Livro mostra a influência da religião vodum

  • Os voduns Lepon e Arronoviçavá da Casa das Minas com bengala e lençol em São Luís - Foto: Museu Afro-Digital | Divulgação

    Os voduns Lepon e Arronoviçavá da Casa das Minas com bengala e lençol em São Luís

Os impactos das práticas religiosas na economia, política e sociedade na Costa da Mina (região dominada pelo antigo reino do Daomé, atual República do Benin), entre os séculos 17 e 19, e o reflexo dessas imbricações na formação do candomblé na Bahia e do Tambor de Mina maranhense integram O Rei, O Pai e A Morte – A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidental.

A obra do doutor em antropologia e professor da Ufba Luis Nicolau Parés será lançada, nesta terça-feira, 16, às 18h, no Espaço Cultural Barroquinha, com bate-papo com o autor.

“A religião influencia tudo. Da vida doméstica à economia”, afirma o autor. Do total de uma década de produção, boa parte do livro foi escrita em 2010 e 2011 durante o pós-doutorado National Humanities Center (EUA). E, segundo o autor, o resultado do estudo pode ser dividido em duas partes ligadas pela estrutura religiosa de culto aos voduns (termo mais habitual para designar as divindades africanas na Bahia do século 19).

A primeira é centrada na África, compreendendo os reinos de Uidá, Aladá e Daomé. “O objetivo é entender como as práticas religiosas se relacionam com a organização política centralizada na figura do rei, com a economia nessa época intensa do tráfico de escravos, com a estrutura de parentesco com o culto aos ancestrais”, explica Parés.

Por outro lado, as práticas religiosas também sofrem as alterações nos cenários político econômico e outros. “É um sistema dinâmico e em constante transformação. É flexível e se apropria de novos ritos e elementos. Os deuses cruzam as fronteiras étnicas e linguísticas. E esse fenômeno da ressignificação acontece aqui e lá”, afirma o pesquisador, apontando a postura como ferramenta de resistência. “Se apropriar de outros elementos é uma forma de controlar o novo, garantir a permanência e não sumir”.

Repercussão

Foi da região da Costa da Mina de onde saiu a maioria dos escravos que chegaram ao Brasil. A repercussão desses costumes no outro lado do Atlântico, especialmente na Bahia e no Maranhão, é o foco da segunda parte da obra. Na análise de como essa bagagem chegou por aqui, o autor foge da narração de uma África idealizada. “A base são as ideias práticas, valores, desdobramentos no Brasil no ritual praticado e os elementos identificados com o memorial do passado na dinâmica histórica dessa prática”, disse.

Como exemplo, o autor cita o uso de bengala como elemento ritual comum entre a Casa das Minas e o culto Nesuhue daomeano. “A ideia era trazer mais precisão e provas empíricas para essa relação com a África e apontar esses hábitos como espaço de historicidade e de transmissão não apenas de significados, mas de atitudes e predisposições emotivas”.

Os cultos voduns já são objetos de estudo do pesquisador, que é autor de A Formação do Candomblé – História e ritual da nação jeje na Bahia (Unicamp, 2006), que trata sobre a influência dos povos da região onde hoje está o Benim para a constituição do candomblé baiano.

A narração do novo livro tem, entre outras fontes, diários de viajantes europeus, correspondências, relatórios de agentes comerciais, objetos de época e pesquisas arqueológicas. Os arquivos explorados estão localizados em Porto Novo (capital do Benin), na Bahia e em países como Portugal, Inglaterra e França.
Os relatos da tradição oral sobre práticas religiosas também são fontes históricas. São contos, representações, língua, mitos e memórias que auxiliam no entendimento ou interpretação dos relatos, estabelecendo o diálogo entre a história e a antropologia.

A partir do levantamento dos documentos, foi a vez da comparação do material. “Nessa fase identificamos erros, as invenções e encaramos o desafio de intuir desse material a voz do africano”, contou o pesquisador.

Há também outras conexões estabelecidas pelos laços religiosos no contexto histórico do livro que deixam legado para os dias atuais. “Mesmo com o impacto do tráfico, da violência e das desigualdades, a tolerância é presente. É mais uma lição que o passado africano nos ensina, como é possível conviver em meio às diferenças. Cada grupo tinha sua forma de realizar seu culto e isso era respeitado por todos”.

 

Fonte: A Tarde Online

Entrevista com Goli Guerreiro

Goli Guerreiro é uma antropóloga e escritora baiana. Lançou recentemente o livro Alzira está Morta sobre as comunidades negras no Atlântico no qual conta as aventuras de uma mulher corajosa e aventureira cuja vida percorre o século XX e as transformações que ocorriam em vários pontos do mundo negro: Bahia, África Ocidental, Europa, Estados Unidos da América e volta.

As práticas culturais e todos os seus cruzamentos, a escrita, a tecelagem, a fotografia e as várias camadas de tradições interessam à antropóloga, que passou recentemente por Lisboa, onde esta entrevista foi realizada, para apresentar Alzira está Morta – Ficção histórica no mundo negro do Atlântico. O livro resulta de um pós-doutoramento em Letras e valeu-lhe o Selo Literário João Ubaldo Ribeiro, prêmio instituído pela Prefeitura de Salvador da Bahia.

Antes escrevera Terceira diáspora – o porto da Bahia, A trama dos tambores – a cena afro-pop de Salvador e Terror e aventura – tráfico de africanos e cotidiano na Bahia. Editora do blog Terceira Diáspora sobre os repertórios culturais do mundo negro, é também curadora do acervo fotográfico de Arlete Soares, fundadora da Editora Corrupio, editora da Bahia que desde 1979 publica livros sobre culturas negras e diáspora africana.

