Oni Ewé: o culto de Ossaim e o uso litúrgico das plantas nos candomblés iorubás no Brasil

Por Cíntia Raymundo
Oríkì fún Òsónyìn
Ìba Òsónyìn
Ìba oni èwé
kó si arun
Kó si akoba
Àse
Oríkì para Òsónyìn
Elogio para o espírito do medicamento das folhas
Eu elogio o dono do medicamento das folhas
Me livre de adoecer
Me livre da coisa negativa
Eu dou graças ao dono do medicamento
Axé[1]
A fitolatria é uma característica central dos candomblés iorubás. As folhas são consideradas sagradas e sua utilização é um dos principais awó (segredo) dos sacerdotes. O uso litúrgico das folhas é um dos mais complexos rituais e requer sacerdotes especializados denominados babalossaim.
As folhas ou ervas sagradas pertencem ao Orixá Ossaim, o Oni Ewé (dono das folhas). Um dos mais conhecidos mitos iorubás justifica esse pertencimento:
Ossaim era o filho caçula de Iemanjá e Oxalá e, desde pequeno, vivia no mato. Tinha uma habilidade especial para tratar qualquer doença, por isso viajava pelo mundo inteiro, sendo sempre recebido com carinho pelo rei de cada tribo. Ele recebeu de Olodumaré o segredo das folhas; assim sabia qual delas curava doenças, trazia vigor ou deixava as pessoas mais calmas. Os outros orixás invejavam Ossaim por isso. Em troca dos suas curas ,Ossaim aceitava fumo, mel e cachaça. Xangô, que era temperamental, não admitia depender dos serviços de Ossaim, e por isso pediu sua esposa Iansã, orixá que domina os ventos, para que as folhas voassem em direção a todos os Orixás para que cada um desses tivesse suas folhas particulares. Assim Iansã fez. Soprou forte seu afééfe (vento), espalhando todas as folhas se Ossaim. Em meio a ventania , Ossaim exclamava “ewé àsa” (minhas folhas). Esse tipo de reza permitiu que Ossaim reservasse para si o segredo das folhas. Embora cada orixá possua suas folhas, somente Ossaim sabe os encantamentos (ofó) delas. Dessa forma, Ossaim é considerado o senhor do Igbo, da floresta e o patrono do curandeirismo e da medicina.[2]
Ossaim é o orixá masculino do ar livre, governa a floresta, juntamente com Oxossi. Senhor do axé (força ) existentes nas folhas e nas ervas, ele não se aventura nos lugares onde o homem modifica os espaços, construindo edificações . É bastante cultuado no Brasil sendo o Orixá da cor verde, do contato mais íntimo e misterioso com a natureza. Seu domínio estende-se ao reino vegetal, às plantas, mais especificamente às folhas, onde corre o sumo. Por tradição, não são consideradas adequadas ao Orixá Ossaim, as folhas cultivadas em jardins ou estufas, mas as plantas selvagens, que crescem livremente sem a intervenção do homem. As áreas consagradas a Ossaim nos candomblés iorubás são os pequenos recantos e as passagens mais isoladas das florestas, onde só determinados sacerdotes (babalossaim) podem entrar. A cerimônia onde as folhas de ossaim são colhidas e encantadas são denominadas sassayim. O emblema de Ossaim é uma haste central de ferro rodeada de outras seis, com um pássaro de ferro na extremidade da haste central representando seu poder de feitiçaria. Ossaim é uma divindade de extrema significação, pois praticamente todos os rituais importantes utilizam, de uma maneira ou de outra, o sangue escuro que vem dos vegetais, seja em forma de folhas, infusões para uso externo ou de bebida ritualística.
As folhas no sistema litúrgico iorubá pode ser classificadas de acordo com os quatro elementos da natureza: ar, terra, fogo e água. Assim, existe as folhas do ar (ewé afééfé), as folhas do fogo (ewé inã), as folhas da água (ewé omi) e as folhas da terra (ewé ilé ou ewé igbo). Dessa divisão, as folhas são reclassificadas quanto a sua propriedade de ser quente ou fria, ou seja, sua capacidade de agitar ou acalmar uma pessoa. Quando a folha é fria é denominada de ewé erro, quando é quente se denomina ewé gun. As folhas frias estão relacionadas aos orixás do elemento ar e do elemento água como Oxalá, Oxum, Yemonjá. Essas folhas são as recomendadas para os chamados banhos da cabeça aos pés. As folhas quentes são relacionadas aos orixás da terra e do fogo e seus banhos devem ser, exceto em casos especiais, do pescoço aos pés.
As folhas também se classificam quanto às suas características masculino/feminino, negativo/positivo, esquerda/direita, fecundantes/ fecundáveis. As folhas masculinas são consideradas folhas positivas e da direita (ewé apa òtún) e as folhas femininas são compreendidas como folhas negativas e de esquerda (ewé apa òsí). As ewé inã e as ewé afééfé são consideradas folhas fecundantes e as ewé ilé e ewé omi são consideradas folhas fecundáveis.
O agbó sagrado, mistura de sangue vegetal fundamental em vários aspectos da liturgia dos candomblés iourubás, é compreendido de 16 folhas, sendo 8 folhas gerais (fixas) e 8 folhas variáveis conforme o carrego de santo[3] de cada pessoa. As oito folhas gerais, segundo a classificação de Pessoa de Barros, [4] são: pèrègun, toto, rínrín, ewé òwù, tètèregun, awùrepépé, ewé ogbò, gbòrò ayaba.
