Mestres de bateria vão participar de homenagem a mestre do candomblé

Foto (Foto: Arquivo)
Foto | Arquivo

Quatro Mestres do Carnaval Irão Homenagear o Mestre do Candomblé.

Quatro Grandes Mestres do Carnaval, Andrezinho, Ciça, Odilon e Marçalzinho irão fazer parte da Homenagem ao Ogan Bangbala na EXPO RELIGIÃO.

EXPO RELIGIÃO é uma feira Inter-religiosa que reúne vários segmentos religiosos. No último dia será dedicado as religiões de Matrizes Africanas. Como dia 10 é dia dos pais a homenagem será ao Ogan BangBala e os quatro mestres do carnaval serão responsáveis por esta homenagem, tocando juntos para o Mestre dos Mestres.

Serviço:

EXPO RELIGIÃO 2014

Local: Estação da Leopoldina

Endereço: Avenida Francisco Bicalho s/n – Centro – Rio de Janeiro

De 08 a 10 de Agosto 2014

Horário: 10h às 19h

Entrada: 1 KG de Alimento não perecível – Cada kg receberá 1 cupom para concorrer a 1 Moto 0KM quanto mais quilos mais chances de ganhar.

Telefone: 21-2437.7466

http://www.exporeligiao.com.br

Fonte: O Globo

Não me deem motivos

Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Tim Maia cantava: “Me dê motivos para ir embora.” Eu digo: Não me deem motivos para ir embora! Por favor, construam e exponham para mim argumentos suficientemente convincentes para que eu deseje permanecer em um mundo onde os seres humanos disputam sem nem mesmo saber pelo que estão disputando; onde creio que tantas pessoas estejam diariamente realizando “o bom combate”, mas os meios de comunicação insistem em mostrar o que de ruim a humanidade produz.
Não entrarei no lugar comum de culpar os meios de comunicação. Também não culparei a atração natural que nós humanos temos pela tragédia. Aliás, não culparei nada nem ninguém. Culpa não é um sentimento que tendo a imputar aos outros, muito menos a mim. Como costumo dizer, seriamente brincando com a gramática: somos o que somos em progressão crescente.
Pesquisamos e descobrimos o pedido que o cantor da banda Charlie Brown Jr. fazia cantando, também pedindo insistentemente: “Me Dê Motivos Pra Sonhar.” Chorão morreu, ou melhor, buscou o mundo de sonhos onde, provavelmente, jamais encontraria: nas drogas. Seu companheiro de banda, Champignon, também se matou, desta vez com um tiro, em 9 de setembro de 2013. Quando Champignon perdeu dois de seus companheiros de música e poesia, o vocalista Chorão e o guitarrista Peu Sousa, declarou:
“Os dois perderam a fé. Quando perdem a fé, perdem a vontade de viver. Foi mais um dia muito triste… Eu acho que as pessoas, em algum momento da vida, perdem a fé. Independentemente se morrem por droga, ou enforcadas. Se perdem a vida sem culpa de ninguém, acredito que em algum momento perderam a fé.”
O que estamos fazendo ou faremos para que outras pessoas sensíveis não mudem de dimensão porque esta daqui está insuportável para elas? Acordei no dia 8 de setembro de 2015 com uma imensa vontade de escrever sobre a insensibilidade com que são tratadas as pessoas mais sensíveis; com uma “querência” enorme de não viver em uma “sociedade de poetas mortos”. As palavras iam sendo escritas na mente quando me lembrei que, durante a noite, tinha recebido um aperto de mão de meu pai já falecido.
Compreendi que os seres de outra dimensão desejavam falar comigo. Quem seriam eles? – perguntei-me. Foi só no decorrer do texto que um nome surgiu em minha mente: Chorão. Pensei que esta palavra simbolizava o choro pelas perdas por morte, mas uma de minhas filhas lembrou-se do cantor acima referido e pesquisando na internet descobriu que no dia 9 de setembro de 2015 faria dois anos de morte de seu companheiro Champignon.
Minhas bênçãos, então, a todos que se foram por que não suportaram a dureza dos moradores de nosso planeta, acompanhada de um pedido, ou melhor, de uma súplica: Não permitamos que o mundo em que vivemos se transforme, sem retorno, em uma sociedade de poetas mortos. Cumprindo minha parte, encerro com um poema de Pablo Neruda: “Desde então, sou porque tu és. E desde então és sou e somos… E por amor Serei… Serás… Seremos…”

 

Fonte: A Tarde Online

Terreiro Pilão de Prata faz festa para o líder da casa – O babalorixá Air José festeja os 70 anos de iniciação no candomblé

Reprodução de chamada na capa do jorna em edição do último domingo. Foto: Reprodução

Cleidiana Ramos

Air José Souza é herdeiro de uma das grandes famílias do candomblé baiano, conhecida como Bamboxê Obitikô ou Bámgbósé Obítikó – em grafia original. No próximo mês, ele comemora, além dos 75 anos de idade, sete décadas de iniciação religiosa, uma marca significativa de longevidade e perseverança no culto aos orixás.
Em janeiro do próximo ano, a comunidade liderada por Pai Air tem mais uma celebração: os 55 anos de fundação do terreiro Pilão de Prata, outro integrante da rede de comunidades que são vinculadas à família Bamboxê.
Os outros são o terreiro Lajoumim, localizado no Engenho Velho da Federação, e o conhecido como Roça de Maria Júlia, situado em Luiz Anselmo. Além disso, a família tem fortes ligações com a Casa Branca do Engenho Velho da Federação, considerado o mais antigo terreiro de nação ketu do país.

