Ministério Público da Bahia pede a candidatos que respeitem crença religiosa

A pouco mais de duas semanas para o início das campanhas eleitorais nos municípios, o Ministério Público (MP) da Bahia recomendou aos candidatos e aos partidos que respeitem, na propaganda eleitoral, a liberdade de crença religiosa.

Segundo a recomendação, os candidatos a prefeito e a vereador não devem praticar a intolerância religiosa, o que incita o ódio, e devem evitar o preconceito contra qualquer religião, em especial, as de matrizes africanas, a exemplo do candomblé e da umbanda. Cabe aos partidos a fiscalização do conteúdo das propagandas políticas veiculadas em todos os meios de comunicação.

O documento do Ministério Público leva em conta a possibilidade da repetição de um caso ocorrido em 2014, quando foi reportado ao Grupo de Atuação Especial de Promoção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação, do Ministério Público da Bahia, ato de intolerância religiosa praticado por um candidato.

Outro fator citado na recomendação é a Constituição Federal, que assegura a todo brasileiro o direito à crença e ao livre exercício do culto religioso. O não cumprimento da recomendação pode gerar penalidades como a tomada de “providências cabíveis pelos Promotores Eleitorais e pelo Ministério Público do Estado da Bahia”, diz a recomendação.

 

Fonte: Agência Brasil

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“Como assim Kãgfér não é brasileiro?”: a luta de pais por nomes indígenas e africanos

Engenheiro enfrentou resistência ao registrar filhos com nomes da tribo indígena kaingang, à qual ele pertence
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Engenheiro enfrentou resistência ao registrar filhos com nomes da tribo indígena kaingang, à qual ele pertence

Nas duas vezes em que foi registrar seus filhos, o engenheiro agrônomo Julio Cezar Inácio ouviu o mesmo argumento: Kasóhn (pronuncia-se Kaxói) e Kãgfér (pronuncia-se Konfer) não eram nomes brasileiros. Criou-se um problema, pois Inácio não só é brasileiro, como é indígena da tribo kaingang. Na língua de seus ancestrais, o nome do mais velho, hoje com 11 anos, significa árvore de espinhos. O do segundo, de dois anos, significa orvalho.

“Como podem dizer que não é um nome brasileiro? Eu sou índio, essa é a língua dos meus pais, e eu também sou brasileiro. Justamente porque me chamo Julio Cezar quero que meus filhos tenham apenas nomes indígenas, para valorizar essa identidade”, diz o agrônomo, que vivia na terra indígena Serrinha, no Rio Grande do Sul, e há oito anos mudou-se para a cidade catarinense de Xanxerê.

Inácio insistiu e registrou os meninos com o nome tribal, direito garantido aos indígenas pela resolução 3/2012, emitida pelo Conselho Nacional de Justiça e pelo Conselho Nacional do Ministério Público.

De acordo com essa norma, o indígena, viva em aldeia ou cidade, pode ser registrado, se desejar, com seu nome de origem. A etnia pode ser lançada como sobrenome, se a família assim quiser. Por exigência do cartório, o nome do segundo filho de Inácio perdeu o acento agudo no “e”, para se adequar ao padrão do português. “Descaracterizou um pouco, mas tudo bem”, conforma-se Inácio, que terá de retirar o acento no registro feito na Funai. Segundo ele, problemas assim ainda são comuns na região.

Dúvidas

Criador do Instituto Kame, organização não-governamental que trabalha com projetos de habitação para povos indígenas, Inácio é casado com uma italiana. Ela aceitou bem os nomes kaingang para as crianças, que têm também o sobrenome materno.

Inácio quer agora incluir em seu registro no cartório o nome indígena pelo qual é chamado em família, M?g No (pronuncia-se Man Do e significa um tipo de abelha). No Rio de Janeiro, o casal Cizinho Afreeka (nome adotado pelo funcionário público Moacir Carlos da Silva) e Jéssica Juliana de Paula da Silva teve de recorrer à Justiça para registrar a filha como Makeda (pronuncia-se Makêda) Foluke.

Segundo pesquisa feita pelos pais, Makeda vem do amárico, língua adotada na Etiópia, e era como se chamava a rainha de Sabá, figura mítica mencionada na Torá, no Velho Testamento e no Alcorão. Foluke, em iorubá, significa “colocada aos cuidados de Deus”.

O Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais do 2º Distrito de São João de Meriti entendeu que o nome Makeda suscitava dúvidas, de acordo com o previsto na Lei 6.015/73 (Lei de Registros Públicos). Em seu artigo 55, a lei afirma que os oficiais do registro civil não registrarão “prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores”. Caso os pais não aceitem a recusa, o assunto deve ser levado ao juiz competente.

“Não houve preconceito. Entendemos que o nome poderia dar margem a uma leitura errada, má queda, por exemplo. Suscitou dúvida, seguimos o que diz a lei, consultamos o juiz”, afirmou à BBC Brasil Luiz Fernando Eleutério Mestriner, titular do cartório.

O Ministério Público sugeriu que fosse agregado outro prenome. A decisão judicial indeferiu o registro de Makeda Foluke, permitindo que ele fosse usado desde que houvesse outro prenome.

Os pais não cederam. O advogado Hédio Silva Júnior, especializado na questão racial, recorreu ao Conselho de Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Argumentou que o nome resultava do desejo dos pais e, embora incomum, nada trazia de ilícito, grotesco, aberrante ou vexatório. O Conselho deu ganho de causa à família. Em 16 de junho, três meses depois de seu nascimento, Makeda Foluke foi registrada com o nome escolhido pelos pais.

Estudiosa do tema, Maria Celina Bodin de Moraes, professora de direito Civil na PUC-Rio e na Uerj, entende que não há preconceito na reação do cartório ao nome Makeda. Ao contrário, percebe preocupação em seguir a lei para evitar a repetição de casos que, no passado, transformavam as crianças em alvo de chacota.

“Considero importante que haja algum tipo de controle legal sobre isso, e foi essa a intenção do legislador: evitar casos absurdos e proteger a criança, que não pode ser entendida como propriedade dos pais”, afirma.

Homenagem

A advogada Makeda Soares, de 26 anos, ainda se lembra do tempo em que, na escola, os professores estranhavam e usavam seu outro prenome, Luanna. Hoje quem manda no próprio nome é ela, que só se apresenta como Makeda. “Meu pai conta que queria homenagear a mãe África. Adoro esse nome”, diz a advogada, que foi procurada pela família da recém-chegada Makeda.

A homenagem à rainha de Sabá também motivou as empresárias negras Shirley e Sheila Oliveira a batizarem como Makeda Cosméticos sua empresa de produtos para cabelos crespos. Sheila até incorporou Makeda a seu nome social.

“O que ficou flagrante nesse caso foi a associação do nome africano como algo distante da brasilidade, nesse país que tem a maioria de sua população negra. É uma flagrante negação da nossa identidade. Também destaco a associação do nome de origem africana à molecagem, às coisas ruins, como má queda, ou até de duplo sentido”, argumenta Silva Júnior, que citou em seu recurso o direito dos indígenas de usarem nomes de sua etnia. Militante do movimento negro, Silva Júnior também teve dificuldades para registrar o filho como Kayodê – que, em iorubá, significa “aquele que traz honra e alegria”. Mas conseguiu.

Fonte: UOL

MPE vê discriminação e cobra Prefeitura para isentar IPTU de templos de umbanda

Recomendação ainda prevê a anulação de dívidas referentes ao imposto e se estende a terreiros de candomblé

Sede do MPE-MS, em Campo Grande. (Foto: Arquiva)
Sede do MPE – MS, em Campo Grande

A Prefeitura de Campo Grande poderá isentar e anistia de débitos do IPTU (Imposto Predial, Territorial e Urbano) de templos religiosos de umbanda e candomblé, isto se cumprir a recomendação do MPE-MS (Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul), publicada nesta quinta-feira (14) no Diário Oficial da instituição.

Para o Ministério Público, a Prefeitura discrimina esses templos religiosos ao cobrar o imposto, cuja isenção é garantida por lei. “A secretaria de Receita não está atentando para as especificidades organizacionais religiosas, ocasionando verdadeira discriminação destas religiões, o que inclusive pode ocasionar, em tese, em crime”.

Endereçada ao secretário municipal de Receita, o documento prevê “a remissão de débitos tributários e extinção de eventuais execuções fiscais referentes ao IPTU de imóveis”, cujos proprietários declarem que utilizam os imóveis como templos religiosos e que atendam à documentação prevista em decreto municipal sobre o assunto.

O Ministério Público leva em consideração a proibição, prevista na Constituição Federal, de cobrança de qualquer imposto sobre patrimônio, renda e serviços dos templos de “qualquer culto”. A ideia seria que a regra abrangesse todas as religiões, o que não estaria ocorrendo em Campo Grande.

