Tour pela história do negro, do samba e do carnaval no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro sediou os Jogos Olímpicos. Foi uma oportunidade de apresentarmos para os povos de várias partes do mundo toda a diversidade cultural que a cidade abriga. O samba, um dos traços mais marcantes da cultura carioca, foi reverenciado. Um ritmo que desembarcou aqui vindo nos navios negreiros, trazidos pelos escravos cruelmente obrigados a deixarem a África e virem para a então capital do Brasil, o Rio de Janeiro. No período dos Jogos Olímpicos, o site CARNAVALESCO visitou a nossa “Pequena África”. Fomos convidados pelo Rio Media Center e adoramos mostrar esse lado tão importante do nosso Rio de Janeiro.

O passeio teve início em uma parte da Zona Portuária bastante esquecida: o Largo de São Francisco da Prainha, já que ele está localizado na antiga Prainha, que é o nome primitivo da Praça Mauá. O largo abriga casas antigas, porém mal preservadas, um contraste enorme com a Praça Mauá, a cerca de 300 metros dali.

De lá, o tour seguiu para a Pedra do Sal, ponto crucial para a história do samba no Rio de Janeiro. Em 1808, a família real se mudou para o Brasil e fez do Rio de Janeiro a nova capital e sede do governo português. Essa mudança movimentou muito o comércio. As mercadorias chegavam em navios que desembarcavam ali no porto. Dentre as mercadorias, escravos – já que eram assim tratados à época – e o sal.

Mas em 1831, um regulamento delineou três ancoradouros para os navios, sendo que os de carga tiveram que se direcionarem para o trecho entre a atual Praça Mauá e o Cais do Valongo. Ou seja, o caminho para mercadorias como o sal, muito valioso à época, ficou restrito. No caminho ainda havia uma enorme pedra, um obstáculo, para o transporte dessa mercadoria. A saída? Esculpir degraus na própria pedra.

Por se localizar numa região onde chegavam diariamente centenas de escravos, essa área se tornou um berço de manifestações africanas. Ali morava Tia Ciata, uma negra cozinheira e amiga dos policiais, que comiam da sua comida. Ela sedia a sua casa para manifestações culturais africanas, que eram feitas majoritariamente por estivadores – escravos, grande parte deles “defeituosos” – com alguma deficiência na perna, ou nos braços – e que se amontoavam no porto em busca de trabalho. Quando a guarda real vinha para acabar com o movimento, os policiais amigos avisavam Tia Ciata com antecedência. Dentre as manifestações, candomblé, capoeira e samba – com uma pronúncia mais próxima a ‘sémba’-, um ritmo trazido da África pelos negros.

Nessa época, não existia carnaval para essas pessoas, vistas como inferiores, pois era uma festa exclusiva da elite, da qual os pobres eram proibidos de participarem. Num movimento de resistência e ocupação, os chamados “sambistas” passaram a ir para as ruas e para as portas dos bailes de carnaval para fazerem suas manifestações culturais. Esse é o início do que se tornaria depois os blocos de rua do carnaval. Em algum momento, as duas festas se encontraram, os ritmos se misturaram, fazendo do samba uma marca da festa de carnaval.

Na sequência, passando pelos caminhos da escravidão e do samba, o tour foi para o Cais do Valongo, local de entrada de milhares de africanos de Angola, Congo e Moçambique e hoje conhecido como Cais da Imperatriz. Primeiro era chamado cais do Valongo e foi o berço de entrada da maioria dos escravos que vieram para o Rio. Quando a escravidão começou, o porto de Salvador, onde hoje está o Pelourinho, foi o primeiro a receber escravos. Com a vinda da família real para o Brasil, e o Rio sendo elevado à condição de capital, o porto se transferiu para a região portuária. Posteriormente ele foi coberto e refeito, para melhorar a aparência da região e ficar mais bonito para receber a futura imperatriz, Thereza Cristina, que chegaria ao Rio pelo porto para conhecer seu futuro marido, Dom Pedro II.

Também incluso no projeto de restauração da região à época da vinda da realeza, o tour subiu por uma escadaria marcada pela arte urbana da cidade, que dá no Jardim Suspenso do Valongo, uma construção paisagística datada de 1906, concebida como jardim romântico destinado aos passeios da sociedade da época.