Tradição
Pai Air é sobrinho biológico de Caetana Sowzer, ebomi da Casa Branca e ialorixá que fundou o terreiro Lajoumim. Ela foi sua mãe de criação e quem o iniciou no candomblé para o orixá Oxaguian, que é conhecido como a face mais jovem e guerreira de Oxalá.
“Embora tenha nascido e crescido dentro de um ambiente de terreiro, na juventude acabei abandonando os estudos e fui para o Rio de Janeiro”, conta.
Quando voltou para a Bahia, ele trouxe algumas pessoas que pensava em deixar sob os cuidados religiosos de Mãe Caetana. Mal sabia que estava traçando o próprio caminho de volta ao candomblé, agora como líder.
“Lembro que ela disse que queria me ver com anel no dedo, mas já que eu não tinha conseguido seguir por essa linha era hora de reencontrar meu destino. Começou a tomar as providências para que eu abrisse o Pilão de Prata ”, conta.
De uma casa simples, coberta de palha, o Pilão de Prata evoluiu para uma bela construção, o que traduz, de certa forma, uma marca de Pai Air, afinal os filhos de Oxaguian são conhecidos pelo forte valor que dão à perfeição.
“Meu pai lembra um leão quando se propõe a realizar alguma coisa, pois não desiste e tem força para estar até o fim em tudo. É líder e muito carismático”, define Carlos Augusto Marques, 68 anos, iniciado para Oxum por Pai Air há 39 anos.
Confirmado há quatro anos como ogã de Xangô, Igor Barbosa, 33 anos, filho de Oxóssi, destaca a liderança participava de Pai Air.
“Ele é um exemplo para toda a comunidade. É o primeiro a se levantar quando o dia começa e o último a deitar. Tudo que acontece no terreiro ele acompanha numa atenção impressionante. Tem controle sobre tudo e passa uma energia enorme”, diz.
Além dessas qualidades, logo no primeiro contato com Pai Air fica patente a elegância dele. Voz pausada, gestos suaves e uma postura que emana força, também é conhecido pelo bom gosto, principalmente para os trajes rituais.
“Quando viajo, minha preocupação é sempre olhar um tecido para o meu orixá e, também, para os dos meus filhos”, relata.
A elegância, aliás, é uma marca dos herdeiros de Bamboxê. Professor e religioso de candomblé, Jaime Sodré costuma dizer que eles guardam a tradição da alta-costura do povo de santo: beleza sem exageros.
O terreiro, inclusive, mantém o memorial Lajoumim, que exibe essa estética de bom gosto em trajes, acessórios, joias e esculturas.
“O nosso esforço é para guardar a memória”, diz o babalorixá, afirmando ter a certeza de que preservá-la tem sido a melhor homenagem aos ancestrais.

Família tem papel relevante na origem do candomblé

Na história oral e em pesquisas recentes sobre a organização do candomblé realizadas por estudiosos como Lisa Earl Castillo e Renato da Silveira, Bamboxê Obitikô, o tataravô do babalorixá Air José, aparece com participação ativa nos ritos de sedimentação do terreiro Casa Branca.
No texto Vida e Viagens de Bamboxê Obitikô, Lisa Earl Castillo conta que, na cerimônia do padê, em uma das orações, ele é reverenciado como Essa Obitikô.
“É uma grande responsabilidade manter a herança dessa família”, diz Pai Air. Além de um alto sacerdote do culto a Xangô, Bamboxê – que tinha o nome civil de Rodolpho Martins de Andrade – era também babalaô, título usado pelos iniciados para Ifá, divindade dos oráculos, e esteve próximo a Mãe Aninha na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá.
A filha Maria Júlia Martins Andrade manteve a tradição da família, principalmente na formação do filho Felisberto Américo Sowzer, conhecido como Benzinho, que, assim como o avô, tornou-se babalaô.
Na Casa Branca, a família Bamboxê se manteve com Caetana Sowzer, consagrada a Oxum e que fundou, em 1941, o terreiro Lajoumim bem próximo de onde está a Casa Branca. Mãe Caetana é tia e mãe de criação de Pai Air.
Aspectos dessa história serão detalhados em uma série de eventos que vão acontecer no próximo mês: seminário e sessões especiais na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, além de um show cultural.
Em novembro, deve ocorrer mais um ciclo de palestras e, em janeiro, o lançamento de um livro.

 

 

Fonte: A Tarde Online

Artista cria ‘Simpsons negros’ contra racismo nos EUA

Em referência a mortes de negros pela polícia, imagens mostram Bart Simpson morto sobre um gramado e a estátua da Liberdade mascarada.
Artista cria 'Simpsons negros' contra racismo nos EUA (Foto: Divulgação/Alexsandro Palombo/BBC)Artista cria ‘Simpsons negros’ contra
racismo nos EUA (Foto: Divulgação/
Alexsandro Palombo/BBC)

 

Um artista italiano recriou personagens do desenho Os Simpsons, símbolo da cultura pop norte-americana, para trazer atenção internacional a supostos episódios recentes de racismo nos Estados Unidos.