Conforme a recomendação, a secretaria de Receita estaria exigindo de terreiros de umbanda e candomblé documentos como estatuto de constituição da instituição, a ata de posse da diretoria e o CNPJ. Para o MPE, tais documentações “estão fora da realidade da maciça maioria dos templos que cultua religiões de matrizes afro-brasileiras”, pois se ancoram em aspectos de organização informal e não institucionalizadas, muitas vezes, realizando cultos em imóveis particulares, sendo o sacerdote ou pai de santo, o próprio morador, não possuindo, portanto, pessoa jurídica constituída.

Há informações de imóveis que são utilizados como templos para religiões de matrizes afro-brasileiras e que, mesmo assim, encontram-se com débitos inscritos em dívida ativa no Município, de acordo com a recomendação. Inclusive, com ações de execução contra os proprietários, em fase de penhora.

Ao Município, o MPE pede também que exija somente a documentação prevista para isenção do IPTU, que seria declaração do responsável, prova de que o imóvel é utilizado como tempo para culto religioso, o que poderá ser fiscalizado pela Prefeitura. Em 30 dias, o Executivo Municipal terá de responder se acata ou não a recomendação.

Na prática, a recomendação dá ao Município a prerrogativa de decidir se cumpre ou não. Caso não for aceita, o Ministério Público poderá ingressar com uma ação civil pública na Justiça. O Campo Grande News procurou o secretário de Receita, Disney Fernandes, mas o celular estava desligado.

 

Fonte: Campo Grande News

Padre e mãe de santo unem esforços para defender um antigo Ilê do estado

Na contramão das animosidades com adeptos de religiões de matriz africana, ambos mostram que a fé vence a intolerância

WILSON AQUINO

Rio – Nenhuma crença é tão perseguida no Brasil quanto as religiões de matrizes africanas. Os seguidores da Umbanda e Candomblé, principalmente, são classificados como “filhos do diabo”; seus templos sagrados são profanados, e sua devoção é desrespeitada. Segundo relatório da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, das cerca de mil denúncias registradas no Rio de Janeiro, entre 2011 e 2015, mais de 70% foram de crimes praticados contra religiões afro-brasileiras.

Diante desse quadro de tanta incompreensão, a amizade entre um padre e uma mãe de santo, na Baixada Fluminense, soa como uma prece. Vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Nilópolis, Athailton Jorge Monteiro Belo, o Frei Tatá, devota profunda admiração e respeito pela yalorixá Regina Lúcia Fortes dos Santos, a mãe Regina. E a recíproca é verdadeira. Os dois estreitaram a relação durante o processo de tombamento da casa sagrada da yalorixá, o Ilê Axé Opô Afonjá, criado há 130 anos na Pedra do Sal, na Região Portuária do Rio, e que funciona desde a década de 1940 no bairro Coelho da Rocha, em São João de Meriti. Foi a primeira vez no Estado do Rio que um terreiro de candomblé é reconhecido por sua importância histórica, cultural e etnográfica.

Frei Tatá cumprimenta a mãe de santo Regina dos Santos no Ilê Axé Opô Afonjá, Coelho da Rocha, que acumula 130 anos de história

Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia

“Frei Tatá é incansável para o Candomblé. O que tiver que fazer, ele fará. Tenho certeza disso”, disse mãe Regina, que recebeu a visita do padre, em seu terreiro, na quarta-feira. “A Yá nos procurou, e a gente levou para o estado, que acolheu, reconhecendo o valor dessa casa, que é tão importante quanto uma igreja matriz”, afirmou o padre, que fez questão de agradecer ao governador Francisco Dornelles, que assinou o processo. A Constituição brasileira diz que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Existe até uma lei (7.716/89) que considera crime a intolerância religiosa e prevê pena de prisão.

O problema é que essa não é uma questão para a polícia resolver. “Não quero que ninguém vá preso. A coisa tem que acontecer do ponto de vista pedagógico. Não amamos aquilo que não conhecemos. Isso passa pelas escolas”, adverte o padre, preocupado com “o clima de ódio e indiferença”.

As religiões afro-brasileiras não têm um documento escrito, uma bíblia, onde poderiam estar registrados sua história e seus rituais. “A tradição vai sendo passada oralmente”, explica mãe Regina, que aprendeu os rituais com mãe Cantu, que por sua vez seguia mãe Agripina, pupila de mãe Aninha, fundadora do Axé. Ao longo de décadas, essas mulheres enfrentaram o preconceito, a ignorância e a brutalidade em nome da fé.

