ENSAIO “AFÉTO” REVELA AMOR DO POVO DE SANTO ÀS DIVINDADES AFRICANAS

O quão bem faz um abraço de quem se Ama? E se o mundo abraçasse, com respeito, a pluralidade de expressões afetivas construídas a partir de diferentes experiências? O ensaio “aFÉto” é mais um lindo trabalho de Roger, em Olhar de um Cipó

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Por Roger Cipó

 

A série fotográfica aFÉto é um registro das emoções do povo de santo e sua relação de amor com as Divindades Ancestrais Africanas, que por intermédio de seus descendentes, assumem a condição física (em transe), para dançar, encontrar e cuidar dos filhos e as filhas de Orixás, durante as cerimônias e cotidiano dos terreiros.

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Mais que retratar abraços entre divindades e fiéis, aFÉto propõe um diálogo de sensibilização para a urgência de se respeitar a integridade da religiosidade negra, seus elementos e presença social, apresentando imagens reais do amor ancestral, chamadas pelo fotógrafo Roger Cipó de “a verdadeira imagem da fé do candomblé”.

“Porque quando me perguntam o que Orixá faz, eu respondo: ‘Ama.Orixá Ama!”

A intolerância e racismo religioso, males que geram violência que através da agressão de famílias, queima de terreiros, apedrejamento de crianças, criaram também, no imaginário da sociedade, imagens demonizadas e demonizadoras da relação de fé e dignidade do culto aos Orixás, inferiorizando e invisibilizando as expressões de vida existentes nesses espaços de fortalecimento identitário, resistência, auto-amor e cuidado coletivo, que resignificam os sentidos de família, a partir da cosmovisão dos terreiros de se relacionar com o mundo por meio dos orixás, ancestrais divinizados na natureza.

 

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A série fotográfica aFÉto evidencia que o Candomblé, ao contrário do que afirma o fundamentalismo, é espaço que possibilita a reconstrução de relações sociais e afetivas de grupos socialmente violentados pela normatividade excludente de uma sociedade pouco sensível à diversidade humana. “Porque quando me perguntam o que Orixá faz, eu respondo: ‘Ama.Orixá Ama!” (Roger Cipó).

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Fonte: Carta Capital

Padre e mãe de santo unem esforços para defender um antigo Ilê do estado

Na contramão das animosidades com adeptos de religiões de matriz africana, ambos mostram que a fé vence a intolerância

WILSON AQUINO

Rio – Nenhuma crença é tão perseguida no Brasil quanto as religiões de matrizes africanas. Os seguidores da Umbanda e Candomblé, principalmente, são classificados como “filhos do diabo”; seus templos sagrados são profanados, e sua devoção é desrespeitada. Segundo relatório da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, das cerca de mil denúncias registradas no Rio de Janeiro, entre 2011 e 2015, mais de 70% foram de crimes praticados contra religiões afro-brasileiras.

Diante desse quadro de tanta incompreensão, a amizade entre um padre e uma mãe de santo, na Baixada Fluminense, soa como uma prece. Vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Nilópolis, Athailton Jorge Monteiro Belo, o Frei Tatá, devota profunda admiração e respeito pela yalorixá Regina Lúcia Fortes dos Santos, a mãe Regina. E a recíproca é verdadeira. Os dois estreitaram a relação durante o processo de tombamento da casa sagrada da yalorixá, o Ilê Axé Opô Afonjá, criado há 130 anos na Pedra do Sal, na Região Portuária do Rio, e que funciona desde a década de 1940 no bairro Coelho da Rocha, em São João de Meriti. Foi a primeira vez no Estado do Rio que um terreiro de candomblé é reconhecido por sua importância histórica, cultural e etnográfica.

Frei Tatá cumprimenta a mãe de santo Regina dos Santos no Ilê Axé Opô Afonjá, Coelho da Rocha, que acumula 130 anos de história

Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia

“Frei Tatá é incansável para o Candomblé. O que tiver que fazer, ele fará. Tenho certeza disso”, disse mãe Regina, que recebeu a visita do padre, em seu terreiro, na quarta-feira. “A Yá nos procurou, e a gente levou para o estado, que acolheu, reconhecendo o valor dessa casa, que é tão importante quanto uma igreja matriz”, afirmou o padre, que fez questão de agradecer ao governador Francisco Dornelles, que assinou o processo. A Constituição brasileira diz que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Existe até uma lei (7.716/89) que considera crime a intolerância religiosa e prevê pena de prisão.