Com a condição degradante a que eram submetidos os escravos nos navios, muitos chegavam mortos ou morriam assim que desembarcavam. Por isso, foi criado um cemitério para os chamados “pretos novos” – já que morriam novos -, na região próxima ao Morro do Castelo e igreja de Santa Luzia. Com a reclamação da elite local por causa do mal cheiro, o cemitério foi removido e trazido para a área onde os negros já se concentravam, na região da Gamboa. Durante anos, a localização ficou desconhecida, mas após a reforma de um casarão na região, foram achadas as ossadas. Esse foi o ponto final do tour, onde está atualmente o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que abriga inclusive algumas ossadas dos pretos novos (nome dado aos cativos recém-chegados ao Rio de Janeiro em meados do século XIX, em uma área hoje conhecida como Pequena África).

É um tour importante para a imprensa, os turistas, mas principalmente para os moradores da cidade, que desconhecem boa parte da história africana presente na história do Rio, o sofrimento dos negros e seu movimento de resistência que propiciou o advento do samba e do carnaval de rua, e que fez deles marcas da cultura carioca.

 

 

Fonte: Carnavalesco

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As marcas urbanas da violência colonial

Das várias formas de preconceito que continuamos a experimentar no século 21, um racismo muito mais perigoso do que o racismo institucional do passado é o racismo que está arraigado nas estruturas.

                                                         Ângela Davis

Cicatrizes da cidade

A raça, embora seja conceito biologicamente superado, continua operando como um critério de classificação dos sujeitos, a estruturar a distribuição do poder no sistema capitalista. Convertido no pós-abolição em construção social legitimadora da exploração da mão-de-obra dita “livre”, o racismo sobreviveu mesmo à derrocada das premissas eugênicas em voga no mundo “científico” da virada do século. Enquanto processo de produção de identidades políticas e contrastivas, atravessa a classe e o gênero, constituindo-se fator fundamental para compreender a dinâmica hierarquizada das relações inter-raciais.

Sob essa ótica, a história hegemônica da urbanização, de autoria da intelectualidade branca e predominantemente masculina, tem invisibilizado a participação negra e indígena na construção das cidades e na formação da nação brasileira, estabelecendo-se como estratégia de desumanização das pessoas e dos povos não brancos. Trata-se de máxima expressão da violência cognitiva: um voraz epistemicídio.

Enedina Alves Marques, a primeira mulher engenheira do Brasil, que trabalhou no conjunto de edificações do Centro Cívico de Curitiba. acervo do historiador Sandro Luis Fernandes.
Enedina Alves Marques, a primeira mulher engenheira do Brasil.

Esse apagamento, de um lado, alinhado à forma(ta)ção sectária do espaço urbano, de outro, deve ser lido como manifestação das mecânicas racistas da sociedade como um todo: não é apenas o território habitado que define a segregação nele experimentada, mas são as interações sociais, em diversos âmbitos da vida, que, orientadas pela branquitude normativa, objetivam manter o status quo, isto é, a mesma lógica colonial da Casa Grande/Senzala, traduzida no tecido urbano como Centralidades/Periferias.

A herança da escravidão não deixou cicatrizes apenas nos corpos e espíritos. Marcas da violência colonial estão impressas na carne das cidades brasileiras e de todo o Sul geopolítico. Nesse contexto, raça, classe e gênero incidem simultaneamente para impor o lugar sociopolítico da pessoa negra. As cidades exprimem os conflitos e desigualdades na produção do espaço, ao mesmo tempo em que os acirram e (re)produzem. Isso já era evidente na gênese oitocentista do urbanismo, cuja perspectiva higienista marginalizou populações estigmatizadas, sob a falsa neutralidade da técnica. Atuando como saber ou disciplina de esquadrinhamento e controle, o urbanismo colabora para aprofundar a segregação socioespacial, que é igualmente, étnico-racial. Flagrantemente eurocentrado, ele tem ignorado o impacto do racismo nas principais decisões geopolíticas num quadro de globalização conflitiva.

Em toda a América nos deparamos com os vestígios dramáticos desse tão presente passado. O cenário não difere nas cidades africanas, colonizadas massivamente nos séculos XIX e XX e gravemente feridas pelo urbanismo modernista, que sob os preceitos (e preconceitos) da ordem, separou física e simbolicamente brancos e não brancos. Assim, a institucionalização do apartheid, seria apenas a explicitação posterior de um regime urbano já vigente. A matriz funcionalista imperante no período andou de mãos dadas com a política colonial: as cidades africanas, construídas por mãos negras, não pertencem de fato a elas.

