África na literatura – romantismo?

Só muito tarde na vida é que comecei a ler literatura africana, ou, para ser mais preciso, romances escritos por autores africanos. Passei grande parte da minha adolescência fascinado por escritores europeus e americanos, como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, William Faulkner e John Steinbeck, que eram as referências literárias da geração que me precedeu. Apenas por ossos do ofício, crítica literária, comecei a ler autores africanos. No entanto, mais do que literatura africana, o que na verdade sempre me interessou, sobretudo ultimamente, são livros que versem sobre África, independentemente de terem sido escritos ou não por autores originários de África. Incluo nesta classe a literatura de viagem sobre África.

imagem de Francisco VidalImagem de Francisco Vidal

África tem um lugar especial na consciência ocidental. Muitos acadêmicos defendem que o olhar europeu, de superioridade, sobre África, não mudou significativamente nos últimos tempos. O que em África sempre fascinou grande parte dos ocidentais é a diferença, a todos os níveis. Diferença nos costumes, por exemplo. Como se África tivesse a sua ordem própria, nos antípodas da que muitos ocidentais prescreveriam como normal ou certa, e que só faz sentido neste continente. Esta ideia está muito presente, por exemplo, em Coração das Trevas, de Joseph Conrad, um tratado sobre a queda de um homem civilizado, Marlow, que cede às leis da selva, e que se torna um facínora nas florestas do Congo. No romance de Conrad é como se em África houvesse uma atmosfera muito particular, talvez pelo cheiro forte a carcaças podres, o cheiro da morte e da decomposição, que levasse pessoas “normais”, criadas no respeito pela integridade física do próximo, a suspender a sua humanidade, tornando-as capazes dos crimes mais abjectos. Esta ideia, de um modo geral, passou do muito aclamado romance de Conrad para grande parte do que se tem escrito sobre as ditaduras em África. Forma também de racionalizar a maldade, por se colocar mais peso na circunstância: a vida humana perde todo o sentido face à desordem reinante. Mas isso não é um olhar exclusivamente europeu. Há muitos autores africanos que exploram esta desordem para fins romanescos. Muito por influência da forma como sul-americanos, como Gabriel García Márquez, empreenderam a caricatura dos seus ditadores. Nesta linha há pelo menos dois autores a destacar: Sony Labou Tansi, nos seus vários livros, especialmente Vida e Meia, e Moses Isegawa, com o seu fresco sobre a história recente do Uganda, Crônicas Abíssinias.

Uma das funções da literatura é apresentar mundos possíveis, e aí reside o seu cunho profundamente moralista. Dom Quixote e Madame Bovary conquistaram o seu espaço na tradição da literatura universal não só pela perfeição estilística, mas também por se terem constituído, pelo uso da ironia, forma de alertar os seus leitores para as consequências das leituras perigosas. São obras moralistas, ainda que a moral só lá esteja para distrair os censores, conceda-se. E é para este sentido de alerta que África serve ao Ocidente. Grande parte do que os europeus escrevem sobre África poderia colocar-se numa grande narrativa em torno da miséria, a entropia, o colapso e o falhanço das instituições. O continente negro é um espelho invertido que não devolve à Europa a verdade da sua cultura e conquistas, mas que parece alertá-la para o que seria a vida se não houvesse pelo Velho Mundo um certo tipo de instituições vocacionadas para conter os impulsos destrutivos da humanidade.

 África é, assim, parte da formação da consciência ocidental. A nível pessoal também. Para muitos jovens europeus, idealistas, a vida tem mais sentido depois da experiência africana. É como se regressar a casa lhes desse precisamente a sabedoria do que se aprende em viagem: valorizam então o que têm por saberem o que é a vida noutras paragens. Eu acrescentaria que este efeito pode ser facilmente obtido se o tal europeu ler alguma literatura sobre África, particularmente a de viagem. Para grande parte dos ocidentais, como o muito famoso Bruce Chatwin, viajar por África muito raramente tem que ver com o continente em si, mas com o colocar-se numa “situação africana”, cheia de implicações pedagógicas. É em grande parte dos casos um processo solitário, um travessia por caminhos podres, uma descida aos infernos. Ainda que o viajante às vezes se detenha e escreva sobre as pessoas que conhece, a paisagem que divisa, grande parte da narração é sobre as suas sensações. A literatura de viagem é sempre egocêntrica, é uma viagem em torno do umbigo do autor. É sobre o viajante, os desafios que lhe aparecem à frente, em tudo ele é o ponto fixo à volta do qual a realidade se descobre. E isso tem implicações filosóficas.

imagem de Francisco VidalImagem de Francisco Vidal

Claude Lévi-Strauss, num dos capítulos mais interessantes do seu Tristes Trópicos, chamou a esta descida aos infernos a busca de poder. E bem a seu jeito relacionou essa procura com o rito de passagem do índio que deixa a tribo para sofrer os infortúnios de uma temporada nas montanhas, sozinho e passando por todas as agruras imagináveis. O seu regresso são e salvo trouxe a sabedoria e respeito dos seus próximos. O escritor de viagem, do mesmo jeito, carrega na pele a consolação de ter passado por aquilo que nenhum dos seus semelhantes passou. E depois de mil peripécias, muito sofrimento, volta são e salvo para juntos dos seus, aos quais lega a descrição da sua viagem. Isso dar-lhe-á igualmente a sabedoria e o respeito dos seus. 