Na série de obras publicadas no Facebook pelo chargista Alexsandro Palombo, a pele amarela de Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie Simpson ganha tonalidade mais escura. As tiras trazem mensagens como “Pare com o racismo”, “Justiça” e “Policiais nunca dormem”.

Uma das sequências mais comentadas retrata Bart Simpson fugindo de um policial armado e depois morto sobre um gramado.

As ilustrações fazem referência à morte de Walter Scott, um homem negro de 50 anos, morto pelas costas por um policial branco na Carolina do Sul, no início de abril. Também remetem à morte do garoto Tamir Rice, de 12 anos, baleado em Cleevland, em novembro passado, quando brincava com uma pistola de brinquedo.

“Esta série visa denunciar acontecimentos raciais inacreditáveis que ocorreram recentemente”, diz o artista, que vive em Milão, ao #SalaSocial. “Estamos vivendo um perigoso retrocesso e, se os Estados Unidos não reagirem ao racismo, não serão mais o país da liberdade e dos sonhos, mas o país da opressão e da injustiça.”

‘I can’t breathe’
Além dos casos Scott e Rice, as imagens também reconstroem a morte de Erick Garner, de 43 anos, assassinado em julho do ano passado. Contido por um policial na rua, sob suspeita de vender cigarros ilegalmente, ele era asmático e não resistiu a um “mata leão”. Garner gritou: “Não consigo respirar” pelo menos duas vezes, de acordo com relatos. Morreu no hospital.

Em frente a uma estátua da Liberdade coberta por uma máscara cônica da Ku Klux Klan, a família Simpson é retrada com as bocas cobertas pela mensagem “Não consigo respirar” – a frase também foi mote de uma intensa campanha nas ruas e nas redes sociais após a morte de Garner.

“Os Simpsons são um símbolo norte-americano exatamente como a estátua. Eu quis colocá-los juntos para expor as contradições da América Moderna e seus problemas raciais”, diz o artista italiano. “As imagens da morte de Scott e do sufocamento de Garner são horríveis, incivilizadas. Isso é uma violência louca, inaceitável.”

Questionado sobre riscos de enfrentar processos legais pela apropriação dos traços dos Simpsons, Alexsandro diz que diz que o uso de figuras icônicas “é parte de sua linguagem artística”.

“Eu capto estes personagens em uma maneira totalmente diferente e nova. São visões minhas, arte contemporânea, então não há irregularidade legal”, afirma.

 

Fonte: G1

O Racismo é um tabu em Portugal, entrevista a Mamadou Bâ

O SOS Racismo Portugal luta contra o racismo através de interpelações políticas e civis. Esta conversa parte de um encontro em Lisboa com Mamadou Bâ, membro da direção nacional da associação.

Pode resumir-nos a história das imigrações em Portugal?

Portugal, historicamenente, é mais um país de emigração do que de imigração, exceto entre 1996 e 2005. Nessa época, grandes obras públicas obrigam Portugal a apelar à mão-de-obra estrangeira. As regularizações em massa, a partir de 1993, atraem africanos de outros países da Europa. A partir de 2005, com a crise, Portugal deixa outra vez de ser um país de imigração. Os migrantes vêm dos PALOP, do Senegal, da Guiné, do Brasil e da Europa de leste.

Qual é a filosofia de integração em Portugal: assimilação à francesa, comunitarismo ou anglossaxonica?

Na altura da Revolução dos Cravos em 1974, não se discutiu sobre a relação com as antigas colónias. A filosofia oficial permaneceu a do mito do lusotropicalismo*. Em Portugal, a palavra racismo é um tabu.

Mamadou Bâ
Mamadou Bâ

Como nasceu o SOS Racismo Portugal?

O SOS Racismo nasce em 1990, depois do assassinato, em 1989, de José Carvalho, um militante antirracista branco. Os skinheads de extrema-direita reivindicaram o crime.

Quais são as vossas relações com os outros SOS Racismo?

O SOS Racismo existe também em França, Austria, Itália e Noruega. Cada um tem a sua cultura própria, consoante as suas realidades nacionais. Nós tínhamos relações com SOS Racismo França, mas rompemo-las em 2001 por divergências.

Como é que vocês atuam?

Organizamos debates nas escolas. Intervimos também por meio de petições, manifestos, pondo as associações de imigrantes em rede, dando visibilidade à diversidade cultural para contrabalançar a influência da extrema-direita.

Quais foram as vossas principais vitórias?

A lei contra a discriminação racial em 1999 no seguimento de uma petição de SOS racismo. E a lei sobre a nacionalidade, em 2006. Em Portugal, não basta ter nascido no território para ter direito à nacionalidade. Há crianças imigrantes que se encontram sem nacionalidade. A lei de 2006 resolveu alguns casos, mas é incompleta.

Há outros movimentos antirracistas?

Há também a Frente antirracista. E existem imensas associações de imigrantes de carácter cultural. Também começam a surgir associações de 2ª geração mais politizadas, como a Plataforma Gueto.

Pensa que, hoje, na sociedade portuguesa, há menos racismo?