Lá e cá, do quilombo à favela, os nós de uma teia urbana racialmente hierarquizada denunciam perversas continuidades. Áreas dotadas da melhor infraestrutura e de maior capital político, são as casas-grandes contemporâneas. Enquanto isso, a precariedade das periferias evoca as senzalas de outrora. Não por acaso o hip-hop as vem designando “periafricanias”, pois, nelas a forte presença afrodescendente é escancarada. A atitude crítica do hip-hop desvenda, assim, uma territorialidade fragmentada, excludente e segregadora, questiona o lugar do/a negro/a na sociedade e transforma esses territórios em espaços de resistência e esperança: os quilombos do século XXI.

Patrimônio, memória e embranquecimento

As fronteiras simbólicas das cidades são acentuadas pelo quase total desconhecimento sobre as espacialidades africanas e afro-brasileiras. É chegada a hora de questionar a confecção da memória e o seu deliberado embranquecimento. Vergonhoso constatar o número pífio de bens arquitetônicos tombados nacionalmente em alusão à história dos/as negros/as e seus saberes. Vale lembrar que a emergência das políticas de preservação no país testemunhou um período em que se buscava construir o patrimônio cultural pautado pelo desejo de unicidade e homogeneidade da nação brasileira. Em plenos anos 1930, as diretrizes para sua institucionalização foram embasadas em valores da elite, consagrados na monumentalização da arquitetura colonial de estruturas de poder, não raro apaziguando e encobrindo seu lado opressor. Trata-se de uma memória parcial que se arroga universal, sob os moldes da razão metonímica da modernidade ocidental: eurocêntrica, androcêntrica, urbanocêntrica, etnocêntrica e heteronormativa.

A cristalização de uma única memória arquitetônica também acaba por perenizar sistemas de dominação social em favor de determinados grupos. Esse viés predominou até a inovadora Constituição de 1988, a qual incorporou referências culturais dos diversos grupos formadores da sociedade brasileira. Passadas três décadas, no entanto, essa transição discursiva não deu conta de reverter significativamente a paisagem embranquecida da historiografia oficial. No livro do tombo do IPHAN, permanecem exíguos os bens culturais indígenas e afro-brasileiras, tanto no concernente a conjuntos urbanos quanto a ícones arquitetônicos isolados. Dos quase mil bens materiais protegidos em nível federal, apenas 1% concerne à memória afrodescendente: 02 quilombos, 09 terreiros, 01 senzala e 01 museu da “magia-negra”, num total de irrisórios 13. Urge, portanto, a reinvenção do passado. Outros sentidos, técnicas, materiais e modos de habitar merecem ser registrados, valorizados e integrados, de fato, na memória coletiva nacional.

Construindo a cidadania negra

Vicente M. de Freitas foi um dos construtores habilidosos à frente da reforma da Igreja Matriz, atual Catedral, e um dos fundadores da Sociedade Operária Beneficente 13 de maio.
Vicente M. de Freitas

Acompanha o apagamento dos bens construídos um silêncio quase generalizado em torno de relevantes personalidades negras da construção civil brasileira. Os irmãos engenheiros André e Antônio Rebouças são um dos poucos exemplos a receber a devida atenção da historiografia recente. Sua contribuição, porém, extrapola em muito os arrojados empreendimentos ferroviários com que se fizeram populares: é de autoria deles o primeiro grande plano de saneamento do Rio de Janeiro, responsável por inaugurar o abastecimento de água domiciliar para os mais pobres da então capital nacional. Estudos similares foram encomendados para a Curitiba imperial, a ponto da fonte na Praça Zacarias ser-lhes dedicada.

Na capital paranaense, outros nomes são dignos de menção, como Vicente Moreira de Freitas, um dos mestres à frente da reforma da Igreja Matriz, atual catedral. Tendo conquistado sua liberdade em meados de 1880, o exímio construtor tinha também expressivo engajamento político. Foi membro da Irmandade do Rosário dos Pretos, importante espaço de associativismo e resistência da comunidade negra de Curitiba. No ano da abolição, participou da fundação da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, sendo responsável pela edificação de seu primeiro prédio. Sociedade esta que no dia hoje, aliás, faz aniversário.

