São Jorge das muitas faces

Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011
Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

 

* Por Cleidiana Ramos

Não sou mais católica, mas há elementos dessa prática religiosa que continuam a me inspirar um imenso carinho. Um deles é São Jorge que possui a capacidade de transcendência e ressignificação a partir da perspectiva de seus devotos e assim seu culto vai resistindo desde o século IV. É muito tempo de persistência diante de tantas reviravoltas. Um exemplo: a perda do status de “obrigatória” por sua festa no calendário litúrgico católico.

Hoje as homenagens a ele são “opcionais” no catolicismo. Um dos principais problemas foi a fama de “matador de dragão” que o cerca e faz, inclusive, parte da sua iconografia.

Na década de 1970 a Igreja Católica fez uma reforma em seu calendário litúrgico. A ideia foi dar preferência à historiografia, ou seja: os santos que tinham biografias com dados, digamos, mais difíceis de comprovar historicamente, passaram a ser festejados de forma mais discreta.

Além de ter entre os seus feitos o enfrentamento a um dragão, Jorge da Capadócia, na devoção popular, ganhou como endereço a lua, pelo menos no Brasil. Lembro que ainda criança já cansei de olhar para o céu e ver a forma como ele aparecia nas imagens em meio as nuvens que passavam pela lua. Fui crescendo e pressionada, em nome do cartesianismo, a perder o  fascínio por aquele fenômeno definido  como autosugestão. Mas de vez em quando expulso a racionalidade e consigo ainda (sucumbindo à imaginação, oras), enxergar São Jorge montado, elegantemente, no seu cavalo em  meio a um belo luar.

Com a reforma do calendário, sua festa, portanto, foi tornada opcional e não se fez mais oficialmente consagrações específicas a ele de igrejas, dioceses ou o escolheram  como o padroeiro de paróquia. Em Salvador, por exemplo, só há uma igreja dedicada a ele: a situada no Jardim Cruzeiro, na Cidade Baixa. Mas o impressionante é que essa questão oficial parece não ter tido impactos significativos sobre o culto a São Jorge.

O santo guerreiro e matador de dragões ( animal que, para muitos, na representação clássica de São Jorge é apenas um símbolo do mal curvado diante da coragem e da santidade) é padroeiro da Inglaterra, via a Igreja Anglicana; no catolicismo brasileiro ganhou fama de intercessor poderoso e para completar, nas religiões de matrizes africanas brasileiras foi associado a divindades ligadas à fartura e proteção.

Na Bahia, São Jorge foi aproximado do Oxóssi ketu ou Mutalambô do povo angola, nome para as divindades definidas como caçadores guerreiros e provedores da sua comunidade; no Rio a relação é com Ogum ou Nkossi, os guerreiros invencíveis, sem falar nas várias associações com encantados que a umbanda lhe deu.

É importante destacar que, no fundo, no fundo, o povo sabe muito bem que São Jorge é São Jorge, Oxóssi é Oxóssi, Ogum é Ogum, mas não se pode impedir as ressignificações ou negá-las, pois isso é próprio da diversidade,  da liberdade religiosa e da dinâmica dos símbolos e interpretações culturais.

Do ponto de vista teológico vamos fazer debates intermináveis sobre a necessidade de separar em partes o que é de cada religião, mas, hoje, vou ficar com a devoção popular e celebrar a licença poética. Portanto, Salve Jorge e reverências a Ogum, Oxóssi e aos encantados das florestas.

 

 

 

Fonte: A Tarde

Artista cria ‘Simpsons negros’ contra racismo nos EUA

Em referência a mortes de negros pela polícia, imagens mostram Bart Simpson morto sobre um gramado e a estátua da Liberdade mascarada.
Artista cria 'Simpsons negros' contra racismo nos EUA (Foto: Divulgação/Alexsandro Palombo/BBC)Artista cria ‘Simpsons negros’ contra
racismo nos EUA (Foto: Divulgação/
Alexsandro Palombo/BBC)

 

Um artista italiano recriou personagens do desenho Os Simpsons, símbolo da cultura pop norte-americana, para trazer atenção internacional a supostos episódios recentes de racismo nos Estados Unidos.

