O Porto Maravilha é negro: debaixo da atração, há milhares de ossos de escravos

Desembarque de escravos no Cais do Valongo

Desembarque de escravos no Cais do Valongo

O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais à costura do passado do Rio de Janeiro. Para juntar os pedaços de tecido naquela área, é necessário, primeiramente, saber onde se pisa. Em 1° de março de 2011, as obras do projeto de renovação do território portuário deixaram de ser somente um conceito moderno, que olha para o futuro. A reportagem é da “Agência Pública”.

Naquele dia, por força de lei, uma equipe do Museu Nacional acompanhava as intervenções de drenagem no subsolo por escavadeiras das empreiteiras que constroem o arrojado empreendimento. Os arqueólogos já sabiam o que estava por vir à superfície da rua Barão de Tefé: o Cais do Valongo, onde centenas de milhares de escravos aportaram a partir do século 18, sobre o calçamento de pé de moleque –técnica construtiva do Brasil Colônia, com pedras arredondadas de rios acomodadas sobre a terra batida.

Os seixos irregulares estavam sob outra camada, mais à moda do Brasil Império, com conjuntos de blocos de granitos empilhados para receber, em 1843, a imperatriz Teresa Cristina, então futura esposa de dom Pedro 2º. Por cima desse revestimento, havia ainda o aterro planejado pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, que pôs um fim à memória do passado imperial. E escondeu também o originário holocausto brasileiro.

O Cais do Valongo foi o maior porto negreiro das Américas e, segundo o historiador Manolo Florentino, esteve em atividade nas últimas décadas do século 18 até final de 1830, ocupando uma área entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo. Nele desembarcaram mais de 700 mil escravos, vindos, sobretudo, do Congo e de Angola –pode-se dizer que o Valongo foi o ponto de convergência de 7% de todos os cerca de 10,7 milhões de escravos traficados às terras do Novo Mundo. Pelo menos mais 700 mil foram traficados para outros pontos do litoral do estado do Rio de Janeiro.

A capital, naquela época, era umas das cidades mais negras do mundo colonial. E o trecho mais agitado por essa migração compulsória era a rua do Valongo, atualmente rua Camerino. Sobre ela, como mencionado no livro “1808”, do jornalista Laurentino Gomes, a viajante inglesa Maria Graham, amiga da imperatriz Leopoldina, escreveu em seu diário:

“Vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se”.

Até as escavações, realizadas em 2011, o Cais do Valongo estava literalmente soterrado na memória dos cariocas. Por isso, a reportagem da “Pública” tentou averiguar como a cidade está lidando, cinco anos depois, com seu passado em meio ao processo de revitalização do porto, fundado num tempo em que pessoas se achavam superiores a outras a ponto de escravizá-las.

Para o pesquisador Rogério Jordão, cuja tese de doutorado discorreu sobre o próprio Cais do Valongo, a prefeitura se comporta de maneira paradoxal ao cuidar da memória da sofrida e pulsante Pequena África, como o artista e compositor Heitor dos Prazeres chamou aquela área no início do século 20. “É como se a prefeitura praticasse uma estranha dinâmica de lembrar esquecendo-se”, diz Jordão.

Para ilustrar sua provocação, o pesquisador aponta para o Museu de Arte do Rio e Museu do Amanhã –este construído com investimento de R$ 215 milhões– ambos administrados pela Fundação Roberto Marinho e considerados símbolos do Projeto Porto Maravilha. “Estes dois museus começaram a ser construídos no mesmo período [da redescoberta do Cais do Valongo] e já estão em pleno funcionamento, enquanto os milhares de objetos de matriz africana encontrados nas obras [de escavação] ainda não estão disponíveis ao público”. São peças de barro, seguis [uma espécie de conta], monjolos, búzios, louças quebradas, ocutá [pedra que atrai o Orixá], como descreve Jordão em sua tese.

A prefeitura chegou a anunciar um projeto cujo nome seria Laboratório Aberto de Arqueologia, a ser inaugurado até o fim de 2015, bem antes da Olimpíada… A ideia era que o público acompanhasse in loco o processo de recuperação das peças. Mas até agora o projeto não saiu do papel.

Hoje o destino desses achados arqueológicos é conhecido por poucos. Eles estão no Galpão da Gamboa, no sopé do morro da Providência e bem próximo à Cidade do Samba, no centro. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os objetos já foram todos catalogados e estão embalados em contêineres.

Os artefatos têm tanta importância que a arqueóloga Tânia Andrade Lima, que coordenou as escavações no início das obras do Porto Maravilha, convidou quatro religiosos de matriz africana para explicar seus diferentes significados. “Quando percebi que estávamos encontrando objetos pessoais e também objetos relacionados a práticas mágico-religiosas dos africanos escravizados, entendi que a comunidade negra deveria ser chamada a participar do trabalho. Sou eurodescendente, de formação católica, assim como grande parte da equipe de arqueólogos que trabalharam no Valongo, de tal forma que meu entendimento foi o de que esses objetos constituem uma herança que aquelas pessoas deixaram para seus descendentes, e nessa condição lhes pertencem em primeiro lugar. Eles não puderam deixar nada senão aquelas poucas peças. Foi o que restou deles”, disse a antropóloga à “Pública”.

