BENIM CITY. A CIDADE PERDIDA DO POVO EDO

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A capital do reino do Benim maravilhou os primeiros viajantes europeus. Da sua magnificência de outrora e das suas fortificações construídas em ameias, mais extensas do que a Grande Muralha da China, nada resta além das recordações. Mas o esplendor da sua cultura e da sua espiritualidade ainda rebrilha não apenas naquela região da África Ocidental, mas também no Brasil, para onde foi trazido no bojo dos navios negreiros.

Cortejo real na antiga Cidade de Benim, reino dos Edo, século 18, gravura belga.

Cortejo real na antiga Cidade de Benim, reino dos Edo, século 18, gravura belga.

 

Por: Luis Pellegrini

 “Um pássaro que alçou voo para permanecer pousado no cupinzeiro continua grudado ao chão”. Este antigo provérbio do povo Edo foi seguido ao pé da letra pelos filhos dessa antiga etnia africana que, durante séculos, dominou boa parte do território hoje ocupado pela Nigéria e o Benim. Os homens e mulheres do povo Edo, do século 14 ao século 18 de nossa era, abriram as  asas e alçaram voo. Mas não para permanecerem pousados num cupinzeiro, e sim para erigir uma das civilizações mais ricas, poderosas e requintadas de toda a história da África negra. Quando os europeus portugueses chegaram lá, no final do século 15, ficaram simplesmente de queixo caído diante da magnificência e do esplendor dessa cultura. Sua capital, a Cidade de Benim (que deu nome à atual República de Benim) rivalizava e em muitos aspectos mostrava-se ainda mais evoluída, no final da Idade Média, do que a maior parte das capitais europeias. Até hoje, em toda a África, o designativo Povo Edo significa beleza, elegância, cultura e requinte.

 

Igbinoghodua Obá Erediauwa do Benim, atual rei do Benim.

Igbinoghodua Obá Erediauwa do Benim, atual rei do Benim.

 

As tradições do Povo Edo chegaram às Américas, notadamente ao Brasil, trazidas pelos escravos dessa etnia, inicialmente, e depois pelos da etnia ioruba, de qualquer forma estreitamente aparentada aos Edo. Os ioruba foram vassalos durante séculos dos Edo, e só assumiram uma certa supremacia regional após a derrocada do império Edo frente aos ingleses, no final do século 19.

Foi quando, a partir de 1897, a Grande Cidade de Benim começou a desaparecer sem deixar rastos. Na verdade, ela começara lentamente a declinar no século 15, na sequência de conflitos internos relacionados com a intrusão crescente de europeus e o tráfico de escravos nas fronteiras do reino.

 

Moça Edo. O povo Edo, hoje repartido entre a Nigéria e o Benim, é considerado um dos mais bonitos e elegantes de toda a África.

Moça Edo. O povo Edo, hoje repartido entre a Nigéria e o Benim, é considerado um dos mais bonitos e elegantes de toda a África.

 

Naquele ano de 1897, Benim foi saqueada e queimada por tropas britânicas. Hoje, existe uma cidade moderna construída sobre a mesma planície, mas os vestígios em ruínas da sua antepassada não são sequer mencionados nos guias turísticos. Talvez haja restos, sob as florestas nigerianas, entregues à degradação e ao esquecimento. Voltarão à luz, um dia, pelas mãos dos arqueólogos.

Na ilustração, o obá (rei) do Benim recebe a cavalo um grupo de embaixadores portugueses no início do século 16.

Na ilustração, o obá (rei) do Benim recebe a cavalo um grupo de embaixadores portugueses no início do século 16.

 

O que não significa em absoluto que os valores da cultura e da civilização de Edo desapareceram. Pelo contrário, estão bem vivos nas atuais Nigéria e Benim, onde os descendentes do antigo povo Edo conservam esse mesmo nome e constituem hoje uma das etnias mais importantes, mais ricas, mais modernas e bem organizadas. E, no Brasil, no seio da imensa aristocracia das tradições afro-brasileiras, como o candomblé, o xangô, o tambor de mina e a umbanda.

O artigo abaixo, sobre o império Edo, foi escrito por um especialista, o nigeriano Mawuna Remarque Koutonin, ele mesmo descendente da etnia Edo. No final, há uma galeria com fotos de obras de arte Edo e um vídeo raro que dá um ideia do esplendor que hoje ainda permanece na cultura do povo Edo.

A gravura mostra cortejo do novo obá (rei) de Benim, príncipe Eheneden Erediauwa, ao redor do ano 1600.

A gravura mostra cortejo do novo obá (rei) de Benim, príncipe Eheneden Erediauwa, ao redor do ano 1600.

 

 

A SURPRESA DOS NAVEGADORES LUSITANOS

Por: Mawuna Remarque Koutonin. Fonte: Jornal El País, Madrid

Esta é a história de uma cidade medieval perdida de que poucos ouviram falar. A Cidade de Benim, antigamente conhecida como Edo, era capital de um reino africano pré-colonial ao sul da atual Nigéria. Fundado no século 11, o reino do Benim foi um dos mais antigos e desenvolvidos da África Ocidental.

Segundo Fred Pearce, da revista New Scientist, as muralhas da capital eram “quatro vezes mais longas do que a Grande Muralha da China e tinham exigido cem vezes mais material do que a pirâmide de Quéops”. Situada numa planície, Benin City era cercada por muralhas maciças ao sul e por fossos profundos ao norte. E para além destas fortificações havia muralhas que dividiam os arredores da capital em cerca de 500 aldeias. “Delimitando um território de 6500 quilômetros quadrados, foram construídas pela população de Edo”, explica Fred Pearce.

A Cidade de Benim, capital do povo Edo, em gravura de cerca 1780

A Cidade de Benim, capital do povo Edo, em gravura de cerca 1780

 

 

Precursora da iluminação pública

Foi uma das primeiras cidades a beneficiar dos primórdios da iluminação pública. Haviam enormes lanternas de metal por todo o lado, especialmente perto do palácio do rei. Funcionavam a óleo de palma e ficavam acesas toda a noite, iluminando os caminhos até o palácio.

Quando os portugueses descobriram a cidade, em 1485, ficaram surpreendidos ao encontrar no meio da selva africana uma metrópole, agregando centenas de cidades e aldeias. Eles a chamaram de Grande Cidade de Benim, numa época em que praticamente nenhuma outra cidade africana era reconhecida como tal pelos europeus. Em 1691, o capitão português Lourenço Pinto escreveu: “A Grande Cidade de Benim, onde reside o rei, é maior que Lisboa. Até onde o olhar alcança, as ruas estendem-se em perfeita linha reta. As casas são grandes, especialmente  o palácio do rei, ricamente decorada e adornada com finas colunas. A cidade é rica e laboriosa. É tão bem governada que nela o roubo é desconhecido e os moradores sentem-se tão seguros que as casas não têm porta”. Em comparação, Londres era nessa altura uma cidade medieval assolada “por roubos, prostituição, assassínios, corrupção e mercado negro florescente, onde dominavam os que eram mais rápidos a manejar a faca ou a esvaziar os bolsos alheios”, escreve Bruce Holsinger, historiador na Universidade da Virgínia.

A corte real do Benim, retratada em gravura do século 19.

A corte real do Benim, retratada em gravura do século 19.

 

O planejamento obedeceu a regras estritas de simetria, proporcionalidade em repetição hoje conhecidas como geometria fractal. O matemático Ron Eglash, que no livro African Fractais (1999) estuda os padrões característicos da arquitetura e da arte de numerosas regiões da África, observa que a cidade e as aldeias vizinhas foram concebidas para formar fractais perfeitos, padrões estes reproduzidos nas divisões de cada casa e nos agrupamentos de casas, segundo linhas matematicamente previsíveis. Escreve Eglash: “Quando os europeus chegaram a África a arquitetura lhes pareceu desorganizada e, portanto, primitiva. Nunca lhes ocorreu que os africanos podiam recorrer a uma forma de matemática que eles próprios ainda não tinham descoberto”.

Aldeia nos arredores da Cidade de Benim, atual Douala, em gravura de cerca 1800.

Aldeia nos arredores da Cidade de Benim, atual Douala, em gravura de cerca 1800.