Eu não diria que o racismo diminuiu. Em contrapartida, assiste-se a mais conquistas do espaço público pelas minorias étnicas. Mas o Parlamento ainda conta apenas com um negro. Estruturalmente, o Estado e o país continuam a ser racistas. E isso não irá desaparecer enquanto não se abrir um debate nacional sobre o racismo, sem crispação nem tabu.

*O lusotropicalismo

Teoria do antrpólogo brasileiro Gilberto Freyre, do princípio do século XX: Portugal seria por essência uma nação mestiça. Esta retórica persiste no imaginário de numerosos portugueses, que recusam abordar a questão do racismo, percebido como ausente da sociedade «por essência».

 

Fonte: Buala

O samba era visto como instrumento político, de aglutinação e controlo das massas, entrevista a Nei Lopes

Em 1942 a Música Popular Brasileira ganharia novos rumos com o nascimento de Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Paulinho da Viola. De todos esses talentosos nomes, quisemos conhecer um pouco da vida e obra deste senhor que dá voz às questões da negritude brasileira. Quem disse que intelectual não samba?

Nei Lopes é a prova de que, para pensar a música, pode-se também compor e cantar e, para pensar a origem das palavras, pode-se escrever. As culturas africanas, no continente de origem e na Diáspora, têm estado na matriz da sua reflexão, que muito contribuiu para conhecermos melhor as ligações culturais e históricas entre o Brasil e África.

Porque resolveu centrar a sua obra na temática africana e afro-descendente?

Desde muito cedo, ainda na pré-adolescência, chamou a minha atenção a má imagem daqueles a que então chamávamos de “pretos” e “mulatos”, na sociedade brasileira. Nos jornais e revistas que folheava, eu só os via em situações desvantajosas ou deploráveis; e mesmo os “artistas” e desportistas eram sempre focalizados de uma maneira condescendente e paternalista, como simpáticas excepções a uma regra geral desagradável. Senti isso desde muito cedo. E o que era pior: a minha família, de operários pobres (e embora eu tivesse irmãos de pele mais escura) deixava transparecer um certos alívio por nós não sermos “pretos” e sim “mulatos”, porque éramos pobres mas não miseráveis. Bem cedo eu percebi também que a aparência da minha família nuclear – mãe, pai e doze filhos, dos quais eu era o caçula (olha aí uma palavra banto-brasileira!) – mostrava uma evidente origem africana. Origem essa que, mais tarde, sem nenhuma certeza, passei a situar, empiricamente, na África Austral, por alguns traços de fisionomia. Muito cedo, repito, esse tipo de preocupação ocupou o meu pensamento.

foto de Daniel Ramalho Foto de Daniel Ramalho

E qual foi o primeiro contacto que teve com a música na sua vida?

Nos anos 50, na escola secundária, me aproximei bem mais de colegas pretos e mulatos, por uma afinidade natural; e o elo maior, já que não era bom de futebol, foram as batucadas do samba que preenchiam os nossos momentos de folga. Um desses colegas era de uma família ligada à escola de samba Académicos do Salgueiro; outro era filho de um militar da Marinha, que viajara ao exterior e tinha discos de jazz e música afro-cubana. Por aí então minha iniciação musical e existencial, aberta pelos violões e cavaquinhos que eu ouvia em casa, começou a tomar forma. Até que, no final da década de 60, através de meu primeiro casamento, me aproximei de pessoas que pensavam a questão negra politicamente. Assim, a africanidade que já me seduzia pela estética, passou a me tomar também pela consciência de que aquilo que me incomodava desde o início tinha de mudar. Até que me tornei profissional da música em 1972 e em 1981 publiquei o meu primeiro livro, sempre querendo entender melhor as questões e propor alguma coisa no sentido da transformação. Por isso é que meus livros, até hoje, são instrumentos e ferramentas de trabalho que eu produzo e disponibilizo; e meus poemas e canções (a maior parte não aceite pelo mercado) são, quase sempre, de consciencialização e denúncia, quando não são crónicas do quotidiano, irónicas e sarcásticas. O lirismo é mais questão de sobrevivência.

É conhecido como a “voz do samba” e da “consciência negra”, revê-se nesses atributos?

Eu não sou a única voz do samba nem da consciência negra. Mas fico feliz em ser reconhecido como uma dessas vozes.

Que relação ao longo da História se tem vindo a desenhar entre o Brasil e Angola?

Estive em Angola em 1987, com um grupo levado por Martinho da Vila. Conheci Luanda, Benguela e Lubango (na Huíla). Acho uma pena que a quase totalidade dos brasileiros desconheça os laços históricos e culturais que unem o Brasil a Angola. Se nós conseguíssemos a efectiva implantação da Lei 10.639, que obriga o ensino de História e Cultura da África nas escolas (sancionada mas sempre obstaculizada, principalmente pelo activismo neopentecostal) daríamos um grande passo nesse sentido. Principalmente se tirássemos o foco no escravismo (que para mim é apenas uma circunstância, um nexo causal; e cuja lembrança ainda faz muito mal às mentes em formação) e começássemos a contar a História desde o reino do Congo, que impactou os portugueses, chegando até à fundação da cidade do Rio de Janeiro e à guerra contra os holandeses, com todos aqueles personagens comuns aos dois países. Bom, também se nos fixássemos na importância económica das nossas relações nessa época, a qual levou àquela celebre frase do Padre Vieira: “Sem Angola não há negros e sem negros não há Pernambuco”.

