Tour pela história do negro, do samba e do carnaval no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro sediou os Jogos Olímpicos. Foi uma oportunidade de apresentarmos para os povos de várias partes do mundo toda a diversidade cultural que a cidade abriga. O samba, um dos traços mais marcantes da cultura carioca, foi reverenciado. Um ritmo que desembarcou aqui vindo nos navios negreiros, trazidos pelos escravos cruelmente obrigados a deixarem a África e virem para a então capital do Brasil, o Rio de Janeiro. No período dos Jogos Olímpicos, o site CARNAVALESCO visitou a nossa “Pequena África”. Fomos convidados pelo Rio Media Center e adoramos mostrar esse lado tão importante do nosso Rio de Janeiro.

O passeio teve início em uma parte da Zona Portuária bastante esquecida: o Largo de São Francisco da Prainha, já que ele está localizado na antiga Prainha, que é o nome primitivo da Praça Mauá. O largo abriga casas antigas, porém mal preservadas, um contraste enorme com a Praça Mauá, a cerca de 300 metros dali.

De lá, o tour seguiu para a Pedra do Sal, ponto crucial para a história do samba no Rio de Janeiro. Em 1808, a família real se mudou para o Brasil e fez do Rio de Janeiro a nova capital e sede do governo português. Essa mudança movimentou muito o comércio. As mercadorias chegavam em navios que desembarcavam ali no porto. Dentre as mercadorias, escravos – já que eram assim tratados à época – e o sal.

Mas em 1831, um regulamento delineou três ancoradouros para os navios, sendo que os de carga tiveram que se direcionarem para o trecho entre a atual Praça Mauá e o Cais do Valongo. Ou seja, o caminho para mercadorias como o sal, muito valioso à época, ficou restrito. No caminho ainda havia uma enorme pedra, um obstáculo, para o transporte dessa mercadoria. A saída? Esculpir degraus na própria pedra.

Por se localizar numa região onde chegavam diariamente centenas de escravos, essa área se tornou um berço de manifestações africanas. Ali morava Tia Ciata, uma negra cozinheira e amiga dos policiais, que comiam da sua comida. Ela sedia a sua casa para manifestações culturais africanas, que eram feitas majoritariamente por estivadores – escravos, grande parte deles “defeituosos” – com alguma deficiência na perna, ou nos braços – e que se amontoavam no porto em busca de trabalho. Quando a guarda real vinha para acabar com o movimento, os policiais amigos avisavam Tia Ciata com antecedência. Dentre as manifestações, candomblé, capoeira e samba – com uma pronúncia mais próxima a ‘sémba’-, um ritmo trazido da África pelos negros.

Nessa época, não existia carnaval para essas pessoas, vistas como inferiores, pois era uma festa exclusiva da elite, da qual os pobres eram proibidos de participarem. Num movimento de resistência e ocupação, os chamados “sambistas” passaram a ir para as ruas e para as portas dos bailes de carnaval para fazerem suas manifestações culturais. Esse é o início do que se tornaria depois os blocos de rua do carnaval. Em algum momento, as duas festas se encontraram, os ritmos se misturaram, fazendo do samba uma marca da festa de carnaval.

Na sequência, passando pelos caminhos da escravidão e do samba, o tour foi para o Cais do Valongo, local de entrada de milhares de africanos de Angola, Congo e Moçambique e hoje conhecido como Cais da Imperatriz. Primeiro era chamado cais do Valongo e foi o berço de entrada da maioria dos escravos que vieram para o Rio. Quando a escravidão começou, o porto de Salvador, onde hoje está o Pelourinho, foi o primeiro a receber escravos. Com a vinda da família real para o Brasil, e o Rio sendo elevado à condição de capital, o porto se transferiu para a região portuária. Posteriormente ele foi coberto e refeito, para melhorar a aparência da região e ficar mais bonito para receber a futura imperatriz, Thereza Cristina, que chegaria ao Rio pelo porto para conhecer seu futuro marido, Dom Pedro II.

Também incluso no projeto de restauração da região à época da vinda da realeza, o tour subiu por uma escadaria marcada pela arte urbana da cidade, que dá no Jardim Suspenso do Valongo, uma construção paisagística datada de 1906, concebida como jardim romântico destinado aos passeios da sociedade da época.

Com a condição degradante a que eram submetidos os escravos nos navios, muitos chegavam mortos ou morriam assim que desembarcavam. Por isso, foi criado um cemitério para os chamados “pretos novos” – já que morriam novos -, na região próxima ao Morro do Castelo e igreja de Santa Luzia. Com a reclamação da elite local por causa do mal cheiro, o cemitério foi removido e trazido para a área onde os negros já se concentravam, na região da Gamboa. Durante anos, a localização ficou desconhecida, mas após a reforma de um casarão na região, foram achadas as ossadas. Esse foi o ponto final do tour, onde está atualmente o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que abriga inclusive algumas ossadas dos pretos novos (nome dado aos cativos recém-chegados ao Rio de Janeiro em meados do século XIX, em uma área hoje conhecida como Pequena África).

É um tour importante para a imprensa, os turistas, mas principalmente para os moradores da cidade, que desconhecem boa parte da história africana presente na história do Rio, o sofrimento dos negros e seu movimento de resistência que propiciou o advento do samba e do carnaval de rua, e que fez deles marcas da cultura carioca.

 

 

Fonte: Carnavalesco

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