Entrevista com Goli Guerreiro

Goli Guerreiro é uma antropóloga e escritora baiana. Lançou recentemente o livro Alzira está Morta sobre as comunidades negras no Atlântico no qual conta as aventuras de uma mulher corajosa e aventureira cuja vida percorre o século XX e as transformações que ocorriam em vários pontos do mundo negro: Bahia, África Ocidental, Europa, Estados Unidos da América e volta.

As práticas culturais e todos os seus cruzamentos, a escrita, a tecelagem, a fotografia e as várias camadas de tradições interessam à antropóloga, que passou recentemente por Lisboa, onde esta entrevista foi realizada, para apresentar Alzira está Morta – Ficção histórica no mundo negro do Atlântico. O livro resulta de um pós-doutoramento em Letras e valeu-lhe o Selo Literário João Ubaldo Ribeiro, prêmio instituído pela Prefeitura de Salvador da Bahia.

Antes escrevera Terceira diáspora – o porto da Bahia, A trama dos tambores – a cena afro-pop de Salvador e Terror e aventura – tráfico de africanos e cotidiano na Bahia. Editora do blog Terceira Diáspora sobre os repertórios culturais do mundo negro, é também curadora do acervo fotográfico de Arlete Soares, fundadora da Editora Corrupio, editora da Bahia que desde 1979 publica livros sobre culturas negras e diáspora africana.

Como surgiu a ideia de fazer um romance histórico com a abrangente diáspora negra como fundo?

Inicialmente não tinha a intenção de compor essa trilogia que aborda as trocas culturais no mundo Atlântico. Mas, dois anos após o lançamento do Terceira Diáspora – o porto da Bahia, que mapeia a produção cultural negra de Salvador no século XXI, a Editora Corrupio me convidou para escrever um livro sobre o tráfico de africanos chamado Terror e Aventura, dando assim origem a um livro sobre a primeira diáspora. Tendo um livro sobre a terceira diáspora, que aborda as trocas culturais virtuais entre mundos negros desencadeadas pela internet, e um livro sobre a primeira diáspora, sobre a escravidão, havia um caminho claro a seguir: escrever um livro sobre a segunda diáspora. Como os dois primeiros livros vinham em narrativas diferenciadas (o Terceira Diáspora é um blog impresso e Terror e Aventura um ensaio histórico-antropológico), me lancei na aventura de escrever sobre a segunda diáspora em forma de romance.

O deslocamento negro, muitas vezes forçado, foi fundamental para se criar uma criatividade imensa em várias frentes. Como se jogam esses  mundos dispersos do Atlântico negro em termos de conhecimento mútuo?

As trocas criativas culturais no mundo atlântico não são lineares, há partes muitos desconhecidas. Por exemplo, o Brasil não conhece muito o Caribe. Se deixarmos de parte a salsa, em Cuba, ou o reggae na Jamaica, é praticamente desconhecida a produção cultural dos 32 países do Caribe no Brasil. Já em Inglaterra não tanto. Depende dos contextos, não há generalização possível sobre as artes do Atlântico nas suas várias dimensões criativas. Há áreas do Atlântico que pouco conhecem do Brasil já o que é produzido nos EUA é muito mais veiculado no mundo inteiro. Também dependerá muito do acesso à internet dessas comunidades negras.

'Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher como essa interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino.'

‘Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher como essa interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino.’

Por que quer Alzira (1911-88) traçar este percurso e vive tamanha curiosidade?

Na época em que Alzira nasce, 1911, as relações entre a Bahia e Nigéria eram bastante intensas. Alzira faz a vontade da mãe ao ir para a Nigéria porque a mãe gostaria de ter retornado, como africanos e filhos de africanos retornaram e fizeram as comunidades agudas na África Ocidental. Desde o início do século XIX que essas comunidades de retornados começam a formar-se em Lagos, na Nigéria, porque lá o tráfico de africanos era proibido, e assim era um porto seguro para os negros que desejavam retornar e não corriam o risco de ser recapturados e vendidos. Alzira era filha de um babalaô [sacerdotes exclusivos de Orunmilá-Ifá do culto de Ifá na religião ioruba] que havia vivido vários anos em Lagos. O mundo dela era preenchido por essas memórias da Nigéria, da tradição dos orixás e pelo desejo da sua mãe de regressar. Aliado a isso, teve uma educação diferenciada dos filhos dos operários da Fábrica Luiz Tarquínio com um modelo de educação muito sofisticado, onde havia pintura, desenho, línguas estrangeiras. Então, essa educação ampla permitiu que Alzira se lançasse jovem na aventura de atravessar o Atlântico para realizar o desejo da sua mãe.