Décadas mais tarde, a curitibana Enedina Alves Marques foi a primeira mulher a se diplomar em engenharia civil no Sul do país. E a primeira brasileira negra a integrar a categoria. Formada na Faculdade de Engenharia do Paraná, em 1945, a despeito do preconceito, consagrou-se profissionalmente na Secretaria de Estado de Viação e Obras. Sua produção e trajetória apenas agora começam a ser desvendadas. Militava na União Cívica Feminina e no Centro Feminino de Cultura. Ainda, colaborou ativamente com Octávio Ianni para o seu livro Metamorfoses do escravo (1962).

Os irmãos baianos André e Antonio Rebouças, dois negros alforriados que viveram em pleno período de Escravidão, cravaram seus nomes na história paranaense.

Os irmãos baianos André e Antonio Rebouças, dois negros alforriados que viveram em pleno período de Escravidão, cravaram seus nomes na história paranaense.

Reconhecer o protagonismo de mulheres e homens negras/os é inadiável para descolonizar a memória, chave para o empoderamento e a emancipação coletivos. Construtoras/es de cidades e de cidadania, suas histórias desconstroem a versão embranquecida de um 13 de maio que pretendeu, durante muito tempo, reiterar a subalternização e o apassivamento. Ao contrário de comemorativa, esta é uma data de luta contra as marcas da violência colonial arraigadas nas estruturas e nos territórios brasileiros. 

Publicado originalmente aqui.

Fonte: Buala

O Porto Maravilha é negro: debaixo da atração, há milhares de ossos de escravos

Desembarque de escravos no Cais do Valongo

Desembarque de escravos no Cais do Valongo

O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais à costura do passado do Rio de Janeiro. Para juntar os pedaços de tecido naquela área, é necessário, primeiramente, saber onde se pisa. Em 1° de março de 2011, as obras do projeto de renovação do território portuário deixaram de ser somente um conceito moderno, que olha para o futuro. A reportagem é da “Agência Pública”.

Naquele dia, por força de lei, uma equipe do Museu Nacional acompanhava as intervenções de drenagem no subsolo por escavadeiras das empreiteiras que constroem o arrojado empreendimento. Os arqueólogos já sabiam o que estava por vir à superfície da rua Barão de Tefé: o Cais do Valongo, onde centenas de milhares de escravos aportaram a partir do século 18, sobre o calçamento de pé de moleque –técnica construtiva do Brasil Colônia, com pedras arredondadas de rios acomodadas sobre a terra batida.

Os seixos irregulares estavam sob outra camada, mais à moda do Brasil Império, com conjuntos de blocos de granitos empilhados para receber, em 1843, a imperatriz Teresa Cristina, então futura esposa de dom Pedro 2º. Por cima desse revestimento, havia ainda o aterro planejado pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, que pôs um fim à memória do passado imperial. E escondeu também o originário holocausto brasileiro.

O Cais do Valongo foi o maior porto negreiro das Américas e, segundo o historiador Manolo Florentino, esteve em atividade nas últimas décadas do século 18 até final de 1830, ocupando uma área entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo. Nele desembarcaram mais de 700 mil escravos, vindos, sobretudo, do Congo e de Angola –pode-se dizer que o Valongo foi o ponto de convergência de 7% de todos os cerca de 10,7 milhões de escravos traficados às terras do Novo Mundo. Pelo menos mais 700 mil foram traficados para outros pontos do litoral do estado do Rio de Janeiro.

A capital, naquela época, era umas das cidades mais negras do mundo colonial. E o trecho mais agitado por essa migração compulsória era a rua do Valongo, atualmente rua Camerino. Sobre ela, como mencionado no livro “1808”, do jornalista Laurentino Gomes, a viajante inglesa Maria Graham, amiga da imperatriz Leopoldina, escreveu em seu diário:

“Vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se”.

Até as escavações, realizadas em 2011, o Cais do Valongo estava literalmente soterrado na memória dos cariocas. Por isso, a reportagem da “Pública” tentou averiguar como a cidade está lidando, cinco anos depois, com seu passado em meio ao processo de revitalização do porto, fundado num tempo em que pessoas se achavam superiores a outras a ponto de escravizá-las.

