Cabelo bom

Cabelo bom
Oficinas de tranças, turbantes e maquiagem para a pele negra fazem parte dos projetos

 

Duas perguntas acompanharam a infância e a adolescência da educadora Raissa Rosa, de 23 anos. A primeira era por que as mulheres que estampavam as capas das revistas nunca se pareciam com ela. A segunda, por que as pessoas insistiam em chamar os cabelos que se assemelhavam aos dela de “ruim”. “Por ser negra, eu não me encaixava no padrão de beleza vigente e vivia ouvindo que o único cabelo bom era aquele esticado, liso. E, claro, o meu não era nada daquilo.” Depois, já adulta e com a confiança resgatada, Raissa passou a ver as mesmas cenas e discursos de descriminalização se repetindo com as meninas de sua comunidade. “Elas viviam com os cabelos presos ou alisados por terem vergonha de como eles eram naturalmente”, conta.

A constatação levou Raissa a criar, ao lado de Camila Christian e Marina Gabriela, o Projeto Pérolas Negras, desenvolvido dentro da ONG Casa Cultural do Morro, em Viçosa (MG). Em funcionamento desde 2013, a iniciativa promove semanalmente a troca de experiências de meninas de diferentes idades sobre o cuidado e a manutenção de seus cabelos crespos naturais. “O objetivo é mostrar para essas meninas como elas são bonitas e especiais do jeito que são e que o cabelo delas não tem nada de ruim. Digo que é uma iniciativa de reeducação, pois procura desconstruir a ditadura da beleza da mulher branca presente na nossa sociedade”, explica Raissa. Para isso, o projeto conta com a parceria de uma empresa de cosméticos da região, que fornece os produtos de tratamento e de beleza.

Nos encontros, muitos deles sediados em escolas, as participantes compartilham suas histórias pessoais e discutem temas ligados ao racismo, como o estereótipo da mulher negra como objeto sexual. Depois deste momento, são desenvolvidas atividades que estimulam o brincar com os cabelos. Fazem parte da programação oficinas de tranças, turbantes e maquiagem para pele negra e, até mesmo, ensaio de fotos. “Procuramos dessa maneira resgatar sua autoestima, mostrando que elas podem ser modelos, médicas, o que quiserem. E que cabelo crespo deve ser motivo de orgulho e não vergonha”, conta Raissa.

Com proposta semelhante nasceu o Coletivo Manifesto Crespo, que visa reconhecer o valor da cultura afro-brasileira, suas produções artísticas e estéticas e, consequentemente, fomentar a autoestima de homens e mulheres negros. “O coletivo tem como foco a discussão sobre como o cabelo crespo pode e deve ser encarado de forma criativa por meio de oficinas de tranças,dreads e turbantes”, explica Thays Quadros, uma das responsáveis pelo projeto.

As oficinas começam com a apresentação das pessoas, de onde vierem e o que esperam da atividade. A partir dos relatos dos participantes, conversa-se sobre estética, a transição capilar, o preconceito enfrentado em ambientes de trabalho e escolas. “Com isso explicamos a origem das tranças e a amarração de tecidos e partimos para a parte prática”, explica Thays, que acredita que conhecer tais técnicas é uma maneira também de aprender sobre a cultura e herança do povo africano. “Os penteados indicavam status, estado civil, identidade étnica, região geográfica, religião, classe social, status dentro da própria comunidade e até detalhes sobre a vida pessoal do indivíduo”, conta.

Além das oficinas de penteados, outra atividade desenvolvida pelo coletivo são oficinas infantis de contação de histórias. “Usamos o livro Betina, da autora Nilma Lino Gomes, que conta a história de uma neta e sua avó sobre os ensinamentos das tranças passados de geração em geração. E também o livro O Mundo Black de Tayó, de Kiusam de Oliveira, que narra a história de uma princesa negra”, conta Thays. As discussões são levadas para as escolas acompanhadas de um bate-papo, das oficinas de tranças ou amarração de tecidos. Tudo para desmistificar a ideia de que existe “cabelo ruim”. “O Manifesto Crespo trabalha com as crianças a conscientização de que existe vários tipos de cabelo como o crespo, o liso e o enrolado e que todos são lindos.”

O grupo é também responsável pelo documentário Tecendo e Trançando Arte, realizado em 2011 através do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), da Prefeitura de São Paulo. O filme resgata a cultura das tranças afros e suas histórias, buscando a valorização das trançadeiras(os) e dessa arte tão difundida na cultura negra, porém pouco valorizada como patrimônio imaterial. “As tranças afro carregam consigo uma identidade cultural, artesanal, um conhecimento passado de geração em geração”, lembra Thays.

Ao que tudo indica, projetos como o Pérolas Negras e o Manifesto Crespo já têm feito a diferença na vida de muitas meninas. Segundo Raissa, ao término de cada oficina, é visível a felicidade no rosto da criança ao perceber-se bonita e aceita. “Elas saem com os cabelos soltos, orgulhosas”, diz. Thays acredita que as iniciativas ajudam a resgatar a autoestima negra, mas que a discussão e valorização para serem duradouras precisam adentrar o espaço da família e da escola. “Os professores precisam entender a história do negro no Brasil. Não apenas da escravidão, mas da cultura rica que trouxeram de seus países de origem”, defende.

 

Saiba mais

Manifesto Crespo

http://www.manifestocrespo.blogspot.com.br

 

Fonte: Carta Fundamental

 

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