Enquanto personagem feminina, apesar de verosímil, não é muito “típica” na sua época: nada deve a nenhum homem, estuda e viaja à vontade, é dona do seu destino. No romance cruzamos com outras mulheres incríveis. Quis ter um posicionamento feminista neste romance?

Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher assim interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino. Vai-se encontrar com mulheres que ficaram apagadas na História, como Paulete Nardal que foi fundamental para o movimento da negritude, a primeira jornalista negra em Paris e a estudar na Sorbonne, e que permitiu o encontro dos líderes mais conhecidos em saraus literários. Vai ler a escritora Zora Neale Hurston, única mulher do Harlem Renaissanse, primeira antropóloga afro-americana, a caribenha Claudia Jones, que inventou o Carnaval de Londres, mantinha jornais anti-imperialistas, foi expulsa dos EUA por envolvimento com o Partido Comunista. Alzira representa cada uma delas, não por ser típica mas por ser uma mulher de excepção merece uma biografia. Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem.

'Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem'

‘Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem’

Por que escolheu esta época para situar a sua narrativa?

A escolha da época diz respeito à disposição da trilogia. Apesar de não ter essa intenção original, depois de escrever sobre a primeira diáspora e a segunda que já era a história moderna, restava-me escrever sobre uma época em que a escravatura já tinha acabado, e sobre os deslocamentos “voluntários” para encontrar parentes e melhores condições de vida. Estes deslocamentos reconfiguram a paisagem litoral do Atlântico, as cidades atlânticas, sobretudo ao longo do século XX. A terceira diáspora é só depois de 1990, quando a internet se difunde.

A islamização, tal como a ocidentalização, estão em expansão em África. Como resistiram as culturas originais nestes países?

A religião não é um dos fortes do meu romance, embora não esteja de fora, mas não é central. Abordo a Renascença Lagosiana como um movimento cultural de confronto com o colonialismo inglês que se ampara nos fundamentos do reino de Oyó, um exemplo de como as culturas originárias procuraram resistir ao colonialismo, seria difícil abordar os movimentos perante a islamização e cristianização dos povos africanos. Posso apenas dizer que estes processos avançam no continente africano, e que a islamização chegou muito antes de Alzira.

Quais eram as principais marcas das cidades na Nigéria, Daomé, Togo, Camarões, Senegal no início do século, em plena época colonial?

Houve uma clara intenção de caracterizar os ambientes das cidades onde Alzira mora, todas muito distintas. Centro-me na África Ocidental, nas cidades dominadas pelo colonialismo inglês e francês e nas diferentes etnias que habitavam esses espaços que os europeus colonizaram. Assim, exige um mergulho na história desses países criados pelo Ocidente no território africano. É preciso ler para capturar as nuances.

“Não é um romance de protesto”

Em que momentos a Alzira mais se indigna com as injustiças que observa?

Alzira está morta não é um romance de protesto, procura realçar repertórios culturais pouco conhecidos. O caminhar dela tem confrontos com os ingleses, colonizadores, mas tudo isso é sentido na trajectória da personagem, na leitura do romance, mas não levanta bandeiras. É preciso conhecer as nuances, as questões ligadas ao poder colonial. Além disso, Alzira é estrangeira, volta à Bahia e desloca-se quando bem quer, é representante de uma elite comercial, não está atada a nenhum domínio como as comunidades locais, tem mais leveza do que os cidadãos locais.