 

No centro da cidade erguia-se a residência real, de onde partiam 30 caminhos retilíneos, cada um com 35 metros de largura. As ruas principais estavam ligadas a cisternas subterrâneas que permitiam captar a água da chuva e evitar inundações. Estas ruas eram prolongadas por uma rede de caminhos paralelos e perpendiculares. A erva que crescia nas ruas servia de pastagem aos animais. “As casas estão bem alinhadas ao longo das ruas, umas ao lado das outras”, descreve o holandês Olfert Dapper, que visitou a cidade no século 17. “Providas de subidas inclinadas e de escadas, são geralmente grandes e contém longas galerias, em especial as residências da nobreza, bem como numerosas divisões separadas por paredes de argila bem construídas”. Acrescenta que “cada casa dispõe de um poço com água fresca”.

Casal da etnia Edo, na atual Nigéria, com seus paramentos de festa.

Casal da etnia Edo, na atual Nigéria, com seus paramentos de festa.

 

Decoração exuberante

A cidade dividia-se em onze setores. Cada um era uma cópia em tamanho menor da residência real, incluindo diversos recintos para habitação, oficinas e edifícios públicos ligados por portas e passagens. O conjunto estava decorado com motivos que fizeram a fama da Cidade de Benim. As paredes exteriores da residência real e os recintos eram decorados com listas horizontais (agben) e gravuras de argila, retratando animais, guerreiros e outros símbolos de poder, e os contrastes eram acentuadas pela forte luz do sol. Objetos da natureza – pedras ou fragmentos de mica – eram também prensados na argila úmida (o que conferia às paredes o aspecto brilhante de um céu estrelado) e os pilares do palácio estavam cobertas de placas de bronze que descreviam as vitórias e outras façanhas de antigos reis e membros da nobreza.

Cortejo de príncipe da etnia Edo, século 18.

Cortejo de príncipe da etnia Edo, século 18.

 

No século 12, muito antes da Renascença europeia, os governantes e dignitários da cidade, então no apogeu, prodigalizavam presentes e riquezas aos artesãos que demonstrassem as suas aptidões em esculturas de bronze, madeira e marfim muito trabalhadas.

A Grande Cidade desapareceu sem deixar rasto. Começou a declinar no século 15, na sequência de conflitos internos relacionados com a intrusão crescente de europeus e o tráfico de escravos nas fronteiras do reino.

Em 1897, a cidade foi saqueada e queimada por tropas britânicas. Os meus bisavós, médicos do rei, estavam entre os muitos moradores que fugiram. Hoje, existe uma cidade moderna construída sobre a mesma planície, mas os vestígios em ruínas da sua antepassada não são mencionadas nos guias turísticos. Sob os bosques nigerianos talvez haja restos, entregues à degradação e ao esquecimento.

 

Galeria de fotos de obras de arte da tradição Edo

Máscara de marfim ornamentada da Rainha-Mãe Idia Iyobá ne Esigie, do século 16.

Máscara de marfim ornamentada da Rainha-Mãe Idia Iyobá ne Esigie, do século 16.

Cabeça de guerreiro Edo, em bronze, século 17.

Cabeça de guerreiro Edo, em bronze, século 17.

Cabeça de dignitário Edo com colar e diadema, em bronze, século 17.

Cabeça de dignitário Edo com colar e diadema, em bronze, século 17.

 

Cabeça de rei Edo, em bronze, século 16.

Cabeça de rei Edo, em bronze, século 16.

Duas cabeças de rainhas-mães do povo Edo, em bronze, século 16.

Duas cabeças de rainhas-mães do povo Edo, em bronze, século 16.

 

Belíssima cabeça de um rei dos Edo, em madeira, do século 17.

Belíssima cabeça de um rei dos Edo, em madeira, do século 17.

Fonte: Brasil 247

Entrevista com Goli Guerreiro

Goli Guerreiro é uma antropóloga e escritora baiana. Lançou recentemente o livro Alzira está Morta sobre as comunidades negras no Atlântico no qual conta as aventuras de uma mulher corajosa e aventureira cuja vida percorre o século XX e as transformações que ocorriam em vários pontos do mundo negro: Bahia, África Ocidental, Europa, Estados Unidos da América e volta.

As práticas culturais e todos os seus cruzamentos, a escrita, a tecelagem, a fotografia e as várias camadas de tradições interessam à antropóloga, que passou recentemente por Lisboa, onde esta entrevista foi realizada, para apresentar Alzira está Morta – Ficção histórica no mundo negro do Atlântico. O livro resulta de um pós-doutoramento em Letras e valeu-lhe o Selo Literário João Ubaldo Ribeiro, prêmio instituído pela Prefeitura de Salvador da Bahia.

Antes escrevera Terceira diáspora – o porto da Bahia, A trama dos tambores – a cena afro-pop de Salvador e Terror e aventura – tráfico de africanos e cotidiano na Bahia. Editora do blog Terceira Diáspora sobre os repertórios culturais do mundo negro, é também curadora do acervo fotográfico de Arlete Soares, fundadora da Editora Corrupio, editora da Bahia que desde 1979 publica livros sobre culturas negras e diáspora africana.

Como surgiu a ideia de fazer um romance histórico com a abrangente diáspora negra como fundo?

Inicialmente não tinha a intenção de compor essa trilogia que aborda as trocas culturais no mundo Atlântico. Mas, dois anos após o lançamento do Terceira Diáspora – o porto da Bahia, que mapeia a produção cultural negra de Salvador no século XXI, a Editora Corrupio me convidou para escrever um livro sobre o tráfico de africanos chamado Terror e Aventura, dando assim origem a um livro sobre a primeira diáspora. Tendo um livro sobre a terceira diáspora, que aborda as trocas culturais virtuais entre mundos negros desencadeadas pela internet, e um livro sobre a primeira diáspora, sobre a escravidão, havia um caminho claro a seguir: escrever um livro sobre a segunda diáspora. Como os dois primeiros livros vinham em narrativas diferenciadas (o Terceira Diáspora é um blog impresso e Terror e Aventura um ensaio histórico-antropológico), me lancei na aventura de escrever sobre a segunda diáspora em forma de romance.

O deslocamento negro, muitas vezes forçado, foi fundamental para se criar uma criatividade imensa em várias frentes. Como se jogam esses  mundos dispersos do Atlântico negro em termos de conhecimento mútuo?

As trocas criativas culturais no mundo atlântico não são lineares, há partes muitos desconhecidas. Por exemplo, o Brasil não conhece muito o Caribe. Se deixarmos de parte a salsa, em Cuba, ou o reggae na Jamaica, é praticamente desconhecida a produção cultural dos 32 países do Caribe no Brasil. Já em Inglaterra não tanto. Depende dos contextos, não há generalização possível sobre as artes do Atlântico nas suas várias dimensões criativas. Há áreas do Atlântico que pouco conhecem do Brasil já o que é produzido nos EUA é muito mais veiculado no mundo inteiro. Também dependerá muito do acesso à internet dessas comunidades negras.

'Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher como essa interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino.'

‘Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher como essa interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino.’

Por que quer Alzira (1911-88) traçar este percurso e vive tamanha curiosidade?

Na época em que Alzira nasce, 1911, as relações entre a Bahia e Nigéria eram bastante intensas. Alzira faz a vontade da mãe ao ir para a Nigéria porque a mãe gostaria de ter retornado, como africanos e filhos de africanos retornaram e fizeram as comunidades agudas na África Ocidental. Desde o início do século XIX que essas comunidades de retornados começam a formar-se em Lagos, na Nigéria, porque lá o tráfico de africanos era proibido, e assim era um porto seguro para os negros que desejavam retornar e não corriam o risco de ser recapturados e vendidos. Alzira era filha de um babalaô [sacerdotes exclusivos de Orunmilá-Ifá do culto de Ifá na religião ioruba] que havia vivido vários anos em Lagos. O mundo dela era preenchido por essas memórias da Nigéria, da tradição dos orixás e pelo desejo da sua mãe de regressar. Aliado a isso, teve uma educação diferenciada dos filhos dos operários da Fábrica Luiz Tarquínio com um modelo de educação muito sofisticado, onde havia pintura, desenho, línguas estrangeiras. Então, essa educação ampla permitiu que Alzira se lançasse jovem na aventura de atravessar o Atlântico para realizar o desejo da sua mãe.

