Religiões afro-brasileiras sob um olhar poético

Os rituais e as festas são uma parte integrante da cultura e uma parte do folclore brasileiro. Desde que passei a ser blogueira do SZRD, a inquietude tomou conta da rotina e virei uma pesquisadora contumaz da nossa história cultural.

Na última semana, tive o privilégio de manusear uma das obras de Cecília Meireles (1901-1964) de 1983, pela Funarte. O título “Batuque, samba e macumba – estudos de gesto e de ritmo” é uma síntese da jornalista, pintora, escritora e professora brasileira que retratou o período de 1926 a 1934 com ilustrações e textos do Carnaval e costumes brasileiros.

Cecília Meireles. Foto: Reprodução

Todas as ilustrações do livro, pintadas pela escritora, foram expostas em 1933. À época, a imprensa noticiou que aquela exposição fixaria os ritmos do samba, as figuras típicas da baiana e do bamba.

Cecília, que também era poetisa, detalha o que é o xale retangular de um e meio a dois metros de comprimento, com uma largura de uns 80 centímetros, atravessado de listas duradouras, entremeadas de algum fio metálico, ou apenas riscado de azul e branco. Trata-se do autêntico pano da “Costa” (da costa de África). Usado pelas baianas em todos os segmentos.

Outro trecho, minuciosamente transcrito, sob o olhar de nossa protagonista. “No canzol estão, pois, os santos com os seus emblemas: Xangô, Ogum, Oxossi, com fitas vermelhas. Machados, espadas, flechas, etc – uma vez que tudo os distingue: cores, objetos e substâncias. Iemanjá, por exemplo, tem como emblemas as rosas brancas, a estrela-do-mar, os búzios, os seixos rolados, miçangas brancas ou azuis, fitas da mesma cor. Se a Umbanda é o terreiro físico, onde se desenvolve a macumba, um outro terreiro existe, na imaginação do negro, em plano astral, correspondente àquele, e onde repercute o bem e o mal que nele se pratica, despertando assim as forças sobrenaturais que passam a agir segundo o poder dos feiticeiros, e à sua vontade – sempre que a sua vontade for justa. É o terreiro da Aruanda”.

Religiões afro-brasileiras sob uma olhar poético. Foto: Reprodução

Os olhos cintilam enquanto folheio e viajo nas pinturas e linhas da autora. A forma lírica e pueril como define nossos costumes é sedutor. Eis outra parte da narrativa. “A macumba em seu aspecto festivo tem uma doçura selvagem, um encantamento profundo, de onde se exala o torpor misterioso e a invencível atração da selva africana, povoada de deuses e demônios, tão autênticos como a água dos rios, os troncos das árvores e as feras que passeiam, sem dizerem aos homens de onde vêm nem quem são. Traduzem, além disso, a saudade do negro pela choça dos seus antepassados, o banzo da ausência sem volta, a melancolia da vida que o Atlântico partiu – e que o bom brasileiro acolheu em sua alma com ternura, para consolar o antigo escravo e antiga ama, que lhe encheram a infância de lendas e cantigas e deixaram seu sangue na terra que plantaram – seu coração nos berços que moveram e a última esperança num mundo mais feliz, na Aruanda do sonho, que a música e o fumo da macumba permitem às vezes entrever”.

Todas as religiões que foram trazidas para o Brasil pelos negros africanos, ainda na condição de escravos, são consideradas afro-brasileiras. A lista passa de 15 costumes e rituais africanos, mas a predominância em todos os estados brasileiros está no Candomblé, Quimbanda e Umbanda.

O termo candomblé é uma junção do termo quimbundo candombe (dança com atabaques) com o termo iorubá ilé ou ilê (casa): ou seja, “casa da dança com atabaques”. É uma religião derivada da natureza africana onde se cultuam os Orixás e voduns. Mantêm mais de três milhões de seguidores em todo o mundo. A ligação dos cultos é um fenômeno brasileiro em decorrência da importação de escravos onde, agrupados nas senzalas, nomeavam um zelador de santo também conhecido como babalorixá no caso dos homens e iyalorixá no caso das mulheres.

Religiões afro-brasileiras sob uma olhar poético. Foto: Reprodução

A Quimbanda é um conceito religioso de origem afro-brasileira, presente na Umbanda, ainda controverso quanto a sua real definição na atualidade. Por vezes, é classificada como uma religião autônoma. Suas entidades vibram nas matas, cemitérios e encruzilhadas, também conhecidos como “Povo da Rua” e abrangem os mensageiros ou guardiões Exus e Pomba-gira. Estas entidades trabalham basicamente para o desenvolvimento espiritual das pessoas, com o intuito da evolução, além de proteção de seu médium. Como são as entidades mais próximas à faixa vibratória dos encarnados, apresentam muitas semelhanças com os humanos.

A Umbanda, de origem brasileira, sintetiza vários elementos das religiões africanas e cristãs, porém sem ser definida por eles. Oriunda da língua quimbunda de Angola e significa “magia”, “arte de curar”. Formada no início do século XX, no sudeste do Brasil, é considerada uma religião brasileira por excelência, com um sincretismo que combina o catolicismo, a tradição dos orixás africanos e os espíritos de origem indígena. O dia 15 de novembro, já considerado como a data do surgimento da Umbanda pelos seus adeptos, foi oficializado no Brasil em 18 de maio de 2012 através da Lei 12.644.

Durante a III Semana de Folclore, em 1950, na cidade de Porto Alegre/RS, Cecília Meireles declarou a respeito da mostra: “Eu não vim aqui, propriamente, como uma especialista na matéria. Eu vim como uma pessoa que, cansada de buscar caminhos para que os homens se entendam em outros setores de atividades intelectuais, procura, no folclore, talvez um caminho mais ameno, talvez um caminho mais possível. (…) encontrem no folclore a solução para muitos de seus problemas pela compreensão das suas origens, da sua identidade, daquilo que neles é transitório e também aquilo eu neles é permanente”.

Muito obrigada Cecília Meireles. Sua obra, genuinamente brasileira, fortalece nossa origem e nossa cultura. Motumbá!

 

Fonte: SRZD

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