Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna

A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto:  Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

Maíra Azevedo

Para a maioria, o 25 de julho é apenas mais uma data no calendário. Para nós, que fazemos o debate de gênero e raça, é momento de analisar as posturas sociais e como elas interferem nas vidas daquelas e daqueles que dizemos defender em nossos discursos. As pautas são diversas. Por isso optei em focar meu debate sobre algo que faz parte das conversas das mulheres negras: vida amorosa ou a falta dela. Por isso, resolvi fazer uma série de questionamentos e espero as respostas.

Quem faz manifestação pela morte afetiva e cotidiana das mulheres negras? Quem se importa quando as mulheres passam sozinhas pelas ruas? Quem se incomoda com o fato das mulheres negras serem sempre maltratadas por seus parceiros, seja fisicamente ou psicologicamente? Quem tenta buscar solução pela vida miserável que as mulheres negras levam, pois ou elas estão chorando pelos homens negros que morreram ou pelos que ajudam a tirar suas vidas? Porque a morte das mulheres negras é real. Quando não morrem fisicamente, estão mortas afetivamente. A solidão mata, entristece, deprime.

Hoje, peço a você um minuto de reflexão. Qual mulher negra que você conhece vive uma relação bacana, tranquila, com cumplicidade? Se lembrar de cinco, sem precisar puxar pela memória, então eu volto e digo que estou errada. As mulheres negras estão sozinhas, até mesmo quando tem alguém ao lado. Porque a maioria dos homens, quando estão ao lado de uma mulher negra acham que já fizeram o bastante por ela. Para muitos, o fato de terem assumido a relação com uma de nós é um plus, um bônus. Devemos agradecer, afinal estamos fora das estatísticas da solidão.

É preciso fazer um alerta, uma convocação. Temos obrigação moral de sermos mais companheiras uma das outras. Se somos mesmos comprometidas com o debate de empoderamento feminino, vamos aprender a não brigar por homens, a não permitir que eles nos dissolvam. Pois, quando eles partem, ficamos em frangalhos e eles fazem isso em série.

Não dá mais para aceitar as migalhas que muitos desses homens pensam em nos oferecer: levar para um quarto de hotel e ter uma noite de prazer ou se aproveitar do nosso status para ter um duplo prazer. Muitos deles querem gozar da nossa influência e acham que nos dar o gozo é a melhor forma de retribuir tudo que já fizemos por eles.

E a nós mulheres negras, cabe praticar mais a sororidade. Devemos ser mais cúmplices, não julgar a outra. Estender a mão e no momento de dor, nada de lembrar “EU BEM QUE TE AVISEI”. Esse sofrimento em busca de um homem legal, bacana, companheiro, que te respeite, parece ser incessante e isso é cobrado de todos os lados.

A hora de chorar pelos cantos já passou e não deveria nem ter chagado. Mas é preciso despertar e ser mais cofiante, rejeitar essas miudezas que eles nos oferecem por aí. Porque pra gente é sempre mais difícil. Queremos viver, bem viver e não sobreviver. Vamos protestar contra a miserabilidade afetiva a que somos submetidas e que ás vezes é praticada por aqueles que defendemos. Basta! Por uma vida afetiva verdadeira e digna.

Maíra Azevedo é jornalista do Grupo A Tarde e militante das causas que envolvem a questão étnico-racial, gênero e combate ao racismo e  a todas as formas de desigualdades

Fonte: A Tarde Online

Um comentário sobre “Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna

  1. Caríssima irmã, Maíra Azevedo.

    Posso concordar queum grande número, senão a maioria, dos homens são hipócritas e insensíveis. Posso concordar que o dia da mulher negra não seja lembrado por todos(as). Mas não posso corroborar com a ideia de que todos sejam assim, até porque eu não sou. Sou branco, cheio de sardas, olhos verdes, estatura mediana, sou adepto do candomblé, amo a mulher exalando melanina e fui casado com uma, a quem me dedicava com afinco (quem não foi correspondido fui eu). Então, tenho certeza de que situações existem, mas colocar de forma globalizada soa um tanto melodramático, não acha?!

    Beijos e sucesso absoluto!!

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