Artista cria ‘Simpsons negros’ contra racismo nos EUA

Em referência a mortes de negros pela polícia, imagens mostram Bart Simpson morto sobre um gramado e a estátua da Liberdade mascarada.
Artista cria 'Simpsons negros' contra racismo nos EUA (Foto: Divulgação/Alexsandro Palombo/BBC)Artista cria ‘Simpsons negros’ contra
racismo nos EUA (Foto: Divulgação/
Alexsandro Palombo/BBC)

 

Um artista italiano recriou personagens do desenho Os Simpsons, símbolo da cultura pop norte-americana, para trazer atenção internacional a supostos episódios recentes de racismo nos Estados Unidos.

Na série de obras publicadas no Facebook pelo chargista Alexsandro Palombo, a pele amarela de Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie Simpson ganha tonalidade mais escura. As tiras trazem mensagens como “Pare com o racismo”, “Justiça” e “Policiais nunca dormem”.

Uma das sequências mais comentadas retrata Bart Simpson fugindo de um policial armado e depois morto sobre um gramado.

As ilustrações fazem referência à morte de Walter Scott, um homem negro de 50 anos, morto pelas costas por um policial branco na Carolina do Sul, no início de abril. Também remetem à morte do garoto Tamir Rice, de 12 anos, baleado em Cleevland, em novembro passado, quando brincava com uma pistola de brinquedo.

“Esta série visa denunciar acontecimentos raciais inacreditáveis que ocorreram recentemente”, diz o artista, que vive em Milão, ao #SalaSocial. “Estamos vivendo um perigoso retrocesso e, se os Estados Unidos não reagirem ao racismo, não serão mais o país da liberdade e dos sonhos, mas o país da opressão e da injustiça.”

‘I can’t breathe’
Além dos casos Scott e Rice, as imagens também reconstroem a morte de Erick Garner, de 43 anos, assassinado em julho do ano passado. Contido por um policial na rua, sob suspeita de vender cigarros ilegalmente, ele era asmático e não resistiu a um “mata leão”. Garner gritou: “Não consigo respirar” pelo menos duas vezes, de acordo com relatos. Morreu no hospital.

Em frente a uma estátua da Liberdade coberta por uma máscara cônica da Ku Klux Klan, a família Simpson é retrada com as bocas cobertas pela mensagem “Não consigo respirar” – a frase também foi mote de uma intensa campanha nas ruas e nas redes sociais após a morte de Garner.

“Os Simpsons são um símbolo norte-americano exatamente como a estátua. Eu quis colocá-los juntos para expor as contradições da América Moderna e seus problemas raciais”, diz o artista italiano. “As imagens da morte de Scott e do sufocamento de Garner são horríveis, incivilizadas. Isso é uma violência louca, inaceitável.”

Questionado sobre riscos de enfrentar processos legais pela apropriação dos traços dos Simpsons, Alexsandro diz que diz que o uso de figuras icônicas “é parte de sua linguagem artística”.

“Eu capto estes personagens em uma maneira totalmente diferente e nova. São visões minhas, arte contemporânea, então não há irregularidade legal”, afirma.

 

Fonte: G1

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EUA comemoram 50 anos da aprovação da lei que acabou oficialmente com o racismo no país

Os Estados Unidos comemoram 50 anos da aprovação parlamentar da lei que acabou oficialmente com o racismo no país. A comemoração de 50 anos da lei dos direitos civis, reuniu três ex-presidentes na biblioteca Lyndon Johnson em Austin no Texas. Jimmy Carter e Bill Clinton discursaram ao longo da semana, Jorge W. Bush subiu ao palco no dia 9/04 no período da tarde, mas o pronunciamento mais esperado do dia foi do presidente Barak Obama, beneficiado direto da reforma que acabou com a segregação racial.

“Por causa do movimentos pelos Direitos Civis, por causa do que o Presidente Johnson assinou, novas portas de oportunidade e educação se abriram para todos, não todas de uma vez, mas elas se abriram, não apenas para negros e brancos, mas também para mulheres, hispânicos, asiáticos, índios americanos, homossexuais e deficientes, elas se abriram para você e se abriram para mim” disse o presidente.

Obama reconheceu que a questão racial ainda está presente na politica americana, mas disse que a vida dele, da primeira Dama Michelle e das filhas são um reflexo da lei assinada por Johnson.

O projeto de lei foi apresentado em Junho de 1963, pelo então presidente John Kennedy, a luta pelos direitos civis estava no auge liderada pelo ativista Martin Luther King, manifestações tinham sido rigorosamente repreendidas pela policia em várias cidades americanas. O projeto se arrastou no congresso até a morte de Kennedy em novembro de 1963. Ao assumir a presidência, Lyndon Johnson conseguiu o sinal verde dos parlamentares e assinou a lei em Julho de 1964. 50 anos depois do fim da segregação, a igualdade racial plena ainda não é uma realidade nos Estados Unidos, os negros correspondem a 15% da população americana, mas ganham salários mais baixos, tem menos acesso a educação e são maioria entre a população carcerária.

Fonte: G1

50 anos após marcha de King, igualdade nos EUA continua distante

Os presidentes da American Express, Merck e Xerox são negros. Os prefeitos de Washington, Denver e Filadélfia, de maioria branca, também o são, tal como o governador de Massachusetts.

Também são negros cerca de 10% dos deputados e senadores do Congresso americano, pouco abaixo da porcentagem da população negra no país, que é de cerca de 13% (no Brasil, o equivalente seria se quase 40% do Congresso brasileiro fosse de negros ou mulatos). E o ocupante da Casa Branca é, desde 2009, Barack Obama.

Nesta quarta-feira, os EUA celebram os 50 anos da Marcha sobre Washington, quando o jovem pastor Martin Luther King (1929-68) fez seu mais famoso discurso, “Eu tenho um sonho”, diante de 250 mil pessoas.

Foto do líder negro norte-americano Martin Luther King Jr., em 17 de junho de 1961

Estarão presentes em um evento Obama e os ex-presidentes Bill Clinton e Jimmy Carter. Ontem, milhares de pessoas se reuniram no mesmo local, aos pés do Memorial de Lincoln, num ato cívico para marcar a data.

A marcha de Luther King foi a maior cobrança por direitos civis –dez meses depois, o presidente Lyndon Johnson assinou lei que, na prática, proibiria segregação em locais públicos e privados e, em 1965, a lei de direito ao voto, que derrubou artimanhas que dificultavam registro de negros como eleitores.

Em 1964, Luther King, aos 35 anos, seria o mais jovem premiado com o Nobel da Paz. Em 2008, com a eleição de Obama, analistas se apressaram a anunciar que o país vivia uma fase pós-racial. Apesar do salto econômico, político e cultural da minoria negra, a disparidade com a maioria branca (63% da população) continua grande.

Em 1955, 60% dos negros no país viviam abaixo da linha da pobreza (hoje o mesmo número é de negros de classe média). Naquele ano, a costureira Rosa Parks se negou a ceder seu lugar a um passageiro branco em um ônibus segregado em Montgomery, Alabama, e foi presa –o que detonou a luta dos movimentos civis.

Apenas 4% dos negros tinham diploma superior então (hoje 38% dos negros chegam à universidade). Em 1967, quando finalmente a Corte Suprema invalidou leis estaduais que proibiam o casamento inter-racial, o número de casais mistos era minúsculo –hoje, 24% dos homens negros são casados com mulheres de outras raças.

A discriminação na Justiça ainda é acentuada. Proporcionalmente, o número de presos negros é seis vezes maior que o de brancos. Apesar de o uso de maconha ser similar entre jovens brancos e negros, estes têm um índice quatro vezes maior de detenção pelo uso da droga.