Na série de obras publicadas no Facebook pelo chargista Alexsandro Palombo, a pele amarela de Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie Simpson ganha tonalidade mais escura. As tiras trazem mensagens como “Pare com o racismo”, “Justiça” e “Policiais nunca dormem”.

Uma das sequências mais comentadas retrata Bart Simpson fugindo de um policial armado e depois morto sobre um gramado.

As ilustrações fazem referência à morte de Walter Scott, um homem negro de 50 anos, morto pelas costas por um policial branco na Carolina do Sul, no início de abril. Também remetem à morte do garoto Tamir Rice, de 12 anos, baleado em Cleevland, em novembro passado, quando brincava com uma pistola de brinquedo.

“Esta série visa denunciar acontecimentos raciais inacreditáveis que ocorreram recentemente”, diz o artista, que vive em Milão, ao #SalaSocial. “Estamos vivendo um perigoso retrocesso e, se os Estados Unidos não reagirem ao racismo, não serão mais o país da liberdade e dos sonhos, mas o país da opressão e da injustiça.”

‘I can’t breathe’
Além dos casos Scott e Rice, as imagens também reconstroem a morte de Erick Garner, de 43 anos, assassinado em julho do ano passado. Contido por um policial na rua, sob suspeita de vender cigarros ilegalmente, ele era asmático e não resistiu a um “mata leão”. Garner gritou: “Não consigo respirar” pelo menos duas vezes, de acordo com relatos. Morreu no hospital.

Em frente a uma estátua da Liberdade coberta por uma máscara cônica da Ku Klux Klan, a família Simpson é retrada com as bocas cobertas pela mensagem “Não consigo respirar” – a frase também foi mote de uma intensa campanha nas ruas e nas redes sociais após a morte de Garner.

“Os Simpsons são um símbolo norte-americano exatamente como a estátua. Eu quis colocá-los juntos para expor as contradições da América Moderna e seus problemas raciais”, diz o artista italiano. “As imagens da morte de Scott e do sufocamento de Garner são horríveis, incivilizadas. Isso é uma violência louca, inaceitável.”

Questionado sobre riscos de enfrentar processos legais pela apropriação dos traços dos Simpsons, Alexsandro diz que diz que o uso de figuras icônicas “é parte de sua linguagem artística”.

“Eu capto estes personagens em uma maneira totalmente diferente e nova. São visões minhas, arte contemporânea, então não há irregularidade legal”, afirma.

 

Fonte: G1

Saudades da Semana Santa antiga

Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch*

Acabamos de passar pela Semana Santa, uma festa do cristianismo que considero muito importante, pois, apesar das mudanças, ainda consegue unir famílias. Lembro-me de que, há alguns anos, nesse dia não se podia fazer barulho, as pessoas pediam perdão, não se falava alto nem se batia nas crianças.

O trabalho para o almoço da sexta tinha que ser adiantado na véspera: os cocos eram partidos e deixados em uma vasilha com água para não azedar até ser ralados, pois a maioria dos pobres não tinha geladeira para conservá-los e nem liquidificador.

Para ser moído, o camarão seco era colocado em uma toalha usada para enxugar prato, fechada e amarrada na ponta de uma mesa, ou usávamos o pilão. O feijão para o “feijão de leite” era partido em uma máquina manual. Já o peixe era limpo na sexta-feira porque esse trabalho não provoca muito barulho. Quem não tinha peixe preparava uma moqueca de ovo com chuchu de tronco, como era chamado o mamão verde.

Tudo isso para não se comer carne. Se bem que, com tanta gente ainda passando fome, acho que Cristo não liga para nada disso. São costumes da cultura que mulheres e homens criaram.

Eu gostava quando os vizinhos trocavam pratos de vatapá entre si. Além disso, ao entrar em uma casa, recebiam-se um pedaço de pão e um pouco de vinho. Era preciso aceitar esse agrado, mesmo que não se ficasse para almoçar.