Como surgiu a ideia de fazer um romance histórico com a abrangente diáspora negra como fundo?

Inicialmente não tinha a intenção de compor essa trilogia que aborda as trocas culturais no mundo Atlântico. Mas, dois anos após o lançamento do Terceira Diáspora – o porto da Bahia, que mapeia a produção cultural negra de Salvador no século XXI, a Editora Corrupio me convidou para escrever um livro sobre o tráfico de africanos chamado Terror e Aventura, dando assim origem a um livro sobre a primeira diáspora. Tendo um livro sobre a terceira diáspora, que aborda as trocas culturais virtuais entre mundos negros desencadeadas pela internet, e um livro sobre a primeira diáspora, sobre a escravidão, havia um caminho claro a seguir: escrever um livro sobre a segunda diáspora. Como os dois primeiros livros vinham em narrativas diferenciadas (o Terceira Diáspora é um blog impresso e Terror e Aventura um ensaio histórico-antropológico), me lancei na aventura de escrever sobre a segunda diáspora em forma de romance.

O deslocamento negro, muitas vezes forçado, foi fundamental para se criar uma criatividade imensa em várias frentes. Como se jogam esses  mundos dispersos do Atlântico negro em termos de conhecimento mútuo?

As trocas criativas culturais no mundo atlântico não são lineares, há partes muitos desconhecidas. Por exemplo, o Brasil não conhece muito o Caribe. Se deixarmos de parte a salsa, em Cuba, ou o reggae na Jamaica, é praticamente desconhecida a produção cultural dos 32 países do Caribe no Brasil. Já em Inglaterra não tanto. Depende dos contextos, não há generalização possível sobre as artes do Atlântico nas suas várias dimensões criativas. Há áreas do Atlântico que pouco conhecem do Brasil já o que é produzido nos EUA é muito mais veiculado no mundo inteiro. Também dependerá muito do acesso à internet dessas comunidades negras.

'Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher como essa interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino.'

‘Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher como essa interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino.’

Por que quer Alzira (1911-88) traçar este percurso e vive tamanha curiosidade?

Na época em que Alzira nasce, 1911, as relações entre a Bahia e Nigéria eram bastante intensas. Alzira faz a vontade da mãe ao ir para a Nigéria porque a mãe gostaria de ter retornado, como africanos e filhos de africanos retornaram e fizeram as comunidades agudas na África Ocidental. Desde o início do século XIX que essas comunidades de retornados começam a formar-se em Lagos, na Nigéria, porque lá o tráfico de africanos era proibido, e assim era um porto seguro para os negros que desejavam retornar e não corriam o risco de ser recapturados e vendidos. Alzira era filha de um babalaô [sacerdotes exclusivos de Orunmilá-Ifá do culto de Ifá na religião ioruba] que havia vivido vários anos em Lagos. O mundo dela era preenchido por essas memórias da Nigéria, da tradição dos orixás e pelo desejo da sua mãe de regressar. Aliado a isso, teve uma educação diferenciada dos filhos dos operários da Fábrica Luiz Tarquínio com um modelo de educação muito sofisticado, onde havia pintura, desenho, línguas estrangeiras. Então, essa educação ampla permitiu que Alzira se lançasse jovem na aventura de atravessar o Atlântico para realizar o desejo da sua mãe.

Enquanto personagem feminina, apesar de verosímil, não é muito “típica” na sua época: nada deve a nenhum homem, estuda e viaja à vontade, é dona do seu destino. No romance cruzamos com outras mulheres incríveis. Quis ter um posicionamento feminista neste romance?

Alzira teve o apoio da família, uma educação esmerada e era mulher corajosa filha de Euá, uma deusa que se alimenta de si mesma, patrona das artes, de temperamento livre. Uma mulher assim interessa-se por outras mulheres corajosas e donas do seu destino. Vai-se encontrar com mulheres que ficaram apagadas na História, como Paulete Nardal que foi fundamental para o movimento da negritude, a primeira jornalista negra em Paris e a estudar na Sorbonne, e que permitiu o encontro dos líderes mais conhecidos em saraus literários. Vai ler a escritora Zora Neale Hurston, única mulher do Harlem Renaissanse, primeira antropóloga afro-americana, a caribenha Claudia Jones, que inventou o Carnaval de Londres, mantinha jornais anti-imperialistas, foi expulsa dos EUA por envolvimento com o Partido Comunista. Alzira representa cada uma delas, não por ser típica mas por ser uma mulher de excepção merece uma biografia. Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem.

'Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem'

‘Não faria sentido inventar uma personagem que não tivesse algo distintivo da maioria das mulheres cujo destino é traçado por homens para que elas cumprissem’

Por que escolheu esta época para situar a sua narrativa?

A escolha da época diz respeito à disposição da trilogia. Apesar de não ter essa intenção original, depois de escrever sobre a primeira diáspora e a segunda que já era a história moderna, restava-me escrever sobre uma época em que a escravatura já tinha acabado, e sobre os deslocamentos “voluntários” para encontrar parentes e melhores condições de vida. Estes deslocamentos reconfiguram a paisagem litoral do Atlântico, as cidades atlânticas, sobretudo ao longo do século XX. A terceira diáspora é só depois de 1990, quando a internet se difunde.

A islamização, tal como a ocidentalização, estão em expansão em África. Como resistiram as culturas originais nestes países?

A religião não é um dos fortes do meu romance, embora não esteja de fora, mas não é central. Abordo a Renascença Lagosiana como um movimento cultural de confronto com o colonialismo inglês que se ampara nos fundamentos do reino de Oyó, um exemplo de como as culturas originárias procuraram resistir ao colonialismo, seria difícil abordar os movimentos perante a islamização e cristianização dos povos africanos. Posso apenas dizer que estes processos avançam no continente africano, e que a islamização chegou muito antes de Alzira.

