Mãe Stella de Oxóssi completa 91 anos

Ontem (02), Maria Stella de Azevedo Santos, a Mãe Stella de Oxóssi, completou 91 anos de idade. Mãe Stella é uma das mais importantes líderes espirituais e defensoras da igualdade racial e do respeito mútuo entre as religiões.

Iniciada no Candomblé em 1939, no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá (Salvador – BA), pela Iyalorixá Mãe Senhora (Oxum Muiwá), tendo por ela todas as obrigações completadas, ocupou o posto de Kolabá, assim designada no ano de 1964. Foi eleita Iyalorixá (Mãe de Santo), em 1976, sucedendo Mãe Ondina (Iwin Tonan).

Após visitar a Nigéria, em 1981, tornou-se a anfitriã da II Conferência Mundial de Tradição dos Orixá e Cultura, realizada em Salvador, dois anos depois. Participou ainda da terceira edição, ocorrida em Nova York (EUA), em 1986. No ano seguinte, Em 1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder religiosa.

Em 1999, Mãe Stella, após anos de luta, conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura (MinC).

Redigiu diversos artigos em jornais e revistas sobre as questões atinentes às comunidades de terreiro; foi convidada a participar em congressos acadêmicos voltados à questão da religiosidade. Recebeu vários prêmios de destaque, como a Medalha de Ordem ao Mérito da Cultura, do MinC, na classe Comendador, no ano de 1999. Publicou dois livros: Òwe – Provérbios (2007) e Epé Laiyé – Terra Viva (2009).

Para Cida Abreu, presidenta da Fundação Cultural Palmares (FCP), “a personificação de Mãe Stella simboliza a necessidade de afirmação e a resistência da população negra brasileira”.

A FCP, lançou em setembro de 2015, o selo e o carimbo personalizados em comemoração aos 90 anos de Mãe Stella de Oxóssi. A solenidade ocorreu no próprio Ilê Axé Opô Afonjá, no Cabula em Salvador. A iniciativa, realizada em parceria com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), fez parte de uma ação estratégica contra a intolerância religiosa.

“A homenagem significou o reconhecimento à força da resistência de uma matriarca, defensora da igualdade racial; do respeito mútuo entre religiões; da preservação da oralidade da religião de matriz africana, como patrimônio cultural ancestral afro-brasileiro”, enfatizou Cida Abreu.

Na ocasião, Mãe Stella pediu aos presentes que não permitisse que “o mundo em que vivemos se transforme, sem retorno, em uma sociedade de poetas mortos”.

Ainda em 2015, a Iyalorixá foi nomeada membro do Conselho Curador da Fundação Cultural Palmares, órgão colegiado presidido pela presidenta da Fundação Palmares e composto por dez membros nomeados pelo Ministro da Cultura, Juca Ferreira, para um mandato de três anos, com a finalidade de formular e propor metas norteadoras para o Sistema e o Fundo Nacional de Cultura.

 

Fonte: Palmares

Em novo álbum, Beyoncé desperta para questão racial

A cantora estadunidense Beyoncé causou rebuliço na internet com sua mais nova produção, o álbum-filme Lemonade, lançado neste sábado (23). Desde 2013, quando vazou um álbum visual sem divulgação prévia, a cantora vem fazendo de cada lançamento, um grande evento. Desta vez, seu sexto álbum de estúdio alcançou status de arte entre alguns críticos e público fiel ao apresentar-se de forma mais conceitual e, além disso, trazer um teor político, colocando em pauta questões acerca da representatividade de negras e negros nos Estados Unidos e no mundo.

Os versos que declama no vídeo como “I tried to change, closed my mouth more/ Tried to be soft, prettier/ Less…awake” (“Eu tentei mudar, me calar mais/ tentei ser mais branda, mais bonita/menos… desperta”, em tradução livre) já revelam uma Beyoncé que “acordou” para a questão racial e vem afirmando cada vez explicitamente sua origem negra. Em Lemonade, suas referências vão desde Billie Holliday, Nina Simone e Malcom X, às mães de jovens como Trayvon Martin e Michael Brown, assassinados pela polícia estadunidense em Ferguson.