Falar de África nos termos do pessimismo de romancistas africanos, ou da literatura de viagem, é algo que poucos escritores angolanos tenham feito. O que é compreensível se concordarmos que um dos mais preocupantes traços da literatura angolana é o seu total desfasamento da realidade social. Há muito poucos escritores que conseguem compreender esta sociedade com a acuidade e a profundidade dos nossos letristas de kuduro e rap, por exemplo. A única excepção, que eu saiba, é Albino Carlos, no seu romance de estreia, Olhar de Lua Cheia. Raramente li descrições tão cruas e reais sobre a vida dos musseques. Luandino Vieira criou o seu estilo de falar dos musseques, muito romantizado, como se o seu grande desafio fosse apenas escrever poeticamente sobre estes espaços. Existe muito pouco espaço para romantismo nos musseques de Albino Carlos, no pós-independência, durante os piores anos do país – culpa também da longa guerra civil. No musseque, escuro e lúgubre, as pessoas matam-se por muito pouco, prostituem-se para alimentar os filhos, e sempre a gravidez precoce a mostrar às adolescentes a ilusão que é a luta por uma vida diferente da que tiveram os seus pais. Tudo cheira a álcool, vidas destruídas e lares desfeitos.

O livro de Albino Carlos, Olhar de Lua Cheia, não é apenas isso. Como nem África é apenas isso. Também há farras e momentos de alegria que convencem o leitor de que a felicidade também existe no meio de tanta adversidade. Numa passagem de What Am I Doing Here, Bruce Chatwin diz que a sua África não é a África dos golpes de Estado em que as pessoas morrem por terem votado no candidato errado. Mas que é a África dos espaços infinitos, das cores e cheiros fortes; a África que ele romantiza. África, compreenda-se de uma vez por todas, é tudo isso e muito mais. E estas partes não se anulam umas às outras. Pelo contrário, fazem um todo que de um jeito muito especial – e isso muito pouca literatura explica – encontra a sua harmonia.

 

retirado do livro Poligrafia: das páginas de jornais angolanos, Casa das Ideias

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Como financiar a nova literatura angolana?

Descubra como ajudar Gregório Semedo a editar e publicar o livro “Angola mãe

querida” em Angola, Cabo Verde e Portugal. Nesta obra viajamos pelo quotidiano

angolano após guerra civil. Gregório Semedo lança projeto na plataforma de

financiamento coletivo Zarpante para captar fundos necessários.

Gregório Semedo, escritor e artista plástico, nasceu no sul de Angola, reside em Lisboa desde 1981 e

precisa captar 5.500 EUR para editar e publicar 500 exemplares do livro “Angola mãe querida” para

venda em Angola, Cabo Verde e Portugal.

O livro conta a história do jovem emigrante angolano “Zito”, que passa pelo processo de adoção de

nova pátria contrastando com a busca e resgate de suas verdadeiras origens em Angola. Toca de leve

nos fenómenos de dispersão do povo angolano: o tráfico negreiro e a guerra civil.

O projeto busca captar fundos no site Zarpante até 29 de janeiro de 2013. Para realizá-lo, são

necessários: 3.000 EUR para editar, publicar e divulgar o livro em Portugal; 1.250 EUR para

divulgá-lo em Angola; 750 EUR para divulgá-lo em Cabo Verde. Tanto pessoas físicas quanto

jurídicas podem contribuir. As contribuições podem ser sob forma financeira ou sob forma de

permuta. Recompensas estão previstas em troca: exemplares oferecidos, inclusão de logo na lista de

patrocinadores, palestras sobre o impacto económico da imigração, exposição dos quadros a óleo

que fazem parte da ilustração do livro…

Financiamento coletivo (crowdfunding) é uma forma inovadora e alternativa de financiar projetos 

por meio de contribuições de múltiplas fontes agregadas. Conceito já bem conhecido em outros

países (Estados Unidos, França…) que Zarpante oferece aos lusófonos. Financiar coletivamente um

projeto, encontrar meios para contornar a crise, mantendo produção artística e cultural diversificada

e legitimada pela participação pública. O público passa a ser ator do cenário cultural, ao ter direito

de escolher os projetos que deseja ver acontecer. Trata-se de mecenato democratizado. Estabelece

contacto de artistas independentes e menos conhecidos com o público, cansado de ver, ler e ouvir

sempre as mesmas coisas. Para fazer acontecer o projeto “Angola Mãe Querida”, acesse, por favor, o

link seguinte: http://zarpante.com/investment/produ-1070.

Zarpante (http://zarpante.com) é uma plataforma de financiamento coletivo, criação colaborativa e

co-produção para projetos relativos à arte, à cultura e ao património lusófonos.

 

ZARPANTE LDA

Henrique Moretzsohn de Andrade

Co-fundador

Avenida da República, nº 679, Andar 1, Sala 1.5

4450-242 Matosinhos

Portugal

Telefone. 00 351 22 938 34 15

Telemóvel. 00 33 (0)6 50 68 59 78

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Sinais de fogo ardem na nova literatura cubana

Há mais para além da tríade “sexo, palmeiras e regime” quando se fala de literatura em Cuba. E os escritores só querem fugir desses clichés.

Três avisos ao leitor. Primeiro: quando se fala de Cuba a linguagem tem um peso diferente para quem está dentro (e de dentro) e para quem está (de) fora. Por exemplo: quando se diz “dissidente” também se pode querer dizer “contra-revolucionário”. Nem tudo é preto e branco, negativo e positivo, socialismo (capitalismo) ou morte. É mais complexo, intricado e contraditório do que a redução da linguagem ao seu mínimo denominador comum. Se o leitor não consegue passar além dessa leitura simplista, além da linguagem e das suas nuances, dos seus duplos sentidos, dos seus ódios e das suas obsessões, passe à secção de música.

