carnavalescos, o Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! conseguiu mobilizar diversos setores da sociedade civil e instituições ligadas aos Direitos Humanos para uma audiência pública mediada pela Ordem dos Advogados da Bahia. A audiência publica fez a sede da OAB transbordar com cerca de duas mil num auditório onde só cabiam 150 pessoas. A tensão se espalhava até a Praça da Piedade, de onde se podia ver e ouvir as representações dos sindicatos dos policiais distribuindo panfletos, exibindo cartazes e amplificando com carro de som o protesto contra os protestos que têm se multiplicado desde a chacina do Cabula.

Foi trazida pra o centro da cidade a ação policial que vitimou, no último 6 de fevereiro, doze jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula.

Ficaram lado a lado no auditório apertado, militantes do movimento negro, muitos policiais a paisana,–  alguns deles, armados – familiares dos jovens mortos, representantes da OAB nacional, lideranças políticas, o secretário da Justiça do Estado da Bahia, estudantes, dois vereadores (apenas dois) e outros tantos oportunistas seduzidos com o emaranhado de tripés e lentes das Tvs. Não demorou muito e um militante gritou o que todas as estatísticas confirmam: a juventude negra tem sido condenada a pena de morte, sem qualquer julgamento. A dois passos dele estava um policial que reagiu erguendo o braço e dizendo “eu sou preto também e não sou criminoso”. Foi só o começo. Durante mais de três horas, a questão racial pôs em situações limites quem exigia a investigação isenta do que houve na Vila Moisés e os que inocentavam os policiais envolvidos na chacina enquanto defendiam a própria Polícia, como instituição militar.

Na voz de policiais exaltados na platéia e representados na mesa por lideranças da categoria, dois argumentos se repetiam: a “Polícia defende os cidadãos de bem contra os criminosos que estão no tráfico de drogas” e os policiais também são vítimas, também são mortos. Não há quem duvide que os policiais também estão em risco. Hamilton Borges , do Movimento Reajá ou será morto! Reaja ou será morta!, tentou apaziguar os ânimos quando militantes e policiais se enfrentaram, dizendo que nesta guerra só morrem negros. Pois é, em nome da luta contra o tráfico de drogas, cada vez mais, só morrem negros sejam eles descalços ou fardados.

Também se ouviu todo tipo de absurdo. Certo capitão aposentado e mulato se disse vítima de racismo às avesas por ser branco. Outro, negro retinto, desafiava os presentes a entrarem numa viatura e não apertarem o gatilho. Em meio a tanto racismo, foi ficando evidente que o Movimento Negro tem rumo e propostas para a tal questão da Segurança Pública que tanto aflige aos governantes e aos “ cidadãos de bem”. Como disse Vilma Reis, as balanças de precisão, os helicópteros recheados de cocaína não nascem nas comunidades, onde a maioria é negra. Se a justificativa é o combate às drogas, o endereço é outro. A defesa de investigação federal sobre os grupos de extermínio na Bahia, a desmilitarização das polícias, a extinção dos Autos de Resistência foram propostas que mostram o quanto os movimentos sociais estão maduros e cientes de que a Segurança Pública no Brasil e, principalmente na Bahia, é uma questão racial.

O Mapa da Violência no Brasil, divulgado em 2014, mostra o quanto a vitimização tem cor. Entre 2002 e 2012 morreram 146,5% mais negros do que brancos na guerra urbana. Não faltam números, nem cadáveres negros para serem somados aos jovens do Cabula. Quem atendeu ao chamado de protesto do Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! estava de luto por muito outros sepultados em covas rasas. O luto era ainda mais visível na atitude das mães e avós dos jovens mortos. A maioria dos parentes das vítimas não foi. Estavam com medo. Quem sofre uma violência policial sabe que quanto maior a visibilidade maior é o risco. Nenhuma delas se pronunciou durante a audiência. Silêncio de luto e medo, afinal como disse um policial, enquanto se retirava da sala de audiência, “a resposta a isto a Polícia dá é na área”. Quem é da área sabe o que isto quer dizer.

Entre quem defende uma discussão honesta, democrática e sem metáforas futebolísticas sobre Segurança Pública, o Brasil dos tempos da escravidão aparece como a raiz dos nossos problemas. Foi o que disse João Jorge, presidente do Olodum, e Humberto Ádamo, representante da OAB nacional. Os discursos deles convergiam para entender as razões do problema. A criminalização e a vulnerabilidade da população negra no século XXI, quando os números apontam um crescimento do número de assassinatos de jovens negros, seria explicada pelo terrível passado escravista que ainda nos assombra. É consenso, a escravidão é abominável e nos marca até hoje. Mas, o que o genocídio negro nos diz sobre os nossos dias e expectativas de cidadania numa sociedade ultra consumista? Será que dá pra por só na conta da escravidão a Vila Moisés só existir no mapa da RONDESP?

Ainda somos herdeiros do passado escravista, concordo; entretanto, por que a expressão cidadãos de bem é cada vez mais usada para dizer quem são os supostos bandidos a nos ameaçar? Colocar na conta, já bem e devidamente avolumada do passado escravista, a responsabilidade pela tensão racial no Brasil, dramatizada  na audiência da OAB, não pode ser uma maneira de libertar o Estado Republicano, de livrar seus sucessivos governos, democráticos ou não, que ainda relutam em dizer com todas as letras a quem ele chama de cidadão de bem. Não cabe só ao Movimento Negro apostar na nossa juventude. Os mortos dos pelourinhos ainda nos cercam mas é sobre o futuro e as políticas que reeditam, sorrateiramente, o racismo institucional que tratamos ao gritarmos no auditório transbordando de raiva e ressentimentos recentes o mesmo coro: Povo negro livre, povo negro forte que não teme a luta, que não teme a morte!

E a guerra segue na Bahia.

* Wlamyra Albuquerque é doutora em História, professora de História do Brasil na Ufba e autora, dentre outros livros, de O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil,  São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

 

Fonte: A Tarde On Line

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