Opinião

Mas essa auto-afirmação também gerou críticas. Em janeiro, quando a cantora apresentou a canção “Formation” durante o intervalo da final do Superbowl, horário mais nobre da televisão nos EUA, ela foi duramente criticada. No palco do evento, música, coreografia e figurinos carregavam uma série de referências à história do movimento negro, como os Panteras Negras, e faziam alusões à recente onda de violência no país.

Para a rapper brasileira Yzalú, “colocar um pessoal vestido de Black Panthers no Superbowl, onde a maioria do público é branca, é um tapa na cara”. Segundo ela, artistas como Beyoncé ou Rihanna fortalecem a cultura negra, mesmo dentro de uma forte lógica mercadológica. “Houve um momento que você não poderia falar que você era negro, não poderia dizer que você tem orgulho de ser negro. Hoje, esses artistas vem dando o recado: ‘nós nos orgulhamos, nós temos uma cultura. E essa cultura está viva'”, disse.

Já a tese de que o último movimento da cantora em direção às denúncias raciais seriam uma forma de apropriação das lutas é refutada por Djamila Ribeiro, mestre em Filosofia Política e feminista negra. “As críticas da militância aconteceu mais no Brasil, onde ainda temos uma visão muito ortodoxa de uma esquerda que ainda não entendeu a questão racial. A partir do momento que ela [Beyoncé] é negra, ela não está se apropriando, mas faz parte desta história de luta”, argumentou.

Segundo ela, muitos cobram uma postura de militante de uma cantora que, na verdade, é uma artista que está inserida em uma lógica capitalista. “Mas qual artista que não está? Então eles fuzilam a Beyoncé e ninguém fala do [Kendrick] Lamar, que também está e é garoto propaganda da Calvin Klein”, questiona.

Neste caso, Djamila acredita que a questão de representatividade se sobressai à indústria cultural. Ela pontua que “independente de ser uma mulher rica, ela é uma mulher negra” e sua imagem é de grande impacto para meninas e jovens negras que se sentem representadas em contextos de pouca presença de negros na mídia, sobretudo no Brasil.

Mesmo assim, a pesquisadora pondera: “a representatividade tem um limite, isso é inegável. Não basta ser negro ou negra e reproduzir lógica de opressão. Mas isso não quer dizer que ela não seja importante. E reconhecer os limites é diferente de ignorar sua importância”, disse. Ela exemplifica com o voto da deputada Tia Eron (PRB-BA) que votou a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados. “Não quer dizer que não é importante ter pessoas negras nos espaços de poder. Mas também não basta ser negra e corroborar com toda aquela lógica que nos oprimem. Mas no caso de Beyoncé, ela é uma artista que resolveu se posicionar. E eu acho importantíssimo quando o artista questiona seu tempo, para além de entreter”, afirma.

O mesmo afirma Yzalú, para quem a cantora estadunidense “chegou em um patamar” em que pode se desvencilhar dos desejos da indústria para falar do empoderamento negro e feminino. “E é extremamente propício para o momento que a sociedade vive nos EUA e também no Brasil, que consome muita música americana”, afirmou.

“Se ela usou toda essa influência para fazer este trabalho… ótimo. A gente precisa de representatividade e ela é uma figura forte para a mulher negra, que vem a cada dia nadando contra a maré para levantar sua voz. Uma mulher negra como a Beyoncé, a Rihanna e outros nomes simplesmente ascedem uma chama de esperança para gente. Precisamos de referências. Quanto mais a Karol Conká, da Flora Mattos, da Tassia Reis, Preta Rara, Luana Hensen, para mim é bom também. Isso é o que chamam de sororidade, né? Uma vem e puxa a outra. É cada vez mais importante nós mulheres negras estarmos coligadas, conectadas”, disse a rapper.

 

Fonte: Caros Amigos

Mestres de bateria vão participar de homenagem a mestre do candomblé

Foto (Foto: Arquivo)
Foto | Arquivo

Quatro Mestres do Carnaval Irão Homenagear o Mestre do Candomblé.