Segundo: esqueça o Che, o Raúl, o Fidel, os guerrilheiros heróicos e a política, os Castro. Um país e a sua literatura são (sempre) muito mais (e para além) dos seus líderes políticos (efémeros e circunstanciais).

Terceiro: que a autora destas linhas passou sete dos últimos catorze meses em Cuba, quase todos em Havana, e que, por isso, este ensaioreportagem é uma tentativa de ver na sombra o que de fora (à luz) por vezes não se consegue vislumbrar.

Tudo isto a propósito da publicação da nova tradução do romancebíblia- da-cubanidade Três Tristes Tigres, do apátrida-que-mais-amou- Havana, Guillermo Cabrera Infante (Quetzal). Os itálicos são todos dele.

– São sepulcros branqueados, Silvestre. Não é a Nova Jerusalém, meu velho. É Somorra. Ou se preferires Godoma.

(…)

– Conheces a topografia do teu inferno.

– A isso chama-se em espanhol La Rampa. Em cubano, desculpe.

La Rampa é Cuba. Cuba é a vida e a vida inteira cabe ali, da esquina da 23 com a avenida L descendo ao encontro com o mar, num beijo morno de brisa e sal. Esta Havana é Sodoma e Gomorra (Somorra e Godoma à la Cabrera Infante), uma mulher meneando as ancas pela avenida abaixo e homens queimando pestanas com o fumo dos habanos. É a cidade pré-revolucionária, iluminada pelos néons dos cabarets, pela luz das estrelas no Tropicana, ao som de uma dança frenética de rumba e jazz, do tilintar de copos esvaziados de rum, descapotáveis bolerizando-se pelo malecón.

Enrique de la Osa, fotoEnrique de la Osa, foto

É pré-revolucionária porque simplesmente já não existe. Agora, a esquina da 23 com a avenida L continua a ser o centro da cidade rivalizando com a Havana da Unesco, colonial e grandiosa, de lindas fachadas disfarçando a escuridão das ruas alumiadas por fios de lampiões tristes e sós, e prédios que desabam quase todas as semanas por velhice. Mas como dizer que ela ainda é a mesma (bela e decadente) cidade de Cabrera Infante, ainda que diferente da Havana da sua infância, tão diferente como as décadas que passaram entre o tal dia 11 de Agosto de 1958 de que fala em Três Tristes Tigres e hoje, neste 2012?

E já não existia em 1965, quando Cabrera Infante escreveu Três Tristes Tigres no seu “exílio siberiano” na Bélgica, aonde era adido da embaixada de Cuba, país que abandonou nesse ano por um refúgio londrino até à sua morte, em 2005.

Daí que este longo fragmento-de-romance seja o símbolo e o epitáfio da Cuba de Batista, da infância nostálgica do seu autor, da Havana ligada à Florida por um ferry diário, de casinos, de prostitutas e velhos americanos, de Hemingway a pescar ao largo lutando contra um tubarão. Mas este retrato imortaliza todos os clichés que (ainda) se propagam sobre Cuba: sexo, mulatas, rum, cigarros e praias paradisíacas, a Varadero das estrelas.

No centro do chowzinho estava agora a gorda (…) movendo-se ao ritmo da música, rebolando as ancas, todo o corpo, de uma maneira linda, não obscena mas sexual e lindíssima, meneando-se ao ritmo, cantarolando por entre os lábios entumecidos, os lábios gordos e roxos, ao ritmo, agitando o corpo ao ritmo, ritmicamente, deliciosamente, artisticamente agora, e o efeito total era de uma beleza tão particular, tão horrível, tão nova que lamentei não ter trazido a máquina fotográfica para retratar aquele elefante que dançava ballet.

“Cuba é o centro dessa periferia na América Latina que é o Caribe. E mais do que Porto Rico, Panamá ou República Dominicana, Cuba ainda monopoliza o imaginário sobre o Caribe e todos os seus estereótipos exóticos”, explica Magdalena López, especialista em literatura Caribenha no Centro de Estudos Comparatistas, em Lisboa. Esse imaginário é o paraíso idílico de praias, coqueiros, rum, sexo e mulatas. Mas Cuba também é diferente: “Tem a particularidade histórica de ser a única revolução marxista ‘de sucesso’ a consolidar-se no poder na América Latina. Essa excepcionalidade diferencia-a dos outros países da América, não só porque representa a utopia da esquerda, mas também o fracasso dessa mesma utopia, um fracasso ainda muito difícil de reconhecer por alguns intelectuais de esquerda”, continua López.

Nesse sentido, o escritor que mais tem propagado essa imagem de deboche associado à falência moral da revolução socialista na ilha é Pedro Juan Gutiérrez que, com a sua Trilogia Suja de Havana (Dom Quixote) transformou a Cuba nostálgica de Cabrera Infante na ruína final do país no pós-Muro de Berlim.
Enrique de la Osa, fotoEnrique de la Osa, foto

Essa falência moral está ligada ao outro elemento de exotismo associado a Cuba: a política. O editor do cubano Leonardo Padura em Portugal, Manuel Alberto Valente (primeiro na Asa, agora na Porto Editora) conta que Padura, hoje talvez o mais traduzido e popular escritor cubano da sua geração, se queixa de que “gostaria de ser apenas um escritor a quem lhe fazem perguntas sobre os seus livros”. Isto é, nenhum escritor cubano, na ilha ou na diáspora, consegue livrar-se da pergunta sobre política. Eles querem ser escritores e fugir desse estereótipo, como explica Karla Suárez, escritora cubana que vive em Portugal: “Agora já estou mais habituada, mas no início era estranho. Estava a apresentar o meu livro e perguntavam-me o que ia acontecer a Cuba depois de Fidel. Não sabia responder, ainda não sei responder. Sou uma escritora, não sou analista política. Escrevi um livro, com uma história, e ninguém me faz perguntas sobre o meu livro.”

