Livro mostra a influência da religião vodum

  • Os voduns Lepon e Arronoviçavá da Casa das Minas com bengala e lençol em São Luís - Foto: Museu Afro-Digital | Divulgação

    Os voduns Lepon e Arronoviçavá da Casa das Minas com bengala e lençol em São Luís

Os impactos das práticas religiosas na economia, política e sociedade na Costa da Mina (região dominada pelo antigo reino do Daomé, atual República do Benin), entre os séculos 17 e 19, e o reflexo dessas imbricações na formação do candomblé na Bahia e do Tambor de Mina maranhense integram O Rei, O Pai e A Morte – A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidental.

A obra do doutor em antropologia e professor da Ufba Luis Nicolau Parés será lançada, nesta terça-feira, 16, às 18h, no Espaço Cultural Barroquinha, com bate-papo com o autor.

“A religião influencia tudo. Da vida doméstica à economia”, afirma o autor. Do total de uma década de produção, boa parte do livro foi escrita em 2010 e 2011 durante o pós-doutorado National Humanities Center (EUA). E, segundo o autor, o resultado do estudo pode ser dividido em duas partes ligadas pela estrutura religiosa de culto aos voduns (termo mais habitual para designar as divindades africanas na Bahia do século 19).

A primeira é centrada na África, compreendendo os reinos de Uidá, Aladá e Daomé. “O objetivo é entender como as práticas religiosas se relacionam com a organização política centralizada na figura do rei, com a economia nessa época intensa do tráfico de escravos, com a estrutura de parentesco com o culto aos ancestrais”, explica Parés.

Por outro lado, as práticas religiosas também sofrem as alterações nos cenários político econômico e outros. “É um sistema dinâmico e em constante transformação. É flexível e se apropria de novos ritos e elementos. Os deuses cruzam as fronteiras étnicas e linguísticas. E esse fenômeno da ressignificação acontece aqui e lá”, afirma o pesquisador, apontando a postura como ferramenta de resistência. “Se apropriar de outros elementos é uma forma de controlar o novo, garantir a permanência e não sumir”.

Repercussão

Foi da região da Costa da Mina de onde saiu a maioria dos escravos que chegaram ao Brasil. A repercussão desses costumes no outro lado do Atlântico, especialmente na Bahia e no Maranhão, é o foco da segunda parte da obra. Na análise de como essa bagagem chegou por aqui, o autor foge da narração de uma África idealizada. “A base são as ideias práticas, valores, desdobramentos no Brasil no ritual praticado e os elementos identificados com o memorial do passado na dinâmica histórica dessa prática”, disse.

Como exemplo, o autor cita o uso de bengala como elemento ritual comum entre a Casa das Minas e o culto Nesuhue daomeano. “A ideia era trazer mais precisão e provas empíricas para essa relação com a África e apontar esses hábitos como espaço de historicidade e de transmissão não apenas de significados, mas de atitudes e predisposições emotivas”.

Os cultos voduns já são objetos de estudo do pesquisador, que é autor de A Formação do Candomblé – História e ritual da nação jeje na Bahia (Unicamp, 2006), que trata sobre a influência dos povos da região onde hoje está o Benim para a constituição do candomblé baiano.

A narração do novo livro tem, entre outras fontes, diários de viajantes europeus, correspondências, relatórios de agentes comerciais, objetos de época e pesquisas arqueológicas. Os arquivos explorados estão localizados em Porto Novo (capital do Benin), na Bahia e em países como Portugal, Inglaterra e França.
Os relatos da tradição oral sobre práticas religiosas também são fontes históricas. São contos, representações, língua, mitos e memórias que auxiliam no entendimento ou interpretação dos relatos, estabelecendo o diálogo entre a história e a antropologia.

A partir do levantamento dos documentos, foi a vez da comparação do material. “Nessa fase identificamos erros, as invenções e encaramos o desafio de intuir desse material a voz do africano”, contou o pesquisador.

Há também outras conexões estabelecidas pelos laços religiosos no contexto histórico do livro que deixam legado para os dias atuais. “Mesmo com o impacto do tráfico, da violência e das desigualdades, a tolerância é presente. É mais uma lição que o passado africano nos ensina, como é possível conviver em meio às diferenças. Cada grupo tinha sua forma de realizar seu culto e isso era respeitado por todos”.

 

Fonte: A Tarde Online

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