Enquanto personagem feminina, apesar de verosímil, não é muito “típica” na sua época: nada deve a nenhum homem, estuda e viaja à vontade, é dona do seu destino. No romance cruzamos com outras mulheres incríveis. Quis ter um posicionamento feminista neste romance?

Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher assim interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino. Vai-se encontrar com mulheres que ficaram apagadas na História, como Paulete Nardal que foi fundamental para o movimento da negritude, a primeira jornalista negra em Paris e a estudar na Sorbonne, e que permitiu o encontro dos líderes mais conhecidos em saraus literários. Vai ler a escritora Zora Neale Hurston, única mulher do Harlem Renaissanse, primeira antropóloga afro-americana, a caribenha Claudia Jones, que inventou o Carnaval de Londres, mantinha jornais anti-imperialistas, foi expulsa dos EUA por envolvimento com o Partido Comunista. Alzira representa cada uma delas, não por ser típica mas por ser uma mulher de excepção merece uma biografia. Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem.

'Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem'

‘Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem’

Por que escolheu esta época para situar a sua narrativa?

A escolha da época diz respeito à disposição da trilogia. Apesar de não ter essa intenção original, depois de escrever sobre a primeira diáspora e a segunda que já era a história moderna, restava-me escrever sobre uma época em que a escravatura já tinha acabado, e sobre os deslocamentos “voluntários” para encontrar parentes e melhores condições de vida. Estes deslocamentos reconfiguram a paisagem litoral do Atlântico, as cidades atlânticas, sobretudo ao longo do século XX. A terceira diáspora é só depois de 1990, quando a internet se difunde.

A islamização, tal como a ocidentalização, estão em expansão em África. Como resistiram as culturas originais nestes países?

A religião não é um dos fortes do meu romance, embora não esteja de fora, mas não é central. Abordo a Renascença Lagosiana como um movimento cultural de confronto com o colonialismo inglês que se ampara nos fundamentos do reino de Oyó, um exemplo de como as culturas originárias procuraram resistir ao colonialismo, seria difícil abordar os movimentos perante a islamização e cristianização dos povos africanos. Posso apenas dizer que estes processos avançam no continente africano, e que a islamização chegou muito antes de Alzira.

Quais eram as principais marcas das cidades na Nigéria, Daomé, Togo, Camarões, Senegal no início do século, em plena época colonial?

Houve uma clara intenção de caracterizar os ambientes das cidades onde Alzira mora, todas muito distintas. Centro-me na África Ocidental, nas cidades dominadas pelo colonialismo inglês e francês e nas diferentes etnias que habitavam esses espaços que os europeus colonizaram. Assim, exige um mergulho na história desses países criados pelo Ocidente no território africano. É preciso ler para capturar as nuances.

“Não é um romance de protesto”

Em que momentos a Alzira mais se indigna com as injustiças que observa?

Alzira está morta não é um romance de protesto, procura realçar repertórios culturais pouco conhecidos. O caminhar dela tem confrontos com os ingleses, colonizadores, mas tudo isso é sentido na trajectória da personagem, na leitura do romance, mas não levanta bandeiras. É preciso conhecer as nuances, as questões ligadas ao poder colonial. Além disso, Alzira é estrangeira, volta à Bahia e desloca-se quando bem quer, é representante de uma elite comercial, não está atada a nenhum domínio como as comunidades locais, tem mais leveza do que os cidadãos locais.

'O ‘furacão africano’ foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem'

‘O ‘furacão africano’ foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem’

O movimento cultural tinha já sementes do que viria a ser a resistência anti-imperialista?

O movimento cultural da Renascença Lagosiana revisitava os fundamentos da cultura ioruba, insistia no uso dos nomes iorubanos, havia tendência para abandonar os nomes ingleses, incitava o uso de roupas tradicionais, para manter a sua religiosidade original, a tradição dos orixás. São formas de confronto ao colonialismo inglês e vai-se repercutir depois da Segunda Guerra, quando a luta independentista ganha fôlego vigoroso, conhecido como o período do “furacão africano”.

Muitos dos líderes das independências foram educados nas metrópoles europeias. Como se fazia este contraponto?

As comunidades negras nas metrópoles europeias eram laboratórios anti-imperialistas. No ambiente cosmopolita, a criatividade aflorava, uma troca de informação grande e de estratégias de confronto ao colonialismo e a formação educacional permitiam saber o que estava a acontecer noutras partes do Ocidente. Assim, esses africanos voltavam revitalizados para buscar transformação nos seus países, designadamente entre 1945 e 1960, quando o “furacão africano” foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem.

O Harlem Renaissance nova-iorquino está em comunicação com o mundo negro de Paris e Londres. Existia um jogo de espelhos nas urgências das questões negras em vários lugares?

Sim, há uma conexão explícita entre o Harlem Renaissance em Nova Iorque, movimento de literatura negra, e o movimento negro em Paris nos anos 1930. Muitos americanos frequentavam Paris à procura de um ambiente não segregado e mantiveram contacto, por exemplo, através dos saraus literários do apartamento de Paulete Nardal. Escritores do Harlem Renaissance encontravam-se com pensadores do movimento negritude da França. Mas havia tendências diferentes frente às urgências do mundo negro: os americanos apontavam mais para a experiência particular do negro na diáspora enquanto os franceses se importavam mais com a unidade africana e as independências, o que teve desdobramentos até hoje.

Da Bahia para o mundo negro e seus grandes momentos de afirmação. Que traz Alzira das trocas culturais que observou no seu regresso a casa?

Todo o universo de Alzira está marcado pelos repertórios culturais que descortina na África, assim como pela discussão ideológica do movimento negritude, tudo o que foi vivido está impresso na sua maneira de ver o mundo, na sua luta subtil em prole das comunidades negras no Atlântico. A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento acadêmico e através da arte.

'A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento académico e através da arte'

‘A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento acadêmico e através da arte’

Evolução da fotografia africana

A fotografia africana teve o seu boom nesta altura. Fale um pouco de como aconteceu e de alguns nomes.

Ao longo da narrativa é possível conhecer a evolução da estética da fotografia africana.  A fotografia chega a África apenas 20 anos depois de ter sido inventada na França, primeiramente nas cidades portuárias da África Ocidental, Freetown na Serra Leoa, Acra no Gana, Lagos na Nigéria, Lomé no Togo, Saint Louis no Senegal. Havia um trânsito intenso entre as cidades portuárias, onde fotógrafos se estabelecem como ambulantes e também em estúdios. Os primeiros fotógrafos a actuar na África eram brancos, mas logo passaram a ser assessorados por jovens negros que se tornaram os primeiros fotógrafos africanos. Na década de 1870 a fotografia já tinha ganho a costa oeste africana começando pela Serra Leoa. A primeira foto africana preservada, cuja autoria é desconhecida, foi feita em Freetown em 1870. Trata-se de um cartão-de-visita [fotografias de cerca de 9,5 x 6 cm montadas sobre um cartão rígido de cerca de 10 x 6,5 cm que eram trocadas entre amigos e conhecidos, foi inventada por André Adolphe-Eugène Disdéri em 1854].

No caso da fotografia, temos personagens reais com os quais Alzira interage ou vem a conhecer o acervo. Alex Acolatse teria feito o primeiro retrato de Alzira, também um cartão-de-visita, que se tornou uma febre entre as elites africanas, no início do século 20. O cartão era a própria imagem da pessoa. Em viagens ao Senegal, Alzira torna-se amiga do fotógrafo Mix Gueye que a inicia na fotografia e lhe apresenta diversos outros fotógrafos senegaleses, como Meissa Gaye e Mama Casset que criaram uma estética da fotografia senegalesa. Posar, tendo como fundo fotos de ancestrais, poses diagonais, expressividade das mãos e do olhar são marcas dessa estética. Ela conhece também no Senegal a combinação da fotografia com a pintura sob vidro. Alzira assiste na popularização da fotografia na África a partir dos 1940. Foi sempre uma fotógrafa amadora. Nos anos 1960, na Bahia, toma conhecimento do que está acontecendo no mundo da fotografia no Gana, através dos estudantes africanos que chegam à Bahia. De longe, acompanha a evolução dos fundos decorativos, que inicialmente mostravam paisagens europeias e como isso vai dando lugar a cenários das grandes metrópoles africanas. Postos de gasolina, aeroportos, conjuntos habitacionais, urbanidade. Nos Estados Unidos acompanha o que está acontecendo no Mali. O sucesso do estúdio de Malick Sidibé e a própria fotografia afro-americana. A Renascença do Harlem, seu tema de estudo, foi intensamente registada pelo fotógrafo James Van Der Zee, uma espécie de cronista do Harlem. Quando volta à Bahia já nos anos 1970, Alzira conhece os primeiros fotógrafos negros de Salvador.

