Escola lança mapeamento que resgata manifestações da cultura afro-brasileira em Castelo do Piauí

Escola e comunidade de Castelo do Piauí se uniram na luta pela preservação da memória afro-brasileira. Através da pesquisa e do registro destas manifestações culturais foi produzido um mapeamento intitulado “O Resgate das Manifestações da Cultura Afro-brasileira do município de Castelo do Piauí”. O projeto foi desenvolvido na Unidade Escolar Vereador Waldermar Salles, localizada no bairro Rffsa, através do Programa Mais Cultura nas Escolas, uma ação do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. O lançamento da publicação aconteceu na última terça-feira (31/05) em espaço de eventos da cidade.

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Roteiros para o ensino de filosofia africana e afrodiaspórica

Filósofo, professor e pesquisador, Renato Noguera propõe, em livro coeditado pela FBN, mudanças no ensino da disciplina nas escolas
O filósofo, professor e pesquisador Renato Noguera.
O filósofo, professor e pesquisador Renato Noguera.

Desde que foi promulgada a Lei 10.639, que tornou obrigatória a inclusão dos conteúdos de História e Culturas Afro-Brasileira e Africana em todos os níveis de ensino no país, em 2003, muito se discute sobre a aplicação dela. O livro O ensino de filosofia e a lei 10.639, do professor Renato Noguera, produzido pela Pallas Editora em coedição com a Fundação Biblioteca Nacional, defende mudança de paradigmas: descolonizar o pensamento e desfazer a ideia de que a filosofia seja uma aventura exclusiva da cultura ocidental. O livro foi um dos ganhadores do Edital de Coedições para Autores Negros, da Biblioteca Nacional em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, do MinC.

O professor lembra que a produção africana existe desde a antiguidade e que, antes da Grécia, os egípcios formularam importantes teses filosóficas. “Além disso, nada mais empobrecedor na área de filosofia do que as respostas fáceis e dogmas”, acrescenta. Por isso, o autor sugere, no livro, revisitar a produção acadêmica de africanas e africanos em todo o mundo, de forma a combater o racismo epistêmico, observando o protagonismo e a autoridade de negras e negros em todas as áreas.

Uma das questões centrais do texto é justamente a invisibilidade da produção intelectual negra.  “Esse roteiro é benéfico para a democracia e ampliação da diversidade étnico-racial nos circuitos acadêmicos. Os centros de produção e difusão de conhecimento acadêmico ainda são muito eurocentrados. Algumas décadas atrás a história da Europa era considerada a narrativa da trajetória da humanidade”, esclarece Noguera.

O público-alvo esperado inicialmente constitui-se, sobretudo, de docentes de filosofia do ensino médio e de pessoas que trabalham com a pesquisa sobre o ensino de filosofia. Apesar de a publicação ter sido pensada principalmente para esses profissionais, Renato torce para que ele conquiste o interesse do público em geral. “O livro também provoca debates entre os que atuam na universidade e, eventualmente, entre o público que se depara com declarações que contrariam o senso comum a respeito da filosofia. Ideias como ‘os gregos não inventaram a filosofia’ podem gerar debates mais acalorados”, diz Renato.

O autor espera que a publicação ajude a desfazer ideias preconcebidas sobre a relação entre a filosofia e a cultura ocidental. “O meu convite, tanto às pessoas que têm criticado o livro como às que o têm elogiado, é que busquem as fontes que indico e que revejam a formação oficial na área. O que eu digo no livro é que não devemos ficar restritos a uma historiografia apenas”.

 

Fonte: Biblioteca Nacional

IGUALDADE RACIAL NAS UNIVERSIDADES – PARTE 1

Veja trechos da entrevista com Ronaldo Barros, o pró-reitor de políticas afirmativas e assuntos estudantis da UFRB sobre sua luta pela igualdade racial nas universidades

 

O pró-reitor de políticas afirmativas e assuntos estudantis da UFRB Ronaldo Barros | FOTO: Thuanne Maria

Formado em filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre e doutorando pela Unicamp, o professor Ronaldo Barros é oriundo do Movimento Negro Unificado (MNU) e atual pró-reitor de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Especialista em filosofia política, movimentos sociais e relações parciais, tem artigos e livros sobre políticas afirmativas. Lecionou durante dez anos na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e há cinco ministra aulas na UFRB. Prestes a completar 3 anos como pró-reitor, o professor luta por igualdade racial na academia desde os anos 1990, e considera a implantação da lei 12.711 uma grande vitória para os estudantes vindos do ensino público. Para ele, a lei de cotas ajuda a promover a igualdade racial.

Leia trechos da entrevista com Ronaldo Barros:

Você tem um grande envolvimento com a UFRB. Comente a sua relação com a universidade.

A UFRB é uma experiência extremamente exitosa desde a sua formação. Inicialmente ela existia aqui em Rio das Almas, mas havia um desejo de mais de cem anos que a região tivesse uma universidade federal, por isso houve uma intensa mobilização, com mais de 60 audiências públicas para solicitar a sua criação ao governo federal. Foi a luta do povo do recôncavo, 88%negro, que fez o projeto vingar. O recôncavo nunca foi um grande produtor agrícola, nem de riquezas minerais, mas produziu grandes talentos como Castro Alves, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Jorge Portugal e Roberto Mendes. Aqui é um berço de celebridades. Voltado à universidade, é a primeira do país a ter uma pró-reitoria de políticas afirmativas e assuntos estudantis. Oferece cerca de 27 cursos pré-universitários na região e tem 4 quilombos educacionais para garantir às comunidades sazonais e religiosas de matriz africana, historicamente excluídas, um espaço dentro da universidade.

Esse percentual de mais de 80% de alunos afrodescendentes se dá por conta dessa política?

Não só por isso, a característica da região é ter o povo como maior investimento, eles participam da universidade, mas também temos uma política muito intensa para a preparação do ingresso. Nós temos 84% de negros autodeclarados, número muito superior à média nacional quando se trata da presença de negros nas universidades. Ainda somos a mais inclusiva do ponto de vista social, porque 72% dos alunos são oriundos das classes C, D e E.

Como é a permanência do aluno cotista na universidade?

Nós temos uma política robusta de permanência. São 8 residências universitárias, restaurante e dois programas, um de permanência qualificada e outro de ações afirmativas integradas, que cuidam da permanência dos alunos. As federais tem uma taxa de evasão em tornos dos 35%, aqui, com essas assistências e bolsas, temos somente 2% de evasão. Até nos cursos que historicamente tem um grande número de evasão, como o de física, por exemplo, que fica em torno de 50% ou 60%, nós temos uma taxa menor, de 6%.

E como é o desempenho e a aprovação deles com relação aos alunos não cotistas?

Uma revista nacional publicou alguns livros sobre as ações afirmativas e o medo que os intelectuais de renome nacional tinham com a implantação das políticas afirmativas. Um deles era que os alunos teriam uma qualidade tão fraca que não suportariam os grandes debates acadêmicos e sairiam. Na UFRB, quando vamos comparar o cotista que tem algum tipo de suporte com o não cotista, o desempenho do primeiro grupo é 0,15% superior. Existe outro mito também que fica em torno das ações afirmativas, o de que a presença dos estudantes cotistas nas universidades estaduais gera conflitos raciais. Nós sabemos que existe o racismo, nós sabemos que existe o racismo institucional, mas nós temos programas para isso. O PCRI – Programa de Combate ao Racismo Institucional tem como objetivo evitar que práticas sociais frequentes no nosso país ocorram no interior da universidade.

Fonte: Raça Brasil

Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.

 

Fonte: Mundo Afro