Quais eram as principais marcas das cidades na Nigéria, Daomé, Togo, Camarões, Senegal no início do século, em plena época colonial?

Houve uma clara intenção de caracterizar os ambientes das cidades onde Alzira mora, todas muito distintas. Centro-me na África Ocidental, nas cidades dominadas pelo colonialismo inglês e francês e nas diferentes etnias que habitavam esses espaços que os europeus colonizaram. Assim, exige um mergulho na história desses países criados pelo Ocidente no território africano. É preciso ler para capturar as nuances.

“Não é um romance de protesto”

Em que momentos a Alzira mais se indigna com as injustiças que observa?

Alzira está morta não é um romance de protesto, procura realçar repertórios culturais pouco conhecidos. O caminhar dela tem confrontos com os ingleses, colonizadores, mas tudo isso é sentido na trajectória da personagem, na leitura do romance, mas não levanta bandeiras. É preciso conhecer as nuances, as questões ligadas ao poder colonial. Além disso, Alzira é estrangeira, volta à Bahia e desloca-se quando bem quer, é representante de uma elite comercial, não está atada a nenhum domínio como as comunidades locais, tem mais leveza do que os cidadãos locais.

'O ‘furacão africano’ foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem'

‘O ‘furacão africano’ foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem’

O movimento cultural tinha já sementes do que viria a ser a resistência anti-imperialista?

O movimento cultural da Renascença Lagosiana revisitava os fundamentos da cultura ioruba, insistia no uso dos nomes iorubanos, havia tendência para abandonar os nomes ingleses, incitava o uso de roupas tradicionais, para manter a sua religiosidade original, a tradição dos orixás. São formas de confronto ao colonialismo inglês e vai-se repercutir depois da Segunda Guerra, quando a luta independentista ganha fôlego vigoroso, conhecido como o período do “furacão africano”.

Muitos dos líderes das independências foram educados nas metrópoles europeias. Como se fazia este contraponto?

As comunidades negras nas metrópoles europeias eram laboratórios anti-imperialistas. No ambiente cosmopolita, a criatividade aflorava, uma troca de informação grande e de estratégias de confronto ao colonialismo e a formação educacional permitiam saber o que estava a acontecer noutras partes do Ocidente. Assim, esses africanos voltavam revitalizados para buscar transformação nos seus países, designadamente entre 1945 e 1960, quando o “furacão africano” foi alimentado pela presença destes africanos que voltam dispostos a assumir o poder nas suas comunidades de origem.

O Harlem Renaissance nova-iorquino está em comunicação com o mundo negro de Paris e Londres. Existia um jogo de espelhos nas urgências das questões negras em vários lugares?

Sim, há uma conexão explícita entre o Harlem Renaissance em Nova Iorque, movimento de literatura negra, e o movimento negro em Paris nos anos 1930. Muitos americanos frequentavam Paris à procura de um ambiente não segregado e mantiveram contacto, por exemplo, através dos saraus literários do apartamento de Paulete Nardal. Escritores do Harlem Renaissance encontravam-se com pensadores do movimento negritude da França. Mas havia tendências diferentes frente às urgências do mundo negro: os americanos apontavam mais para a experiência particular do negro na diáspora enquanto os franceses se importavam mais com a unidade africana e as independências, o que teve desdobramentos até hoje.

Da Bahia para o mundo negro e seus grandes momentos de afirmação. Que traz Alzira das trocas culturais que observou no seu regresso a casa?

Todo o universo de Alzira está marcado pelos repertórios culturais que descortina na África, assim como pela discussão ideológica do movimento negritude, tudo o que foi vivido está impresso na sua maneira de ver o mundo, na sua luta subtil em prole das comunidades negras no Atlântico. A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento acadêmico e através da arte.

'A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento académico e através da arte'

‘A vida de Alzira é esse mosaico de referências que vai sendo montado nos seus 80 anos, expressando-o através do pensamento acadêmico e através da arte’

Evolução da fotografia africana

A fotografia africana teve o seu boom nesta altura. Fale um pouco de como aconteceu e de alguns nomes.

Ao longo da narrativa é possível conhecer a evolução da estética da fotografia africana.  A fotografia chega a África apenas 20 anos depois de ter sido inventada na França, primeiramente nas cidades portuárias da África Ocidental, Freetown na Serra Leoa, Acra no Gana, Lagos na Nigéria, Lomé no Togo, Saint Louis no Senegal. Havia um trânsito intenso entre as cidades portuárias, onde fotógrafos se estabelecem como ambulantes e também em estúdios. Os primeiros fotógrafos a actuar na África eram brancos, mas logo passaram a ser assessorados por jovens negros que se tornaram os primeiros fotógrafos africanos. Na década de 1870 a fotografia já tinha ganho a costa oeste africana começando pela Serra Leoa. A primeira foto africana preservada, cuja autoria é desconhecida, foi feita em Freetown em 1870. Trata-se de um cartão-de-visita [fotografias de cerca de 9,5 x 6 cm montadas sobre um cartão rígido de cerca de 10 x 6,5 cm que eram trocadas entre amigos e conhecidos, foi inventada por André Adolphe-Eugène Disdéri em 1854].