Mãe Celina de Xangô, uma das convidadas, interpretou objetos pelo jogo de búzios através do qual consultava os Orixás. Hoje presidente do Centro Cultural Pequena África, ela questiona: “A coleta desses artigos foi feita em 2011 e cinco anos depois ninguém sabe como e quando eles ficarão expostos. Há um projeto do Museu da Diáspora Africana, mas sem haver nada de concreto”, diz a mãe de santo do Candomblé. “É com muita tristeza que tomo conhecimento hoje que objetos tão importantes à nossa história, muitos deles pertencentes a cultos de matriz africana, estão em sacos plásticos dentro de contêineres”, lamenta.

Para o historiador Manolo Florentino, deveria haver um trabalho multidisciplinar contínuo, e não apenas esforços pontuais, para desvendar os inúmeros segredos que aquela área guarda sobre a cultura negra. “Tudo que envolve o Valongo e a presença negra de uma forma geral deveria ser mais pesquisado. Esse trabalho tem um custo altíssimo e, talvez por isso, não tem sido abordado da maneira adequada tecnicamente”, avalia.

Como considera que tal quadro não mudará em médio prazo, ele tem dúvidas se vai dar certo a ambição da prefeitura e do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) de obter da Unesco o reconhecimento do Cais do Valongo, da Pedra do Sal e do Cemitério dos Pretos Novos como Patrimônio da Humanidade. Os dois órgãos formaram equipes para produzir um dossiê sobre a importância dos três ícones da cultura negra local.

O documento resultante faz uma defesa enfática do Cais do Valongo logo no primeiro parágrafo: “Merece ser considerado pela Unesco patrimônio da humanidade porque é o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece. Ele tem importância não apenas para a história brasileira e, portanto, para a nossa vida como nação, mas também para a história do mundo”. A ONU acolheu a candidatura no último dia 3 de março.

Florentino considera que a aspiração à vaga deveria suscitar mais investimentos para a cultura negra local. Membro do Trans-Atlantic Slave Trade Voyages,uma iniciativa internacional de coleta de dados sobre viagens de navios negreiros, com sede na Universidade Emory, na Geórgia, Estados Unidos, o historiador afirma que entre 1790 e 1830, cerca de 700 mil escravos desembarcaram no Cais do Valongo, fazendo dele o maior porto negreiro das Américas.

Até 1830, ano da proibição do tráfico negreiro, apenas a cidade do Rio de Janeiro –no porto antigo, no Largo de Santa Rita, e depois no Cais do Valongo– e o Cabo de Búzios foram ponto de desembarque no Estado.

Após a proibição, o número de escravos desembarcados na capital cai vertiginosamente, ao mesmo tempo que um intenso desembarque começa a ocorrer nas faixas litorâneas, como Ponta Negra, Ilha Grande, Mangaratiba e Paraty. Alguns navios mais ousados optavam pela enseada de Botafogo e a praia de Copacabana, mas em quantidade menos expressiva.

Em 1856, houve a última viagem registrada antes da abolição da escravatura, 22 anos depois. Na década de maior movimento, entre 1821 e 1830, o Cais do Valongo recebeu mais de 335 mil escravos, uma média de 33,5 mil a cada ano.

O circuito da prefeitura

Redescoberto, o Cais do Valongo traz os navios negreiros de volta ao imaginário do carioca. As águas da baía de Guanabara não batem mais àquela altura da rua Barão de Tefé, por obra do aterro feito na administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906). No último ano de seu mandato, Passos inaugurou, na parte mais baixa do morro da Conceição, o Jardim Suspenso do Valongo, a cerca de cem metros do antigo cais. Seguiu à risca o modelo de transformação adotado em Paris no fim do século 19, excluindo as marcas do passado.

Surpreendentemente, o Jardim Suspenso do Valongo integra o denominado Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que, criado em 2012 pela prefeitura, reúne apenas seis pontos de interesse. “O Jardim foi algo feito sob inspiração europeia justamente para ajudar a ocultar a importância do Cais do Valongo. Isso deveria ser explicado ao visitante”, afirma a historiadora Martha Abreu. Não há nenhuma menção ao fato de que, no espaço do jardim até 1831, funcionaram armazéns de venda de escravos e, posteriormente, café e outros produtos.

Bruno Bartholini/Pública

Cais do Valongo após as obras

O próprio Cais do Valongo integra, é claro, o circuito, completado pelo Cemitério dos Pretos Novos, pela Pedra do Sal, pelo Centro Cultural José Bonifácio e pelo Largo do Depósito. O deslize na montagem do circuito é um indício de que o poder público não vem cumprindo sua missão de animar o debate sobre a herança africana no porto. Placas já mal conservadas trazem um texto superficial sobre a fenda aberta no meio da calçada com as diferentes camadas do Cais do Valongo e Cais da Imperatriz.

Para Damião Braga, da Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a própria obra passou por cima de outros ancoradouros de navios negreiros. “Vi com meus olhos ancoradouros sendo cobertos na rua Coelho e Castro, próximo à praça Mauá”, disse ele à “Pública”.

 

Fonte: UOL

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