Também aborda a tecelagem e a história dos panos para consumo em África, cuja percepção sobre a autenticidade está cheia de equívocos.

Alzira vai comercializar os tecidos Adire de algodão. Trata-se de um tecido tradicional tingido em índigo natural. Entre os iorubas é uma prática exclusivamente feminina e 17 espécies de índigo são nativas da Nigéria. Ela vai conhecer as técnicas de tintura e os rituais religiosos em torno dessas práticas. Nos mercados vai conhecer a estamparia como expressão de visões de mundo, como na tecelagem senufo. Nos mercados do Daomé conhece os patchworks, que contam a história da realeza daomeana. Nos anos 1930, ao chegar na Nigéria, Alzira presencia a expansão do tecido wax – produção europeia, inspirada no Batik da Indonésia, para consumo em mercados africanos. O uso do tecido wax se torna signo de distinção social e disputa espaço com os tradicionais adires.

Também as escritas africanas lhe interessam. Estamos perante a denúncia da eclosão, perda de registos e de falas de grande riqueza e diversidade linguística?

Em cinco mil anos de história, 90 sistemas de escrita foram inventados, sendo 40 deles da África Subsariana. Cabe à África do Norte a invenção de 50 sistemas de escrita, os hieróglifos e os árabes modificados chamados ajami. Os colonizadores ou proibiram o uso das escritas locais ou impuseram grandes obstáculos à sua utilização a fim de garantir e afirmar a imagem de uma África selvagem a ser civilizada pelo Ocidente.

O seu interesse iconográfico viaja até ao desenho de roupa. O que é a marca Almerinda e como funciona a parceria com a Katuka Africanidades?

'Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançámos a Colecção Alfabeto Infinito'‘Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançamos a Coleção Alfabeto Infinito’O livro trouxe-me esta surpresa que revela a força dessa personagem inventada. No fim de sua vida, nos anos 1980, Alzira criou algumas coleções de moda inspiradas nesses repertórios. E, no longo tempo de espera pela publicação do romance, uma das coleções de Alzira sobre escritas africanas saltou da ficção para a realidade. Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançamos a Coleção Alfabeto Infinito. Uma seleção de nove escritas criadas no Magrebe e na África Ocidental deu origem a roupas e jóias. As peças femininas e masculinas ganharam os nomes das escritas que inspiraram as estampas e a estória de cada escrita e sua forma original. É uma alegria ver as pessoas portando no corpo esse conhecimento que foi apagado da história da África pelos colonizadores europeus. Há também uma escrita banto, criada na África Austral, muito interessante que eu espero ter oportunidade de conhecer melhor.

O romance tem uma grande pesquisa histórica e de ambientes e figuras reais, deu-lhe prazer emergir neste universo de escrita?

Para criar uma personagem verosímil era preciso ter em mente pessoas reais. Mergulhar nessas biografias deu-me imenso prazer, foi aí que me apaixonei pela leitura de biografias. Conhecendo a vida dessas figuras foi possível criar uma personagem não típica mas convincente.

O conceito de “Terceira Diáspora”

Com esta obra encerra a sua trilogia da Terceira Diáspora, “deslocamento virtual de signos provocado pelo circuito de comunicação da diáspora negra”. Como concebeu este conceito e como o tem transmitido?

As trocas culturais começaram a manifestar-se desde o século XVI nas grandes navegações. E as formas dessas trocas se processarem foram-se alterando. Na primeira diáspora, aquando do tráfico de africanos, os negros chegavam despidos de qualquer bem material. Traziam o seu imaginário, então havia um tipo de troca a partir dessa realidade a ser reconstruída no Ocidente. Na segunda diáspora já era diferente, as pessoas já se deslocam com as suas malas, roupas, livros, fotografias, discos. Havia uma materialidade das trocas culturais entre as comunidades negras. Na terceira diáspora elas se deslocam virtualmente, impactando a produção cultural nas comunidades em outros cantos do Atlântico e em outros campos de criação. Então a ideia era escrever sobre esse assunto que na realidade precisava de ser ainda nomeado – e assim foi com a Terceira Diáspora –uma vontade de reactualizar esse processo de trocas ininterruptas culturais entre comunidades negras do Atlântico.

Porque se interessou pela forma de escrita de blog, fragmentado e composto por tanto hipertexto?

A forma da escrita de blog é justamente a forma privilegiada de transmitir o conceito de Terceira Diáspora. As trocas virtuais só nascem no mundo com internet, os sites têm a estética e a estrutura ideal para veicular essa troca de informação do século XXI, hiperlinkar as informações em outros contextos e linguagens de vários universos criativos.

Quando viajou até Luanda o que achou desta Angola contemporânea?

'Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.'‘Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.’São justamente as cidades atlânticas africanas que me interessam, as grandes cidades me fascinam. Luanda foi uma experiência maravilhosa, tive oportunidade de ir em 2010 durante a 2ª Trienal de Luanda e assim conviver com a comunidade interessada em arte contemporânea, artistas que estavam participando nesse evento e de lançar o meu livro Terceira Diáspora em Luanda. Foi uma sensação muito engraçada porque parecia que saíra de Salvador, atravessava uma rua e chegava a Luanda. Já sabia literária e intelectualmente da semelhança entre ambas as cidades, temos muitas canções na música tradicional e na música popular atual que falam de Luanda. É uma cidade irmã para nós de São Salvador. Espero poder voltar muitas vezes. Também a estadia em Lisboa no lançamento da Terceira Diáspora e do Alzira está Morta, me permitiu conviver com mitos angolanos, com Mário Almeida, que conheci em Luanda e pude agora reencontrar no seu espaço Espelho d’Água. Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.

O Brasil está verdadeiramente interessado em criar pontes com África?  O que tem mudado nos últimos anos quanto ao conhecimento e relações com o continente?

Desde o governo Lula o Brasil retomou as suas relações com o continente africano, continuado no governo Dilma. Com este impeachment não sei o que vai ser prejudicado. Para dar um exemplo de como essas coisas se processam, menciono o edital de mobilidade artística da Secretaria da Cultura do governo da Bahia que me permitiu vir a Lisboa apresentar um livro que tem no centro essas questões do movimento negro. Nós, baianos e brasileiros, temos curiosidade de conhecer África de outro ponto de vista, mais próximo, menos trabalhado pelas artimanhas do poder ocidental que insistem em projectar uma imagem de fome, guerra, selvagem, pobreza. Nós queremos reverter esse quadro que foi construído, queremos conhecer as práticas culturais e políticas africanas para que possam inspirar e propor caminhos para nós brasileiros.

Publicado originalmente no Rede Angola, a 09/05/2016

Fonte: Buala

Roteiros para o ensino de filosofia africana e afrodiaspórica

Filósofo, professor e pesquisador, Renato Noguera propõe, em livro coeditado pela FBN, mudanças no ensino da disciplina nas escolas
O filósofo, professor e pesquisador Renato Noguera.
O filósofo, professor e pesquisador Renato Noguera.

Desde que foi promulgada a Lei 10.639, que tornou obrigatória a inclusão dos conteúdos de História e Culturas Afro-Brasileira e Africana em todos os níveis de ensino no país, em 2003, muito se discute sobre a aplicação dela. O livro O ensino de filosofia e a lei 10.639, do professor Renato Noguera, produzido pela Pallas Editora em coedição com a Fundação Biblioteca Nacional, defende mudança de paradigmas: descolonizar o pensamento e desfazer a ideia de que a filosofia seja uma aventura exclusiva da cultura ocidental. O livro foi um dos ganhadores do Edital de Coedições para Autores Negros, da Biblioteca Nacional em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, do MinC.