Mesmo com o sucesso de ações afirmativas em incluir mais negros nas universidades, o sistema escolar ainda é financiado localmente –bairros brancos têm escolas melhores (e mais ricas) que as comunidades negras.

A desagregação familiar é bastante maior: 72% dos bebês negros são nascidos fora do casamento (entre os brancos, 29%). Mais da metade será criada apenas pela mãe.

O próprio Obama criticou hábitos enraizados na minoria. “Em muitos lugares, quando um jovem negro tem um livro ente as mãos, seus amigos dizem que ele está ‘se fazendo de branco’.

Essa é uma atitude derrotista”, criticou ele, que, recentemente atacou o sistema legal do país pela absolvição de um hispânico que matou o adolescente negro Trayvon Martin, 17, achando que fosse ladrão.

Os negros continuam liderando em popularidade na música e nos esportes –Beyoncé, Jay Z e Kanye West são os astros mais populares do país e o seriado de maior audiência da TV aberta, “Scandal”, é estrelado pela atriz negra Kerri Washington.

Mas a percepção do racismo ainda é bem diferente: 46% dos negros acham que há muito racismo; entre os brancos, só 16% concordam.

O simbolismo do poder está se adaptando. Ao chegar à Presidência, Obama devolveu o busto do ex-primeiro-ministro Winston Churchill, emprestado pelo governo britânico após o 11 de Setembro.

Em seu lugar, pôs bustos de Lincoln (em cuja Presidência se aboliu a escravidão, em 1865) e Luther King.

 

Fonte> Folha

“Venci a minha homofobia e o meu racismo”, diz atriz transexual dos EUA

Uma das estrelas da série “Orange Is The New Black”, Laverne Cox conta em entrevista como superou preconceitos e como foi trabalhar com a estrela Jodie Foster

Sophia Burset é uma transexual num mundo ainda preconceituoso e desinformado sobre o assunto transexualidade. Tendo casado com uma mulher antes de assumir sua identidade feminina, ela tem um filho que não aceita bem a sua mudança de sexo. Para complicar ainda mais a situação, Sophia vai parar na cadeia por fraudar cartões de crédito, que foram usados para custear sua cirurgia de readequação sexual.

Resumidamente, essa é a história da personagem que a americana Laverne Cox interpreta na série “Orange Is The New Black”, recém-lançada pelo Netflix, um serviço de streaming de filmes e seriados. A atriz não tem filhos e, felizmente, também não tem problemas legais. Mesmo assim, a sua experiência pessoal ajudou o compor o papel, já que Laverne é uma transexual que já enfrentou muito preconceito.

“Eu me identifico com os sentimentos que fizeram Sophia se sentir culpada por ter consciência da sua condição. Ela sacrificou tudo, sua família e sua liberdade para ser verdadeira com ela mesma, para viver de uma maneira autêntica. Mas ela pagou um preço alto por isso”, admite Laverne, falando numa conferência por telefone com a reportagem do iGay , da qual participaram também outros veículos de imprensa de todo o continente americano.

Ainda falando das semelhanças que a sua vida pessoal guarda com a personagem, Laverne lembra as dificuldades que Sophia passa na cadeia para tomar os hormônios que a auxiliam na mudança de sexo. “Infelizmente, em alguns momentos na minha vida, também me foram negados cuidados de saúde para a minha transexualidade”, conta a atriz.

Embora tenham passado por dificuldades como sua personagem, Laverne tem uma visão esperançosa sobre futuro das transexuais como ela, reconhecendo que a sua própria presença num programa de sucesso pode ajudar a diminuir o preconceito.

“Acho que demos um primeiro passo. Acredito que ser representado na TV é algo muito importante”, explica Laverne. “Hoje, a maioria dos americanos entende que os homossexuais têm o direito de casar… No meu pensamento, essas pessoas mudaram seus corações e mentes por causa desse tipo de representação. Então, é algo realmente poderoso. Mas as políticas públicas também têm que mudar”, pondera.

Dividindo o papel com o irmão gêmeo

Em flashbacks, “Orange Is The New Black” mostra o passado Sophia, quando ela era o bombeiro Marcus e ainda não tinha feito a cirurgia de mudança de sexo. Laverne chegou a se oferecer para interpretar o personagem nesta fase, mas a ideia foi descartada quando uma diretora da série descobriu que ela tinha um irmão gêmeo, o músico M Lamar .

“Nós temos um vínculo muito forte e temos muito respeito um pelo outro, nos respeitamos como artistas e como pessoas. E fiquei grata por poder dividir com ele esse momento na série”, diz Laverne sobre trabalhar com M Lamar, acrescentando que os dois dividiram o papel, mas não chegaram a gravar juntos.

A diretora que teve a ideia de chamar M Lamar é nada mais nada menos do que a estrela Jodie Foster . A premiada atriz foi a responsável pela direção do episódio que mostra o passado de Sophia.

“Jodie foi incrível. Ela é uma grande diretora de atores, por razões óbvias. Ela é uma atriz brilhante, mas também muito generosa. Foi como ter um mestrado em atuação”, relata Laverne, se derramando em elogios a diretora famosa.

Vencendo o próprio preconceito

Laverne começou sua carreira no meio artístico em 2008, participando do reality show “I Want to Work for Diddy” do canal VH1, que buscava uma assistente para o rapper P. Diddy. Ela não venceu a competição, mas ficou famosa nos Estados Unidos. Desde então, a transexual tem buscado se aperfeiçoar com artista e também como pessoa.

“Eu gosto mais de mim agora. Eu comecei a trabalhar com um terapeuta, o nome dele é Brad Calcutera, e ele é brilhante. Trabalhei muito as minhas questões internas, venci a minha homofobia internalizada, o meu racismo internalizado e também a vergonha”.

Depois da terapia, a atriz mudou até concepção sobre o próprio trabalho. “É um equívoco dizer que atuar é fingir ser outra pessoa. A realidade é que nós exploramos a nossa própria verdade para dar verdade aos nossos personagens”, conclui Laverne.

Jodie Foster dirigiu o episódio que contou a história da personagem de Laverne Cox

Depois da eleição de Obama, é mais difícil falar sobre raça na América

Quando Barack Obama reagiu à morte de Trayvon Martin, o jovem afro-americano abatido a tiro num condomínio privado da Florida por um vigilante nocturno em Fevereiro deste ano, os jornalistas que cobrem a Casa Branca andavam há cinco dias a tentar obter um comentário do Presidente americano sobre um caso que ganhara a dimensão de uma tragédia nacional.

Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.

A intervenção de Obama não podia ter sido mais moderada. Ele falou sobre o caso de uma forma pessoal, dizendo que “se tivesse um filho, ele seria parecido com Trayvon”. Obama não convocou uma conferência de imprensa nem voluntariou a sua opinião. O seu comentário foi uma resposta a uma pergunta (a única pergunta) que os jornalistas puderam fazer na primeira oportunidade que tiveram de se encontrar frente a frente com o Presidente – durante o anúncio da nomeação do novo presidente do Banco Mundial. 

Antes de Obama pronunciar-se sobre Trayvon Martin, a condenação do caso transcendeu divisões partidárias e os apelos a uma investigação séria e credível sobre os acontecimentos foram consensuais. Depois de Obama ter falado, tornou-se um tema radioactivo. 

Antes de Obama pronunciar-se, o caso proporcionou um momento de introspecção, com a América a questionar se vivia mesmo numa era pós-racial depois da eleição de um presidente negro. Depois de Obama ter falado, a direita (que tem na Fox News o seu megafone) começou a reagir contra a ideia de que o caso tinha sido motivado por preconceitos raciais. 