O problema é que essa não é uma questão para a polícia resolver. “Não quero que ninguém vá preso. A coisa tem que acontecer do ponto de vista pedagógico. Não amamos aquilo que não conhecemos. Isso passa pelas escolas”, adverte o padre, preocupado com “o clima de ódio e indiferença”.

As religiões afro-brasileiras não têm um documento escrito, uma bíblia, onde poderiam estar registrados sua história e seus rituais. “A tradição vai sendo passada oralmente”, explica mãe Regina, que aprendeu os rituais com mãe Cantu, que por sua vez seguia mãe Agripina, pupila de mãe Aninha, fundadora do Axé. Ao longo de décadas, essas mulheres enfrentaram o preconceito, a ignorância e a brutalidade em nome da fé.

“Tanto que mãe Agripina dizia: vamos bater palmas baixinho para quem passasse na rua não ouvisse. Botavam as crianças na frente para brincar e fazer barulho para abafar o som dos atabaques lá atrás”, diz mãe Regina, comparando as épocas. “Talvez hoje esteja pior porque a gente sofre intolerância de todo o jeito. E antigamente era só a polícia”.

Rio 2016 pode ter atabaques

Autoridades federais inconformadas com a iniciativa do Comitê Organizador da Rio 2016 de deixar as religiões afro-brasileiras de fora do centro ecumênico da Vila Olímpica estão se mexendo para reverter a decisão. A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram a inserção das religiões de matriz africana no centro inter-religioso. O Comitê da Rio 2016 já explicou que o Comitê Olímpico Internacional (COI) é o responsável pelo centro e que priorizou as cinco religiões mais seguidas pelos atletas que participarão das competições com base em levantamento estatístico: cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo. Mesmo assim, o MPF deu ao Comitê prazo até amanhã para adotar a providência. Para o MPF, o critério demográfico adotado pelo Comitê Organizador é razoável, mas ignora o peso de outras religiões na cidade e no país que sediará os Jogos.

A desfeita às religiões afro acontece em plena Década Internacional de Afrodescendentes, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o período entre 2015 e 2024. Um dos objetivos é justamente promover maior conhecimento e respeito pelo patrimônio diversificado, a cultura e a contribuição de afrodescendentes para o desenvolvimento das sociedades. A cidade-sede dos Jogos conta com 392 terreiros, 196 deles na zona oeste, principal região das competições.

Fonte: O DIA

Livro conta a história de famoso terreiro de candomblé nagô do Brasil

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Livro mostra importância, respeito e reconhecimento que o cargo de equede tem dentro do candomblé

Livro mostra importância, respeito e reconhecimento que o cargo de equede tem dentro do candomblé Dadá Jaques/Editora Barabô

O Ecos da Terra – Gênero e Sustentabilidade da terça-feira (5) homenageia o terreiro mais famoso de candomblê nagô do Brasil, o Terreiro Casa Branca, na Bahia. No livro “Equede – A Mãe de Todos” somos apresentados a história de vida da mãe Sinha. Um testemunho de Gersonice Azevedo Brandão, a Equede Sinha, que como diz o título da obra é “a mãe de todos e todas” na casa.

“Eu acredito que a gente é escolhido para ser mãe dos filhos que a gente inicia. E a partir do momento que você é escolhida por um orixá para o cargo de equede, você é equede em qualquer lugar que você chega. O orixá da equede também escolhe a sua mãe. Existe uma hierarquia e é preciso respeitar o mais velho”, explica a mãe de santo.

Sobre o respeito e a importância ao candomblé, Mãe Sinha destaca os direitos e deveres da religião às prévias do lançamento do livro “Equede – A Mãe de Todos” no RJ – ainda sem data definida. “Nossa religião é cuidar da natureza e do meio ambiente. Eu costumo dizer que nós somos os primeiros ambientalistas do mundo pois essa é nossa função dentro do terreiro. Mas já sofremos muito preconceito sim”.

Fica a dica para uma leitura que ensina um pouco da cultura afro-brasileira e muito da história do país. Clique no player acima para ouvir a entrevista completa.

O Ecos da Terra – Gênero e Sustentabilidade vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 10h às 11h, na Rádio MEC AM do Rio de Janeiro – 800 kHz com apresentação de Denise Viola. Participe do programa ao vivo pelo telefone (21) 2117-6922 ou mande mensagem através do Whatsapp (21) 99864-0238

 

Fonte: EBC Rádios

Sacrifício animal: alimento sagrado para religiões afro

No Brasil, as religiões de matriz africana são perseguidas desde que chegaram às terras do pau-brasil, no início do século 16. Mais de 500 anos depois, apesar de na teoria a Constituição Brasileira garantir que o país é um Estado laico e resguardar a liberdade de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos pela Legislação Federal, ainda há muito chão a se conquistar na prática.