Essas folhas juntamente com elementos com ossum, wagi e efum constituem elementos primordiais e sua ocorrência no Brasil dependeu, principalmente, da utilização nas seitas religiosas.
Dentre as plantas oriundas do continente americano ou nativas do Brasil estão:
A folha de pèrègun (dracena fragans (l.) Ker Gawl) é popularmente conhecida como dracena, nativo, pau-d’água e coqueiro-de-vênus. Pertencente ao orixá Ogum e ao elemento terra/masculino, é uma planta de origem africana e largamente difundida no Brasil. O peregun possui grande importância na liturgia dos candomblés iorubas. É uma folha protetora dos espaços, demarcando ambientes sagrados. Constitui ainda uma folha para decoração dos salão públicos, pejis e assentamentos de Orixás, além de entrar na indumentária de muitos Orixás como Ossaim.
O tètèregun (Costus spicatus Swartz), planta nativa do Brasil conhecida como cana -do -brejo, é considerada a “folha da vida e da morte”, entrando nas liturgias de iniciação. É uma folha representativa dos ritos de passagem e inserida nos cultos aos Orixás no Brasil.
A planta awùrepépé (Spilanthes acmella) é nativa da América do Sul e encontrada em todo Brasil. Nesse recebe os nomes de agrião-do-pará, jambu e treme-treme. Pertence aos orixás Oxalá e Oxum. É uma das plantas que entra nas misturas vegetais para “abrir a fala” dos orixás. Muito utilizada na culinária do norte do país, constitui de outra readaptação vegetal na liturgia iorubá.
O gbòrò ayaba (Ipomoeapes-caprae), conhecida como salsa-da-praia no Brasil, é uma planta originária da Améria tropical. Pertence ao Orixá Yemonjá e ao elemento água. Yemonjá está relacionada ao culto de orí(cabeça). Ya Orí (mãe das cabeças) é um dos títulos desse Orixá.
As plantas de origem asiáticas compreendem:
O ewé òwù (Gossypium barbadense), folha conhecida no Brasil como algodoeiro, pertence aos Orixá Oxalá e Orumilá sendo representante do elemento ar. Planta originária da China, o algodão tem ampla utilidade nas liturgias dos candomblés. O algodão é uma planta pertencente ao odu Osá, signo feminino do sistema oracular de Ifá, responsável pelo fluxo menstrual e pelo útero. Osá é o principal signo das Ya mi oxorongá, as grandes feiticeiras africanas. Na fitoterapia, o algodão é indicado para combater disfunções do ciclo menstrual e dores no útero.
O tótó (Apinia zerumbet) é conhecida no Brasil como a folha de colônia. Pertence aos Orixás Oxum, Yemonjá e Oxalá. Planta originária da Ásia e, largamente, cultivada no Brasil devido sua adaptação ao clima tropical. Planta de fundamental importância nos candomblés iorubas, é recomendada para acalmar as pessoas e no combate à histeria.
Dentre as de origem africanas estão:
A folha de rínrín (Peperomia pellucia), conhecida no Brasil como alfavaquinha de cobra e/ou oriri de Oxum, é uma planta de origem africana que se proliferou por todo o Brasil. Pertence ao Orixá Oxum , estando articulada ao elemento água.Essa planta está articulada com os olhos pois Oxum é a única divindade feminina relacionada ao culto de Ifá.Oxum é aptebi (título honorífico no culto de Ifá) do culto do deus da advinhação, por isso as práticas oraculares recorrem freqüentemente a essa planta. No Brasil, o oriri de Oxum além de ser uma planta voltada para vidência de jogo de búzios, também é uma planta utilizada em trabalhos para fins amorosos. Isso, possivelmente, se deve ao fato do Orixá Oxum ser considerada o orixá do amor.
A folha de ewé ogbò (Periploca nigrescens), pertence aos orixás Oxossi e Ossaim. Originária da África tropical, trazida pelos iorubas para o Brasil, esta planta está aclimatada no país . É uma das plantas utilizadas para alterar o estado de consciência dos filhos de santo. O ewé ogbó é popularmente conhecido no Brasil como rama-de-leite, cipó-de-leite ou orelha de macaco.
Efum, wagi e ossum são três elementos africanos largamente utilizados no Brasil. Esses elementos simbolizam a iniciação sagrada nos candomblés nagôs. Representam as três cores da iniciação: o branco, o azul e o vermelho. Na festa pública, onde o yaô é trazido ao salão público, o rito compreende “três saídas”, ou seja, três aparições públicas do yaô. Esse triplo momento relaciona-se diretamente com o efum, uagi e ossum. O efum é um pó mineral branco, conhecido no Brasil como pemba africana.É substituído no Brasil pelo pemba brasileira(giz).O wagi é o pó vegetal azul e seu uso é largamente usado no Brasil, sendo freqüentemente importado da Nigéria. O ossum é um pó vermelho de origem vegetal.No Brasil seu sucedâneo é o urucum, elemento muito utilizado na culinária brasileira.
[1]www.dofonodelogum.sites.uol.com.br/orikifunorisas
[2] http://www.filhosdegandhirj.kit.net/texto_deuses.htm
[3] Conjunto de orixás particulares de cada pessoa
[4] BARROS, J.& Napoleão, E..,.Ewe Orisa: uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé Jeje-Nagô , 2 ed., Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2003,pg.31.

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