A teoria de que George Zimmerman, o suspeito que aguarda julgamento pelo alegado homicídio de Trayvon Martin, é na verdade uma vítima de manipulação racial, começou a ganhar terreno. A National Review, uma influente revista conservadora, sugeriu que as pessoas que insistiam em falar de racismo só se preocupavam com os homicídios de jovens negros quando os seus perpetradores eram brancos. Newt Gingrich, que na altura era um dos candidatos republicanos na corrida para a Casa Branca, reagiu ao comentário de Obama, dizendo: “Está o Presidente a sugerir que se tivesse sido um branco a ser alvejado, isso não seria um problema porque não seria parecido com ele?” 

Como Presidente, Barack Obama tem evitado falar de raça. “Ele não quer que isso seja a questão que define as suas políticas”, diz à revista 2 Thomas Sugrue, professor de história e sociologia na Universidade da Pensilvânia especializado em estudos raciais e no movimento de direitos civis. (O seu livro Not Even Past: Barack Obama and the Burden of Race, publicado em 2010, é uma análise das transformações raciais da América que culminaram com a eleição histórica do primeiro Presidente negro.)

As raras vezes que o Presidente Obama mencionou questões raciais acabaram sempre por gerar controvérsia. “Mesmo os comentários mais inofensivos”, nota Thomas Sugrue. 

Tanto ele como Mark Neal, professor de estudos africanos e afro-americanos na Duke University (Carolina do Norte), sugerem que muitos americanos elegeram Barack Obama para acabar de vez com a discussão sobre a desigualdade racial. (Thomas Sugrue é branco; Mark Neal é afro-americano.) “Nos Estados Unidos, as pessoas estão cansadas de falar na questão da raça”, diz Mark Neal. “E parte do que ajudou Barack Obama a atingir a meta em 2008 foi esse cansaço – a expectativa de que ‘não vamos ter de falar mais sobre isto’.” 

A esperança trazida pela eleição de Obama, especifica este académico, “não era necessariamente que as relações raciais iriam mudar, mas que não teríamos de falar sobre o assunto”. A sua vitória permitiria transcender o trauma histórico da escravatura e da segregação. Ela representava o triunfo da integração: a cor de pele de Obama não o impedira de alcançar a liderança do país.

Mas poucos meses depois de assumir a presidência, no Verão de 2009, durante uma conferência de imprensa sobre a reforma do sistema de saúde, uma jornalista pede a opinião de Obama sobre o incidente Henry Louis Gates Jr., o professor da Universidade de Harvard e reputado intelectual afro-americano que foi detido por um polícia branco quando tentava entrar na sua própria casa. “O que é que isto revela sobre as relações raciais na América?”, perguntou a jornalista. Obama disse que o polícia “agiu de forma estúpida” e que as autoridades policiais americanas suspeitam “desproporcionalmente” de afro-americanos e latinos. Os comentários motivaram protestos da classe policial, que exigiram um pedido de desculpas do Presidente. As sondagens revelaram que a maioria dos americanos reprovava a reacção de Obama. Dias depois, o Presidente disse que lamentava os comentários que fizera inicialmente, notando que eles contribuíram para um “frenesim mediático” em vez de ajudar a dissipar o caso. Ele convidou o professor e o polícia para um encontro cordial na Casa Branca que ficou conhecido como a “cimeira das cervejas”. 

Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.

Quase todos os observadores que se interessam por questões raciais acreditam que esse episódio foi uma lição para Obama . Foi o momento em que se apercebeu de que qualquer menção de raça da sua parte teria um efeito explosivo e tem procurado evitá-lo a todo o custo desde então. “Para muitos brancos e até alguns negros que tinham votado em Barack Obama”, diz Mark Neal, esse também foi o momento em que começaram a duvidar das expectativas criadas pela sua eleição.

“Desde a eleição de Obama, a discussão explícita de questões raciais tornou-se mais difícil”, diz Thomas Sugrue. “Não há nada de controverso em notar que existe uma longa história de assédio e/ou tensão entre afro-americanos e a polícia – essa é uma das cenas mais antigas da história americana. Mas se for Obama a dizê-lo, isso imediatamente causa uma tempestade.” 

Nesse caso como no de Trayvon Martin, os comentários do Presidente levaram muitos dos seus críticos a acusá-lo de tentar criar barreiras raciais ou de injustamente injectar o tema da raça no debate político. “E todas as pessoas que disseram isso eram brancas”, explica Thomas Sugrue. “Elas não querem ouvir Obama a levantar questões de injustiça racial porque isso parece violar a promessa pós-racial” da sua eleição que continua a servir de caução “a tanta gente”. “Ele é um sinal de que ultrapassámos [o trauma racial] e se ultrapassámos isso, é perturbador ouvi-lo a reintroduzir questões de divisão racial no debate político nacional”, conclui Sugrue. Ponderando sobre este mesmo assunto na revista Esquire, o jornalista Charles Pierce escreveu recentemente que Obama “não pode fazer nem dizer nada que as pessoas brancas que votaram nele possam achar divisivas porque a sua função principal é fazer com que elas se sintam bem consigo mesmas”. 

Nenhuma pessoa que pense de forma crítica sobre matérias de raça acredita nisso, mas a noção de que a América vive numa era pós-racial persiste no discurso popular – e ninguém se tem batido mais por essa causa, digamos, do que os críticos de Obama. Durante a eleição de 2008, qualquer comentário negativo sobre o candidato negro corria o risco de levantar suspeitas de racismo velado. Mas o facto de agora existir um Presidente negro na Casa Branca criou um contexto em que deixaram de estar à defesa e passaram ao ataque. Esse é um dos paradoxos da eleição de Obama: sob a ilusão de uma sociedade pós-racial, “o racismo intensificou-se”, escreve o jornalista Ta-Nehisi Coates num recente artigo na revista The Atlantic intitulado “Medo de Um Presidente Negro”.

Na Fox News, Glenn Beck afirmou que Obama sentia “um ódio profundo pelas pessoas brancas e pela cultura branca”, acusando-o de racismo invertido (um argumento que tem ressurgido com frequência entre a direita conservadora). Como um vídeo no YouTube atesta, alguns cartazes dos primeiros protestos do Tea Party referem-se ao Presidente como “um queniano que quer destruir a América”, comparam-no a Hitler, ou dizem coisas como “O Plano de Obama: Escravatura Branca”. “O Jardim Zoológico tem um leão africano e a Casa Branca tem um africano mentiroso!”, diz outro cartaz. 

Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.

Um em quatro americanos acredita que Obama não nasceu nos Estados Unidos – e por isso a sua presidência não é legítima porque só um nativo pode ser Presidente. Em mais de uma dezena de estados, parlamentares locais apresentaram propostas de lei exigindo que os candidatos eleitorais, nomeadamente Barack Obama, mostrassem provas materiais da sua cidadania antes de o seu nome ser inscrito nos boletins de voto.

Segundo Mark Neal, isto não significa que os políticos republicanos sejam  “necessariamente racistas”. Mas mesmo que não tenham sido os seus autores, eles deixaram essas narrativas florescerem. Por uma questão de pragmatismo: elas vieram reforçar o obstrucionismo a Obama. Durante as primárias republicanas, no início deste ano, Michele Bachmann, uma candidata favorita do Tea Party, disse que “as famílias negras viviam melhor durante a escravatura”. Rick Santorum sugeriu que os americanos negros estão habituados a depender da contribuição do Estado. Newt Gingrich descreveu Obama como o “presidente dos cupões alimentares”, uma referência aos subsídios atribuídos a famílias com rendimentos baixos ou pobres para ajudar a suportar os seus custos com a alimentação. Gingrich nunca fez qualquer referência a um grupo particular de americanos, mas, nota Thomas Sugrue, a conotação de palavras como welfare e cupões alimentares (food stamps) com a população negra “está profundamente enraizada na política americana e no discurso popular desde os anos 1950 e 60”. Apesar de as estatísticas mostrarem que a maioria dos americanos que recebe contribuições do Estado e subsídios alimentares é branca.