Quatro Grandes Mestres do Carnaval, Andrezinho, Ciça, Odilon e Marçalzinho irão fazer parte da Homenagem ao Ogan Bangbala na EXPO RELIGIÃO.

EXPO RELIGIÃO é uma feira Inter-religiosa que reúne vários segmentos religiosos. No último dia será dedicado as religiões de Matrizes Africanas. Como dia 10 é dia dos pais a homenagem será ao Ogan BangBala e os quatro mestres do carnaval serão responsáveis por esta homenagem, tocando juntos para o Mestre dos Mestres.

Serviço:

EXPO RELIGIÃO 2014

Local: Estação da Leopoldina

Endereço: Avenida Francisco Bicalho s/n – Centro – Rio de Janeiro

De 08 a 10 de Agosto 2014

Horário: 10h às 19h

Entrada: 1 KG de Alimento não perecível – Cada kg receberá 1 cupom para concorrer a 1 Moto 0KM quanto mais quilos mais chances de ganhar.

Telefone: 21-2437.7466

http://www.exporeligiao.com.br

Fonte: O Globo

Não me deem motivos

Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Tim Maia cantava: “Me dê motivos para ir embora.” Eu digo: Não me deem motivos para ir embora! Por favor, construam e exponham para mim argumentos suficientemente convincentes para que eu deseje permanecer em um mundo onde os seres humanos disputam sem nem mesmo saber pelo que estão disputando; onde creio que tantas pessoas estejam diariamente realizando “o bom combate”, mas os meios de comunicação insistem em mostrar o que de ruim a humanidade produz.
Não entrarei no lugar comum de culpar os meios de comunicação. Também não culparei a atração natural que nós humanos temos pela tragédia. Aliás, não culparei nada nem ninguém. Culpa não é um sentimento que tendo a imputar aos outros, muito menos a mim. Como costumo dizer, seriamente brincando com a gramática: somos o que somos em progressão crescente.
Pesquisamos e descobrimos o pedido que o cantor da banda Charlie Brown Jr. fazia cantando, também pedindo insistentemente: “Me Dê Motivos Pra Sonhar.” Chorão morreu, ou melhor, buscou o mundo de sonhos onde, provavelmente, jamais encontraria: nas drogas. Seu companheiro de banda, Champignon, também se matou, desta vez com um tiro, em 9 de setembro de 2013. Quando Champignon perdeu dois de seus companheiros de música e poesia, o vocalista Chorão e o guitarrista Peu Sousa, declarou:
“Os dois perderam a fé. Quando perdem a fé, perdem a vontade de viver. Foi mais um dia muito triste… Eu acho que as pessoas, em algum momento da vida, perdem a fé. Independentemente se morrem por droga, ou enforcadas. Se perdem a vida sem culpa de ninguém, acredito que em algum momento perderam a fé.”
O que estamos fazendo ou faremos para que outras pessoas sensíveis não mudem de dimensão porque esta daqui está insuportável para elas? Acordei no dia 8 de setembro de 2015 com uma imensa vontade de escrever sobre a insensibilidade com que são tratadas as pessoas mais sensíveis; com uma “querência” enorme de não viver em uma “sociedade de poetas mortos”. As palavras iam sendo escritas na mente quando me lembrei que, durante a noite, tinha recebido um aperto de mão de meu pai já falecido.
Compreendi que os seres de outra dimensão desejavam falar comigo. Quem seriam eles? – perguntei-me. Foi só no decorrer do texto que um nome surgiu em minha mente: Chorão. Pensei que esta palavra simbolizava o choro pelas perdas por morte, mas uma de minhas filhas lembrou-se do cantor acima referido e pesquisando na internet descobriu que no dia 9 de setembro de 2015 faria dois anos de morte de seu companheiro Champignon.
Minhas bênçãos, então, a todos que se foram por que não suportaram a dureza dos moradores de nosso planeta, acompanhada de um pedido, ou melhor, de uma súplica: Não permitamos que o mundo em que vivemos se transforme, sem retorno, em uma sociedade de poetas mortos. Cumprindo minha parte, encerro com um poema de Pablo Neruda: “Desde então, sou porque tu és. E desde então és sou e somos… E por amor Serei… Serás… Seremos…”