'O ‘furacão africano’ foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem'

‘O ‘furacão africano’ foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem’

O movimento cultural tinha já sementes do que viria a ser a resistência anti-imperialista?

O movimento cultural da Renascença Lagosiana revisitava os fundamentos da cultura ioruba, insistia no uso dos nomes iorubanos, havia tendência para abandonar os nomes ingleses, incitava o uso de roupas tradicionais, para manter a sua religiosidade original, a tradição dos orixás. São formas de confronto ao colonialismo inglês e vai-se repercutir depois da Segunda Guerra, quando a luta independentista ganha fôlego vigoroso, conhecido como o período do “furacão africano”.

Muitos dos líderes das independências foram educados nas metrópoles europeias. Como se fazia este contraponto?

As comunidades negras nas metrópoles europeias eram laboratórios anti-imperialistas. No ambiente cosmopolita, a criatividade aflorava, uma troca de informação grande e de estratégias de confronto ao colonialismo e a formação educacional permitiam saber o que estava a acontecer noutras partes do Ocidente. Assim, esses africanos voltavam revitalizados para buscar transformação nos seus países, designadamente entre 1945 e 1960, quando o “furacão africano” foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem.

O Harlem Renaissance nova-iorquino está em comunicação com o mundo negro de Paris e Londres. Existia um jogo de espelhos nas urgências das questões negras em vários lugares?

Sim, há uma conexão explícita entre o Harlem Renaissance em Nova Iorque, movimento de literatura negra, e o movimento negro em Paris nos anos 1930. Muitos americanos frequentavam Paris à procura de um ambiente não segregado e mantiveram contacto, por exemplo, através dos saraus literários do apartamento de Paulete Nardal. Escritores do Harlem Renaissance encontravam-se com pensadores do movimento negritude da França. Mas havia tendências diferentes frente às urgências do mundo negro: os americanos apontavam mais para a experiência particular do negro na diáspora enquanto os franceses se importavam mais com a unidade africana e as independências, o que teve desdobramentos até hoje.

Da Bahia para o mundo negro e seus grandes momentos de afirmação. Que traz Alzira das trocas culturais que observou no seu regresso a casa?

Todo o universo de Alzira está marcado pelos repertórios culturais que descortina na África, assim como pela discussão ideológica do movimento negritude, tudo o que foi vivido está impresso na sua maneira de ver o mundo, na sua luta subtil em prole das comunidades negras no Atlântico. A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento acadêmico e através da arte.

'A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento académico e através da arte'

‘A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento acadêmico e através da arte’

Evolução da fotografia africana

A fotografia africana teve o seu boom nesta altura. Fale um pouco de como aconteceu e de alguns nomes.

Ao longo da narrativa é possível conhecer a evolução da estética da fotografia africana.  A fotografia chega a África apenas 20 anos depois de ter sido inventada na França, primeiramente nas cidades portuárias da África Ocidental, Freetown na Serra Leoa, Acra no Gana, Lagos na Nigéria, Lomé no Togo, Saint Louis no Senegal. Havia um trânsito intenso entre as cidades portuárias, onde fotógrafos se estabelecem como ambulantes e também em estúdios. Os primeiros fotógrafos a actuar na África eram brancos, mas logo passaram a ser assessorados por jovens negros que se tornaram os primeiros fotógrafos africanos. Na década de 1870 a fotografia já tinha ganho a costa oeste africana começando pela Serra Leoa. A primeira foto africana preservada, cuja autoria é desconhecida, foi feita em Freetown em 1870. Trata-se de um cartão-de-visita [fotografias de cerca de 9,5 x 6 cm montadas sobre um cartão rígido de cerca de 10 x 6,5 cm que eram trocadas entre amigos e conhecidos, foi inventada por André Adolphe-Eugène Disdéri em 1854].