Tem contacto com artistas e intelectuais angolanos, sente familiaridade nisso? Como foram as conversas públicas com Pepetela e Agualusa?

Conheço um pouco e converso por e-mail, de vez em quando, com o Agualusa, sempre atencioso e simpático; e de quem já li quase tudo, com bastante prazer, pois sua ficção me agrada muito, pela temática e pelo estilo. Com o Pepetela, dividi uma “mesa” numa Bienal do Livro, mas só trocamos cumprimentos e poucas palavras. Ele me passou a impressão de muita timidez. Mas eu, um pouco menos tímido, o presenteei com uns dois ou três livros meus, que ele não deve ter lido. De minha viagem a Angola, me ficou a amizade do Manuel Rui, que já me mandou livros de lá e que veio a um lançamento meu, uns três anos atrás. Na música fui surpreendido, um dia, com um DVD no qual o cantor Paulo Flores cantava “Gostoso Veneno”, um samba de minha autoria com Wilson Moreira, popularizado na voz da querida cantora Alcione.

Que imagem possui ainda o senso comum brasileiro sobre África?

Respondo com a tragicómica observação feita por um velho carioca, metido a sabichão, mostrada num filme documentário sobre o samba: “A África é um ‘país’ muito pobre, meu filho!” – disse ele, exemplificando o que o senso comum, por aqui, até hoje ainda entende como África. Lamentavelmente.

No Dicionário Banto do Brasil, que saiu em 2001, levanta interessantes hipóteses etimológicas para vocábulos do português do Brasil com influência das línguas bantu. Dê exemplos, como se processou esse contágio?

As hipóteses etimológicas que eu levanto têm por base inicial a minha familiaridade com resquícios de falares africanos desde a infância. O meu pai nasceu em Fevereiro de 1888 e minha mãe em Maio de 1900. Os padrinhos e madrinhas de meus doze irmãos e irmãs eram todos negros (pretos ou pardos, como nós) e velhos. Os carinhosos cognomes ou alcunhas (no Brasil, “apelidos”) desses irmãos e de alguns outros parentes eram ecos indiscutíveis de reminiscências africanas. Veja só: Jimbo, Tonga, Noco, Sioca, Xunha, Zeca, Mavílis, Dica, Juca, Vando, Biri… Nossa fala quotidiana estava impregnada de palavras que mais tarde descobri serem de procedência africana e muito principalmente de origem banta (bantu).

foto de Felipe Varanda Foto de Felipe Varanda

Por exemplo?

Lá em casa, quando um animal ou uma criança nascia muito frágil e doente, como foi o meu caso, os velhos achavam que não ia “vingar”. E esse verbo aí, para mim, não tem nada a ver com “exercer vingança” e sim com o quicongo vinga, herdar, suceder. Da mesma forma, o “indez” com que se qualificava a criança manhosa, chorona, não tem nada com “índice” como alguém já afirmou, e sim com o quicongo ndezi, criança. Os velhos falavam “banto” sem sentir! Tudo isso se explica pela anterioridade da presença banta no Brasil, em relação aos africanos de outras procedências; pela prevalência absoluta da importação de trabalhadores do centro-oeste africano para o trabalho escravo no Brasil; e pela disseminação dessa presença por frentes de trabalho criadas em quase todo o vasto território brasileiro face às exigências dos diversos ciclos económicos: da cana de açúcar, no sudeste e nordeste; do ouro, nas Minas Gerais; do café, no sudeste, etc, além do ciclo das charqueadas, no extremo sul, e do desenvolvimento da pecuária em várias regiões. O antropólogo Jan Vansina chamou a atenção para isso; e qualificou os bantos como os “ancestrais esquecidos” dos negros, em todas as Américas.

Uma presença que deixou muitas marcas…

Uma presença muito forte, visível no léxico, em praticamente todos os campos semânticos. Inclusive, há quem diga que o brasileiro comum, como os meus mais-velhos, fala “banto” sem saber, em palavras como: marimbondo, camundongo, cuíca, samba, carimbo, sunga, bunda, cachaça, maconha, dengo, dengue, cochicho, umbanda etc. São palavras de todo o dia, de todo o lugar, e de todo o Brasil.

Em que consistiu o projeto “Ouro Negro”, de homenagem ao maestro Moacir Santos? Quem era ele?

O maestro Moacir Santos, que se radicou nos Estados Unidos nos anos 60, era um negro pernambucano. Aclamado lá fora, seus temas melódicos, incluídos até em filmes de Hollywood, receberam letras de famosos autores norte-americanos. Mas ele achava que muitas delas eram apenas funcionais, não transmitindo o que a música dele queria dizer. Já no final da vida, ele exteriorizou essa insatisfação aos produtores do projeto “Ouro Negro”, então em curso, no qual uma grande orquestra, formada por conhecidos músicos brasileiros, gravou 28 de suas obras. Para minorizar a insatisfação do Maestro em relação às letras, os produtores selecionaram cinco para receberem novos textos. E o saudoso produtor Paulinho Albuquerque, um dos maiores impulsionadores da minha carreira, me indicou como letrista capaz de resolver a questão. Então, na posse de um resumo autobiográfico do grande músico, tive a honra de criar novas letras para as cinco canções, que antes se chamavam April Child, Luanne etc. E elas, evocando as raízes de Moacir Santos, a sua africanidade e as suas inquietações existenciais passaram a se chamar: Odudua (cantada por João Bosco); Maracatu Nação do Amor (Gilberto Gil); Sou eu (Djavan); Navegação (Milton Nascimento) e Orfeu (Ed Motta).