Cuba é tão complexa que nem mesmo os escritores conseguem explicá-la, assim, numa frase que vaticine o futuro “e depois de?”. Ainda que muitos cubanos se façam a si mesmos essa pergunta, isso não determina a forma como o dia-a-dia se vive na ilha. “Não tenho problema nenhum em falar de Cuba, mas como escritora tenho outras coisas, literárias, muito mais interessantes para discutir. Fidel já tem imenso protagonismo, não quero que a minha literatura seja sobre ele, porque não é e nós escrevemos sobre outras coisas também.

– Vou para o Sierra.

– É muito cedo para a noite e muito tarde para a madrugada. Não está aberto.

Para a Sierra, não é para o Sierra.

– Para Nicanor del Campo, a esta hora?

– Não, porra, vou para a serra. Vou revoltar-me. Tornar-me guerrilheiro.

– O quê?

– Juntar-me ao Fiel, ao Fidel.

– Estás mas é bêbedo, irmão.

Um ano antes de Três Tristes Tigres, o escritor Jesús Díaz publica Los años duros, considerada a obra que inicia um género na literatura cubana: “a literatura da violência”. A par de Jesus Díaz estão Norberto Fuentes, Manuel Cofiño, Rafael Soler ou Eduardo Heras León. Destes, apenas os três primeiros têm obras publicadas em Portugal, mas as mais contemporâneas e não as do período revolucionário, sobretudo porque tanto Díaz como Fuentes se tornaram polémicos dissidentes no exílio (Fuentes publicou em Portugal Autobiografia de Fidel Castro, Casa das Letras).

Los años duros venceu em 1966 o prémio Casa de las Américas, um dos mais prestigiosos da América Latina. Os “violentos” iniciam uma nova literatura da revolução, testemunhos da luta na clandestinidade ou em Girón, escritores que foram milicianos, revolucionários, guerrilheiros e que começam a escrever uma literatura profundamente comprometida com os ideais da revolução cubana. A década de 60 são os “anos dourados” da revolução, quando intelectuais europeus passavam por Cuba como quem vai ali ver a revolução acontecer, quando a orgia revolucionária estava no auge: da Serra à Baía dos Porcos, da “luta contra bandidos” às campanhas de alfabetização. A Portugal chegaram ecos destes autores, sobretudo a partir dos anos 70 quando se publicaram várias antologias de contos cubanos da revolução (na Estampa, Presença ou Edições 70).

Carlos Barria, fotoCarlos Barria, foto

O professor e investigador em literatura cubana da Universidade de Sevilha, Emílio Gallardo explica que, ainda que Três Tristes Tigrescoincida no tempo com “os violentos”, eles são de gerações diferentes. Nos “anos dourados” da revolução “convivem em Cuba alguns dos maiores génios da cultura daquele país (no cinema, pintura e literatura) em todo o século XX. Uns mais marcados pela ideologia, outros menos”, explica o professor. “A cultura cubana reflectia, naquela época, várias cores, vários estilos, várias vozes. Mas tudo se vai estreitando a partir do final dos anos 60.” Ao sair de Cuba em 1965, Cabrera Infante escapou ao período de silenciamento de vários escritores que, dentro da ilha, sobretudo a partir de 1971, começaram a ter dificuldades em publicar. A esse período negro da história de Cuba chama-se “quinquénio cinzento”, uma “travessia amarga” a que foram remetidos vários escritores que sofreram censura, impossibilidade de publicar ou até mesmo repressão ideológica. Aí se incluem os casos de Heberto Padilla ou de Reinaldo Arenas, cujas obras foram consideradas “contra-revolucionárias” ou com graves “problemas ideológicos”. Os dois escritores estiveram presos. O “caso Padilla” teve um enorme eco internacional e levou à cisão de vários intelectuais de esquerda com a revolução cubana. “Com o quinquénio cinzento em vez da pluralidade de vozes temos um monólogo, uma única maneira de ver o mundo que exclui todas as outras. Em vez do conflito natural da convivência e discussão ideológicas dos anos 60, temos uma visão muito ortodoxa do que tinha de ser a cultura, a literatura, o cinema, e fixam-se de forma clara quem são os intelectuais desejados pela revolução e quem são os excluídos”, explica Emílio Gallardo. Diferenças religiosas, ideológicas, de orientação sexual foram simplesmente “abolidas”.

Apesar de o “quinquénio cinzento” durar oficialmente até 1976, só na década de 90 é que Cuba começa a recuperar desse período de silêncio e a falar sobre ele abertamente. Repare-se, lembra Gallardo, que Cabrera Infante, porque escritor dissidente no exílio, não figura no Diccionario de la literatura cubana (1980), mas figura já, assim como vários escritores da diáspora, na História da Literatura Cubana publicada em três tomos na década de 2000. “A partir do final dos anos 80 e nos anos 90, escritores que tinham sido injustamente postos de lado como Piñera, Antón Arrufat, Lezama Lima são recuperados através de prémios nacionais, de artigos em revistas especializadas ou de reedições”, diz Gallardo.

“Vários escritores a partir dos anos 90 recuperam também esse período negro na literatura”, explica Gallardo, como é o caso de Leonardo Padura em Morte em Havana (edição Asa). Estas obras começam a abordar o caso de escritores, actores, encenadores, homossexuais ou com “problemas ideológicos” e que foram editorialmente silenciados, empurrados a trabalhar numa biblioteca (como Arrufat) ou numa fábrica (como Heras León).