 

Fonte: A Tarde Online

Terreiro Pilão de Prata faz festa para o líder da casa – O babalorixá Air José festeja os 70 anos de iniciação no candomblé

Reprodução de chamada na capa do jorna em edição do último domingo. Foto: Reprodução

Cleidiana Ramos

Air José Souza é herdeiro de uma das grandes famílias do candomblé baiano, conhecida como Bamboxê Obitikô ou Bámgbósé Obítikó – em grafia original. No próximo mês, ele comemora, além dos 75 anos de idade, sete décadas de iniciação religiosa, uma marca significativa de longevidade e perseverança no culto aos orixás.
Em janeiro do próximo ano, a comunidade liderada por Pai Air tem mais uma celebração: os 55 anos de fundação do terreiro Pilão de Prata, outro integrante da rede de comunidades que são vinculadas à família Bamboxê.
Os outros são o terreiro Lajoumim, localizado no Engenho Velho da Federação, e o conhecido como Roça de Maria Júlia, situado em Luiz Anselmo. Além disso, a família tem fortes ligações com a Casa Branca do Engenho Velho da Federação, considerado o mais antigo terreiro de nação ketu do país.

Tradição
Pai Air é sobrinho biológico de Caetana Sowzer, ebomi da Casa Branca e ialorixá que fundou o terreiro Lajoumim. Ela foi sua mãe de criação e quem o iniciou no candomblé para o orixá Oxaguian, que é conhecido como a face mais jovem e guerreira de Oxalá.
“Embora tenha nascido e crescido dentro de um ambiente de terreiro, na juventude acabei abandonando os estudos e fui para o Rio de Janeiro”, conta.
Quando voltou para a Bahia, ele trouxe algumas pessoas que pensava em deixar sob os cuidados religiosos de Mãe Caetana. Mal sabia que estava traçando o próprio caminho de volta ao candomblé, agora como líder.
“Lembro que ela disse que queria me ver com anel no dedo, mas já que eu não tinha conseguido seguir por essa linha era hora de reencontrar meu destino. Começou a tomar as providências para que eu abrisse o Pilão de Prata ”, conta.
De uma casa simples, coberta de palha, o Pilão de Prata evoluiu para uma bela construção, o que traduz, de certa forma, uma marca de Pai Air, afinal os filhos de Oxaguian são conhecidos pelo forte valor que dão à perfeição.
“Meu pai lembra um leão quando se propõe a realizar alguma coisa, pois não desiste e tem força para estar até o fim em tudo. É líder e muito carismático”, define Carlos Augusto Marques, 68 anos, iniciado para Oxum por Pai Air há 39 anos.
Confirmado há quatro anos como ogã de Xangô, Igor Barbosa, 33 anos, filho de Oxóssi, destaca a liderança participava de Pai Air.
“Ele é um exemplo para toda a comunidade. É o primeiro a se levantar quando o dia começa e o último a deitar. Tudo que acontece no terreiro ele acompanha numa atenção impressionante. Tem controle sobre tudo e passa uma energia enorme”, diz.
Além dessas qualidades, logo no primeiro contato com Pai Air fica patente a elegância dele. Voz pausada, gestos suaves e uma postura que emana força, também é conhecido pelo bom gosto, principalmente para os trajes rituais.
“Quando viajo, minha preocupação é sempre olhar um tecido para o meu orixá e, também, para os dos meus filhos”, relata.
A elegância, aliás, é uma marca dos herdeiros de Bamboxê. Professor e religioso de candomblé, Jaime Sodré costuma dizer que eles guardam a tradição da alta-costura do povo de santo: beleza sem exageros.
O terreiro, inclusive, mantém o memorial Lajoumim, que exibe essa estética de bom gosto em trajes, acessórios, joias e esculturas.
“O nosso esforço é para guardar a memória”, diz o babalorixá, afirmando ter a certeza de que preservá-la tem sido a melhor homenagem aos ancestrais.