Em 2012 fez um depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, que disse de mais relevante?

No depoimento do MIS-RJ, eu falei da minha vida, da minha trajectória profissional, dos meus parceiros, do meu processo criativo… De tudo o que pude e de que me lembrei…Falei também da discriminação contra o samba, que, além de ser estética, é também uma expressão do racismo brasileiro. Imagine você que tem gente, hoje, dizendo que o samba não é um património do povo afrobrasileiro. Observe que eu falo de “património”, sem qualquer pretensão de uma “reserva de mercado”, para os afrodescendentes, no ambiente do samba. O depoimento durou mais de quatro horas; e, pelo que dizem, está disponível na Internet. Você não quer aceder?

Conte-nos um pouco como era o Rio na década de 50 do ponto de vista do negro, que poderemos ler no seu livro Rio Negro 50

O livro ainda está no prelo, com lançamento previsto, pela Editora Record, para 2015. Ele procura mostrar, através de várias tramas simples, que se entrecruzam, o que foi, na cidade do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, a década de 1950, do ponto de vista dos afrodescendentes. Foi o tempo do Teatro Experimental do Negro e da companhia de danças étnicas “Brasiliana”, de fama internacional; da fundação do Renascença Clube, uma associação recreativa da classe média negra; da revolução estética negrista da escola de samba Académicos do Salgueiro, que inclusive se exibiu em Havana, a convite do governo revolucionário de Fidel Castro; da Copa do Mundo de 1950 (cujo final, trágico, em que se culparam os negros pelo fracasso, deflagra a linha principal do romance); do surgimento de Pelé; da peça teatral Orfeu da Conceição que gerou o filme Orfeu Negro; dos luxuosos espectáculos musicais do produtor Carlos Machado, nos quais o samba tinha papel importante. A década foi também a do suicídio do presidente Getúlio Vargas, após um crime que teve como mandante o chefe de sua segurança, conhecido como o “Anjo Negro”; foi também a do planejamento do, então, maior assalto da História brasileira, o do “Trem Pagador” tendo como mentor e executor o famigerado Tião Medonho, um bandido negro. A década foi, ainda, tempo de forte repressão ao candomblé, que ameaçava, pelo prestígio conquistado entre a intelectualidade; e do início da cooptação da umbanda, pelo branqueamento. Foi muita coisa! E está tudo lá no romance.

Também refere uma “pequena África” no Rio de Janeiro, que lugar é esse?

A “Pequena África” é um espaço, não contínuo, no antigo centro da cidade, que abrigava a comunidade emigrada da Bahia, antiga capital do Império do Brasil, e que foi o principal nascedouro das tradições de matriz africana no Rio, como o samba e os candomblés, além de ser o último reduto das tradições islâmicas dos negros no Brasil, é cenário de outro dos meus romances: Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova (Rio, Editora Língua Geral, 2009).

Quais são as principais matrizes africanas que contagiaram a música e cultura brasileiras afinal? 

A africanidade brasileira assenta, basicamente, nos conteúdos advindos do centro-oeste africano (de Congo, Luanda e Benguela) e do Golfo da Guiné (dos actuais Nigéria, Benin, Togo e Gana). Mas presenças de civilizações da Contracosta índica (Moçambique) e da região da Senegâmbia são também detectáveis. Esses “contágios”, como você diz, são perceptíveis no léxico e também em muitas tradições culturais.

Em que se traduz a grande diferença entre as civilizações conguesa e iorubana?

A grande diferença é que a civilização conguesa procedeu a um contágio amplo, enquanto que a iorubana, em conjunto com a daomeana (jeje, chamada arará em Cuba), deixou a sua marca a partir da religiosidade, que inclusive contribuiu para uma reconfiguração da tradição religiosa conguesa no Brasil. Através dela foi que se formataram os candomblés “de Congo” e “de Angola”, criações tipicamente brasileiras. A tradição daomeana também foi muito importante do ponto de vista religioso: graças a ela o actual estado do Maranhão tornou-se, ainda no século XIX, um raro repositório do culto a ancestrais da família real do antigo reino do Daomé, na actual República do Benin.

Porque a MPB se distancia dessas matrizes africanas? 