“Tanto que mãe Agripina dizia: vamos bater palmas baixinho para quem passasse na rua não ouvisse. Botavam as crianças na frente para brincar e fazer barulho para abafar o som dos atabaques lá atrás”, diz mãe Regina, comparando as épocas. “Talvez hoje esteja pior porque a gente sofre intolerância de todo o jeito. E antigamente era só a polícia”.

Rio 2016 pode ter atabaques

Autoridades federais inconformadas com a iniciativa do Comitê Organizador da Rio 2016 de deixar as religiões afro-brasileiras de fora do centro ecumênico da Vila Olímpica estão se mexendo para reverter a decisão. A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram a inserção das religiões de matriz africana no centro inter-religioso. O Comitê da Rio 2016 já explicou que o Comitê Olímpico Internacional (COI) é o responsável pelo centro e que priorizou as cinco religiões mais seguidas pelos atletas que participarão das competições com base em levantamento estatístico: cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo. Mesmo assim, o MPF deu ao Comitê prazo até amanhã para adotar a providência. Para o MPF, o critério demográfico adotado pelo Comitê Organizador é razoável, mas ignora o peso de outras religiões na cidade e no país que sediará os Jogos.

A desfeita às religiões afro acontece em plena Década Internacional de Afrodescendentes, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o período entre 2015 e 2024. Um dos objetivos é justamente promover maior conhecimento e respeito pelo patrimônio diversificado, a cultura e a contribuição de afrodescendentes para o desenvolvimento das sociedades. A cidade-sede dos Jogos conta com 392 terreiros, 196 deles na zona oeste, principal região das competições.

Fonte: O DIA

Sacrifício animal: alimento sagrado para religiões afro

No Brasil, as religiões de matriz africana são perseguidas desde que chegaram às terras do pau-brasil, no início do século 16. Mais de 500 anos depois, apesar de na teoria a Constituição Brasileira garantir que o país é um Estado laico e resguardar a liberdade de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos pela Legislação Federal, ainda há muito chão a se conquistar na prática.

Visto como algo penoso pela sociedade, o sacrifício de animais, para adeptos do Candomblé e de outras religiões oriundas da África, representa uma troca de energia vital com os deuses e com a natureza.

De acordo com o último censo do IBGE, de 2010, menos de 1% da população brasileira pratica as religiões de matrizes africanas. O balanço detalha ainda que há cerca de 407 mil praticantes da umbanda, 167 mil do candomblé e cerca de 14 mil de outras religiões com diretrizes africanas.

Em uma pesquisa divulgada pelo Instituto Pew Research Center, com sede nos Estados Unidos, 5,2 bilhões de pessoas, 75% da população do mundo,] vivem em locais com restrições a crenças.

Para o Candomblé, o sacrifício animal e a alimentação dos adeptos são pilares essenciais na perpetuação da religião. “Nós comemos diferente porque fomos escravizados e obrigados a comer coisas que não comíamos na África. Descobrimos nesses alimentos temperos e valores diferenciados, mas que tinham um grande sabor”, explica Mãe Elza de Iemanjá, do terreiro Ilê Asé Egbé Awo, localizado em Salgadinho, Olinda.

Para ela, o preconceito e a desinformação são empecilhos para o entendimento da prática da imolação dos bichos. “Somos demonizados. Isso é uma grande hipocrisia. O ato de se alimentar é uma necessidade para se manter vivo. Cada tradição e cada país come de uma maneira diferente”, argumenta a religiosa.

Historicamente contestadas, as religiões afro­brasileiras têm de enfrentar combates também no campo político. Em 2015, entrou em votação o projeto de lei (PL 21/2015) da Deputada Estadual Regina Becker (PDT) do Rio Grande do Sul, que visa proibir o sacrifício de animais em rituais religiosos. Especialista no estudo das religiões afro­brasileiras, o doutorando Cauê Fraga, explica que é impossível que o culto aos orixás seja realizado sem o abate dos animais.

“O orixá não existe sem se alimentar. O sangue é o alimento mais forte, por excelência, o orixá só é assentado [quando se cria local para o culto ao orixá] através do sangue. E não existe a religião sem orixá, porque eu acredito que esses orixás não estão dispostos a deixar de comer”, diz o estudioso. Nas cerimônias de liturgia dos cultos, após alimentar o orixá, grande parte do animal sacrificado é consumida entre os presentes no culto.