Família tem papel relevante na origem do candomblé

Na história oral e em pesquisas recentes sobre a organização do candomblé realizadas por estudiosos como Lisa Earl Castillo e Renato da Silveira, Bamboxê Obitikô, o tataravô do babalorixá Air José, aparece com participação ativa nos ritos de sedimentação do terreiro Casa Branca.
No texto Vida e Viagens de Bamboxê Obitikô, Lisa Earl Castillo conta que, na cerimônia do padê, em uma das orações, ele é reverenciado como Essa Obitikô.
“É uma grande responsabilidade manter a herança dessa família”, diz Pai Air. Além de um alto sacerdote do culto a Xangô, Bamboxê – que tinha o nome civil de Rodolpho Martins de Andrade – era também babalaô, título usado pelos iniciados para Ifá, divindade dos oráculos, e esteve próximo a Mãe Aninha na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá.
A filha Maria Júlia Martins Andrade manteve a tradição da família, principalmente na formação do filho Felisberto Américo Sowzer, conhecido como Benzinho, que, assim como o avô, tornou-se babalaô.
Na Casa Branca, a família Bamboxê se manteve com Caetana Sowzer, consagrada a Oxum e que fundou, em 1941, o terreiro Lajoumim bem próximo de onde está a Casa Branca. Mãe Caetana é tia e mãe de criação de Pai Air.
Aspectos dessa história serão detalhados em uma série de eventos que vão acontecer no próximo mês: seminário e sessões especiais na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, além de um show cultural.
Em novembro, deve ocorrer mais um ciclo de palestras e, em janeiro, o lançamento de um livro.

 

 

Fonte: A Tarde Online

Artista cria ‘Simpsons negros’ contra racismo nos EUA

Em referência a mortes de negros pela polícia, imagens mostram Bart Simpson morto sobre um gramado e a estátua da Liberdade mascarada.
Artista cria 'Simpsons negros' contra racismo nos EUA (Foto: Divulgação/Alexsandro Palombo/BBC)Artista cria ‘Simpsons negros’ contra
racismo nos EUA (Foto: Divulgação/
Alexsandro Palombo/BBC)

 

Um artista italiano recriou personagens do desenho Os Simpsons, símbolo da cultura pop norte-americana, para trazer atenção internacional a supostos episódios recentes de racismo nos Estados Unidos.

Na série de obras publicadas no Facebook pelo chargista Alexsandro Palombo, a pele amarela de Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie Simpson ganha tonalidade mais escura. As tiras trazem mensagens como “Pare com o racismo”, “Justiça” e “Policiais nunca dormem”.

Uma das sequências mais comentadas retrata Bart Simpson fugindo de um policial armado e depois morto sobre um gramado.

As ilustrações fazem referência à morte de Walter Scott, um homem negro de 50 anos, morto pelas costas por um policial branco na Carolina do Sul, no início de abril. Também remetem à morte do garoto Tamir Rice, de 12 anos, baleado em Cleevland, em novembro passado, quando brincava com uma pistola de brinquedo.

“Esta série visa denunciar acontecimentos raciais inacreditáveis que ocorreram recentemente”, diz o artista, que vive em Milão, ao #SalaSocial. “Estamos vivendo um perigoso retrocesso e, se os Estados Unidos não reagirem ao racismo, não serão mais o país da liberdade e dos sonhos, mas o país da opressão e da injustiça.”

‘I can’t breathe’
Além dos casos Scott e Rice, as imagens também reconstroem a morte de Erick Garner, de 43 anos, assassinado em julho do ano passado. Contido por um policial na rua, sob suspeita de vender cigarros ilegalmente, ele era asmático e não resistiu a um “mata leão”. Garner gritou: “Não consigo respirar” pelo menos duas vezes, de acordo com relatos. Morreu no hospital.

Em frente a uma estátua da Liberdade coberta por uma máscara cônica da Ku Klux Klan, a família Simpson é retrada com as bocas cobertas pela mensagem “Não consigo respirar” – a frase também foi mote de uma intensa campanha nas ruas e nas redes sociais após a morte de Garner.