Visto como algo penoso pela sociedade, o sacrifício de animais, para adeptos do Candomblé e de outras religiões oriundas da África, representa uma troca de energia vital com os deuses e com a natureza.

De acordo com o último censo do IBGE, de 2010, menos de 1% da população brasileira pratica as religiões de matrizes africanas. O balanço detalha ainda que há cerca de 407 mil praticantes da umbanda, 167 mil do candomblé e cerca de 14 mil de outras religiões com diretrizes africanas.

Em uma pesquisa divulgada pelo Instituto Pew Research Center, com sede nos Estados Unidos, 5,2 bilhões de pessoas, 75% da população do mundo,] vivem em locais com restrições a crenças.

Para o Candomblé, o sacrifício animal e a alimentação dos adeptos são pilares essenciais na perpetuação da religião. “Nós comemos diferente porque fomos escravizados e obrigados a comer coisas que não comíamos na África. Descobrimos nesses alimentos temperos e valores diferenciados, mas que tinham um grande sabor”, explica Mãe Elza de Iemanjá, do terreiro Ilê Asé Egbé Awo, localizado em Salgadinho, Olinda.

Para ela, o preconceito e a desinformação são empecilhos para o entendimento da prática da imolação dos bichos. “Somos demonizados. Isso é uma grande hipocrisia. O ato de se alimentar é uma necessidade para se manter vivo. Cada tradição e cada país come de uma maneira diferente”, argumenta a religiosa.

Historicamente contestadas, as religiões afro­brasileiras têm de enfrentar combates também no campo político. Em 2015, entrou em votação o projeto de lei (PL 21/2015) da Deputada Estadual Regina Becker (PDT) do Rio Grande do Sul, que visa proibir o sacrifício de animais em rituais religiosos. Especialista no estudo das religiões afro­brasileiras, o doutorando Cauê Fraga, explica que é impossível que o culto aos orixás seja realizado sem o abate dos animais.

“O orixá não existe sem se alimentar. O sangue é o alimento mais forte, por excelência, o orixá só é assentado [quando se cria local para o culto ao orixá] através do sangue. E não existe a religião sem orixá, porque eu acredito que esses orixás não estão dispostos a deixar de comer”, diz o estudioso. Nas cerimônias de liturgia dos cultos, após alimentar o orixá, grande parte do animal sacrificado é consumida entre os presentes no culto.

Defensora animal critica “seitas africanas”

Para a a ativista da causa animal Goretti Queiroz, o sacrifício de animais em cultos religiosos deveria ser considerado crime. “Eu acho um absurdo que os animais sejam alvo de maus-tratos por parte dessas seitas africanas. Eu vejo isso como um crime. Outras religiões oferecem pra frutas e vegetais pra entidades, acho que tem que ser por esse caminho. Acredito na espiritualidade dos animais e acho inaceitável essas cerimônias, principalmente em locais públicos”, explicou.

Por outro lado, o pesquisador de religião e mídia Evandro Bonfim contesta a visão da ativista. “A argumentação das entidades de proteção aos animais geralmente são fundamentadas em um evolucionismo, taxando os rituais como obscurantistas, e um universalismo, como se as relações das pessoas com os animais – e os deuses – fossem as mesmas que encontramos no capitalismo ocidental”, salienta.

Ele assevera que a ideia de tornar crime o sacrifício de animais é puramente racista. “É importante perceber como velhas ideias entram novamente em pauta, cassando direitos como a liberdade religiosa de grupos secularmente perseguidos justamente por tentarem resistir ao apagamento de tudo que realizaram como povo, como é o caso das diversas etnias africanas que fazem parte da população brasileira”, diz Bonfim.

Para a Mãe Elza de Iemanjá, que é uma das organizadoras da Caminhada dos Terreiros de Pernambuco, tudo não passa de hipocrisia. “Algumas pessoas dizem que fazemos um massacre animal. As mesmas compram galinha passaram dias sendo maltratadas em granjas. Ou em grandes, vivem pedindo carnes mal passadas com o sangue escorrendo”, diz a religiosa.

Fonte: Tribuna da Bahia