A questão racial tornou-se “o elefante na sala”, para empregar um coloquialismo americano : é o assunto de que ninguém fala abertamente, mas que é omnipresente e inescapável. Também por isso tornou-se difícil medir ou provar que as pessoas estão a falar de raça quando não estão a falar de raça. Entre a comunidade afro-americana, também há quem resista ao argumento de que a oposição a Obama é motivada sobretudo pelo desconforto racial – porque isso acabará por levar a esquerda americana a concluir que deverá evitar escolher mais candidatos negros no futuro. Além disso, não é primeira vez na história recente dos Estados Unidos que a legitimidade de um Presidente é posta em causa pela oposição. Os republicanos tentaram usar o escândalo Monica Lewinsky para impugnar Bill Clinton. Os democratas nunca perderam a convicção de que George W. Bush “roubou” a vitória a Al Gore em 2000 com a ajuda do irmão, governador da Florida, o estado que ditou o desempate eleitoral. 

Tendo em conta este padrão, por que é que a resistência a Obama há-de ser determinada por factores raciais? Porque “ninguém estaria a pôr em causa o certificado de nascimento de John McCain ou de Al Gore”, diz Mark Neal. “Esse género de questões surge quando um Presidente é visto como ‘outro’.”

Seth Stephens-Davidowitz, um doutorado de Harvard, concluiu recentemente um estudo que mostra que o racismo teve um efeito maior do que se supôs inicialmente nas eleições de 2008. Ele calcula que Obama terá perdido entre 2 a 4 pontos percentuais do voto popular por ser negro. Pode não parecer muito, mas “na verdade é um número grande”, explica à 2. “A maioria das eleições americanas é bastante renhida, por isso perder 2 pontos percentuais teria custado a vitória ao candidato que ganhou em 30 % dos casos; perder 4 pontos percentuais teria custado a sua vitória em mais de metade das eleições presidenciais.” 

Ninguém admite em estudos de opinião que é racista, por isso os cientistas sociais têm de procurar uma fórmula ou uma metodologia que permita estabelecer uma ligação entre atitudes raciais e comportamentos eleitorais. Seth Stephens-Davidowitz optou por olhar para a frequência com que certas palavras de teor racial – como “nigger” – são usadas em buscas no Google. “Quando estão no Google as pessoas tendem a ser muito mais abertas e muito mais honestas em relação àquilo que pensam, mesmo que isso seja politicamente incorrecto ou inaceitável do ponto de vista social”, diz o autor do estudo. “Toda a gente admite tudo ao Google!”, ri-se. 

Depois de determinar quais as áreas do país com maior quantidade de buscas com uma carga racista, Stephens-Davidowitz percebeu que coincidiam com lugares onde há quatro anos Obama obteve um resultado abaixo das expectativas tendo em conta os hábitos de votação do eleitorado. Se as conclusões do estudo tivessem emergido em 2008, “muita gente teria recusado acreditar porque aquilo que estavam a sentir era tão bom”, nota. Em particular, que a raça de Obama iria ajudá-lo nas eleições, mais do que prejudicá-lo. O Washington Post sugeriu que a moral da história tanto pode ser negativa como positiva, dependendo do ponto de vista. Versão copo- meio-vazio: ainda existem racistas na América. Versão copo- meio-cheio: eles não foram suficientes para impedir a eleição do primeiro Presidente negro.

Seth Stephens-Davidowitz diz que o surpreenderia “se não houvesse um efeito relativamente semelhante” nas eleições de Novembro.

Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.

“Não sei se estava à espera que um Presidente negro na Casa Branca fosse mudar as relações raciais. A minha expectativa tinha a ver especificamente com o facto de ser Obama.” Reniqua Allen, uma jornalista freelance de 31 anos, publicou um artigo no Washington Post no auge da discussão sobre o caso Trayvon Martin, expressando a sua frustração pelo facto de Obama não falar mais sobre raça durante a sua presidência. “Há uma diferença enorme entre o Presidente Obama e o candidato Obama. Enquanto candidato, ele falava mais sobre raça”, diz à 2.   

“Muitas pessoas esperavam que, enquanto Presidente, Obama seria um activo defensor dos interesses da comunidade negra”, nota David Garrow, um historiador do movimento dos direitos civis americanos premiado com o Pulitzer. “E isso nunca aconteceu.”

Numa entrevista publicada em Agosto, a revista Black Enterprise perguntou a Barack Obama como é que respondia às críticas de que a sua administração não fez o suficiente para apoiar empresários negros. “Não sou o Presidente da América negra. Sou o Presidente dos Estados Unidos da América. Quero que todos os americanos tenham oportunidade”, disse.

Daniel Gillion, um professor de ciência política da Universidade da Pensilvânia, examinou todas as declarações públicas dos presidentes americanos da era moderna e concluiu que nos dois primeiros anos do seu mandato Obama falou menos sobre raça do que qualquer outro Presidente democrata desde 1961.

Reniqua Allen está ciente de que “as circunstâncias” do Presidente Obama são “diferentes” das do candidato Obama. Ele teve de lidar com assuntos mais urgentes – uma economia insatisfatória e nada menos que duas guerras, entre outras coisas. Mas foi o próprio Obama que fez da raça uma questão tão central da sua história pessoal e da sua campanha de há quatro anos. Foi ele que disse que a questão racial não devia ser ignorada no discurso que fez depois da divulgação de um vídeo que mostrou o pastor da sua igreja, Jeremiah Wright, a amaldiçoar a América durante um sermão religioso. Tudo o que Reniqua queria de Obama , neste momento, era algum reconhecimento de que a igualdade racial é uma fantasia desmentida pela realidade das estatísticas. Desde que Obama se tornou Presidente, o desemprego entre a população negra aumentou para 15% (a média nacional é 8,1%) e 36% de afro-americanos vivem na pobreza, um número recorde.

“Os afro-americanos continuam a estar sobre-representados entre a população desempregada e empobrecida. Ainda existe imensa segregação racial no mercado imobiliário e no sistema educativo”, diz Thomas Sugrue. “Não quer dizer que não tenha havido progresso. Os afro-americanos estão presentes na elite americana em números que seriam impensáveis há meio século. Mas isso não significa que esses benefícios tenham repercutido no resto da população.”

“Eu gostaria que Obama não fosse visto como a excepção”, diz Reniqua Allen. “Obama foi o prego no caixão, a prova definitiva de que a identidade racial não é uma limitação, de que os americanos negros podem fazer tudo o que os americanos brancos fazem.” Mas essa é “uma narrativa incompleta”, nota. Ela privilegia as histórias individuais de sucesso, que são abundantes – Oprah Winfrey, Jay-Z, Barack Obama – mas “esconde o facto de que a comunidade afro-americana não fez tantos progressos”. O triunfo de Obama dissimula “alguns dos problemas estruturais – as coisas que ainda aqui estão, que não vão desaparecer, que não acabaram durante a sua presidência”.

Reniqua diz que depois da eleição de Obama, é mais difícil para pessoas como ela falarem de raça. O seu artigo no Washington Post começa com a descrição de uma saída à noite com o seu grupo de amigos, em que fez um comentário sobre a presença desproporcional de loiras no bar onde se encontravam, comparado com o número de raparigas parecidas com ela. Uma das suas amigas brancas reagiu, dizendo: “Ninguém quer saber de raça, a não ser tu.”