O samba urbano, nascido na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, constitui uma amálgama de vários tipos de sambas e batuques praticados por africanos em várias regiões do Brasil; e, por isso, foi reprimido e perseguido. Entretanto, quando passou a ser visto como instrumento político, de aglutinação e controlo das massas populares, passou a ser consumido como arte do povo e acabou reconhecido como género musical. Aí, nasce a música popular brasileira, que tem o samba como sua espinha dorsal. E, aí, também, o “produto” samba (reconhecido como bem económico, gerador de direitos, inclusive patrimoniais) começa a ser deliberadamente desafricanizado, afastado de suas raízes ancestrais. Prova disso é a dicotomia aí criada, distinguindo o “samba do rádio” do “samba de morro”, que é o das comunidades afrodescendentes. O “do rádio” privilegiava os instrumentos harmónicos em detrimento da percussão; e isso culminou com a bossa-nova (de início rotulada como “samba moderno”) que baniu da sua estética instrumentos que remetessem ao samba primordial, como pandeiro, tamborim, cuíca (aclimatação da mpwita congo-angolana), cavaquinho (machete) etc. O cantor João Gilberto, consolidador do estilo, fez releituras de muitos sambas antigos, inclusive “de morro”, mas sem a percussão característica. O compositor e pianista Tom Jobim declarou, nos momentos iniciais da bossa-nova que a polirritmia do samba dificultava sua compreensão no plano internacional; e, aí, a percussão foi praticamente banida.

foto de Adriana Lorette Foto de Adriana Lorette

Diz que as músicas do Caribe têm uma relação mais intensa com essas origens, porque será?

Essa, no meu entender, é a grande diferença entre a estratégia de expansão global da música cubana em relação à brasileira. Os cubanos expõem aberta e claramente suas raízes musicais africanas, inclusive com repertórios marcados por musicas de inspiração religiosa afro, e fazendo uso intenso e saudável de tambores e outros instrumentos percussivos. Os brasileiros costumam usar um tipo de percussão tímida, que eu chamo de “envergonhada”, o que tem sido altamente prejudicial. Restaram as escolas de samba, com as suas gigantescas e electrizantes orquestras rítmicas, varias delas dirigidas por verdadeiros maestros “do morro”. Infelizmente, elas são aprisionadas no estreito âmbito da música de Carnaval, relegadas ao gueto espaço-temporal dos “sambódromos”, os quais, absurda e inexplicavelmente, só são palco de espectáculos de samba nos três dias de Carnaval.

Etimologicamente samba vem de uma língua bantu, eventualmente dos quioco (chokwe) ou bacongos, há várias teorias mas a ideia de umbigada é central, certo? E o semba, qual é a ligação?

Na minha opinião, o verbo semba (que em quimbundo tem, entre outros, o sentido de “galantear, agradar, encantar”, e em quicongo se traduz como “reverenciar, honrar” etc.), é a raiz do substantivo “semba”, que denomina a dança angolana. Nela, a mesura que o cavalheiro tradicionalmente faz, diante da dama é, sem dúvida, um gesto de galanteio reverente. Corrija-me, se estou enganado! Já nas danças de roda banto-brasileiras, o gesto é mais um entrechoque de ventres, na clássica umbigada, e de peitos. Daí, alguns estudiosos terem buscado a etimologia do termo “samba” em uma outra acepção do verbo semba que é a de “separar, apartar”, ocorrente na língua bunda (mbunda), do grupo Chokwe-Lunda, correspondente no quioco (chokwe) a semba “cortar, separar”. Aí, no meu entender, estaria o étimo remoto do brasileiro “samba”, palavra aliás que já está no dicionário, por exemplo, no chokwe e em outras línguas, assim mesmo, como em português, para designar um tipo de dança. No quimbundo, a palavra, de sonoridade semelhante que talvez se aproxime da ideia de “umbigo” ou “umbigada” é nzemba, colo, regaço. Por outro lado, observe que, no quimbundo, o verbo “separar” se traduz como –batuka, de onde teriam provindo “batucar” e “batuque”. A discussão é longa. Mas é muito interessante, não é?

Sim. E qual é a relação do samba e do fado com o lundu?

Neste caso, eu vejo, sem nenhuma certeza, que o lundu chorado, difundido no Brasil do século XVIII, pode ter influenciado o fado em Portugal, através do poeta, cantador e violeiro Domingos Caldas Barbosa. Quanto ao samba, o lundu mais repinicado e menos chorado, certamente contribuiu para sua formação. Tanto que, no ambiente rural baiano, pelo menos até à década de 1960, ainda existia um tipo de lundu, à base de viola e pandeiro, cuja coreografia, individual, se desenvolvia com passos complexos, como o do samba “de morro”.

Em que altura e como surge o candomblé e a umbanda?

Antes do candomblé e da umbanda, houve no Brasil o “calundu”, forma de religiosidade que não se expressava coletivamente. O termo nasceu, pelo que aprendi, do quimbundo kilundu, espírito (plural: kalundu). E estar “de calundu” (como minha mãe dizia) ou “com seus calundus” era estar amuado, com um mal estar ou um mau-humor sem causa aparente, atribuído, pelos ritualistas, à ação de um ou mais espíritos insatisfeitos por não estarem sendo reverenciados com agrados e oferendas. Então, a denominação da indisposição, pretensamente causada por “calundus” estendeu-se à ação utilizada para neutralizá-la. Daí a expressão “quilombo de calundu”, designativa de cada um dos locais onde os “exorcistas”, digamos assim, punham em prática a sua profilaxia, com banhos, defumações e outros rituais, destinados a afastar a negatividade. A chegada massiva ao Brasil de africanos do Golfo da Guiné, desde a passagem para o século XIX, trouxe uma religiosidade organizada colectivamente, com hierarquia sacerdotal, doutrina, liturgia, local fixo de culto e, consequentemente, um corpo de seguidores. E isso, pelo que se depreende, atraiu a atenção dos antigos “calunduzeiros”, que teriam não só aderido a essas novas formas de culto, como efetivamente reorganizado o modo de cultuar suas entidades protetoras, principalmente bantas, como foi o caso da “cabula”, prática assinalada no atual estado do Espírito Santo, no sudeste brasileiro, no final da época imperial.