No caso da fotografia, temos personagens reais com os quais Alzira interage ou vem a conhecer o acervo. Alex Acolatse teria feito o primeiro retrato de Alzira, também um cartão-de-visita, que se tornou uma febre entre as elites africanas, no início do século 20. O cartão era a própria imagem da pessoa. Em viagens ao Senegal, Alzira torna-se amiga do fotógrafo Mix Gueye que a inicia na fotografia e lhe apresenta diversos outros fotógrafos senegaleses, como Meissa Gaye e Mama Casset que criaram uma estética da fotografia senegalesa. Posar, tendo como fundo fotos de ancestrais, poses diagonais, expressividade das mãos e do olhar são marcas dessa estética. Ela conhece também no Senegal a combinação da fotografia com a pintura sob vidro. Alzira assiste na popularização da fotografia na África a partir dos 1940. Foi sempre uma fotógrafa amadora. Nos anos 1960, na Bahia, toma conhecimento do que está acontecendo no mundo da fotografia no Gana, através dos estudantes africanos que chegam à Bahia. De longe, acompanha a evolução dos fundos decorativos, que inicialmente mostravam paisagens europeias e como isso vai dando lugar a cenários das grandes metrópoles africanas. Postos de gasolina, aeroportos, conjuntos habitacionais, urbanidade. Nos Estados Unidos acompanha o que está acontecendo no Mali. O sucesso do estúdio de Malick Sidibé e a própria fotografia afro-americana. A Renascença do Harlem, seu tema de estudo, foi intensamente registada pelo fotógrafo James Van Der Zee, uma espécie de cronista do Harlem. Quando volta à Bahia já nos anos 1970, Alzira conhece os primeiros fotógrafos negros de Salvador.

Também aborda a tecelagem e a história dos panos para consumo em África, cuja percepção sobre a autenticidade está cheia de equívocos.

Alzira vai comercializar os tecidos Adire de algodão. Trata-se de um tecido tradicional tingido em índigo natural. Entre os iorubas é uma prática exclusivamente feminina e 17 espécies de índigo são nativas da Nigéria. Ela vai conhecer as técnicas de tintura e os rituais religiosos em torno dessas práticas. Nos mercados vai conhecer a estamparia como expressão de visões de mundo, como na tecelagem senufo. Nos mercados do Daomé conhece os patchworks, que contam a história da realeza daomeana. Nos anos 1930, ao chegar na Nigéria, Alzira presencia a expansão do tecido wax – produção europeia, inspirada no Batik da Indonésia, para consumo em mercados africanos. O uso do tecido wax se torna signo de distinção social e disputa espaço com os tradicionais adires.

Também as escritas africanas lhe interessam. Estamos perante a denúncia da eclosão, perda de registos e de falas de grande riqueza e diversidade linguística?

Em cinco mil anos de história, 90 sistemas de escrita foram inventados, sendo 40 deles da África Subsariana. Cabe à África do Norte a invenção de 50 sistemas de escrita, os hieróglifos e os árabes modificados chamados ajami. Os colonizadores ou proibiram o uso das escritas locais ou impuseram grandes obstáculos à sua utilização a fim de garantir e afirmar a imagem de uma África selvagem a ser civilizada pelo Ocidente.

O seu interesse iconográfico viaja até ao desenho de roupa. O que é a marca Almerinda e como funciona a parceria com a Katuka Africanidades?

'Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançámos a Colecção Alfabeto Infinito'‘Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançamos a Coleção Alfabeto Infinito’O livro trouxe-me esta surpresa que revela a força dessa personagem inventada. No fim de sua vida, nos anos 1980, Alzira criou algumas coleções de moda inspiradas nesses repertórios. E, no longo tempo de espera pela publicação do romance, uma das coleções de Alzira sobre escritas africanas saltou da ficção para a realidade. Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançamos a Coleção Alfabeto Infinito. Uma seleção de nove escritas criadas no Magrebe e na África Ocidental deu origem a roupas e jóias. As peças femininas e masculinas ganharam os nomes das escritas que inspiraram as estampas e a estória de cada escrita e sua forma original. É uma alegria ver as pessoas portando no corpo esse conhecimento que foi apagado da história da África pelos colonizadores europeus. Há também uma escrita banto, criada na África Austral, muito interessante que eu espero ter oportunidade de conhecer melhor.