– O Batista quer que [a cidade] atravesse a baía.

– Mas não tem futuro. Vais ver.

– Quem, o Batista?

Olhou para mim e sorriu.

– O que é que tu queres?

– Eu? Nada.

– Sabes que nunca falo de política.

É essa a minha política.

– Mas sei como pensas.

– Sim, está bem, as duas coisas.

– Eu também acho – disse. – Não há quem consiga fazer esta cidade atravessar a baía.

Esta é a imagem negra de Cuba que se continua (erradamente) a perpetuar no interesse que o exterior tem sobre a ilha. Emílio Gallardo explica que a edição de literatura cubana em Espanha é diferente da portuguesa, por razões óbvias que têm a ver com a língua e com as relações entre os países. Ou seja, Pedro Juan Gutiérrez e Padura (ambos escrevem de dentro), ou Zoe Valdés (hoje a voz mais popular da dissidência) publicam em grandes editoras como Alfaguara ou Anagrama. Mas há pequenas editoras independentes que continuam a publicar cubanos (ficção e poesia).

Em Portugal, “talvez devido à natureza do mercado”, explica Manuel Alberto Valente da Porto Editora, “é raro que um livro seja publicado se não fez sucesso noutros mercados europeus ou no anglo-saxónico.” João Rodrigues, editor da Sextante, que tem publicado (ainda que timidamente, reconhece) alguns cubanos nos últimos anos, diz: “Às vezes os autores vêm já prefigurados de campanhas internacionais. O que chega cá é uma repercussão do êxito francês ou espanhol. Quando queremos publicá-los do zero é uma dificuldade brutal.”

Os editores reconhecem que, ainda que procurem literatura de qualidade, é fácil cair na tríade “sexo, palmeiras, regime” precisamente porque o trabalho de divulgação da literatura cubana nos mercados internacionais é limitado. “Chega muito pouco cá fora. Há uma certa preocupação em publicar autores cubanos quando eles espelham estereótipos em relação a Cuba: a revolução, o exotismo local, dificuldades económicas. Contra mim falo no sentido em que em Portugal aproveitamos essas tendências. Mas também porque praticamente não sabemos o que se passa dentro da ilha a nível literário, senão com um ou dois autores que conseguiram furar esse bloqueio”, diz Valente.

Claudia Daut, fotoClaudia Daut, foto

– Sabes que a literatura cubana não trata do mar? Por muito que estejamos condenados àquilo a que Sartre chamaria a ilheitude.

– Não admira. Ainda não notaste que o Maceo equestre está de garupa virada para o mar e para as suas ondas? E as pessoas que se vêm sentar no paredão fazem o mesmo que eu faço no sonho e viram as costas ao mar, ensimesmadas nesta paisagem de asfalto e betão e automóveis que passam.

Claro que a dissidência vende, mas as coisas estão a mudar. Começam a ouvir-se vozes interessantes, como Karla Suárez, publicada primeiro na Asa, agora na Quetzal (o seu último romance, Havana, ano zero, saiu em 2011). Mas também Senel Paz (a Sextante publicou No céu como diamantes, 2010) ou Ena Lucía Portela (na Âmbar, ainda com João Rodrigues, Cem garrafas numa parede, 2004 ). João Rodrigues tem na gaveta um romance “muito entusiasmante” de Portela sobre a vida da escritora americana Djuna Barnes em Paris, que ainda não publicou “por falta de oportunidade”. Senel Paz já tinha publicado o conto O lobo, o bosque e o homem novo (Difel, 1996), dois anos depois do famoso filme Morango e Chocolate (de Tomás Gutiérrez Alea) o ter levado ao cinema.

Senel Paz, hoje vice-presidente da União de Escritores (UNEAC) em Cuba, é uma das vozes mais respeitadas na ilha. Esteve duas vezes em Portugal, onde passou praticamente despercebido, conta João Rodrigues, ainda que o seu livro tenha recebido o prémio Casa da América Latina. Tanto Paz como Padura são referências em Cuba. Padura é talvez o escritor mais popular: em 2011 na feira do livro de Havana o romance O homem que gostava de cães (Porto Editora) esgotou. A fila para os autógrafos tinha centenas de metros. Em várias livrarias da cidade havia mensagens nas portas dizendo “já não temos o livro do Padura”. Este ano, também na feira, Padura lançou um livro de crónicas. Também esgotou. A escritora cubana Maria Elena Llana disse-lhe, no lançamento: “Padura, os teus livros têm de ser lançados no Parque Central. A salita da UNEAC já é demasiado pequena para ti.”

Ainda que Karla Suárez viva fora de Cuba, tem uma relação forte com a ilha, aonde vai sempre que pode. Em Fevereiro deste ano esteve na feira do livro de Havana a lançar Carroza para actores, livro de contos. Suárez esteve também no debate sobre literatura cubana na diáspora, conduzido por Paz e Padura. Todos defenderam que os escritores cubanos a viver fora da ilha devem ser considerados e lidos. Ou seja: que a literatura cubana é uma só, e não apenas de fora ou de dentro. “Temos sido testemunhas, lamentavelmente, de uma ruptura política bastante fundamentalista (de parte a parte) em relação à literatura que se escreveu nos últimos 50 anos dentro e fora da ilha”, disse Padura no debate. Estas posições, diz Karla Suárez, “geraram muitos ódios”: escritores como Cabrera Infante, por exemplo, recusaram-se a publicar em Cuba; ainda hoje a viúva do escritor não consente que contos seus sejam incluídos em antologias na ilha. “Há muitos ódios na história de Cuba, são três gerações de ódios, mas isso não nos levou a nada”, diz Suárez.