No caso da fotografia, temos personagens reais com os quais Alzira interage ou vem a conhecer o acervo. Alex Acolatse teria feito o primeiro retrato de Alzira, também um cartão-de-visita, que se tornou uma febre entre as elites africanas, no início do século 20. O cartão era a própria imagem da pessoa. Em viagens ao Senegal, Alzira torna-se amiga do fotógrafo Mix Gueye que a inicia na fotografia e lhe apresenta diversos outros fotógrafos senegaleses, como Meissa Gaye e Mama Casset que criaram uma estética da fotografia senegalesa. Posar, tendo como fundo fotos de ancestrais, poses diagonais, expressividade das mãos e do olhar são marcas dessa estética. Ela conhece também no Senegal a combinação da fotografia com a pintura sob vidro. Alzira assiste na popularização da fotografia na África a partir dos 1940. Foi sempre uma fotógrafa amadora. Nos anos 1960, na Bahia, toma conhecimento do que está acontecendo no mundo da fotografia no Gana, através dos estudantes africanos que chegam à Bahia. De longe, acompanha a evolução dos fundos decorativos, que inicialmente mostravam paisagens europeias e como isso vai dando lugar a cenários das grandes metrópoles africanas. Postos de gasolina, aeroportos, conjuntos habitacionais, urbanidade. Nos Estados Unidos acompanha o que está acontecendo no Mali. O sucesso do estúdio de Malick Sidibé e a própria fotografia afro-americana. A Renascença do Harlem, seu tema de estudo, foi intensamente registada pelo fotógrafo James Van Der Zee, uma espécie de cronista do Harlem. Quando volta à Bahia já nos anos 1970, Alzira conhece os primeiros fotógrafos negros de Salvador.

Também aborda a tecelagem e a história dos panos para consumo em África, cuja percepção sobre a autenticidade está cheia de equívocos.

Alzira vai comercializar os tecidos Adire de algodão. Trata-se de um tecido tradicional tingido em índigo natural. Entre os iorubas é uma prática exclusivamente feminina e 17 espécies de índigo são nativas da Nigéria. Ela vai conhecer as técnicas de tintura e os rituais religiosos em torno dessas práticas. Nos mercados vai conhecer a estamparia como expressão de visões de mundo, como na tecelagem senufo. Nos mercados do Daomé conhece os patchworks, que contam a história da realeza daomeana. Nos anos 1930, ao chegar na Nigéria, Alzira presencia a expansão do tecido wax – produção europeia, inspirada no Batik da Indonésia, para consumo em mercados africanos. O uso do tecido wax se torna signo de distinção social e disputa espaço com os tradicionais adires.

Também as escritas africanas lhe interessam. Estamos perante a denúncia da eclosão, perda de registos e de falas de grande riqueza e diversidade linguística?

Em cinco mil anos de história, 90 sistemas de escrita foram inventados, sendo 40 deles da África Subsariana. Cabe à África do Norte a invenção de 50 sistemas de escrita, os hieróglifos e os árabes modificados chamados ajami. Os colonizadores ou proibiram o uso das escritas locais ou impuseram grandes obstáculos à sua utilização a fim de garantir e afirmar a imagem de uma África selvagem a ser civilizada pelo Ocidente.

O seu interesse iconográfico viaja até ao desenho de roupa. O que é a marca Almerinda e como funciona a parceria com a Katuka Africanidades?

'Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançámos a Colecção Alfabeto Infinito'‘Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançamos a Coleção Alfabeto Infinito’O livro trouxe-me esta surpresa que revela a força dessa personagem inventada. No fim de sua vida, nos anos 1980, Alzira criou algumas coleções de moda inspiradas nesses repertórios. E, no longo tempo de espera pela publicação do romance, uma das coleções de Alzira sobre escritas africanas saltou da ficção para a realidade. Em Outubro do ano passado, criei a marca Almerinda e, em parceria com a Katuka Africanidades, lançamos a Coleção Alfabeto Infinito. Uma seleção de nove escritas criadas no Magrebe e na África Ocidental deu origem a roupas e jóias. As peças femininas e masculinas ganharam os nomes das escritas que inspiraram as estampas e a estória de cada escrita e sua forma original. É uma alegria ver as pessoas portando no corpo esse conhecimento que foi apagado da história da África pelos colonizadores europeus. Há também uma escrita banto, criada na África Austral, muito interessante que eu espero ter oportunidade de conhecer melhor.

O romance tem uma grande pesquisa histórica e de ambientes e figuras reais, deu-lhe prazer emergir neste universo de escrita?

Para criar uma personagem verosímil era preciso ter em mente pessoas reais. Mergulhar nessas biografias deu-me imenso prazer, foi aí que me apaixonei pela leitura de biografias. Conhecendo a vida dessas figuras foi possível criar uma personagem não típica mas convincente.

O conceito de “Terceira Diáspora”

Com esta obra encerra a sua trilogia da Terceira Diáspora, “deslocamento virtual de signos provocado pelo circuito de comunicação da diáspora negra”. Como concebeu este conceito e como o tem transmitido?

As trocas culturais começaram a manifestar-se desde o século XVI nas grandes navegações. E as formas dessas trocas se processarem foram-se alterando. Na primeira diáspora, aquando do tráfico de africanos, os negros chegavam despidos de qualquer bem material. Traziam o seu imaginário, então havia um tipo de troca a partir dessa realidade a ser reconstruída no Ocidente. Na segunda diáspora já era diferente, as pessoas já se deslocam com as suas malas, roupas, livros, fotografias, discos. Havia uma materialidade das trocas culturais entre as comunidades negras. Na terceira diáspora elas se deslocam virtualmente, impactando a produção cultural nas comunidades em outros cantos do Atlântico e em outros campos de criação. Então a ideia era escrever sobre esse assunto que na realidade precisava de ser ainda nomeado – e assim foi com a Terceira Diáspora –uma vontade de reactualizar esse processo de trocas ininterruptas culturais entre comunidades negras do Atlântico.

Porque se interessou pela forma de escrita de blog, fragmentado e composto por tanto hipertexto?