O professor lembra que a produção africana existe desde a antiguidade e que, antes da Grécia, os egípcios formularam importantes teses filosóficas. “Além disso, nada mais empobrecedor na área de filosofia do que as respostas fáceis e dogmas”, acrescenta. Por isso, o autor sugere, no livro, revisitar a produção acadêmica de africanas e africanos em todo o mundo, de forma a combater o racismo epistêmico, observando o protagonismo e a autoridade de negras e negros em todas as áreas.

Uma das questões centrais do texto é justamente a invisibilidade da produção intelectual negra.  “Esse roteiro é benéfico para a democracia e ampliação da diversidade étnico-racial nos circuitos acadêmicos. Os centros de produção e difusão de conhecimento acadêmico ainda são muito eurocentrados. Algumas décadas atrás a história da Europa era considerada a narrativa da trajetória da humanidade”, esclarece Noguera.

O público-alvo esperado inicialmente constitui-se, sobretudo, de docentes de filosofia do ensino médio e de pessoas que trabalham com a pesquisa sobre o ensino de filosofia. Apesar de a publicação ter sido pensada principalmente para esses profissionais, Renato torce para que ele conquiste o interesse do público em geral. “O livro também provoca debates entre os que atuam na universidade e, eventualmente, entre o público que se depara com declarações que contrariam o senso comum a respeito da filosofia. Ideias como ‘os gregos não inventaram a filosofia’ podem gerar debates mais acalorados”, diz Renato.

O autor espera que a publicação ajude a desfazer ideias preconcebidas sobre a relação entre a filosofia e a cultura ocidental. “O meu convite, tanto às pessoas que têm criticado o livro como às que o têm elogiado, é que busquem as fontes que indico e que revejam a formação oficial na área. O que eu digo no livro é que não devemos ficar restritos a uma historiografia apenas”.

 

Fonte: Biblioteca Nacional

Tufo: Patrimônio cultural de Moçambique

Mulheres reúnem-se para dançar Tufo trajando capulanas e blusas com cores vivas. Os seus rostos estão cobertos por mussiro, uma espécie de creme facial usado pelas mulheres Macuas. Com um lenço enrolado na cabeça, e para dar o toque final no visual, elas abusam das joias, colares e pulseiras.

O Tufo tem origens árabes, mas se incorporou no litoral oriental de Moçambique, maioritariamente na província Nampula e Cabo Delgado. Esta manifestação cultural vai se candidatar a patrimônio cultural imaterial da humanidade mas pouco se sabe sobre a mesma.

Zaquia Rachid, 47 anos, Rainha do Tufo como se autointitula, pratica a dança desde os seus 10 anos. Entrou no grupo Tufo da Mafalala em 2000 depois da morte de seu sogro. “Quando Malatana Saide estava para morrer deixou o grupo em minhas mãos, desde ai é cantar e dançar” conta alegre. Para esta mulher a dança tufo é para si uma terapia. “Quando danço tufo as preocupações que apertam o meu peito desaparecem, logo esqueço a dor e fico feliz”.

Simbologia da dança 

O Mussiro é uma componente que não é obrigatória na dança, mas as mulheres aplicam para sentirem mais identificadas com a sua terra. “Para estar bem, sentir que estou a dançar algo da minha terra tenho que colocar mussiro. Com este produto me sinto uma Mutiana orera (mulher) de Nampula, uma moçambicana” explica Zaquia.

As mulheres que dançam tufo são vaidosas. Na apresentação desta dança as mulheres ficam preocupadas em mostrar-se belas e para isso elas usam vários artifícios como a maquilhagem. “Os brincos, pulseiras, anéis são um capricho. A capulana e o lenço não podem faltar. Eu gosto de corres vivas, pois gostamos de ser vistas. Desejamos captar a atenção do público quando dançamos” clarifica a Rainha do Tufo.

Na sua performance estas mulheres saltam a corda ao ritmo nas batidas dos pandeiros. Zaquia conta que a corda, Ntxoco em Macua, era algo usado pelas crianças nas brincadeiras mas elas levaram ao palco. Nas apresentações, geralmente, nos deparamos com esteiras que servem proteger as dançarinas da sujeira.

Rotina de um grupo

O grupo Tufo da Mafalala é composto por mais de 30 membros, dentre eles família e amigos. A entrada no grupo é voluntária. Este é liderado por Momade Matano Saide de 55 anos, sua esposa trata da organização das composições e coreografia os seus filhos são os instrumentistas e os amigos são as restantes bailarinas.

Fundação

Momade Saide conta que o agrupamento tem suas origens em Nampula. “Este surgiu bem antes do meu nascimento, Matano Saide, meu pai e fundador do grupo, ainda morava em Nampula. O grupo antes era denominado associação familiar, só homens faziam parte do mesmo. Mais tarde entraram as mulheres” disse.

No início dos anos 70, por convite de apreciadores desta dança, Matano Saide vem para Maputo, bairro da Mafalala, para ensinar a dança.

Momade conta que nos finais dos anos 80 por causa da saúde frágil de seu pai teve de pegar os rumos do grupo. “No início não estava muito interessado no grupo, mas tive de me importar porque meu pai já estava velho e não podia guiar sozinho o grupo. Um dia, no ano de 1989, meu pai chamou-me e reuniu-me com todos e explicou que “hoje meu filho vai pegar o grupo é melhor começaram a respeita-lo”. No momento era muita responsabilidade, mas logo me adaptei e agora sou o líder do grupo.

Momentos alegres

O Grupo Tufo de Mafalala viveu momentos alegres Momade e Zaquia recordam deles com felicidade. “A nossa viagem para Africa do sul, em 2003, foi marcante, uma experiencia única”, lembra disso com emoção a Rainha do tufo.

O ano de 2009 foi marcante para o grupo, participamos num festival na Argélia. Dividimos o palco com artistas internacionais reconhecido em África e no mundo. Recordo que apertei a mão do músico Salif Keita entre outros artistas desta dimensão. Neste ano tivemos uma atuação na homenagem a Paulina Chiziane e Ungulane Bhaka Khosa, para nós aquele foi um momento ímpar”, conta Momade com orgulho.

Momentos maus

Não é só de momentos alegres que este grupo vive. “São vários momentos negativos pelos quais passamos. Este grupo não tem o reconhecimento que merece, não somos considerados. O nosso governo não estima o grupo. Nós vamos aos aeroportos nas recepções porque amamos o nosso governo, mas as vezes ter água para os membros do meu grupo é um problema. Eles não nos dão cachê, só nos chamam”, desabafa Momade.

A rainha do tufo vai mais longe e afirma que “o governo não tem amor às danças tradicionais. Nós cantamos e dançamos com suor e o governo não quer nos dar apoio”.


Dificuldades

As dificuldades que este grupo enfrenta são diárias e vão desde a manutenção dos instrumentos até a compra da indumentária.

“A Manutenção dos instrumentos é cara, os especialistas estão em Nampula. Só para comprar uma pele para fazer os batuques gastamos dez mil meticais”, reclama Momade.

Nós compramos a nossa indumentária graças ao nosso suor, vivemos para o tufo, vendemos biscoitos fritos, chamussas, rissóis e bijuterias. Somos muitos, mas não temos transporte até agora” relatou com mágoa Zaquia.

Sonhos

No meio de dificuldades e problemas vários sonhos põem em pé este grupo. “Sonhamos em ter transporte. Ter um outro ofício além da dança. Nos não estudamos, somos batalhadoras mas as nossas condições financeiras são precárias”, conta Zaquia.

Momade conta que “gostaria que o grupo viajasse para fora de moçambique. Recebemos vários turistas na nossa casa, espero que um dia, um deles tenha a ideia de nos convidar para seu país”, conclui.

Elevação da dança Tufo a património Cultural imaterial da humanidade

Em 2012 o ministro da cultura, Armando Artur, anunciou que Moçambique vai candidatar a dança Tufo, à lista do patrimônio cultural e imaterial da humanidade. Passado dois anos esta declaração ainda não se tornou realidade. Para que este processo seja efectivo é necessário percorrer uma serie de passos.