Juan Barreto, fotoJuan Barreto, foto

São escritores como Padura ou Senel Paz que estão a “abrir buraquinhos no sistema”. É “muito injusta” a visão “simplista” de que todos os escritores que vivem em Cuba são “a favor” do governo, explica Suárez. “Todos trabalham para o governo, porque tudo é do governo, mas não quer dizer que todos sejam cem por cento a favor de tudo o que acontece em Cuba. Há pessoas em editoras que atravessam muitas dificuldades, chocam com muitas resistências mas lutam todos os dias para que as coisas mudem.” Há uma vitalidade literária, um burburinho intelectual na ilha que não passa cá para fora: os escritores continuam a encontrar-se, em tertúlias, em debates, em lançamentos, discutem, criticam-se regularmente.

É uma ilha de equívocos ditos por um gago bêbedo que significam sempre o mesmo.

Há toda uma geração de escritores cubanos que ainda permanece na penumbra editorial. Não querem “vender-se” aos estereótipos e querem continuar a escrever a partir da ilha, porque aí, simplesmente, pertencem. Aí é o seu lugar. Os chamados “novíssimos” são exemplo.

Com o “período especial”, após a queda do bloco socialista, Cuba abriu-se ao mundo e toda uma “nostalgia pela ruína do socialismo” entrou no imaginário ocidental, explica Magdalena López. É essa a nostalgia veiculada pelo Buena Vista Social Club de Wim Wenders.

Mas a ruína já estava lá, no final dos 80, quando os “novíssimos” começaram a fracturar o sistema com temáticas polémicas como homossexualidade, prostituição, travestismo, a guerra de Angola, balseros, ou dificuldades económicas. Eles são Alberto Garrido, Amir Valle, Ángel Santiesteban, Raúl Aguiar, Alberto Guerra Naranjo ou Yoss (alguns publicados numa antologia da Caminho em 1996). São a primeira geração nascida com a revolução. Já nem todos vivem em Cuba, mas foi com eles que a literatura se despiu de todos os preconceitos. “Esse é o momento em que Cuba deixou de ser excepcional e começou a mostrar problemas comuns a toda a América Latina, ainda que provenientes de um sistema diferente, o socialismo”, explica López. O submundo, a criminalidade, as drogas, temáticas comuns em literaturas do México ou do Brasil, passam a surgir na literatura cubana. Isto é: no “período especial” “a literatura latino-americanizou-se”, diz López.

No “período especial” não havia papel, editoras faliram, a produção literária entrou em colapso. Karla Suárez estava lá, a começar. Com ela: Ena Lucía Portela, Ana Lídia Vega e os “novíssimos” que chegaram aos 90 quase sem publicar, senão contos isolados em revistas. “Mas éramos uma geração nova, fora do establishment”, diz Suárez. Não havia papel, mas os escritores encontravam-se num ambiente de tertúlia, apoiavam-se, ouviam-se e liam-se uns aos outros, escreviam contos em “facturas da luz”, livros circulavam em “folhetos” agrafados. “Muitos contos apenas ouvi”. “Era uma espécie de literatura oral, muito livre, porque não tínhamos pressão de publicar, não tínhamos um público, não havia censura, escrevíamos para nós.”

Claudia Daut, fotoClaudia Daut, foto

O país mudava tanto, todos os dias, como Karla Suárez descreve em Havana, ano zero. Foi um grau zero da existência dos cubanos, o fundo do poço. Mas havia, naquela literatura, “uma coisa linda de verosimilitude literária, de pureza, de verdade, que tinha a ver com o nosso quotidiano”.

O mercado, enfim, mudou tudo. Não foi por acaso que o papa Bento XVI disse, quando visitou Cuba em Março: “Que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba.” Lentamente, isso está a acontecer. Agora, os escritores cubanos só querem ser lidos, mas fugindo aos clichés.

originalmente publicado no suplemento Ipsilon do jornal português Público 

Fonte: Buala

A profunda vinculação com a experiência humana das literaturas africanas

Entrevista à professora Simone Schimidt, académica brasileira, que tem desempenhado ao longo da sua carreira um papel fundamental para os estudos de género, nomeadamente naREF (Revista Estudos Feministas). É bastante profícua a sua produção científica no âmbito das teorias feministas e pós-coloniais, das quais destaco: “Como e por que somos feministas”, (Revista Estudos Feministas, 2004), “Uma casa chamada exílio” (Revista Gragoatá, 2005), “Navegando no Atlântico Pardo ou a ‘lusofonia’ reinventada” (Revista Crítica Cultural, 2006), “Niketche, uma dança para muitos corpos” (Susana B. Funck e Luzinete S. Minella (orgs.), Saberes e Fazeres de Gênero: entre o local e o global. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006), mais recentemente “Desmundo, desmando, desencanto” (Portuguese Cultural Studies, 2007), “Oropa, França e Bahia, ou quando as madames viajam” (Revista Uniletras, 2007) e “De volta pra casa ou o caminho sem volta em duas narrativa do Brasil” (Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, 2008). Feminista assumida, desde cedo revelou o seu fascínio pelo triângulo e trânsitos entre África-Portugal-Brasil que nos aproximam. Deles falaremos oportunamente, certo que os laços académicos foram sendo estreitados no curso da sua formação académica de que salientaria o Pós-doutoramento feito na Universidade Nova de Lisboa.

 Em que está a trabalhar?

