Padre e mãe de santo unem esforços para defender um antigo Ilê do estado

Na contramão das animosidades com adeptos de religiões de matriz africana, ambos mostram que a fé vence a intolerância

WILSON AQUINO

Rio – Nenhuma crença é tão perseguida no Brasil quanto as religiões de matrizes africanas. Os seguidores da Umbanda e Candomblé, principalmente, são classificados como “filhos do diabo”; seus templos sagrados são profanados, e sua devoção é desrespeitada. Segundo relatório da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, das cerca de mil denúncias registradas no Rio de Janeiro, entre 2011 e 2015, mais de 70% foram de crimes praticados contra religiões afro-brasileiras.

Diante desse quadro de tanta incompreensão, a amizade entre um padre e uma mãe de santo, na Baixada Fluminense, soa como uma prece. Vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Nilópolis, Athailton Jorge Monteiro Belo, o Frei Tatá, devota profunda admiração e respeito pela yalorixá Regina Lúcia Fortes dos Santos, a mãe Regina. E a recíproca é verdadeira. Os dois estreitaram a relação durante o processo de tombamento da casa sagrada da yalorixá, o Ilê Axé Opô Afonjá, criado há 130 anos na Pedra do Sal, na Região Portuária do Rio, e que funciona desde a década de 1940 no bairro Coelho da Rocha, em São João de Meriti. Foi a primeira vez no Estado do Rio que um terreiro de candomblé é reconhecido por sua importância histórica, cultural e etnográfica.


Frei Tatá cumprimenta a mãe de santo Regina dos Santos no Ilê Axé Opô Afonjá, Coelho da Rocha, que acumula 130 anos de história

Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia

“Frei Tatá é incansável para o Candomblé. O que tiver que fazer, ele fará. Tenho certeza disso”, disse mãe Regina, que recebeu a visita do padre, em seu terreiro, na quarta-feira. “A Yá nos procurou, e a gente levou para o estado, que acolheu, reconhecendo o valor dessa casa, que é tão importante quanto uma igreja matriz”, afirmou o padre, que fez questão de agradecer ao governador Francisco Dornelles, que assinou o processo. A Constituição brasileira diz que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Existe até uma lei (7.716/89) que considera crime a intolerância religiosa e prevê pena de prisão.

O problema é que essa não é uma questão para a polícia resolver. “Não quero que ninguém vá preso. A coisa tem que acontecer do ponto de vista pedagógico. Não amamos aquilo que não conhecemos. Isso passa pelas escolas”, adverte o padre, preocupado com “o clima de ódio e indiferença”.

As religiões afro-brasileiras não têm um documento escrito, uma bíblia, onde poderiam estar registrados sua história e seus rituais. “A tradição vai sendo passada oralmente”, explica mãe Regina, que aprendeu os rituais com mãe Cantu, que por sua vez seguia mãe Agripina, pupila de mãe Aninha, fundadora do Axé. Ao longo de décadas, essas mulheres enfrentaram o preconceito, a ignorância e a brutalidade em nome da fé.

“Tanto que mãe Agripina dizia: vamos bater palmas baixinho para quem passasse na rua não ouvisse. Botavam as crianças na frente para brincar e fazer barulho para abafar o som dos atabaques lá atrás”, diz mãe Regina, comparando as épocas. “Talvez hoje esteja pior porque a gente sofre intolerância de todo o jeito. E antigamente era só a polícia”.

Rio 2016 pode ter atabaques

Autoridades federais inconformadas com a iniciativa do Comitê Organizador da Rio 2016 de deixar as religiões afro-brasileiras de fora do centro ecumênico da Vila Olímpica estão se mexendo para reverter a decisão. A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram a inserção das religiões de matriz africana no centro inter-religioso. O Comitê da Rio 2016 já explicou que o Comitê Olímpico Internacional (COI) é o responsável pelo centro e que priorizou as cinco religiões mais seguidas pelos atletas que participarão das competições com base em levantamento estatístico: cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo. Mesmo assim, o MPF deu ao Comitê prazo até amanhã para adotar a providência. Para o MPF, o critério demográfico adotado pelo Comitê Organizador é razoável, mas ignora o peso de outras religiões na cidade e no país que sediará os Jogos.

A desfeita às religiões afro acontece em plena Década Internacional de Afrodescendentes, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o período entre 2015 e 2024. Um dos objetivos é justamente promover maior conhecimento e respeito pelo patrimônio diversificado, a cultura e a contribuição de afrodescendentes para o desenvolvimento das sociedades. A cidade-sede dos Jogos conta com 392 terreiros, 196 deles na zona oeste, principal região das competições.

Fonte: O DIA

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