Condição para a elevação

A Unesco faz a salvaguarda do património (i)material dos países membros. Para um país ser membro desta organização internacional a condição número um é ratificar, aceitar, as convecções. Moçambique é um estado membro da UNESCO, ratificou as convenções.

Segundo a responsável pela área da Cultura no Escritório da Organização da Educação Ciência e Cultura, Unesco, em Moçambique, Ofélia da Silva, “todos os membros do estado podem propor a elevação de um bem cultural a patrimônio da humanidade. A proposta destes é apresentada aogoverno de moçambique (Ministério da cultura), que representa o estado de Moçambique). Em seguida ministério da cultura faz a submissão da proposta.”.

Outra condição para a elevação é a elaboração de um inventário. Como explica Ofélia da Silva “O ministério da cultura vai trabalhar com o ARPAC (Arquivo do Património Cultural) no sentido de reunir arquivos, documentos, entrevistas e outras informações sobre a dança Tufo”.

O inventário é preciso, pois é necessário conhecer a gênese desta manifestação: quem a pratica, onde se dança, quais os rituais tradicionais por de traz desta dança, em que momento. Todos estes elementos serão documentados através de entrevistas, inquéritos, vídeos, áudios que vão constituir o inventário.

Por vezes os estados membros da UNESCO não têm recursos para executar tais acções. A nossa fonte, Representante da UNESCO, clarificou que, “quando isso acontece o governo submete um pedido de apoio técnico e a UNESCO compromete-se a ajudar com um fundo de até 25 mil dólares. Além disso a UNESCO envia técnicos para inventariar e no fim faz relatório”.

Ofélia da Silva revelou que o ministério já pediu, em Agosto de 2013, apoio técnico para garantir o apoio das danças tufo, mapico, e xigubo. Mas como explica a representante, “isso aconteceu numa reunião não tão formal e é necessário que a Unesco e o ministério discutam melhor os pontos”.

A última condição para a elevação é a elaborar programas de salvaguarda. Estes programas vão traçar as estratégias de modo a fazer a formação dos fazedores desta dança.

Significado da elevação da dança Tufo

Para Ofélia da Silva a elevação da dança tufo a patrimônio imaterial da humanidade é algo bom porque vai de encontro aos programas e objetivos da UNESCO.

“Candidatar Tufo é uma forma de salvaguardar. Para além de esta dança estar inventariada será promovida para outros lugares a nível mundial. Elevar a dança significa promover a diversidade cultural de Moçambique. O mundo saberá que o nosso país tem uma dança chamada Tufo”, concluiu da Silva.

Atividades do Ministério em coordenação com o ARPAC

O Ministério da Cultura negou a pronunciar-se, mas fontes próximas a esta instituição revelaram que várias atividades estão em curso com vista à submissão da candidatura. Paralelamente a isso, o ARPAC por intermédio de um dos seus pesquisadores, Sérgio Manuel, está a reunir o material. “Já foram realizadas expedições, viagem para várias províncias de modo a inventariar esta dança” conclui Sérgio.

Historial da Dança

Um estudo de Álvaro Pinto de Carvalho que reúne escritos muçulmanos, que tratam de hábitos, usos e costumes, publicado em Moçambique 1969, afirma que o Tufo é uma palavra árabe, que traduzida, quer significar “pandeiro ou pandeirante”, ou ainda, dança de caráter religioso, acompanhada ao som de pandeiro.

Segunda o estudo, a dança nasceu a partir do dia da entrada do profeta Mohammad na cidade de Yterib-cidade (atual Medina) no ano de 622 da era cristã. Os seus “adeptos” do profeta foram-no esperar à cidade, com pandeiros e cânticos, demostrando-lhe assim, a alegria que sentiam e a adesão às doutrinas do Alcorão que ele havia tentado pregar em meca.

Um arquivo copilado pelo ARPAC conta que a dança foi Introduzida há vários séculos na costa de Moçambique por comerciantes arabes-swahili. A dança Tufo possui forte raízes religiosas. O mesmo arquivo conta que na origem, esta dança era apenas executada em rituais e momentos festivos associados à religião Muçulmana, mas com o tempo a dança foi se massificando.

por Hélio Nguane

Fonte: Buala

Entrevista a Margarida Cardoso, a partir de Yvone Kane

O último filme de Margarida Cardoso, Yvone Kane, traz a força de três mulheres num enredo de memórias e desencontros. Pensar o colonialismo em África, o fim dos impérios, a mutação das sociedades, a figura das revolucionárias, as dores incuráveis, a relação do indivíduo com a História faz parte do seu universo cinematográfico. Filmou em Angola alguns testemunhos da geração envolvida nos conflitos de 1977. A propósito de Yvone Kane, refletimos sobre o peso dos acontecimentos esmagadores na história pessoal.

Como começou o seu interesse em filmar África?

Fiz duas curtas-metragens antes do meu primeiro documentário, Natal 71 com o qual comecei a pesquisar em relação ao meu pai, à guerra, tentando dar uma forma a um passado que não se conhece bem. Quando se teve uma infância num território geograficamente longe, é mais difícil, não há ninguém para contar e aquilo que era deixou de existir. As poucas relações tinham partido, restam as ruínas, os espaços transformados.

Um edifício tem as marcas do tempo inscritas.
Foi para Moçambique nos anos 1960 porque o seu pai era militar.

Era da Força Aérea, fez três comissões, em 1966-75. Deslocavamo-nos para as zonas onde havia as bases, alternando entre Lourenço Marques [hoje Maputo], Beira e Nampula.

Era normal as famílias acompanharem os militares para criar uma certa normalidade?

Era incentivado pelo regime. Levámos até a minha avó. A ideia era os militares ficarem, a logística até estava bem organizada, diziam que era uma campanha, não uma guerra.

Como foi crescer nesse contexto?

Fomos viver para uma casa no Macuti, na Beira, que ficava colada ao bairro indígena, onde se ouvia tambores. Nós nunca tínhamos tido empregados, e ali era normal tê-los. Então havia o Domingos, que a minha mãe tratava como filho e de quem ficou amiga. Nunca mais tivemos empregados, fazia-nos confusão.

Provoca-se relações de subalternidade que não se deseja?

Sim, e eram pessoas que eu sabia serem muito fortes, mas depois havia aquela barreira da comunicação.

Andou em escolas de brancos e assimilados?

Sempre em escolas públicas. Tinha gente de todo o tipo, mas dava-me mais com as pessoas do prédio, a escola era um bocado opressora, com professoras muito rigorosas, tareia, e a obrigação de cantar o hino.

Margarida Cardoso, fotografia de Ana Brígida
Margarida Cardoso, fotografia de Ana Brígida

Foi-se apercebendo de alguma resistência ao regime colonial?

O meu pai evoluiu muito politicamente, passou de uma fase cega para se aperceber logo do absurdo da situação. Havia focos de contestação. A coisa que mais me lembro, do ponto de vista infantil, era os livros interditos, como a Mafalda do Quino que arranjávamos secretamente numa livraria da 24 de julho, em Maputo. Tinha a sensação que se passava algo esquisito, isso de haver livros proibidos. Depois percebia-se muita tensão e problemas, pessoas muito perdidas, militares que bebiam muito, etc. Dos meus pais havia uma recusa à “situação”, incomodavam-se com as pessoas que queriam lá ficar, fazia-se sempre trocadilhos com Salazar e Caetano.

Eram os últimos anos do Império… como foi recebido o 25 de Abril?

Na Beira, houve a revolta dos civis contra os militares, a guerra começou a aproximar-se e cortaram a cabeça a um padre, perto do Macuti. Os civis, liderados por um grupo do Jorge Jardim, que “mandava” naquela cidade, impediam os militares de sair das messes, rodeavam os prédios e gritavam “oh Chico, vai pró mato, vai matar o preto”. Cercaram um hotel de pára-quedistas a cercar um hotel. Enfim, vivia-se uma onda muito tensa entre militares e civis, até houve granadas numa esplanada.

Quando aconteceu o 25 de Abril, já tínhamos a percepção de que aquilo estava prestes a explodir. Percebia-se que militarmente seria impossível resolver aquilo. Lembro que o meu pai estava a ler Portugal e o Futuro, do Spínola e comentou que ia haver uma revolução.