O romance tem uma grande pesquisa histórica e de ambientes e figuras reais, deu-lhe prazer emergir neste universo de escrita?

Para criar uma personagem verosímil era preciso ter em mente pessoas reais. Mergulhar nessas biografias deu-me imenso prazer, foi aí que me apaixonei pela leitura de biografias. Conhecendo a vida dessas figuras foi possível criar uma personagem não típica mas convincente.

O conceito de “Terceira Diáspora”

Com esta obra encerra a sua trilogia da Terceira Diáspora, “deslocamento virtual de signos provocado pelo circuito de comunicação da diáspora negra”. Como concebeu este conceito e como o tem transmitido?

As trocas culturais começaram a manifestar-se desde o século XVI nas grandes navegações. E as formas dessas trocas se processarem foram-se alterando. Na primeira diáspora, aquando do tráfico de africanos, os negros chegavam despidos de qualquer bem material. Traziam o seu imaginário, então havia um tipo de troca a partir dessa realidade a ser reconstruída no Ocidente. Na segunda diáspora já era diferente, as pessoas já se deslocam com as suas malas, roupas, livros, fotografias, discos. Havia uma materialidade das trocas culturais entre as comunidades negras. Na terceira diáspora elas se deslocam virtualmente, impactando a produção cultural nas comunidades em outros cantos do Atlântico e em outros campos de criação. Então a ideia era escrever sobre esse assunto que na realidade precisava de ser ainda nomeado – e assim foi com a Terceira Diáspora –uma vontade de reactualizar esse processo de trocas ininterruptas culturais entre comunidades negras do Atlântico.

Porque se interessou pela forma de escrita de blog, fragmentado e composto por tanto hipertexto?

A forma da escrita de blog é justamente a forma privilegiada de transmitir o conceito de Terceira Diáspora. As trocas virtuais só nascem no mundo com internet, os sites têm a estética e a estrutura ideal para veicular essa troca de informação do século XXI, hiperlinkar as informações em outros contextos e linguagens de vários universos criativos.

Quando viajou até Luanda o que achou desta Angola contemporânea?

'Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.'‘Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.’São justamente as cidades atlânticas africanas que me interessam, as grandes cidades me fascinam. Luanda foi uma experiência maravilhosa, tive oportunidade de ir em 2010 durante a 2ª Trienal de Luanda e assim conviver com a comunidade interessada em arte contemporânea, artistas que estavam participando nesse evento e de lançar o meu livro Terceira Diáspora em Luanda. Foi uma sensação muito engraçada porque parecia que saíra de Salvador, atravessava uma rua e chegava a Luanda. Já sabia literária e intelectualmente da semelhança entre ambas as cidades, temos muitas canções na música tradicional e na música popular atual que falam de Luanda. É uma cidade irmã para nós de São Salvador. Espero poder voltar muitas vezes. Também a estadia em Lisboa no lançamento da Terceira Diáspora e do Alzira está Morta, me permitiu conviver com mitos angolanos, com Mário Almeida, que conheci em Luanda e pude agora reencontrar no seu espaço Espelho d’Água. Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.

O Brasil está verdadeiramente interessado em criar pontes com África?  O que tem mudado nos últimos anos quanto ao conhecimento e relações com o continente?

Desde o governo Lula o Brasil retomou as suas relações com o continente africano, continuado no governo Dilma. Com este impeachment não sei o que vai ser prejudicado. Para dar um exemplo de como essas coisas se processam, menciono o edital de mobilidade artística da Secretaria da Cultura do governo da Bahia que me permitiu vir a Lisboa apresentar um livro que tem no centro essas questões do movimento negro. Nós, baianos e brasileiros, temos curiosidade de conhecer África de outro ponto de vista, mais próximo, menos trabalhado pelas artimanhas do poder ocidental que insistem em projectar uma imagem de fome, guerra, selvagem, pobreza. Nós queremos reverter esse quadro que foi construído, queremos conhecer as práticas culturais e políticas africanas para que possam inspirar e propor caminhos para nós brasileiros.

Publicado originalmente no Rede Angola, a 09/05/2016

Fonte: Buala

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