A forma da escrita de blog é justamente a forma privilegiada de transmitir o conceito de Terceira Diáspora. As trocas virtuais só nascem no mundo com internet, os sites têm a estética e a estrutura ideal para veicular essa troca de informação do século XXI, hiperlinkar as informações em outros contextos e linguagens de vários universos criativos.

Quando viajou até Luanda o que achou desta Angola contemporânea?

'Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.'‘Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.’São justamente as cidades atlânticas africanas que me interessam, as grandes cidades me fascinam. Luanda foi uma experiência maravilhosa, tive oportunidade de ir em 2010 durante a 2ª Trienal de Luanda e assim conviver com a comunidade interessada em arte contemporânea, artistas que estavam participando nesse evento e de lançar o meu livro Terceira Diáspora em Luanda. Foi uma sensação muito engraçada porque parecia que saíra de Salvador, atravessava uma rua e chegava a Luanda. Já sabia literária e intelectualmente da semelhança entre ambas as cidades, temos muitas canções na música tradicional e na música popular atual que falam de Luanda. É uma cidade irmã para nós de São Salvador. Espero poder voltar muitas vezes. Também a estadia em Lisboa no lançamento da Terceira Diáspora e do Alzira está Morta, me permitiu conviver com mitos angolanos, com Mário Almeida, que conheci em Luanda e pude agora reencontrar no seu espaço Espelho d’Água. Lisboa é um pouco Luanda com uma comunidade angolana imensa e traz esse envolvimento e pertença com o mundo angolano.

O Brasil está verdadeiramente interessado em criar pontes com África?  O que tem mudado nos últimos anos quanto ao conhecimento e relações com o continente?

Desde o governo Lula o Brasil retomou as suas relações com o continente africano, continuado no governo Dilma. Com este impeachment não sei o que vai ser prejudicado. Para dar um exemplo de como essas coisas se processam, menciono o edital de mobilidade artística da Secretaria da Cultura do governo da Bahia que me permitiu vir a Lisboa apresentar um livro que tem no centro essas questões do movimento negro. Nós, baianos e brasileiros, temos curiosidade de conhecer África de outro ponto de vista, mais próximo, menos trabalhado pelas artimanhas do poder ocidental que insistem em projectar uma imagem de fome, guerra, selvagem, pobreza. Nós queremos reverter esse quadro que foi construído, queremos conhecer as práticas culturais e políticas africanas para que possam inspirar e propor caminhos para nós brasileiros.

Publicado originalmente no Rede Angola, a 09/05/2016

Fonte: Buala

MACHADO DE ASSIS E O FIM DA ESCRAVIDÃO

Veja a participação de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros no fim da escravidão
O escritor brasileiro Machado de Assis | FOTO: Creative Commons

Em dezembro de 1861, pelas colunas do jornal Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis se referia assim ao amigo Paulo Brito, que acabava de morrer: “…foi um exemplo raro e bom. Tinha fé nas crenças políticas, acreditava sinceramente nos resultados da aplicação delas.” E, mais adiante, afirmava, com a certeza de quem conhecia bem o morto: “… tolerante, não fazia injustiça aos adversários; sincero, nunca transigiu com eles.” Francisco de Paula Brito (1809-1961) foi poeta, contista, dramaturgo, tradutor, mas passou à história como o primeiro grande editor brasileiro, responsável, inclusive, em sua tipografia, pela publicação dos primeiros jornais do país dedicados às lutas contra opreconceito racial, que foram O Mulato e O Homem de Cor, que ocolocaram como precursor da imprensa negra.

A simbologia do legado desse homem de origem negra é que fomenta no jovem Machado de Assis, seu aprendiz de tipógrafo, o seu principal ofício: o gosto pela escrita e o da defesa de questões sociais, como a escravidão e a república. Como seguidor de Paula Brito, defensor intransigente e acolhedor de novas e progressistas ideias, Machado de Assis passa a encarar o mundo com outros olhos, levando para sua vasta obra temas sobre a escravidão e a luta política que resultaria com a derrocada do regime monárquico brasileiro. E, logo ele, vindo da camada pobre da população, nascido no Morro do Livramento, filho de Francisco José de Assis, um mulato pintor de paredes, e Maria Leopoldina da Câmara Machado, lavadeira portuguesa dos Açores, Portugal, ambos agregados de Maria José de Mendonça BarrosoPereira, viúva do senador Bento Barroso Pereira, que abriga os pais de Machado de Assis, consentindo que morassem com ela.

As terras do Morro do Livramento, no entanto, cuja velha ladeira existe até hoje, permanentemente íngreme e estreita, eram ocupadas pela chácara da família de Dona Maria José e já em 1818 o terreno começa a ser loteado por ser tão extenso, dando origem à rua Nova do Livramento. Não obstante, Dona Maria José é convidada, pelos pais do menino, para ser sua madrinha e Joaquim Alberto de Sousa da Silveira, escolhido o padrinho, de modo que, ao resolverem homenagear os dois, o filho foi nomeado com seus nomes debatismo: Joaquim Maria Machado de Assis.

Com a perda da mãe aos dez anos de idade, logo a seguir, o pai se casa com Maria Inês da Silva, uma mulata que confeccionava doces que eram vendidos pelo menino Machado numa escola reservada para meninas. Dessa época, sua referência biográfica, na área educacional, é o padre Silveira Sarmento, a quem se tornou mentor de latim e amigo.

Enganam-se os que pensam que Machado de Assis não teve uma militância política. Desde jovem, o jornalismo e a poesia servem como os principais instrumentos para a sua atuação. Fosse no romance, na poesia, na dramaturgia, ou na crônica, erguia a bandeira aguerrida de defensor, à sua maneira, das causas sociais que tanto apaixonava o povo brasileiro, sobretudo os de origem africana. Em um importante livro sobre o tema, Machado de Assis Afrodescendente, o professor Eduardo de Assis Duarte, ao traçar-lhe o perfil, assegura que Machado “trabalhou por vários anos na segunda seção da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura, órgão que se ocupava justamente da política de terras e do acompanhamento da aplicação da Lei do Ventre Livre, e que chegou a ser dirigida pelo escritor”.