Estou trabalhando com as representações de gênero e raça nas literaturas africanas de língua portuguesa, particularmente nas literaturas angolana, moçambicana e caboverdiana. Meu enfoque, em primeiro lugar, incide sobre os modos de construção, nessas literaturas, de um pensamento acerca do problemático conceito de raça, buscando compreender de que modo os discursos e percepções sobre essa questão atuaram na formação de um pensamento anticolonial, e também como ele se manifesta hoje, em sociedades pós-coloniais que (re)elaboram  constantemente suas respostas aos problemas de identidade (nacional, cultural, subjetiva, etc.). Num segundo momento, interessa-me particularmente investigar como as mulheres, como sujeitos e objetos de representação, tomaram parte desse debate ao qual chamo de ‘elaboração de um discurso sobre as questões raciais’ nos países africanos. Nesse sentido, interessa-me a intersecção das  categorias de gênero e raça, buscando examinar os modos como se traduziram tais categorias, em termos de experiência representada na literatura, em textos de autoria feminina e/ou em textos onde as relações de gênero e raça têm relevância na economia narrativa.

Além dessa pesquisa que venho desenvolvendo, dedico-me, no momento, a ministrar, juntamente com a supervisora de meu pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense, Professora Laura Padilha, um curso sobre memórias de guerras por vozes femininas, que dá continuidade a um trabalho que há tempo vem sendo desenvolvido por um grupo de pesquisadores (dentre os quais se inclui a professora Laura) sobre o motivo da guerra nas literaturas africanas. Este curso aborda o tema da guerra no âmbito do colonialismo português e de seus desdobramentos históricos, a partir do ponto de vista das mulheres. Através da leitura de textos portugueses e africanos de autoria feminina, propomos um jogo de espelhamentos entre estas diferentes representações, discutindo temas como memória, violência e  trauma.

Como avalia as literaturas africanas neste momento?

As literaturas africanas vêm conquistando atenção e prestígio crescentes no sistema literário de língua portuguesa. Até muito recentemente, apenas os especialistas conheciam e admiravam a produção literária de países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe. Hoje essas literaturas começam a ganhar mais relevância, a se difundir para fora do círculo restrito da academia, e a conquistar um público leitor efetivo. O que mais cativa esse novo público, creio, é a vitalidade, a força, a profunda vinculação com a experiência humana que essas literaturas trazem para seus leitores. Quando apresento os autores africanos aos meus alunos no Brasil, eles costumam se emocionar, e afirmam ter encontrado uma literatura capaz de lhes falar mais de perto, estabelecendo importantes laços de identidade com sua vivência pessoal.  E a isso se acrescenta um apurado trabalho de criação na linguagem, que instiga o leitor mais exigente.

Todo esse processo de ampliação do público leitor das literaturas africanas no universo da língua portuguesa produz um efeito muito positivo, que é o de dar a conhecer aos seus contemporâneos, dos mais diversos lugares, um pouco das culturas dos países africanos, o registro literário de suas vivências e de sua experiência histórica, além, é claro, de oferecer aos leitores a fruição de textos de grande qualidade estética.

Qual o lugar da literatura angolana no âmbito das literaturas produzidas nos países africanos onde se fala a língua portuguesa?

Um lugar de destaque, sem dúvida. Desde os tempos da luta de libertação (tomando este importante momento da história angolana como um marco significativo no impulso à produção literária), autores da importância como Luandino Vieira, Pepetela, Manuel Rui, e tantos outros, chamaram a atenção de leitores de vários países para o drama então vivido pelos angolanos, através de uma literatura pujante e de altíssima qualidade, que em muito ultrapassava o mero relato da experiência política, embora também fossem, é evidente, relatos movidos pela vontade política de mudança e de liberdade. Mas como disse, ultrapassavam a contingência do momento  vivido, e serviram como uma espécie de modelo para as demais literaturas africanas; é comum vermos, por exemplo, o relato de um  autor como Mia Couto, que declara a influência que Luandino Vieira teve sobre sua escrita literária. Hoje, num outro momento histórico, encontramos em autores mais recentes uma literatura que é sem dúvida herdeira dessa tradição de bons narradores e poetas angolanos, tradição essa que remonta, como sabemos, a períodos muito anteriores  à independência.

Gostaríamos, que estabelecesse uma relação entre as literaturas africanas produzidas em língua portuguesa e as outras veiculadas em francês e inglês.

É sabido que as literaturas africanas de línguas francesa e inglesa possuem uma tradição mais consolidada, se comparadas às literaturas de língua portuguesa, em termos de produção e recepção de seus textos, e possuem uma quantidade muito grande de autores, muitos deles consagrados junto ao público europeu e norte-americano. Contudo, é difícil estabelecer a comparação que me pede. Para tanto, seria preciso um domínio do corpus literário de cada uma dessas literaturas que eu, francamente, não possuo. Meu território, vamos dizer assim, tem sido o da língua portuguesa, e é dentro dele que me sinto razoavelmente confortável para emitir algumas opiniões, com base nas  leituras e reflexões que tenho feito ao longo desses anos em  que venho lecionando e pesquisando sobre essas literaturas.

Podemos falar de  angolanidade na nossa literatura? Em que medida se pode falar desta matriz e o que é isto de angolanidade?

