Todo mundo pode usar turbante africano? Saiba o que é apropriação cultural

Ramon Félix/UOL

No centro de São Paulo (SP), imigrantes nigerianos ensinam clientes a fazer turbantesimagem: Ramon Félix/UOL

A moda étnica, com suas estampas gráficas e coloridas, invadiu as araras das lojas há algum tempo. Nos últimos anos, elementos da cultura negra, como o turbante africano, também começaram a ganhar mais atenção do mundo fashion. Militantes da causa negra discutem o uso do acessório por pessoas de outras cores por considerar que se trata de uma apropriação cultural. Afinal, até que ponto uma pessoa não negra pode usar um acessório que tem tanta simbologia para a moda afro?

Na teoria, a apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de um povo por outro completamente diferente. “É quando pegamos algo de fora, o traduzimos e transformamos em algo nosso”, explica o antropólogo Amalio Pinheiro, professor da Pontífica Universidade Católica (PUC), de São Paulo (SP).

Este processo é muito natural, diz Rosana Schwartz, professora de sociologia e líder do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça/Etnia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo (SP). “É inevitável porque a sociedade faz isso. As culturas são hibridas, múltiplas. Não são singulares, são plurais”, afirma a especialista.

O Brasil pode até mesmo ser considerado um caldeirão de assimilações culturais. “Um exemplo é o futebol, que foi um esporte trazido pelos ingleses, mas que, depois de passar por um processo de assimilação, tornou-se algo muito nosso. A capoeira também nasceu na África, mas, atualmente, joga-se mais no Brasil do que lá”, diz Pinheiro.

Porém, apesar de ser inevitável, esta apropriação segue uma lógica um tanto cruel: a relação de poder de um povo sobre o outro. “Uma cultura que é considerada superior por questões econômicas pode acabar sobrepondo a outra”, fala Schwartz. “Infelizmente, você não tem uma consolidação da cultura, mas uma ressignificação e o apagamento da anterior”.

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Juliana Luna, editora de moda e beleza da revista “AzMina”, não vê problema em brancos usarem turbantes. “Mas precisa entender o que aquilo significa”
imagem: Reprodução/Faceboo

É por causa desta relação de poder que militantes da causa negra questionam o uso extensivo de turbantes africanos por pessoas não negras. “Os brancos, ao longo da história, foram uma etnia que sempre teve privilégios, então é ofensivo vê-los pegando algo como o turbante, que tem tanta simbologia, e usando-o só porque podem, porque acham bonito”, diz Juliana Luna, 30, editora de moda e beleza da revista “AzMina”.
Principalmente porque muitas vezes os negros sofreram preconceito por entrarem em contato com suas raízes e adotarem este tipo de acessório em seu visual. “Um branco usar um turbante é jogar anos de resistência no lixo”, fala Camila Lima, 23, militante feminista e parte do coletivo Claudia Eu Negra, no Grajaú, em São Paulo (SP). “Enquanto um negro usava o turbante, tranças ou dreads, ele não era aceito em certos ambientes. Mas, a partir do momento que os brancos adotam estes itens, eles conseguem circular em todos os lugares e os elementos se tornam algo maneiro”.

Para Schwartz, assim como a apropriação cultural é algo inerente à sociedade, esta busca e reivindicação das raízes feita pelos movimentos negros também são inevitáveis. “Na escravidão, o opressor tirou todas as questões culturais do negro e transformou essa população, que vinha de diversas tribos, em algo homogêneo. A militância quer mostrar como este processo foi perverso. Os negros estão tentando descobrir de onde vieram, quais são suas características culturais”, explica a socióloga. Assim, o turbante é uma espécie de coroa para os militantes. “Cada grupo social que se sente matriz de certas culturas quer mostrar sua própria identidade, que aquilo vem deles. É uma questão de pertencimento”.

A grande discussão, no entanto, é o uso e mercantilização destes elementos sem que haja um conhecimento sobre suas origens. “A gente luta contra as grandes marcas que pegam esses acessórios e os vendem sem qualquer discurso por trás”, diz Camila Lima. Outro ponto criticado é o uso de modelos brancos para estrelar coleções e campanhas inspiradas na África, como foi o caso do desfile do Verão 2016 da Valentino. “Tudo que rodeia a cultura afro tem simbologia de resistência e luta, então preferir uma modelo branca é admitir que o negro existe, mas que quando o branco usa aquilo ele tem mais valor”.

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A Valentino foi alvo de críticas ao homenagear a África em seu Verão 2016, mas ter poucos negros no casting de modelos
imagem: AFP

Então branco não pode usar turbante? “Não vou dizer que não pode. Todo mundo pode fazer tudo. Se você for à Nigéria, ninguém vai dizer para você não usar. Eles vão abrir um diálogo, te fazer entender o que aquilo representa e a pessoa decide se vai usar ou não. Se torna uma troca de informação”, fala Luna. No fim, o que vale é a sensibilidade e bom senso de cada um. “Existe uma identificação? Uma ligação que não é física? Mas é importante saber a simbologia para a população negra”, complementa a editora.

Fonte: UOL

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