De acordo ainda com a mesma fonte, no ano da abolição, a Secretaria da Agricultura, pasta de Machado de Assis, cuidava bem dos processos referentes “ao elemento servil”. Segundo os relatos, a essa secretaria “deve-se a liberdade de milhares de escravos, liberdade que provinha da fiscalização vigilante dos dinheiros públicos, e da qual resultava grande aumento do número de alforrias pela diminuição do exagerado valor do escravo, pela irregularidade de matrículas e não cumprimento de preceitos legais.”

Portanto, é Machado de Assis, diga-se grosso modo, o gerente dessa operação que resultou no Treze de Maio. Logo ele que, desde menino, conviveu coma presença de negros escravos e livres; que, desde cedo, presenciou e conviveu com a realidade de negros e escravos, habitués das velhas chácaras do Morro do Livramento. O resultado disso foi o desenvolvimento de uma personalidade psicologicamente sensível aos temas da sociedade de então. Suas obras literárias e jornalísticas refletem bem esse estado de coisas.Como romancista e jornalista, poeta ou contista, cronista e ensaísta, Machado de Assis reproduziu temas factuais, presentes no dia a dia do cidadão carioca e fluminense da época.

Desde suas primeiras obras, a temática do negro, como um discurso contra a escravidão, mesmo sutil, é abordada de forma categórica, como o retrato de uma época desigual, o que pode ser encarado à guisa de denúncia ao opressor sistema político e econômico então vigente.

Tais temas perpassam, de algum modo, romances como Ressurreição, Helena, Iaiá Garcia, Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e, seu último, Memorial de Aires. Assim também ocorre nos chamados “contos da escravidão”: Virginius (1864), Mariana, de 1871, ano da Lei do Ventre Livre, O caso da vara, de 1899, e o clássico Pai contra mãe,de 1906. Machado de Assis prima pelo talento, com requinte e estilo.

Machado de Assis e a abolição dos escravos

Aliás, nessa categoria exprime todo o seu dom pelo deboche e ousadia, mostrando-se velhaco e menos caramujo. É assim que vamos encontrar Machado de Assis nos anos finais da escravidão no Brasil. E a data de 13 de maio de 1888 vai encontrar outra cidade e outro país.

As ruas estão tomadas de gente. Caras alegres, contentamento geral;casas e lojas comerciais adornadas para o grande domingo de sol: a Regente Isabel vai sancionar no Palácio do Paço, que fica na atual Praça XV, a Lei Áurea. Uma multidão segue para aguardá-la. A sanção se dá em meio a grande ovação. “Não há mais escravos no Brasil”, gritam bocas entremeadas de choros e sorrisos. Casais se abraçam, namorados se beijam, crianças festejam com seus pais, homens públicos comemoram em bares, damas da sociedade abarrotam as confeitarias.

Um tumulto toma conta da cidade. Mas ao contrário dos anos de turbulência, é a festa, uma espécie de entrudo fora de época, que ataca as pessoas, de todas as classes sociais, seja dito. E no meio de tudo isso, está o caramujo Machado de Assis, já a essa época um dos escritores mais respeitados e queridos do país. É um homem como qualquer outro. Disse que nunca se sentiu melhor. Numa crônica da Gazeta de Notícias, descreve a cena: “Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos saímos à rua. Sim, também eu saí à rua, eu, o mais encolhido dos caramujos, também eu entrei no préstito, em carruagem aberta, se me fazem o favor, hóspede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delírio.” E concluída: “Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembro ter visto.”

O júbilo popular, do qual estava integrado Machado, o levou ainda a escrever um lindo poema, dedicado à gloriosa data, impresso e distribuído em papel cartão por ocasião da procissão cívica que varreu o centro da velha Corte. Nesse poema, ao celebrar o fim da escravidão e se colocar ao lado dos vitoriosos, os ex-escravos e abolicionistas, ele conclamava a “união, brasileiros!”, e solicitava que todos entoassem “o hino ao trabalho”.

Fonte: Raça Brasil

Carolina Maria de Jesus: renegada pelo cânone literário brasileiro

Nascida em 1914 no dia 14 de março, na cidade rural de Sacramento, Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus até hoje i415609tem a sua importância subestimada dentro da literatura brasileira. A escritora teve uma vida complexa e tensa como só pode ser a vida de uma mulher negra. Estudou por dois anos “as primeiras letras”, como diziam, mas interrompeu os estudos porque foi obrigada a migrar com a mãe para outras cidades, na luta pela sobrevivência. Vagou, segundo suas anotações em diários, por algumas cidades do interior de São Paulo, até que por fim migrou para a capital paulista (1947), como empregada doméstica acompanhando os patrões.

Inquieta e questionadora, Carolina não se adaptou às exigências do emprego doméstico, nos quais as relações de trabalho se assemelhavam ao extinto regime escravista. Acabou indo morar na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, uma das que surgiam com o processo de crescimento da cidade de São Paulo. Crescimento esse que teve como uma das consequências a ocupação de habitações precárias pela população preta, pobre e migrante, aglomerada em locais sem infraestrutura. Ela buscava e encontrava no lixo aquilo que a cidade desprezava, sua fonte de renda para sustento dela e dos três filhos. Perambulando pela cidade que observava, admirava sua ostentação: luzes, casa, flores, pessoas e avenidas, contrastando com sua realidade vivencial. À noite, em seu barraco, apinhava a família além da miséria. Entre o ronco da fome, os pedidos dos filhos e os burburinhos da vizinhança, tão esquecida e desprezada como ela, extraia a matéria prima para a sua escrita dos livros, para o seu sonho de se tornar escritora, mais precisamente poeta, e abondar aquela vida de precariedade.