“Agora que um homem negro ocupa a Presidência é muito mais difícil para nós [afro-americanos] pensar que não há nada que não possamos fazer”, justifica Reniqua. “É muito mais difícil dizer que o sonho americano só é possível quando se é branco quando um negro é um dos líderes mais poderosos do mundo. É mais difícil para nós provarmos que a raça ainda continua a ser uma limitação.”

As pessoas assumiram que Obama é a prova de que qualquer criança, independentemente da sua cor ou história familiar, pode fazer o que quiser. Elas riscaram isso da lista de tarefas quando “a realidade é que com a eleição de um Presidente negro há mais trabalho para fazer” porque “há forças na sociedade que, infelizmente, ainda impedem que isso aconteça”, diz-nos Michele Norris, uma reputada jornalista da rádio pública americana, NPR. É preciso garantir que a promessa anunciada pela eleição de Obama não é “apenas uma coisa maravilhosa e histórica que aconteceu a uma pessoa só”.

Quer dizer que nada mudou na consciência racial da América desde que elegeu um Presidente negro? Nada mudou na experiência pessoal de afro-americanos, na sua interacção com o mundo? 

“A minha vida não mudou radicalmente só porque Obama é Presidente”, diz Reniqua Allen. “Mas ao mesmo tempo devo dizer que quando ligo as notícias e vejo o Presidente, vejo a sua mulher, vejo uma família negra, isso faz alguma diferença. Pode não reflectir-se no meu dia-a-dia, mas em primeiro lugar dá-me esperança e em segundo lugar faz-me sentir orgulho. Isso não é uma reacção política, é uma reacção emocional, que tem a ver com identidade. Ver alguém como Michelle Obama na capa da Vogue implica uma mudança psicológica, parece-me, mais do que uma mudança económica ou política.”

Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.Yonamine. Untitled, 2010. Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art.

Michele Norris defende que depois da eleição de Obama as pessoas começaram a pensar em questões de raça “de uma forma diferente” e “mais profunda”, só que isso nem sempre é evidente. Em parte isso resulta de coisas tão subtis como o facto de vermos um “homem de cor” com frequência na primeira página dos jornais que lemos diariamente. A Casa Branca nunca foi um lugar tão diverso. “Posso dizer-lhe que vivo em Washington há muito tempo e nunca tinha visto tantos rostos de cor nas actividades e eventos da Casa Branca. Provavelmente, mais crianças de cor visitaram a Casa Branca nos primeiros seis meses da administração de Obama do que durante sei lá quantos anos. As pessoas que tentam medir a diversidade tende a centrar-se nos homens e mulheres que ocupam cargos executivos. Mas há outros níveis de exposição que podem passar despercebidos.” 

Para Michele Norris, a experiência racial é mais complexa na América de Obama, não necessariamente melhor nem pior. 

Quando lhe perguntamos se Obama devia falar mais sobre raça, ela diz que não consegue pensar “em nenhum outro Presidente que tenha falado mais sobre” o assunto. “O que eu acho interessante é que muitas vezes isso não acontece quando ele está no pódio, com uma fileira de bandeiras americanas, a falar de raça num ambiente muito formal. Às vezes ele diz coisas muito profundas de uma maneira completamente inesperada” – um comentário num evento de campanha longe de Washington, por exemplo. 

Norris diz que a eleição de Obama criou a expectativa de que ia haver “uma grande conversa nacional” sobre raça iniciada pelo próprio Presidente. “Como ele tinha abordado a questão racial “com mais frontalidade do que qualquer outro candidato presidencial anterior”, presumiu-se que ele iria convocar toda a gente “numa terça-feira às quatro da tarde” e anunciar: “E agora vamos falar de raça.” Foi uma ingenuidade pensar que as coisas aconteceriam dessa forma, diz Michele Norris. Porque a maior parte das discussões sobre raça têm lugar em contextos privados. “E as que se desenrolam em público são normalmente distorcidas pelas luzes superficiais do estúdio de televisão. Ou pelos filtros que adoptamos quando temos consciência de que estamos a falar num fórum público. As conversas sobre raça mais interessantes, mais provocadoras e mais produtivas são aquelas que nunca ouviremos a menos que sejamos um dos participantes. Elas acontecem em balneários e caves de igrejas, em dormitórios universitários, na bancada de um campo de bola num sábado à tarde, na esteticista e no barbeiro, ou no parque de estacionamento do escritório”, explica Norris. “A raça não é apenas este colosso que entra nos livros de história quando presidentes negros são eleitos ou quando as escolas são dessegregadas. Normalmente, até é algo bastante pessoal, baseada numa experiência que se teve ou numa pequena epifania.”

Há dois anos, Michele Norris, que é afro-americana, iniciou um projecto chamado “The Race Card”. Ela pediu aos seus ouvintes que condensassem os seus pensamentos sobre raça em seis palavras ou menos e os enviassem para o seu projecto. Os resultados estão compilados no sitetheracecardproject.com. A quantidade de aforismos recebidos – cerca de 10 mil – mostra estão ansiosas por falar de raça, mas “nem sempre têm um fórum ou um lugar onde possam fazê-lo”, nota Michele Norris. “Estou sempre a dizer às pessoas que visitam o site que imaginem algumas daquelas coisas a serem ditas em voz alta a um microfone da CNN, no café onde almoçam ou ao seu lado no metro. A reacção mais natural seria: ‘Uau, não acredito no que acabei de ouvir.’” E, no entanto, nesses pequenos desabafos, as pessoas “dizem coisas muito profundas, com uma grande franqueza, às vezes com humor, outras vezes com pesar, e identificam-se quase sempre pelo seu nome”. 

Um pormenor que Michele Norris não deixa de sublinhar: nas milhares de mensagens enviadas, Barack Obama é raramente mencionado. “Isso confirma a minha teoria de que a raça é uma coisa pessoal. Não tem a ver com ele.”

 

Sinais de fogo ardem na nova literatura cubana

Há mais para além da tríade “sexo, palmeiras e regime” quando se fala de literatura em Cuba. E os escritores só querem fugir desses clichés.

Três avisos ao leitor. Primeiro: quando se fala de Cuba a linguagem tem um peso diferente para quem está dentro (e de dentro) e para quem está (de) fora. Por exemplo: quando se diz “dissidente” também se pode querer dizer “contra-revolucionário”. Nem tudo é preto e branco, negativo e positivo, socialismo (capitalismo) ou morte. É mais complexo, intricado e contraditório do que a redução da linguagem ao seu mínimo denominador comum. Se o leitor não consegue passar além dessa leitura simplista, além da linguagem e das suas nuances, dos seus duplos sentidos, dos seus ódios e das suas obsessões, passe à secção de música.

Segundo: esqueça o Che, o Raúl, o Fidel, os guerrilheiros heróicos e a política, os Castro. Um país e a sua literatura são (sempre) muito mais (e para além) dos seus líderes políticos (efémeros e circunstanciais).

Terceiro: que a autora destas linhas passou sete dos últimos catorze meses em Cuba, quase todos em Havana, e que, por isso, este ensaioreportagem é uma tentativa de ver na sombra o que de fora (à luz) por vezes não se consegue vislumbrar.

Tudo isto a propósito da publicação da nova tradução do romancebíblia- da-cubanidade Três Tristes Tigres, do apátrida-que-mais-amou- Havana, Guillermo Cabrera Infante (Quetzal). Os itálicos são todos dele.

– São sepulcros branqueados, Silvestre. Não é a Nova Jerusalém, meu velho. É Somorra. Ou se preferires Godoma.

(…)

– Conheces a topografia do teu inferno.

– A isso chama-se em espanhol La Rampa. Em cubano, desculpe.