Defensora animal critica “seitas africanas”

Para a a ativista da causa animal Goretti Queiroz, o sacrifício de animais em cultos religiosos deveria ser considerado crime. “Eu acho um absurdo que os animais sejam alvo de maus-tratos por parte dessas seitas africanas. Eu vejo isso como um crime. Outras religiões oferecem pra frutas e vegetais pra entidades, acho que tem que ser por esse caminho. Acredito na espiritualidade dos animais e acho inaceitável essas cerimônias, principalmente em locais públicos”, explicou.

Por outro lado, o pesquisador de religião e mídia Evandro Bonfim contesta a visão da ativista. “A argumentação das entidades de proteção aos animais geralmente são fundamentadas em um evolucionismo, taxando os rituais como obscurantistas, e um universalismo, como se as relações das pessoas com os animais – e os deuses – fossem as mesmas que encontramos no capitalismo ocidental”, salienta.

Ele assevera que a ideia de tornar crime o sacrifício de animais é puramente racista. “É importante perceber como velhas ideias entram novamente em pauta, cassando direitos como a liberdade religiosa de grupos secularmente perseguidos justamente por tentarem resistir ao apagamento de tudo que realizaram como povo, como é o caso das diversas etnias africanas que fazem parte da população brasileira”, diz Bonfim.

Para a Mãe Elza de Iemanjá, que é uma das organizadoras da Caminhada dos Terreiros de Pernambuco, tudo não passa de hipocrisia. “Algumas pessoas dizem que fazemos um massacre animal. As mesmas compram galinha passaram dias sendo maltratadas em granjas. Ou em grandes, vivem pedindo carnes mal passadas com o sangue escorrendo”, diz a religiosa.

Fonte: Tribuna da Bahia

 

Todo mundo pode usar turbante africano? Saiba o que é apropriação cultural

Ramon Félix/UOL

No centro de São Paulo (SP), imigrantes nigerianos ensinam clientes a fazer turbantesimagem: Ramon Félix/UOL

A moda étnica, com suas estampas gráficas e coloridas, invadiu as araras das lojas há algum tempo. Nos últimos anos, elementos da cultura negra, como o turbante africano, também começaram a ganhar mais atenção do mundo fashion. Militantes da causa negra discutem o uso do acessório por pessoas de outras cores por considerar que se trata de uma apropriação cultural. Afinal, até que ponto uma pessoa não negra pode usar um acessório que tem tanta simbologia para a moda afro?

Na teoria, a apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de um povo por outro completamente diferente. “É quando pegamos algo de fora, o traduzimos e transformamos em algo nosso”, explica o antropólogo Amalio Pinheiro, professor da Pontífica Universidade Católica (PUC), de São Paulo (SP).

Este processo é muito natural, diz Rosana Schwartz, professora de sociologia e líder do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça/Etnia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo (SP). “É inevitável porque a sociedade faz isso. As culturas são hibridas, múltiplas. Não são singulares, são plurais”, afirma a especialista.

O Brasil pode até mesmo ser considerado um caldeirão de assimilações culturais. “Um exemplo é o futebol, que foi um esporte trazido pelos ingleses, mas que, depois de passar por um processo de assimilação, tornou-se algo muito nosso. A capoeira também nasceu na África, mas, atualmente, joga-se mais no Brasil do que lá”, diz Pinheiro.

Porém, apesar de ser inevitável, esta apropriação segue uma lógica um tanto cruel: a relação de poder de um povo sobre o outro. “Uma cultura que é considerada superior por questões econômicas pode acabar sobrepondo a outra”, fala Schwartz. “Infelizmente, você não tem uma consolidação da cultura, mas uma ressignificação e o apagamento da anterior”.

Reprodução/Facebook

Juliana Luna, editora de moda e beleza da revista “AzMina”, não vê problema em brancos usarem turbantes. “Mas precisa entender o que aquilo significa”
imagem: Reprodução/Faceboo

É por causa desta relação de poder que militantes da causa negra questionam o uso extensivo de turbantes africanos por pessoas não negras. “Os brancos, ao longo da história, foram uma etnia que sempre teve privilégios, então é ofensivo vê-los pegando algo como o turbante, que tem tanta simbologia, e usando-o só porque podem, porque acham bonito”, diz Juliana Luna, 30, editora de moda e beleza da revista “AzMina”.
Principalmente porque muitas vezes os negros sofreram preconceito por entrarem em contato com suas raízes e adotarem este tipo de acessório em seu visual. “Um branco usar um turbante é jogar anos de resistência no lixo”, fala Camila Lima, 23, militante feminista e parte do coletivo Claudia Eu Negra, no Grajaú, em São Paulo (SP). “Enquanto um negro usava o turbante, tranças ou dreads, ele não era aceito em certos ambientes. Mas, a partir do momento que os brancos adotam estes itens, eles conseguem circular em todos os lugares e os elementos se tornam algo maneiro”.