“Os Simpsons são um símbolo norte-americano exatamente como a estátua. Eu quis colocá-los juntos para expor as contradições da América Moderna e seus problemas raciais”, diz o artista italiano. “As imagens da morte de Scott e do sufocamento de Garner são horríveis, incivilizadas. Isso é uma violência louca, inaceitável.”

Questionado sobre riscos de enfrentar processos legais pela apropriação dos traços dos Simpsons, Alexsandro diz que diz que o uso de figuras icônicas “é parte de sua linguagem artística”.

“Eu capto estes personagens em uma maneira totalmente diferente e nova. São visões minhas, arte contemporânea, então não há irregularidade legal”, afirma.

 

Fonte: G1

O Racismo é um tabu em Portugal, entrevista a Mamadou Bâ

O SOS Racismo Portugal luta contra o racismo através de interpelações políticas e civis. Esta conversa parte de um encontro em Lisboa com Mamadou Bâ, membro da direção nacional da associação.

Pode resumir-nos a história das imigrações em Portugal?

Portugal, historicamenente, é mais um país de emigração do que de imigração, exceto entre 1996 e 2005. Nessa época, grandes obras públicas obrigam Portugal a apelar à mão-de-obra estrangeira. As regularizações em massa, a partir de 1993, atraem africanos de outros países da Europa. A partir de 2005, com a crise, Portugal deixa outra vez de ser um país de imigração. Os migrantes vêm dos PALOP, do Senegal, da Guiné, do Brasil e da Europa de leste.

Qual é a filosofia de integração em Portugal: assimilação à francesa, comunitarismo ou anglossaxonica?

Na altura da Revolução dos Cravos em 1974, não se discutiu sobre a relação com as antigas colónias. A filosofia oficial permaneceu a do mito do lusotropicalismo*. Em Portugal, a palavra racismo é um tabu.

Mamadou Bâ
Mamadou Bâ

Como nasceu o SOS Racismo Portugal?

O SOS Racismo nasce em 1990, depois do assassinato, em 1989, de José Carvalho, um militante antirracista branco. Os skinheads de extrema-direita reivindicaram o crime.

Quais são as vossas relações com os outros SOS Racismo?

O SOS Racismo existe também em França, Austria, Itália e Noruega. Cada um tem a sua cultura própria, consoante as suas realidades nacionais. Nós tínhamos relações com SOS Racismo França, mas rompemo-las em 2001 por divergências.

Como é que vocês atuam?

Organizamos debates nas escolas. Intervimos também por meio de petições, manifestos, pondo as associações de imigrantes em rede, dando visibilidade à diversidade cultural para contrabalançar a influência da extrema-direita.

Quais foram as vossas principais vitórias?

A lei contra a discriminação racial em 1999 no seguimento de uma petição de SOS racismo. E a lei sobre a nacionalidade, em 2006. Em Portugal, não basta ter nascido no território para ter direito à nacionalidade. Há crianças imigrantes que se encontram sem nacionalidade. A lei de 2006 resolveu alguns casos, mas é incompleta.

Há outros movimentos antirracistas?

Há também a Frente antirracista. E existem imensas associações de imigrantes de carácter cultural. Também começam a surgir associações de 2ª geração mais politizadas, como a Plataforma Gueto.

Pensa que, hoje, na sociedade portuguesa, há menos racismo?

Eu não diria que o racismo diminuiu. Em contrapartida, assiste-se a mais conquistas do espaço público pelas minorias étnicas. Mas o Parlamento ainda conta apenas com um negro. Estruturalmente, o Estado e o país continuam a ser racistas. E isso não irá desaparecer enquanto não se abrir um debate nacional sobre o racismo, sem crispação nem tabu.

*O lusotropicalismo

Teoria do antrpólogo brasileiro Gilberto Freyre, do princípio do século XX: Portugal seria por essência uma nação mestiça. Esta retórica persiste no imaginário de numerosos portugueses, que recusam abordar a questão do racismo, percebido como ausente da sociedade «por essência».

 

Fonte: Buala