La Rampa é Cuba. Cuba é a vida e a vida inteira cabe ali, da esquina da 23 com a avenida L descendo ao encontro com o mar, num beijo morno de brisa e sal. Esta Havana é Sodoma e Gomorra (Somorra e Godoma à la Cabrera Infante), uma mulher meneando as ancas pela avenida abaixo e homens queimando pestanas com o fumo dos habanos. É a cidade pré-revolucionária, iluminada pelos néons dos cabarets, pela luz das estrelas no Tropicana, ao som de uma dança frenética de rumba e jazz, do tilintar de copos esvaziados de rum, descapotáveis bolerizando-se pelo malecón.

Enrique de la Osa, fotoEnrique de la Osa, foto

É pré-revolucionária porque simplesmente já não existe. Agora, a esquina da 23 com a avenida L continua a ser o centro da cidade rivalizando com a Havana da Unesco, colonial e grandiosa, de lindas fachadas disfarçando a escuridão das ruas alumiadas por fios de lampiões tristes e sós, e prédios que desabam quase todas as semanas por velhice. Mas como dizer que ela ainda é a mesma (bela e decadente) cidade de Cabrera Infante, ainda que diferente da Havana da sua infância, tão diferente como as décadas que passaram entre o tal dia 11 de Agosto de 1958 de que fala em Três Tristes Tigres e hoje, neste 2012?

E já não existia em 1965, quando Cabrera Infante escreveu Três Tristes Tigres no seu “exílio siberiano” na Bélgica, aonde era adido da embaixada de Cuba, país que abandonou nesse ano por um refúgio londrino até à sua morte, em 2005.

Daí que este longo fragmento-de-romance seja o símbolo e o epitáfio da Cuba de Batista, da infância nostálgica do seu autor, da Havana ligada à Florida por um ferry diário, de casinos, de prostitutas e velhos americanos, de Hemingway a pescar ao largo lutando contra um tubarão. Mas este retrato imortaliza todos os clichés que (ainda) se propagam sobre Cuba: sexo, mulatas, rum, cigarros e praias paradisíacas, a Varadero das estrelas.

No centro do chowzinho estava agora a gorda (…) movendo-se ao ritmo da música, rebolando as ancas, todo o corpo, de uma maneira linda, não obscena mas sexual e lindíssima, meneando-se ao ritmo, cantarolando por entre os lábios entumecidos, os lábios gordos e roxos, ao ritmo, agitando o corpo ao ritmo, ritmicamente, deliciosamente, artisticamente agora, e o efeito total era de uma beleza tão particular, tão horrível, tão nova que lamentei não ter trazido a máquina fotográfica para retratar aquele elefante que dançava ballet.

“Cuba é o centro dessa periferia na América Latina que é o Caribe. E mais do que Porto Rico, Panamá ou República Dominicana, Cuba ainda monopoliza o imaginário sobre o Caribe e todos os seus estereótipos exóticos”, explica Magdalena López, especialista em literatura Caribenha no Centro de Estudos Comparatistas, em Lisboa. Esse imaginário é o paraíso idílico de praias, coqueiros, rum, sexo e mulatas. Mas Cuba também é diferente: “Tem a particularidade histórica de ser a única revolução marxista ‘de sucesso’ a consolidar-se no poder na América Latina. Essa excepcionalidade diferencia-a dos outros países da América, não só porque representa a utopia da esquerda, mas também o fracasso dessa mesma utopia, um fracasso ainda muito difícil de reconhecer por alguns intelectuais de esquerda”, continua López.

Nesse sentido, o escritor que mais tem propagado essa imagem de deboche associado à falência moral da revolução socialista na ilha é Pedro Juan Gutiérrez que, com a sua Trilogia Suja de Havana (Dom Quixote) transformou a Cuba nostálgica de Cabrera Infante na ruína final do país no pós-Muro de Berlim.
Enrique de la Osa, fotoEnrique de la Osa, foto

Essa falência moral está ligada ao outro elemento de exotismo associado a Cuba: a política. O editor do cubano Leonardo Padura em Portugal, Manuel Alberto Valente (primeiro na Asa, agora na Porto Editora) conta que Padura, hoje talvez o mais traduzido e popular escritor cubano da sua geração, se queixa de que “gostaria de ser apenas um escritor a quem lhe fazem perguntas sobre os seus livros”. Isto é, nenhum escritor cubano, na ilha ou na diáspora, consegue livrar-se da pergunta sobre política. Eles querem ser escritores e fugir desse estereótipo, como explica Karla Suárez, escritora cubana que vive em Portugal: “Agora já estou mais habituada, mas no início era estranho. Estava a apresentar o meu livro e perguntavam-me o que ia acontecer a Cuba depois de Fidel. Não sabia responder, ainda não sei responder. Sou uma escritora, não sou analista política. Escrevi um livro, com uma história, e ninguém me faz perguntas sobre o meu livro.”

Cuba é tão complexa que nem mesmo os escritores conseguem explicá-la, assim, numa frase que vaticine o futuro “e depois de?”. Ainda que muitos cubanos se façam a si mesmos essa pergunta, isso não determina a forma como o dia-a-dia se vive na ilha. “Não tenho problema nenhum em falar de Cuba, mas como escritora tenho outras coisas, literárias, muito mais interessantes para discutir. Fidel já tem imenso protagonismo, não quero que a minha literatura seja sobre ele, porque não é e nós escrevemos sobre outras coisas também.

– Vou para o Sierra.

– É muito cedo para a noite e muito tarde para a madrugada. Não está aberto.

Para a Sierra, não é para o Sierra.

– Para Nicanor del Campo, a esta hora?

– Não, porra, vou para a serra. Vou revoltar-me. Tornar-me guerrilheiro.

– O quê?

– Juntar-me ao Fiel, ao Fidel.

– Estás mas é bêbedo, irmão.

Um ano antes de Três Tristes Tigres, o escritor Jesús Díaz publica Los años duros, considerada a obra que inicia um género na literatura cubana: “a literatura da violência”. A par de Jesus Díaz estão Norberto Fuentes, Manuel Cofiño, Rafael Soler ou Eduardo Heras León. Destes, apenas os três primeiros têm obras publicadas em Portugal, mas as mais contemporâneas e não as do período revolucionário, sobretudo porque tanto Díaz como Fuentes se tornaram polémicos dissidentes no exílio (Fuentes publicou em Portugal Autobiografia de Fidel Castro, Casa das Letras).

Los años duros venceu em 1966 o prémio Casa de las Américas, um dos mais prestigiosos da América Latina. Os “violentos” iniciam uma nova literatura da revolução, testemunhos da luta na clandestinidade ou em Girón, escritores que foram milicianos, revolucionários, guerrilheiros e que começam a escrever uma literatura profundamente comprometida com os ideais da revolução cubana. A década de 60 são os “anos dourados” da revolução, quando intelectuais europeus passavam por Cuba como quem vai ali ver a revolução acontecer, quando a orgia revolucionária estava no auge: da Serra à Baía dos Porcos, da “luta contra bandidos” às campanhas de alfabetização. A Portugal chegaram ecos destes autores, sobretudo a partir dos anos 70 quando se publicaram várias antologias de contos cubanos da revolução (na Estampa, Presença ou Edições 70).