Para Schwartz, assim como a apropriação cultural é algo inerente à sociedade, esta busca e reivindicação das raízes feita pelos movimentos negros também são inevitáveis. “Na escravidão, o opressor tirou todas as questões culturais do negro e transformou essa população, que vinha de diversas tribos, em algo homogêneo. A militância quer mostrar como este processo foi perverso. Os negros estão tentando descobrir de onde vieram, quais são suas características culturais”, explica a socióloga. Assim, o turbante é uma espécie de coroa para os militantes. “Cada grupo social que se sente matriz de certas culturas quer mostrar sua própria identidade, que aquilo vem deles. É uma questão de pertencimento”.

A grande discussão, no entanto, é o uso e mercantilização destes elementos sem que haja um conhecimento sobre suas origens. “A gente luta contra as grandes marcas que pegam esses acessórios e os vendem sem qualquer discurso por trás”, diz Camila Lima. Outro ponto criticado é o uso de modelos brancos para estrelar coleções e campanhas inspiradas na África, como foi o caso do desfile do Verão 2016 da Valentino. “Tudo que rodeia a cultura afro tem simbologia de resistência e luta, então preferir uma modelo branca é admitir que o negro existe, mas que quando o branco usa aquilo ele tem mais valor”.

AFP

A Valentino foi alvo de críticas ao homenagear a África em seu Verão 2016, mas ter poucos negros no casting de modelos
imagem: AFP

Então branco não pode usar turbante? “Não vou dizer que não pode. Todo mundo pode fazer tudo. Se você for à Nigéria, ninguém vai dizer para você não usar. Eles vão abrir um diálogo, te fazer entender o que aquilo representa e a pessoa decide se vai usar ou não. Se torna uma troca de informação”, fala Luna. No fim, o que vale é a sensibilidade e bom senso de cada um. “Existe uma identificação? Uma ligação que não é física? Mas é importante saber a simbologia para a população negra”, complementa a editora.

Fonte: UOL

Influência afro nas artes no centro do debate

Marcos Cardoso explica que o seminário envolve movimentos sociais, academias, pesquisadores e pensadores num momento de reflexão

Marcos Cardoso explica que o seminário envolve movimentos sociais, academias, pesquisadores e pensadores num momento de reflexão

Artistas e intelectuais de várias partes do país estarão reunidos em Belo Horizonte, a partir desta quinta-feira (9), para pensar a influência afrodescendente nas artes, dentro do “Seminário Mundial de Artes e Culturas Negras”.

Para o integrante do Comitê Curador do Seminário Mundial das Artes e Cultura Negra Marcos Cardoso, o seminário envolve movimentos sociais, academias, pesquisadores e pensadores num momento reflexivo para a elaboração de um conceito a ser tema do Fesman – Festival Mundial de Artes Negras, que acontece no próximo ano. “Será uma oportunidade de debater pautas no âmbito da cultura de uma forma genérica, com vistas à construção da identidade étnico racial dos povos”, acredita.

A proposta do seminário não se restringe à arte, e abrange também outras perspectivas como sustentabilidade, economia e desenvolvimento. A programação é gratuita e aberta ao público.

Na programação, composta por mesas de debate, estão nomes como a ex-ministra Chefe de Estado do Ministério das Mulheres da Igualdade Racial, Nilma Lino Gomes; a cantora peruana Suzana Baca, que foi Ministra da Cultura em seu país, em 2011; Tomaz Aroldo da Mota Santos, reitor da Unilab – Universidade Luso Afro Brasileira; Tukufu Zuberi, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA; Vanicléia Silva Santos, do Centro de Estudos Africanos da UFMG, entre outros.

Seminário Mundial de Artes e Culturas Negras. Auditório do BDMG (rua da Bahia, 1600), às 9h. Gratuito

Belo Horizonte

Fonte: Hoje em Dia