Identidades

E com o cinema recupera alguns cenários da sua vida.

Eram coisas muito fortes, relacionadas com a morte. Percebia a angústia da minha mãe: havia aviões abatidos, chegaram a deixar de fazer o abastecimento às bases.  Afectava-me ver a minha mãe sempre em pânico.

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

O que é que a desterritorialização lhe trouxe de aprendizagem?

Uma certa melancolia de não pertencer a lado nenhum. Neste tipo de experiência, relacionada com uma culpa histórica, há um pudor em reclamar os territórios, parece que se está a usar algo. E depois, conhece-se muita gente mas não nos ligamos a ninguém, temos muitas imagens soltas, etc, então dá vontade de colar as peças numa narrativa mais sólida do que foi. Provoca um percurso muito solitário.

Em que se reflete no seu trabalho?

Traz algo muito rico, abre as perspectivas, aguça a curiosidade. Faço muitas coisas sozinha, mas sem pena. Não me ligo muito a grupos, não tenho essa vocação. Como no filme a personagem Rita diz à mãe: “Sei que fez o que pode”. Tenho em conta que as pessoas fazem o melhor que podem.

O percurso da sua obra vai fazendo um sentido histórico: da Guerra colonial para o pós-independência. Um olhar retrospectivo sobre algo que acabou.

Tinha a sensação, nos outros filmes que fiz em África, que me estava sempre a referir ao passado. E pensava: estou no presente mas não estou a guardar nenhuma memória do presente. A mutação nesses países é delirante, nada a ver com os tempos da Europa. Vivo a angústia de estarem a desaparecer coisas que ainda podem ser testemunhos. Relaciono-me muito com os lugares, os arquivos, os testemunhos. Percebi que tentava guardar e reconstituir um tempo à beira do fim, tal como o tempo colonial, como se a relação com África estivesse num precipício, e o mais difícil de recuperar fosse o período pós revolucionário e o fim da relação ideológica. O movimento e a necessidade de captar e guardar essas figuras que estão a desaparecer tem a ver com aquilo que gosto.

Os anos pós-independência

Em Yvone Kane aparecem brancos que foram para África. Essas pessoas de origem europeia que se entusiasmaram com movimentos revolucionários ou que iam fazer uma missão faziam-no para colmatar uma culpa?

O conceito pós-colonizador aplica-se às pessoas que já lá estavam e às que foram depois para ajudar. Acabam por nunca se integrar naquelas sociedades, portam em si o estigma do pós-colonizador. “Tiraram-me do museu porque eu era muito branca”, diz uma personagem. Falas a língua e portas a cor do colonizador, mesmo que rejeites as ideologias, não há como escapar a esse estigma. Sara diz no filme “sinto-me rejeitada pelo poder, não pelas pessoas.”

Transporta-se sempre uma relação de poder, as pessoas não são elas próprias, têm de jogar com a percepção do outro.

É uma dificuldade intransponível, é para ser assim. Em “Yvone Kane” há pessoas que reconhecem muitas coisas políticas e históricas, para lá da história íntima, mas tentei que tendesse mais para o lado em que não é precisas identificar geograficamente.

Daí não ter localizado a ação em nenhum país.

Dá um lado muito etéreo, as personagens são muito misteriosas e fantasmagóricas, representam muitas coisas. É o que mais gosto mas faz também a fraqueza do filme.

Sim, há verosimilhança mas sente-se falta de realidade.

Há pessoas que se ligam só às questões identitárias do filme. “Yvone Kane existe? Mas o filme é sobre África, e não fala do racismo? o que é isto?”

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

Quando Rita (personagem de Beatriz Batarda) investiga sobre a misteriosa Yvone Kane é uma tentativa de se aproximar do universo da mãe?

Ao revelar-se o passado da Yvone, que coincide com o passado de vários países, Rita vai entrando no universo da mãe. Separam-se e não se encontram mais: a mãe morre, é enterrada com o kuduro e serras mecânicas como música de fundo, a piscina está metaforicamente a ser enterrada. No final, a sul-africana faz um sorriso contente. Há um lado bright naquilo tudo: vamos enterrar este passado, mas é assim a vida. Essas pessoas hoje não têm território de origem, falam línguas esquisitas. No filme, era importante que não se percebesse bem de onde vêm aquelas personagens. A morte da filha no início cria uma espécie de vazio. Não vamos saber quem matou Yvone Kane, era só um pretexto.

O Anjo da História 

O que a atrai nesta relação do indivíduo com a História, nos momentos de aceleração da história?

Nessa altura as coisas são muito radicais, entra-se em ruptura com determinadas rotinas. São momentos intensos nos quais estão coisas a acontecer, a ser criadas, têm uma existência muito forte. Interessa-me porque consigo reconhecer. Estou à frente do tempo, a pensar o que é que daqui a uns anos será aquilo que estamos a viver agora e a tentar perceber se alguma coisa na História nos pode dar uma lição. Raramente encontro. Afinal não se aprende com a História, cometemos os mesmos erros. Interessa-me o que vai ser lido das nossas acções de hoje.

 É o anjo da História benjaminiano a caminhar voltado para as ruínas do passado.

Vi muitas perspectivas de todo o lado de quem foi filmar a luta de libertação. Levei um grande banho de montagens de arquivo.

Nesses arquivos não há imagens iconográficas de guerrilheiras?

As figuras revolucionárias femininas, como por exemplo a Josina Machel, são representadas como santinhas, sem corpo. Para mim a Yvone Kane é, de certa forma, aquilo do que deveria ter sido representado da Josina Machel. Há um lado muito púdico dos revolucionários, como se as mulheres fossem perfeitas. Nem nos livros de história vamos saber quem verdadeiramente eram.

Yvone Kane e Sita Valles
Pode associar-se Yvone Kane a outras guerrilheiras, e talvez um pouco à história da Sita Valles. O que a inspirou?

O que me inspirou na história da Sita Valles foi a traição, um caldeirão que está ali a ferver do qual nem ela nem Yvone se aperceberam.

Devido a uma certa ingenuidade?

Uma força de espírito faz com que não se tenha apercebido de algo ali que as transcendia. São pessoas muito diferentes, mas tem-se associado.

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

Eram figuras eloquentes, muito carismáticas, bonitas, convictas, formadas.

Sim, ao se tirar todo o tipo de história íntima pessoal, transformamo-las em ícones, sem sexo. É isso que acontece com as heroínas. Por isso, na história, a Yvone tem uma relação de amor com uma pessoa mais nova, era uma maneira de dizer que ela existia, não tinha um comportamento insuspeito e para ficar mais tricky.

Construiu a figura da Yvone a partir de imagens de arquivo. Gosta de mostrar a facilidade de manipular a História e fabricar realidades?

Primeiro montei as imagens de arquivo e depois construí a Ivone, ou seja, ponho-a num contexto que já existe: a Yvone a falar num estádio a dizer “a luta continua”, ou a tomar posse num governo, a relação com o presidente.

Ficamos a pensar noutro rumo para aqueles governos: como seria se determinadas figuras que foram arredadas tivessem ganho poder.
Como está a preparação do filme Sob o olhar silencioso, a partir do 27 de Maio de 1977 angolano?

Revelou-se difícil de conciliar esse material, tudo aquilo tem de ser muito sustentado. Os testemunhos, de pessoas que viveram determinados acontecimentos com outras de quem eram quase irmãos, estão impregnados de emoções. Não é fácil construir uma narrativa fria sobre esse assunto. O que mais me dificulta são questões éticas, tentar perceber de onde conseguir olhar para tudo, onde me colocar, não posso saltar de eixo para eixo. Em relação aos testemunhos: são pessoas da mesma geração, uns optaram por ficar outras por voltar, todas passaram por coisas horríveis, foram presas, humilhadas, dissidentes políticos, mas conseguiam contar isto com uma certa neutralidade. Quando chegam a coisas íntimas como a família que vai embora, ou a casa que se desfaz, coisas que até ligamos aos colonos ou assim, desfaziam-se numa dor terrível. Algo muito básico que é o fim de tudo.

E os testemunhos de Angola?