Para o pesquisador Rogério Jordão, cuja tese de doutorado discorreu sobre o próprio Cais do Valongo, a prefeitura se comporta de maneira paradoxal ao cuidar da memória da sofrida e pulsante Pequena África, como o artista e compositor Heitor dos Prazeres chamou aquela área no início do século 20. “É como se a prefeitura praticasse uma estranha dinâmica de lembrar esquecendo-se”, diz Jordão.

Para ilustrar sua provocação, o pesquisador aponta para o Museu de Arte do Rio e Museu do Amanhã –este construído com investimento de R$ 215 milhões– ambos administrados pela Fundação Roberto Marinho e considerados símbolos do Projeto Porto Maravilha. “Estes dois museus começaram a ser construídos no mesmo período [da redescoberta do Cais do Valongo] e já estão em pleno funcionamento, enquanto os milhares de objetos de matriz africana encontrados nas obras [de escavação] ainda não estão disponíveis ao público”. São peças de barro, seguis [uma espécie de conta], monjolos, búzios, louças quebradas, ocutá [pedra que atrai o Orixá], como descreve Jordão em sua tese.

A prefeitura chegou a anunciar um projeto cujo nome seria Laboratório Aberto de Arqueologia, a ser inaugurado até o fim de 2015, bem antes da Olimpíada… A ideia era que o público acompanhasse in loco o processo de recuperação das peças. Mas até agora o projeto não saiu do papel.

Hoje o destino desses achados arqueológicos é conhecido por poucos. Eles estão no Galpão da Gamboa, no sopé do morro da Providência e bem próximo à Cidade do Samba, no centro. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os objetos já foram todos catalogados e estão embalados em contêineres.

Os artefatos têm tanta importância que a arqueóloga Tânia Andrade Lima, que coordenou as escavações no início das obras do Porto Maravilha, convidou quatro religiosos de matriz africana para explicar seus diferentes significados. “Quando percebi que estávamos encontrando objetos pessoais e também objetos relacionados a práticas mágico-religiosas dos africanos escravizados, entendi que a comunidade negra deveria ser chamada a participar do trabalho. Sou eurodescendente, de formação católica, assim como grande parte da equipe de arqueólogos que trabalharam no Valongo, de tal forma que meu entendimento foi o de que esses objetos constituem uma herança que aquelas pessoas deixaram para seus descendentes, e nessa condição lhes pertencem em primeiro lugar. Eles não puderam deixar nada senão aquelas poucas peças. Foi o que restou deles”, disse a antropóloga à “Pública”.

Mãe Celina de Xangô, uma das convidadas, interpretou objetos pelo jogo de búzios através do qual consultava os Orixás. Hoje presidente do Centro Cultural Pequena África, ela questiona: “A coleta desses artigos foi feita em 2011 e cinco anos depois ninguém sabe como e quando eles ficarão expostos. Há um projeto do Museu da Diáspora Africana, mas sem haver nada de concreto”, diz a mãe de santo do Candomblé. “É com muita tristeza que tomo conhecimento hoje que objetos tão importantes à nossa história, muitos deles pertencentes a cultos de matriz africana, estão em sacos plásticos dentro de contêineres”, lamenta.

Para o historiador Manolo Florentino, deveria haver um trabalho multidisciplinar contínuo, e não apenas esforços pontuais, para desvendar os inúmeros segredos que aquela área guarda sobre a cultura negra. “Tudo que envolve o Valongo e a presença negra de uma forma geral deveria ser mais pesquisado. Esse trabalho tem um custo altíssimo e, talvez por isso, não tem sido abordado da maneira adequada tecnicamente”, avalia.

Como considera que tal quadro não mudará em médio prazo, ele tem dúvidas se vai dar certo a ambição da prefeitura e do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) de obter da Unesco o reconhecimento do Cais do Valongo, da Pedra do Sal e do Cemitério dos Pretos Novos como Patrimônio da Humanidade. Os dois órgãos formaram equipes para produzir um dossiê sobre a importância dos três ícones da cultura negra local.

O documento resultante faz uma defesa enfática do Cais do Valongo logo no primeiro parágrafo: “Merece ser considerado pela Unesco patrimônio da humanidade porque é o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece. Ele tem importância não apenas para a história brasileira e, portanto, para a nossa vida como nação, mas também para a história do mundo”. A ONU acolheu a candidatura no último dia 3 de março.