Carlos Barria, fotoCarlos Barria, foto

O professor e investigador em literatura cubana da Universidade de Sevilha, Emílio Gallardo explica que, ainda que Três Tristes Tigrescoincida no tempo com “os violentos”, eles são de gerações diferentes. Nos “anos dourados” da revolução “convivem em Cuba alguns dos maiores génios da cultura daquele país (no cinema, pintura e literatura) em todo o século XX. Uns mais marcados pela ideologia, outros menos”, explica o professor. “A cultura cubana reflectia, naquela época, várias cores, vários estilos, várias vozes. Mas tudo se vai estreitando a partir do final dos anos 60.” Ao sair de Cuba em 1965, Cabrera Infante escapou ao período de silenciamento de vários escritores que, dentro da ilha, sobretudo a partir de 1971, começaram a ter dificuldades em publicar. A esse período negro da história de Cuba chama-se “quinquénio cinzento”, uma “travessia amarga” a que foram remetidos vários escritores que sofreram censura, impossibilidade de publicar ou até mesmo repressão ideológica. Aí se incluem os casos de Heberto Padilla ou de Reinaldo Arenas, cujas obras foram consideradas “contra-revolucionárias” ou com graves “problemas ideológicos”. Os dois escritores estiveram presos. O “caso Padilla” teve um enorme eco internacional e levou à cisão de vários intelectuais de esquerda com a revolução cubana. “Com o quinquénio cinzento em vez da pluralidade de vozes temos um monólogo, uma única maneira de ver o mundo que exclui todas as outras. Em vez do conflito natural da convivência e discussão ideológicas dos anos 60, temos uma visão muito ortodoxa do que tinha de ser a cultura, a literatura, o cinema, e fixam-se de forma clara quem são os intelectuais desejados pela revolução e quem são os excluídos”, explica Emílio Gallardo. Diferenças religiosas, ideológicas, de orientação sexual foram simplesmente “abolidas”.

Apesar de o “quinquénio cinzento” durar oficialmente até 1976, só na década de 90 é que Cuba começa a recuperar desse período de silêncio e a falar sobre ele abertamente. Repare-se, lembra Gallardo, que Cabrera Infante, porque escritor dissidente no exílio, não figura no Diccionario de la literatura cubana (1980), mas figura já, assim como vários escritores da diáspora, na História da Literatura Cubana publicada em três tomos na década de 2000. “A partir do final dos anos 80 e nos anos 90, escritores que tinham sido injustamente postos de lado como Piñera, Antón Arrufat, Lezama Lima são recuperados através de prémios nacionais, de artigos em revistas especializadas ou de reedições”, diz Gallardo.

“Vários escritores a partir dos anos 90 recuperam também esse período negro na literatura”, explica Gallardo, como é o caso de Leonardo Padura em Morte em Havana (edição Asa). Estas obras começam a abordar o caso de escritores, actores, encenadores, homossexuais ou com “problemas ideológicos” e que foram editorialmente silenciados, empurrados a trabalhar numa biblioteca (como Arrufat) ou numa fábrica (como Heras León).

– O Batista quer que [a cidade] atravesse a baía.

– Mas não tem futuro. Vais ver.

– Quem, o Batista?

Olhou para mim e sorriu.

– O que é que tu queres?

– Eu? Nada.

– Sabes que nunca falo de política.

É essa a minha política.

– Mas sei como pensas.

– Sim, está bem, as duas coisas.

– Eu também acho – disse. – Não há quem consiga fazer esta cidade atravessar a baía.

Esta é a imagem negra de Cuba que se continua (erradamente) a perpetuar no interesse que o exterior tem sobre a ilha. Emílio Gallardo explica que a edição de literatura cubana em Espanha é diferente da portuguesa, por razões óbvias que têm a ver com a língua e com as relações entre os países. Ou seja, Pedro Juan Gutiérrez e Padura (ambos escrevem de dentro), ou Zoe Valdés (hoje a voz mais popular da dissidência) publicam em grandes editoras como Alfaguara ou Anagrama. Mas há pequenas editoras independentes que continuam a publicar cubanos (ficção e poesia).

Em Portugal, “talvez devido à natureza do mercado”, explica Manuel Alberto Valente da Porto Editora, “é raro que um livro seja publicado se não fez sucesso noutros mercados europeus ou no anglo-saxónico.” João Rodrigues, editor da Sextante, que tem publicado (ainda que timidamente, reconhece) alguns cubanos nos últimos anos, diz: “Às vezes os autores vêm já prefigurados de campanhas internacionais. O que chega cá é uma repercussão do êxito francês ou espanhol. Quando queremos publicá-los do zero é uma dificuldade brutal.”

Os editores reconhecem que, ainda que procurem literatura de qualidade, é fácil cair na tríade “sexo, palmeiras, regime” precisamente porque o trabalho de divulgação da literatura cubana nos mercados internacionais é limitado. “Chega muito pouco cá fora. Há uma certa preocupação em publicar autores cubanos quando eles espelham estereótipos em relação a Cuba: a revolução, o exotismo local, dificuldades económicas. Contra mim falo no sentido em que em Portugal aproveitamos essas tendências. Mas também porque praticamente não sabemos o que se passa dentro da ilha a nível literário, senão com um ou dois autores que conseguiram furar esse bloqueio”, diz Valente.

Claudia Daut, fotoClaudia Daut, foto

– Sabes que a literatura cubana não trata do mar? Por muito que estejamos condenados àquilo a que Sartre chamaria a ilheitude.

– Não admira. Ainda não notaste que o Maceo equestre está de garupa virada para o mar e para as suas ondas? E as pessoas que se vêm sentar no paredão fazem o mesmo que eu faço no sonho e viram as costas ao mar, ensimesmadas nesta paisagem de asfalto e betão e automóveis que passam.

Claro que a dissidência vende, mas as coisas estão a mudar. Começam a ouvir-se vozes interessantes, como Karla Suárez, publicada primeiro na Asa, agora na Quetzal (o seu último romance, Havana, ano zero, saiu em 2011). Mas também Senel Paz (a Sextante publicou No céu como diamantes, 2010) ou Ena Lucía Portela (na Âmbar, ainda com João Rodrigues, Cem garrafas numa parede, 2004 ). João Rodrigues tem na gaveta um romance “muito entusiasmante” de Portela sobre a vida da escritora americana Djuna Barnes em Paris, que ainda não publicou “por falta de oportunidade”. Senel Paz já tinha publicado o conto O lobo, o bosque e o homem novo (Difel, 1996), dois anos depois do famoso filme Morango e Chocolate (de Tomás Gutiérrez Alea) o ter levado ao cinema.

Senel Paz, hoje vice-presidente da União de Escritores (UNEAC) em Cuba, é uma das vozes mais respeitadas na ilha. Esteve duas vezes em Portugal, onde passou praticamente despercebido, conta João Rodrigues, ainda que o seu livro tenha recebido o prémio Casa da América Latina. Tanto Paz como Padura são referências em Cuba. Padura é talvez o escritor mais popular: em 2011 na feira do livro de Havana o romance O homem que gostava de cães (Porto Editora) esgotou. A fila para os autógrafos tinha centenas de metros. Em várias livrarias da cidade havia mensagens nas portas dizendo “já não temos o livro do Padura”. Este ano, também na feira, Padura lançou um livro de crónicas. Também esgotou. A escritora cubana Maria Elena Llana disse-lhe, no lançamento: “Padura, os teus livros têm de ser lançados no Parque Central. A salita da UNEAC já é demasiado pequena para ti.”

Ainda que Karla Suárez viva fora de Cuba, tem uma relação forte com a ilha, aonde vai sempre que pode. Em Fevereiro deste ano esteve na feira do livro de Havana a lançar Carroza para actores, livro de contos. Suárez esteve também no debate sobre literatura cubana na diáspora, conduzido por Paz e Padura. Todos defenderam que os escritores cubanos a viver fora da ilha devem ser considerados e lidos. Ou seja: que a literatura cubana é uma só, e não apenas de fora ou de dentro. “Temos sido testemunhas, lamentavelmente, de uma ruptura política bastante fundamentalista (de parte a parte) em relação à literatura que se escreveu nos últimos 50 anos dentro e fora da ilha”, disse Padura no debate. Estas posições, diz Karla Suárez, “geraram muitos ódios”: escritores como Cabrera Infante, por exemplo, recusaram-se a publicar em Cuba; ainda hoje a viúva do escritor não consente que contos seus sejam incluídos em antologias na ilha. “Há muitos ódios na história de Cuba, são três gerações de ódios, mas isso não nos levou a nada”, diz Suárez.