Carolina arquitetava outra vida para ela e os filhos. Escrevia constantemente e procurava os jornais e editoras para publicar o seu trabalho, como relata em seu diário. Obviamente não conseguiu sucesso nesta investida, visto que não logrou credibilidade ao mostrar seus manuscritos registrados em papéis reutilizáveis, grafia e gramática que denunciavam os seus poucos anos de estudo formal, que para uma arte elitista como é a literatura escrita, não coadunava. Insistentemente, ela escrevia o seu dia a dia, repórter de si mesma e da cidade, que olhada pelo ângulo dos pobres à margem do rio Tietê não consegue ostentar nem o glamour, nem a ilusão de um progresso igualitário.

O que muitos chamam de coincidência é na verdade intencionalidade por parte de Carolina, que mostrava seus escritos aos profissionais da assistência social e religiosos que iam prestar assistência aos “favelados”. Em 1958, mostrou a um jovem repórter, Audálio Dantas, da Folha da Noite, designado para fazer matéria sobre a favela do Canindé, os seus escritos em cadernos que reaproveitava. Impressionado com o que leu, Audálio compilou algumas páginas e intitulou “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”. Publicado em agosto de 1960, foi recorde de vendas. A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana. Depois, foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e na Europa. Carolina de Jesus logrou realizar os seus dois intentos, tornou-se escritora e, no mesmo ano da publicação de seu livro (1960), se mudou da favela do Canindé para uma casa de alvenaria, comprada com o resultado editorial de venda de “Quarto de Despejo”. Recebeu homenagens, nacionais e internacionais, viajou por vários estados do Brasil. A vida de Carolina Maria de Jesus, se fosse ficção, terminaria com letreiros de fim e final feliz.

Pressionada pela editora, ela escreveu “Casa de Alvenaria”. Lançado em 1961, o livro não teve o mesmo impacto que antecessor. A escritora passou a questionar as desigualdades sociais a partir da “sala de visita”, termo que usava para designar um lugar digno. Houve uma mudança de lugar físico, mas não do local social de onde De Jesus fala, em relação à sociedade.

Fonte: Raça Brasil

Com imagens históricas, livro retrata a vida do cantor e compositor Cartola

O cantor e compositor Cartola, um dos maiores representantes da música brasileira, terá a história de sua vida resgatada. O livro “Divino Cartola — Uma vida em verde e rosa”, de Denilson Monteiro, conta a trajetória do compositor a partir de entrevistas, imagens históricas e uma série de manuscritos de letras emblemáticas e poemas inéditos.

O livro de Monteiro busca mostrar informações biográficas novas. É uma copilação de informações sobre a vida de Cartola com origem em outras obras, em especial “Tempos idos”, de Marília Barboza e Arthur Oliveira, e na dissertação de mestrado em História de Nilcemar Nogueira, intitulada “De dentro da Cartola: a poética de Angenor de Oliveira”.

O trunfo de “Divino Cartola” está nas imagens dos manuscritos reproduzidos, alguns inéditos. O livro se enquadra numa série de fotobiografias, que já abordou nomes como Noel Rosa. “Minha preocupação foi escrever de uma forma agradável, além de ter feito entrevistas com personagens que conviveram com Cartola. Delegado, mestre-sala da Mangueira, conta que, no tempo dele, eram obrigados a colocar graxa no cabelo para alisá-lo”, diz Monteiro.

Além de rico em imagens, “Divino Cartola” vem acompanhado de um CD com a gravação do último show de Cartola, realizado no Ópera Cabaré, em São Paulo, em 30 de dezembro de 1978. São 11 canções, entre as suas mais conhecidas, como “As rosas não falam”, “O mundo é um moinho” e “Acontece”.

O livro, que será lançado na próxima quarta-feira (06), às 18h30, na Livraria Cultura do Cine Vitoria, no Rio de Janeiro, leva o leitor à conhecer a criação da Estação Primeira de Mangueira. Apesar de ter nascido no bairro carioca do Catete, Cartola passou a infância no bairro de Laranjeiras e, após criar o Bloco dos Arengueiros, junto com um grupo de amigos sambistas do morro, o compositor sugeriu o nome e as cores verde e rosa, que consagraram a tradicional escola de samba carioca. Cartola também compôs “Chega de Demanda”, o primeiro samba-enredo da escola.

Após compor músicas como “O Mundo É Um Moinho” e “As Rosas Não Falam” que contribuíram para o cenário popular do samba tradicional no Rio de Janeiro, Cartola passou anos esquecido e foi dado como morto, até ser encontrado, por acaso, pelo jornalista Sérgio Porto, em 1956, trabalhando como lavador e guardador de carros, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

Embora tenha sido muito elogiado por seu círculo de compositores, colegas e admiradores, Cartola só recebeu todos os créditos por sua contribuição à história da música brasileira após sua morte, aos 72 anos, de câncer, quando então já era considerado um dos estetas geniais da música brasileira. Hoje, o compositor ainda é a maior referência para quem quer conhecer a história do samba e compreender muitas das sonoridades presentes no samba contemporâneo.