Florentino considera que a aspiração à vaga deveria suscitar mais investimentos para a cultura negra local. Membro do Trans-Atlantic Slave Trade Voyages,uma iniciativa internacional de coleta de dados sobre viagens de navios negreiros, com sede na Universidade Emory, na Geórgia, Estados Unidos, o historiador afirma que entre 1790 e 1830, cerca de 700 mil escravos desembarcaram no Cais do Valongo, fazendo dele o maior porto negreiro das Américas.

Até 1830, ano da proibição do tráfico negreiro, apenas a cidade do Rio de Janeiro –no porto antigo, no Largo de Santa Rita, e depois no Cais do Valongo– e o Cabo de Búzios foram ponto de desembarque no Estado.

Após a proibição, o número de escravos desembarcados na capital cai vertiginosamente, ao mesmo tempo que um intenso desembarque começa a ocorrer nas faixas litorâneas, como Ponta Negra, Ilha Grande, Mangaratiba e Paraty. Alguns navios mais ousados optavam pela enseada de Botafogo e a praia de Copacabana, mas em quantidade menos expressiva.

Em 1856, houve a última viagem registrada antes da abolição da escravatura, 22 anos depois. Na década de maior movimento, entre 1821 e 1830, o Cais do Valongo recebeu mais de 335 mil escravos, uma média de 33,5 mil a cada ano.

O circuito da prefeitura

Redescoberto, o Cais do Valongo traz os navios negreiros de volta ao imaginário do carioca. As águas da baía de Guanabara não batem mais àquela altura da rua Barão de Tefé, por obra do aterro feito na administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906). No último ano de seu mandato, Passos inaugurou, na parte mais baixa do morro da Conceição, o Jardim Suspenso do Valongo, a cerca de cem metros do antigo cais. Seguiu à risca o modelo de transformação adotado em Paris no fim do século 19, excluindo as marcas do passado.

Surpreendentemente, o Jardim Suspenso do Valongo integra o denominado Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que, criado em 2012 pela prefeitura, reúne apenas seis pontos de interesse. “O Jardim foi algo feito sob inspiração europeia justamente para ajudar a ocultar a importância do Cais do Valongo. Isso deveria ser explicado ao visitante”, afirma a historiadora Martha Abreu. Não há nenhuma menção ao fato de que, no espaço do jardim até 1831, funcionaram armazéns de venda de escravos e, posteriormente, café e outros produtos.

Bruno Bartholini/Pública

Cais do Valongo após as obras

O próprio Cais do Valongo integra, é claro, o circuito, completado pelo Cemitério dos Pretos Novos, pela Pedra do Sal, pelo Centro Cultural José Bonifácio e pelo Largo do Depósito. O deslize na montagem do circuito é um indício de que o poder público não vem cumprindo sua missão de animar o debate sobre a herança africana no porto. Placas já mal conservadas trazem um texto superficial sobre a fenda aberta no meio da calçada com as diferentes camadas do Cais do Valongo e Cais da Imperatriz.

Para Damião Braga, da Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a própria obra passou por cima de outros ancoradouros de navios negreiros. “Vi com meus olhos ancoradouros sendo cobertos na rua Coelho e Castro, próximo à praça Mauá”, disse ele à “Pública”.

 

Fonte: UOL

#Éverdade: foto de criança negra em ‘zoológico humano’ foi feita na Bélgica em 1958

Criança negra desfilando na Bélgica, em 1958

A foto de uma criança negra desfilando diante de uma multidão está circulando nas redes sociais, com textos que explicam que se trata de um “Zoológico Humano”. Infelizmente, a foto e o contexto são reais, e a prática deplorável era comum na Europa e América do Norte até meados do século XX.

Na última sexta-feira, a atriz Zezé Motta publicou a foto em seu perfil no Facebook com a seguinte legenda: “Há menos de 60 anos, existiam zoológicos como este, onde negros, geralmente africanos, eram expostos para as crianças brancas. Foto de um zoológico humano, tirada em 1958 na Bélgica. Chocada com isso, será verdade?”. A publicação já tem mais de 19 mil compartilhamentos e 10 mil reações.

De acordo com o site Museudeimagens.com.br, os “Zoológicos Humanos” também eram conhecidos como “Vilas de negros” ou “Exposições etnológicas”. Na última exposição, onde teria sido tirada a foto em questão, havia uma jaula com uma “autêntica família de um vilarejo do Congo”, segundo os expositores.
Fonte: Extra