Juan Barreto, fotoJuan Barreto, foto

São escritores como Padura ou Senel Paz que estão a “abrir buraquinhos no sistema”. É “muito injusta” a visão “simplista” de que todos os escritores que vivem em Cuba são “a favor” do governo, explica Suárez. “Todos trabalham para o governo, porque tudo é do governo, mas não quer dizer que todos sejam cem por cento a favor de tudo o que acontece em Cuba. Há pessoas em editoras que atravessam muitas dificuldades, chocam com muitas resistências mas lutam todos os dias para que as coisas mudem.” Há uma vitalidade literária, um burburinho intelectual na ilha que não passa cá para fora: os escritores continuam a encontrar-se, em tertúlias, em debates, em lançamentos, discutem, criticam-se regularmente.

É uma ilha de equívocos ditos por um gago bêbedo que significam sempre o mesmo.

Há toda uma geração de escritores cubanos que ainda permanece na penumbra editorial. Não querem “vender-se” aos estereótipos e querem continuar a escrever a partir da ilha, porque aí, simplesmente, pertencem. Aí é o seu lugar. Os chamados “novíssimos” são exemplo.

Com o “período especial”, após a queda do bloco socialista, Cuba abriu-se ao mundo e toda uma “nostalgia pela ruína do socialismo” entrou no imaginário ocidental, explica Magdalena López. É essa a nostalgia veiculada pelo Buena Vista Social Club de Wim Wenders.

Mas a ruína já estava lá, no final dos 80, quando os “novíssimos” começaram a fracturar o sistema com temáticas polémicas como homossexualidade, prostituição, travestismo, a guerra de Angola, balseros, ou dificuldades económicas. Eles são Alberto Garrido, Amir Valle, Ángel Santiesteban, Raúl Aguiar, Alberto Guerra Naranjo ou Yoss (alguns publicados numa antologia da Caminho em 1996). São a primeira geração nascida com a revolução. Já nem todos vivem em Cuba, mas foi com eles que a literatura se despiu de todos os preconceitos. “Esse é o momento em que Cuba deixou de ser excepcional e começou a mostrar problemas comuns a toda a América Latina, ainda que provenientes de um sistema diferente, o socialismo”, explica López. O submundo, a criminalidade, as drogas, temáticas comuns em literaturas do México ou do Brasil, passam a surgir na literatura cubana. Isto é: no “período especial” “a literatura latino-americanizou-se”, diz López.

No “período especial” não havia papel, editoras faliram, a produção literária entrou em colapso. Karla Suárez estava lá, a começar. Com ela: Ena Lucía Portela, Ana Lídia Vega e os “novíssimos” que chegaram aos 90 quase sem publicar, senão contos isolados em revistas. “Mas éramos uma geração nova, fora do establishment”, diz Suárez. Não havia papel, mas os escritores encontravam-se num ambiente de tertúlia, apoiavam-se, ouviam-se e liam-se uns aos outros, escreviam contos em “facturas da luz”, livros circulavam em “folhetos” agrafados. “Muitos contos apenas ouvi”. “Era uma espécie de literatura oral, muito livre, porque não tínhamos pressão de publicar, não tínhamos um público, não havia censura, escrevíamos para nós.”

Claudia Daut, fotoClaudia Daut, foto

O país mudava tanto, todos os dias, como Karla Suárez descreve em Havana, ano zero. Foi um grau zero da existência dos cubanos, o fundo do poço. Mas havia, naquela literatura, “uma coisa linda de verosimilitude literária, de pureza, de verdade, que tinha a ver com o nosso quotidiano”.

O mercado, enfim, mudou tudo. Não foi por acaso que o papa Bento XVI disse, quando visitou Cuba em Março: “Que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba.” Lentamente, isso está a acontecer. Agora, os escritores cubanos só querem ser lidos, mas fugindo aos clichés.

originalmente publicado no suplemento Ipsilon do jornal português Público 

Fonte: Buala

Haitianos são recrutados de Manaus para trabalharem no sul e sudeste do Brasil

Márcio Silva/A Crítica

Haitianos enxergam no Brasil possibilidades de emprego após terremoto de 2010

Por Daiane Souza

Centenas dos haitianos, que viveram os últimos anos em Manaus, estão sendo recrutados para trabalharem no sul e sudeste do Brasil. O Haiti passa por uma fase de tensões políticas e de extrema pobreza, sequelas de um terremoto sofrido em 2010, que justifica a imigração. Agora, a preocupação do governo brasileiro é que os haitianos que chegaram ao país tenham empregos dignos com salário, auxílio-transporte e alojamento.

Segundo informações da Secretaria Regional de Trabalho e Emprego do Amazonas (SRTE-AM), os recrutamentos são feitos por empresários que visitaram a capital amazonense. Denílson Chagas, superintendente do SRTE-AM, afirma que existe responsabilidade no sentido de preservação da dignidade dos operários, evitando que estes sejam expostos a condições análogas à escravidão.

Para Eloi Ferreira de Araujo, presidente da Fundação Cultural Palmares, a iniciativa do governo brasileiro é nobre. “Demonstra o cuidado que o nosso Estado tem em relação a garantia dos direitos humanos”, pontua. “Precisamos ser solidários aos haitianos com quem temos boas relações marcadas pela política, por cooperações e por semelhanças históricas e até mesmo culturais”, reforça lembrando a raiz africana.

Segurança – Os selecionados trabalharão em setores da construção civil, mineração, petróleo e gás, além de outras áreas. As empresas responsáveis pelos recrutamentos tiveram que assinar termos de compromissos na SRTE-AM, a fim de que seja garantida a segurança dos haitianos no transporte de Manaus até as cidades onde irão trabalhar e nos serviços que irão desempenhar.

A Igreja Católica e a Secretaria contabilizaram a saída de 200 haitianos para os estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. Outros homens foram recrutados para o estado do Tocantins. “Quando há o registro legal de saída, podemos assegurar transporte e emprego dignos, já que as empresas interessadas são sérias e tiveram a aprovação do Ministério do Trabalho”, ressalta o superintendente Chagas.

“Porém sabemos que o número de recrutados é maior que o registrado. Muitos deixam a cidade sem informar o poder público”, preocupa-se. De acordo com o superintendente, quando não há o cadastro aumenta-se o risco de que os trabalhadores sejam levados para ambientes insalubres e até sob regime de semi-escravidão.

Direitos humanos – Só em 2011, o Ministério da Justiça (MJ) registrou a entrada de cerca de quatro mil haitianos no Brasil. Destes, pelo menos 1,6 mil chegaram ilegalmente ao país. Para regularizar a situação dessas pessoas, a fim de que elas não sejam consideradas refugiadas, o Estado brasileiro realizou a emissão de vistos humanitários, documento que lhes permite as oportunidades de estudo e trabalho.

Já nos primeiros dias do mês de março, os haitianos residentes em Manaus foram cadastrados no Sistema Único de Saúde (SUS). A medida das Secretarias Estadual de Saúde do Amazonas (Susam) e Municipal de Saúde de Manaus (Semsa) teve por objetivo levantar o perfil de saúde desse público além de garantir-lhes o acesso aos serviços oferecidos pela rede pública.

Fonte: Palmares