Respondo às duas questões em conjunto. Creio que a reivindicação de uma ‘angolanidade’ à literatura angolana esteve muito ligada ao programa político de independência nacional. Não se pode discutir esse tema sem vinculá-lo estreitamente ao contexto histórico pós-independência, quando a construção de uma identidade nacional mobilizava todos os sujeitos da nação, especialmente os escritores, que haviam tomado parte ativa na luta anticolonial e ocupavam posições de destaque no novo governo. Hoje, contudo, percebo um certo anacronismo nesta discussão, já que o momento histórico é outro. Vivemos, em termos gerais, um momento de blocos internacionais, de redes transnacionais, onde se indagam identidades, pertenças e os muitos deslocamentos que a conjuntura globalizada nos impõe. Além disso, considero que a  ênfase na afirmação de uma identidade nacional pode ser bastante nefasta para uma literatura; há muito mais para se compreender nas admiráveis experiências humanas registradas na literatura angolana do que se elas são “autenticamente” angolanas ou não. Embora a idéia de nação exerça ainda um forte apelo sobre todos nós, e em grande parte de nossas vidas precisamos nos sentir ‘pertencendo’ a um lugar,  a uma comunidade, a uma nação, creio que, em alguns  momentos da cultura de um país, o  nacionalismo pode ser bastante problemático. O grande pensador  palestino Edward Said identificava no imperialismo europeu e nos nacionalismos do então chamado ‘terceiro mundo’, duas forças conservadoras que se alimentavam reciprocamente.

 Quais são os escritores angolanos com projeção internacional e por quê?

Há basicamente dois tipos de reconhecimento internacional. O primeiro deles é de natureza acadêmica, que atua na formação de leitores, na consolidação de uma crítica literária, na definição do que seria, digamos, o corpus de autores angolanos a conhecer, ler e estudar. No âmbito deste tipo de reconhecimento, encontram-se escritores angolanos que têm sido fortemente prestigiados por círculos cada vez maiores de leitores, como é o caso, por exemplo, de Luandino Vieira, Pepetela, Manuel Rui, Ana Paula Tavares, Ruy Duarte de Carvalho. Outra modalidade de projeção internacional se deve mais à atuação do mercado editorial, com suas estratégias de grande alcance midiático , que ampliam o público leitor, alargando suas fronteiras. É o caso de autores mais recentes, que têm se beneficiado grandemente dessas formas de contato com o público, movendo-se com desenvoltura na mídia e em outras formas de diálogo direto com os leitores, tais como debates, eventos literários, etc. São autores que vêm conquistando um público leitor mais amplo, e não necessariamente especializado. Dentre esses autores, eu destacaria, por exemplo, Ondjaki, José Eduardo Agualusa, João Melo. É importante destacar que não há nesta divisão ‘didática’ que traço nenhum julgamento de valor: o fato de um autor ser mais divulgado pelo mercado editorial, ou de outro ser mais restrito ao ambiente acadêmico, não implica maior ou menor  qualidade do trabalho artístico de um ou de outro. Não sou, absolutamente, uma purista neste aspecto. Acredito firmemente que há excelentes textos literários com boa circulação editorial e divulgação na mídia, assim como pode ocorrer a ‘canonização’, via academia e a crítica literária especializada, de textos e autores nem sempre relevantes. Cabe ainda destacar que a divisão que apontei sinaliza apenas uma tendência, mas não se trata de uma divisão estanque. Na verdade, pelo menos no Brasil, hoje, se verifica uma forte tendência a ‘misturar’ esses dois lados da divulgação dos autores; felizmente (pois quem ganha com isso sem dúvida é o leitor), os escritores consagrados pela academia circulam cada vez mais no meio editorial e na mídia, assim como os autores que já surgiram sob os auspícios das estratégias mercadológicas de divulgação  de suas obras, têm sido lidos de forma crescente pela academia, o que considero extremamente saudável do ponto de vista cultural.

Alguns estudiosos das literaturas africanas dizem que a literatura angolana ocupa um espaço privilegiado no conjunto das outras literaturas dos PALOP concorda?

Sim, acredito que a literatura angolana ocupa um lugar de bastante destaque dentre as literaturas de língua portuguesa. Isso se deve, ao meu ver, a uma tradição literária  que já se pode considerar bastante implantada em Angola, e também a uma quantidade expressiva de bons autores, que circulam internacionalmente. Eu não ousaria fazer comparações do tipo “este país tem muito maior destaque em sua literatura do que aquele”, mas acredito, sim, no caráter referencial que a literatura angolana assume contemporaneamente perante os demais países de língua portuguesa.

Em seu entender, como é que é possível ocupar esse lugar, quando há uma critica literária angolana bastante incipiente?

Trata-se de uma literatura muito pródiga em autores, e isso faz com que dialogue vivamente com a crítica de outros países, como é o caso do Brasil. As redes de contato e as constantes trocas culturais que se dão entre os escritores angolanos e os críticos e estudiosos brasileiros são, como se sabe, intensas e muito ricas. Além disso, a crítica literária voltada para as literaturas africanas de língua portuguesa não tem cessado de crescer em muitos outros países, o que permite que o diálogo da literatura angolana com seus estudiosos tenha um caráter transnacional muito interessante.

Para terminar, gostaríamos de ouvir que conselho daria aos estudantes angolanos que pretendem aderir à crítica e aos estudos das literaturas africanas?

Que se dediquem a ler seus autores com atenção e respeito por seu admirável trabalho. Que desfrutem do privilégio de possuírem uma literatura de grande qualidade, mantendo, contudo, um diálogo permanente com aquilo que está sendo produzido e discutido fora de seu país. Este parece ser um bom conselho: que não percam de vista os valores e a riqueza daquilo que pertence ao seu país, à sua cultura, mas que também não se restrinjam a isso, ou seja, que não se deixem jamais enclausurar dentro de sua própria experiência cultural e histórica.

Fonte: Buala