Fonte: O Globo

Serviço
Lançamento do livro “Divino Cartola — Uma vida em verde e rosa”
Quando:
 06 de fevereiro às 18h30
Onde:
 Livraria Cultura do Cine Vitoria – R. Sen. Dantas, 45 – Centro – Rio de Janeiro

“O meu trabalho é a arte”

Akinwande Oluwole Soyinka, ou simplesmente Wole Soyinka, como é conhecido mundo afora, esteve no Brasil (Belo Horizonte, Salvador e Brasília) para discutir a participação do país no Festival Internacional de Arte Negra (FAN), que será realizado no próximo ano, em Lagos, na Nigéria

Trata-se de um evento internacional e tem se consolidado como espaço privilegiado para o debate sobre as artes na África e suas diásporas. Na capital mineira, Wole disse ter esperanças que sua presença no Brasil significa que o início de maior proximidade do estado com o país africano. “No nosso caso, não acredito em intercâmbio, pois estou aqui no Brasil para dar continuidade a uma integração cultural que já existe entre nossos países, e o Festival de Arte Negra só reforçará ainda mais esses laços.”

As últimas edições do FAN aconteceram em 1977, 2009, 2010, 2011 e 2012, sob curadoria geral do próprio Wole Soyinka. O FAN tem como objetivo celebrar a criatividade africana nas diversas linguagens artísticas como a dança tradicional e contemporânea, música, pintura, fotografia, teatro, design, cinema entre outras expressões artísticas e intelectuais. A próxima edição acontecerá de 25 de março a 1º de abril de 2013. “Dessa forma, caminhamos para consolidá-lo como um programa cultural de grande porte, cruzando e articulando com solidez as diversas linguagens artísticas da Nigéria e dos países convidados”, afirmou Soyinka.

“DEPOIS QUE GANHEI O NOBEL, CONTINUEI ESCREVENDO COMO FAZIA ANTES, NÃO PRECISO QUE O GOVERNO ATESTE A QUALIDADE DO MEU TRABALHO E MINHA DEDICAÇÃO.”

Num esforço para ampliar e aprofundar o conhecimento da África de si mesma e suas influências culturais, a curadoria do FAN/Lagos desenvolveu um conceito de mapeamento da presença negra africana no mundo. Sua realização em séries temáticas, ano após ano, irradia essa ideia para fora de cada país da diáspora selecionado. Depois da Itália, o Brasil será o segundo país homenageado, em 2013.

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

Wole, o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda e Olusegun Akinruli Michael

Pode-se dizer que Wole Soyinka passou sua longa e bemaventurada vida em “estado de literatura”, um dos casos mais notórios de autor cuja atualidade se revela tão intimamente aderida à obra, espelhando a política nigeriana à cultura ioruba, na qual cresceu e viveu inserido.

Nascido em 13 de julho de 1934, em Abeokuta, próximo a Ibadan, no oeste da Nigéria, filho de um respeitado professor e líder comunitário ioruba, Wole revelaria desde cedo um gosto singular pela leitura. Ao se recordar como a literatura entrou em sua vida, ele afirma que é uma relação de infância. “Desde criança, eu lia, lia. Era fascinado com qualquer coisa impressa, eu li todos os livros do meu pai”, relembra.

Em 1954, então com 20 anos de idade, após ter concluído seus estudos no Instituto Superior de Ibadan, Wole se matriculou no curso de Literatura Inglesa da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Foi nesse período que se apaixonou pelo teatro. Formou-se em 1959 e, no mesmo ano, levou aos palcos algumas peças de sua autoria. Em 1960, retornou à Nigéria, onde fundou uma companhia de teatro, The 1960 Masks.

Nesse mesmo ano produziu A Dance In The Forests, peça que celebrava a independência da Nigéria. Durante a guerra nigeriana, em 1967, Soyinka publicou um artigo em que apelava pela paz e foi imediatamente aprisionado e acusado de conspiração com os rebeldes. Foi proibido de escrever durante o período em que esteve preso, mas isso apenas dificultou o seu ofício, na verdade, nunca o impediu. “A dificuldade inicial foi encontrar uma tinta para escrever. Depois comecei a procurar papel, inicialmente utilizei o único disponível, que foi o papel higiênico, depois permitiram que eu recebesse livros para a minha leitura. Além de lê-los, eu usava as entrelinhas entre uma frase e outra para continuar escrevendo e, assim, não tinha dificuldades para repassar meu texto para fora da prisão quando devolvia os livros”, afirmou. Depois de libertado, Soyinka foi obrigado a deixar o país e se exilou nos Estados Unidos, só voltando à Nigéria no início dos anos 1990, onde passou a ser novamente persona non grata, por se opor ao governo ditatorial de Sani Abacha.
Wole ocupa uma posição peculiar entre os intelectuais: foi o primeiro e único africano negro que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986. Na ocasião, foi enfático ao falar da premiação. “A quem ache que o Nobel torna a pessoa à prova de balas, eu nunca tive essa ilusão.” Em Belo Horizonte, voltou a falar sobre o assunto e afirmou que o prêmio foi mais importante para o resto do mundo do que para ele mesmo. “Depois que ganhei o Nobel, continuei escrevendo como fazia antes, não preciso que o governo ateste a qualidade do meu trabalho e minha dedicação.”

Suas obras são recheadas de um humor irônico e, há quem diga que Wole é ainda um grande político, mas ele não se vê como tal. “O meu trabalho é a arte, eu instigo o político quando escrevo. São eles que entram em minha obra, não eu que entro na política.”

Quando questionado sobre o que foi mais prazeroso em sua trajetória, contribuir com a arte ou com a política, a resposta veio sem hesitação. “Com a arte, a política é muito frustrante.” Ele ainda demonstrou sua simpatia pela recente reeleição de Barack Obama. “Acho extremamente importante a vitória de Obama, quebra o paradigma do preconceito, ainda mais em uma potência como são os Estados Unidos. Além de dramaturgo, poeta e ensaísta, Wole Soyinka leciona em duas universidades nos EUA, onde reside atualmente.

Fonte: Raça Brasil