São muito interessantes, gostei muito. É engraçado relacionar isso com um mapeamento de Luanda, os bairros. Em Angola, as questões raciais, ideológicas, de classes sociais faz com que haja muitos factores em jogo. Não posso ser simples e passar por cima disso tudo. Quero falar de determinada coisa mas quando se sobrepõe uma tensão que está para lá do que eu quero falar é difícil, vai sempre parecer que estou a fugir ou a descontextualizar. Senti que me encontrava numa situação estranha, bastava dizer o ano de 1977 para ter um peso tão grande que me fazia sentir como uma traidora, alguém que está à procura de algo que não devia. Isso atrapalha-me imenso pois não me sinto bem a trabalhar assim.

Sentiu resistência nas pessoas para falarem?

Muitas pessoas falaram abertamente, ouvimos histórias humanamente fortes, pessoas que estão muito bem apesar de terem passado muito mal.

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

Como se já tivessem arrumado aquilo?

Há coisas que nunca se consegue resolver mas pode-se arrumar.

“Em Angola, interessa-me saber que tipo de sociedade se criou, tão diferente de Moçambique nos modos e nos costumes. Em Moçambique, há um racismo muito mais evidente”.

Talvez porque em Angola se passou por situações muito conturbadas depois disso. Já em Portugal, as pessoas cristalizaram mais essas memórias.

Sim, em Portugal há um lado traumático, em Angola tens de conviver com os agressores e entretanto as pessoas mudaram e têm outras perspectivas.

 Porque se interessou por Moçambique e por este momento da História angolana?

No caso de Moçambique foi  a história pessoal, voltar lá e tentar perceber o que aconteceu. Em Angola, interessa-me saber que tipo de sociedade se criou, tão diferente de Moçambique nos modos e nos costumes. Em Moçambique, há um racismo muito mais evidente. Angola teve um colonialismo que tomou conta das pequenas coisas.

Porquê a Sita Valles?

Porque o seu fim é metafórico para muitas coisas que aconteceram, mas também pelo seu contexto: família que vem de Goa, estabiliza-se em Luanda, fazem parte de uma sociedade com muitos cambiantes, ela vem estudar para Lisboa. O passado da Sita revela uma riqueza sócio-cultural muito peculiar e interessante. E também a atracção pelo lado mais duro, as elegias, as revoluções, as injustiças, o absurdo dos fraccionistas. Angola interessou-me pela figura da Sita, senão acho que nunca teria ido por aí.

Foi uma armadilha da história?

De uma certa ingenuidade. Tenho a certeza que a Sita Valles cometeu imensos erros, e de repente, por determinadas circunstâncias, as coisas transformam-se no horror. Isso faz-me pensar nas nossas acções, como, de repente, tudo pode ser tão esmagador. Também me interessa perceber porque algumas pessoas saltam do comboio e outras não.

Entrevista publicada originalmente no jornal Rede Angola.

por Marta Lança

Fonte: Buala

LIDERANÇA FEMININA NA ÁFRICA

Documentário mostra a importância da liderança feminina nos países africanos
Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura | FOTO: Divulgação| Adaptação web: David Pereira

Elas são cerca de 500 milhões, espalhadas pelos 54 países que formam o continente africano. Em diversas áreas, enfrentam, com coragem e sensibilidade, problemas cotidianos que atingem a todos que vivem por lá, homens inclusive. São o esteio de culturas ancestrais, que desejam seguir em frente e se modernizar, com paz, justiça social, desenvolvimento econômico e educação. A política, a vida em comunidade, o comércio, a paz (e a falta dela em muitos casos recentes) têm como principal base de sustentação as mulheres, que se orgulham em lutar para defender seus países e comunidades. Elas, de forma silenciosa, porém verdadeira, estão escrevendo um novo capítulo na trajetória africana.Elas são cerca de 500 milhões, espalhadas pelos 54 países que formam o continente africano. Em diversas áreas, enfrentam, com coragem e sensibilidade, problemas cotidianos que atingem a todos que vivem por lá, homens inclusive. São o esteio de culturas ancestrais, que desejam seguir em frente e se modernizar, com paz, justiça social, desenvolvimento econômico e educação. A política, a vida em comunidade, o comércio, a paz (e a falta dela em muitos casos recentes) têm como principal base de sustentação as , que se orgulham em lutar para defender seus países e comunidades. Elas, de forma silenciosa, porém verdadeira, estão escrevendo um novo capítulo na trajetória africana.

A história de vida destas mulheres é o fio que conduz o documentário Mulheres Africanas – a Rede Invisível. O filme centra os depoimentos em cinco mulheres de grande representatividade em seus países: a moçambicana e ativista política Graça Machel; a liberiana Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2011; a tanzaniana Sara Masari, empresária; Luisa Diogo, ex-primeira-ministra de Moçambique; e a sul-africana Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura (1991). Porém, mais do que traçar um perfil destas importantes figuras, o documentário usa a visível trajetória delas para traçar um panorama da atuação de milhões de mulheres que, mesmo anonimamente, fazem a diferença. É como se todas elas pudessem falar por meio da voz de Graça, Leymah, Sara, Luisa e Nadine. A ideia de contar esta história partiu da produtora pernambucana Monica Monteiro, uma apaixonada pela riqueza da cultura e do povo africano que, desde 2007, desenvolve trabalhos com emissoras de TV em Moçambique e outros países da região. Ela conta que ao conhecer mais o continente e suas características ficou impressionada com a importância da mulher naquela sociedade. “A gente escolheu cinco mulheres e queríamos mostrar como elas chegaram ao patamar em que estão. São poucas vozes femininas no mundo, não apenas na África.” E para esta missão,Mônica convidou o cineasta Carlos Nascimbeni, responsável pela edição e pelo roteiro do documentário. “Quando cheguei, levei um choque porque a África que eu imaginava era outra. Passada a crise inicial, comecei a compreender a vida em comunidade, as semelhanças com o Brasil. Entrei em um processo de entender esse universo que é muito diferente daquele que estamos condicionados a perceber. Foi um grande aprendizado”, contou ele.

Mônica afirma que também aprende a todo momento: “A África me deu muito mais do que eu poderei dar a ela. Ela me ensinou a ser solidária, a ser generosa. Eu aprendo a cada dia com o povo africano. Quero que o documentário possa contribuir na multiplicação dessas vozes e que inspire as mulheres a transformarem o meio onde vivem”, deseja Mônica.

Com uma narrativa contada pela atriz Zezé Motta, o documentário, de forma sensível, mostra as distintas nuances que formam a África hoje, algo que transcende o estereótipo da África selvagem, pobre e violenta. Por meio da história destas cinco mulheres, o filme fala de um continente diverso, com características, culturas, religiões, comidas e hábitos que diferem de país para país, mas que em comum têm a força e a determinação da mulher, que, nas palavras da moçambicana Luisa Diogo “sustenta metade do céu”. Impossível não se deliciar com a história, contada por ela, de seus avós. O avô, grande líder comunitário em sua aldeia em Moçambique, aconselhava a todos que o procuravam. Porém, os problemas mais graves ficavam para serem opinados no dia seguinte. Isso porque quem os resolvia, de fato, era a avó de Luisa. Ela sim, a grande conselheira da aldeia.

Difícil também não se emocionar com o relato da guerra na Libéria feito por Leymah Gbowee, que liderou um movimento pacífico que culminou com o fim do conflito armado no país. “O que Martin Luther King, Gandhi e Nelson Mandela fizeram, as mulheres africanas fazem todos os dias em suas comunidades. E isso deve ser celebrado. Somos poderosas”, diz ela no filme. A importância da educação neste processo de visibilidade das mulheres fica bem nítida nos depoimentos, principalmente no de Graça Marchel. As africanas estão estudando mais, mas é preciso confrontar as tradições e os ritos, não para que elas se acabem, mas que se transformem para que não sejam elementos que impeçam as mulheres, em sua fase adolescente, de seguirem estudando.

Mulheres Africanas – A rede invisível é uma produção estritamente pertinente. Um filme que, além de visto, deve ser sentido porque comprova que o berço da humanidade pode ser também o futuro dela. Coragem e determinação para que isso aconteça, os milhões de guerreiras africanas têm de sobra.

 

Fonte: Raça Brasil