Galo que hoje canta, ainda ontem era pinto: uma análise sobre o processo de formação religiosa no candomblé e na umbanda.

Por Cíntia Raymundo

Orelha não passa a cabeça diz os antigos. As religiões de matriz afrobrasileiras se caracterizam por um complexo sistema hierárquico meritório, temporal e, principlamente, predeterminado.

O candomblé possuí um sistema classificatório de formação religiosa: abiã, yawô e ebômi.

Abiã é o adepto na fase inicial dos ritos iniciáticos. Ele aprenderá o que for permitido. Será integrado a comunidade e terá tempo para se certificar de suas decisões. Muitos, por determinação do orixá, continuam abiã por muito anos. O yawô é aquele com menos de sete anos de iniciação, onde o neófito é consagrado ao Orixá. Assim definiu o etnólogo Herskovits

O iniciado é agora feito, um membro júnior habilitado do grupo de candomblé. Como tal, o novo iaô tem a oportunidade, não concedida a estranhos, de aprender o trabalho dos deuses e participar do culto público..

Os ebômis são os iniciados que completaram a obrigação de sete anos. São consideradas pessoas a quem deve respeito e a quem sempre devem ser ouvidas. Estruturam o que o antropólogo Vivaldo da Costa Lima denominou “princípio da senioridade”. Um complexa rede socioreligiosa construída com tempo, abnegação e merecimento. A partir da obrigação de sete anos, o ebômi se torna apto a assumir cargos dentro do axé. O cargo de santo é uma atribuíção determinada pelo odu e pelo Orixá. Pré determinado, é ancestral. Atribuíção de cargo por motivos pessoais sempre ocasiona, com o passar do tempo, brigas e rupturas. O orixá sempre faz valer a sua vontade.

A relação entre o candomblecista e a divindade é fundamentada através das “obrigações”, liturgias pós iniciação que se denomina respectivamente: obrigação de 1 ano, obrigação de 3 anos e obrigação de 7 anos. Elas não necessariamente obedecem ao tempo decorrido. Uma pessoa com vinte anos de iniciada que não completou o ciclo de obrigação de sete anos não será considerada ebômi.Assim como um pessoa com seis ou menos anos jamais poderá passar pela obrigação de 7 anos.Os antigos preservaram e perpetuaram essa tradição de formação religiosa. Talvez a dinâmica do tráfico escravista possa somar as explicações para este sistema religioso. Muitos escravos poderiam ser iniciados e , posteriormente, vendidos, rompendo alianças religiosas. Para assegurar uma continuidade e preservar saberes o sistema de obrigações cíclicas se tornou eficiente para candomblé. Permitiu criar parâmetros de legitimidade e reforçar o príncipio de senioridade.

Para os antigos,nenhuma pessoa pode se declarar babalorixá ou yalorixá sem passar pelo ciclo de obrigações e sem receber o decá, símbolo certificador que o adepto possuí odú e está autorizado pelos Orixás a abrir uma casa de santo.

Na década de 30, o folclorista Édison Carneiro analisou casos de pessoas que se tornavam zeladores sem obedecer a uma tradição de candomblé. Muitos eram candomblés de caboclos onde o encantado assumia a responsabilidade sobre o preparo religioso do sacerdote. Era, na época,um novo segmento, que embora fosse muito questinado, existe e possuí muitos adeptos. Atualmente, muitos desses candomblés adotam o sistema de obrigações ciclícas.

O processo de formação religiosa na umbanda é caracterizado pela doutrinação. Médium e entidade seguem a doutrina de determinada casa. Há tradições de umbanda direcionada por preto velho, com forte influência africanista. Outras seguem a tradição dos caboclos, marcados pela pajelança e jurema e outros seguem uma orientação espírita e/ou esotérica. A umbanda possuí rituais de senioridade: camarinhas, firmezas, batismos e amacis. Muitas obedecem ao sistema de sete anos, com rituais ciclicos e específicos de cada tradição. Importante ressaltar que o determinante para a Umbanda são as entidades. Elas são as donas de gongá, determinam o caminho da espiritualidade do médium e a orientação da casa religiosa. Não há sacerdócio na Umbanda sem Entidade Espiritual. O médium a qual a entidade determina a abertura de uma casa deve ser preparado, passar por obrigações, saber preparar defesas, familirizar com os códigos de santo. Abrir uma casa de umbanda sem preparo signica lidar com o desconhecido, ocasionando danos a vida dos sacerdotes e de terceiros.

O mais importante tanto na umbanda e no candomblé é saber que sacerdócio é ancestralidade, é comprometimento e abnegação.O candomblé chamará de odú e alguns umbandistas chamará de missão.Como diz o ditado “Galo que hoje canta, ainda ontem era pinto”, ou seja é preciso aprender para ensinar.

Um comentário sobre “Galo que hoje canta, ainda ontem era pinto: uma análise sobre o processo de formação religiosa no candomblé e na umbanda.

  1. Eu recomendo, estes ensinamentos para todos os novos iniciados para o santo e também os novos pais e mães de santo, foi assim que aprendi e fui iniciado.
    Pois sei que, sem determinado tempo de iniciação, de participação, doação, dedicação, amor ao santo, respeito a todas as pessoas e a si próprio e principalmente, cumplicidade com a casa que foi iniciado, o novo iniciado como ywaô ou babalorixá/yalorixá se perderá no caminho, e digo que muitas serão as provações que passaram, mas com confiança e fé no orixá da casa que o recebeu, e no seu pai ou mãe, e no seu próprio orixá, com certeza alcançara todos os objetivos, e será com certeza uma pessoa melhor para si mesmo e para todos.

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