O que é a cabula? 

A cabula, certamente uma resultante do “catolicismo angolano”, originado no reino do Congo, entre os séculos XV e XVI, é, com certeza, a velocidade inicial da umbanda (do quimbundo umbanda, arte de curandeiro), a qual, curiosamente, gerou uma vertente conhecida como “quimbanda”. Já a forma proveniente do Golfo da Guiné originou, a partir do modelo jeje-nagô, as diversas modalidades do que hoje se conhece como “candomblé”. Vale a pena acrescentar que, em, Cuba, as resultantes das matrizes bantas (congo), iorubanas (lucumí) e jejes (arará), embora também sobreponham elementos católicos, não se confundem, como no Brasil, parecendo guardar mais fidelidade às suas respectivas matrizes.

No processo de reafricanização do Carnaval em São Salvador da Bahia, qual foi o papel dos afoxés e dos blocos afro?

Em Salvador, os afoxés e principalmente os blocos afro surgiram precisamente como propostas expressas para reafricanizar o carnaval baiano, buscando a retomada das características africanas que ele apresentava no final do século XIX. E isto se deveu à reaglutinação dos movimentos negros a partir da década de 70, como ressonância da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Mas, apesar do sucesso internacional do bloco afro Olodum, por exemplo, os meios de comunicação preferem, hoje, o “Carnaval-show” das estrelas da televisão e do disco, que raramente são afrodescendentes.

Que outros elementos mais visíveis deixaram os africanos na cultura brasileira, além da língua e da música?

A tradição do candomblé me impressiona muito, da mesma forma que a santería (ou regla de ocha, culto aos orixás) cubana. Em ambos os ambientes cultuam-se, de modo idêntico, com os mesmos cânticos, cantados com resíduos de línguas africanas, mas identificáveis em sua essência. É impressionante constatar que essas práticas, palavras e músicas estão no Brasil, em Cuba e em outros países das Américas desde pelo menos a metade do século XIX, há quase duzentos anos. É a maior prova da continuidade africana, sobrevivendo a todas as tentativas de extermínio; e se recriando.

É comum falar-se de uma grande originalidade no sincretismo cultural e religioso brasileiro…

“Sincretismo” é uma palavra perigosa, assim como “mestiçagem”. Muitas vezes essas duas palavras são usadas para diminuir a importância das verdadeiras matrizes. Na religião, por exemplo, é preciso ter em conta que, muitas vezes, o culto a determinados orixás é muito mais antigo que o dos santos católicos a que eles são associados. E, no geral, querer “rejuvenescer” a cultura popular, sob a visão de que a cultura de massa é superior porque vem de fora é muito pouco saudável. O bom é fazer conviverem, sim, mas cada coisa em seu devido lugar. Esta é a minha opinião.

Saiu recentemente um estudo da ONU que conclui que o racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado. A par disso, como tem crescido o movimento negro e a contestação ao racismo?

O racismo no Brasil, que afeta acima de tudo a afrodescendência, é uma erva daninha, daquelas que você mata hoje aqui, mas amanhã ela aparece ali, com outro aspecto. As modernas entidades do movimento negro vêm da década de 70. E na seguinte, as suas demandas começaram a ser canalizadas para repartições públicas criadas nos âmbitos municipais, estaduais e federais. Em 1995, o presidente da República admitiu publicamente que o Brasil é um país racista; e o assunto parecia entrar com força na pauta governamental. Após a Conferência Mundial contra o racismo, realizada na África do Sul, o novo governo, atendendo a uma antiga demanda do movimento negro, criou uma secretaria, com estatuto de ministério, para promover a “igualdade racial”. Entretanto, todos esses órgãos, sobretudo pela falta de orçamentos adequados, jamais conquistaram admiração e prestígio. E do ponto de vista legislativo, são raros os congressistas afrodescendentes efectivamente eleitos pelo voto das entidades negras ou, pelo menos, comprometidos com a causa. No momento em que escrevo estas linhas, o Brasil está na iminência de eleger, como presidente da República, uma mulher afrodescendente, nascida de mãe negra e pai branco, como ela mesma declarou antes das eleições de 2010. Entretanto, nem ela nem ninguém tocam neste assunto. Isso é um tabu, e certamente não convém a ela, neste momento, exibir essa condição. Nem ela é, pelo que sei, representante de nenhum sector do movimento – aliás bastante ausente do processo legislativo, embora, como disse Frei David Santos, um de nossos maiores lutadores pelas acções afirmativas, o eleitorado afrodescendente some hoje 55 por cento do total de votantes. A candidata afrodescendente não apresentou programa específico para o povo negro, o que, diante do crescimento deste contingente, de que eu faço parte, e sua lenta mas crescente inclusão no sistema social, causa estranheza.

Publicado originalmente no Rede Angola.

Fonte: Buala

Que maus atos não quebrem vasos

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Fonte: Mundo Afro