Para as crianças, os adultos colocavam um dedo de vinho em um copo com água e açúcar e avisavam que isso era só para fazer a “obrigação”. À tarde, os irmãos mais velhos levavam os mais novos para tomar a bênção aos padrinhos, madrinhas, tios e tias.

Mas o melhor mesmo era o Sábado de Aleluia, porque a diversão estava garantida. As crianças guardavam latas e paus para fazer barulho quando chegasse as 10 horas. Nesse horário, os terreiros de candomblé abriam, queimava-se incenso, soltavam-se fogos e os atabaques eram tocados. À noite havia a Queima de Judas. As crianças iam dormir mais cedo para acordar à meia-noite e assistir ao espetáculo.

No domingo aconteciam brincadeiras, como pau de sebo. Um pedaço de madeira era ensebado e no seu alto colocavam-se balas e brinquedos. Quem conseguia fazer a escalada levava tudo.

Nessa época não eram comuns os ovos de Páscoa e, se existiam, nem todas as famílias podiam comprar para seus filhos. O máximo, nesse sentido, era uma caixa de bombons para ser dividida.

É uma pena que os jovens e crianças estejam perdendo esses valores que incentivavam as pessoas a ser solidárias umas com as outras, como na hora de trocar os pratos da ceia da Sexta-feira Santa ou as latas para saudar a Aleluia.

Sinto muita falta da Semana Santa antiga, pois a cada dia que passa essas características são perdidas. Meus netos, por exemplo, já não sabem que se tomava a bênção às pessoas mais velhas que encontrasse pela frente, inclusive dizendo assim: “Me perdoe alguns agravos”.

 

* Ialorixá do Terreiro do Cobre

 

 

Fonte: A Tarde On Line

Balaio de Ideias: O que é Ablar?

Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Jaime Sodré*

Sob a sonora ritmia da competente bateria da escola de samba, cantava o intérprete: “Sonhar não custa nada…” Motivado, exercerei esta possibilidade. O ambiente de convivência em um terreiro de candomblé é um polo gerador de um amplo conhecimento, sobre várias temáticas. Além dos ensinamentos teológicos iniciáticos, testemunha-se uma importante produção literária e oral, realizada por fiéis, contribuindo para a qualificação e o enriquecimento da produção intelectual nacional, com um material por vezes de caráter científico, romances, contos etc.

Lembro-me do que dizia uma sábia, respeitada e querida ebomi, quando indignada e atingida por expressões grosseiras, estas emitidas por intolerantes, que no auge da sua ira diziam: “Esses negros do candomblé são macumbeiros, feiticeiros, analfabetos e ignorantes”. Em defesa do povo de santo ela dizia: “Somos negros com orgulho e dignos religiosos, mas não somos analfabetos, dominamos a língua aqui falada, pois sabemos nos comunicar, e mais, para o nosso maior orgulho, somos ‘trilíngues’, pois para o exercício religioso devemos dominar as línguas africanas: o yorubá, o quimbundo e o ewe, aplicadas nas rezas, cânticos e invocações. Quanto à ignorância, esta está em quem fala”.

Sem mencionar o repertório estético, além das danças, os ritmos, a mitologia, a culinária, a fitoterapia dentre outros, podemos concluir ser o espaço sagrado das expressões de matriz africana uma espécie de Academia. O emérito professor Edivaldo Boaventura define a Academia como “um corpo de pesquisadores que convive para estimular a geração e disseminar o conhecimento”, socializando os resultados. Neste contexto, encontramos “conceitos, práticas, instrumentos, saberes, métodos e processos que habilitam a contribuir para a gestão do conhecimento”.

No âmbito da “Academia Candomblé”, localizamos exemplos de intelectuais, iniciados, com importantes contribuições no campo do conhecimento, principalmente sobre esta matriz. Incentivado por esta realidade alvissareira, com o tom de homenagem e bom humor, apresentamos a Ablar (Academia Baiana de Letras Afro Religiosa). O intuito é listar nomes que primam por este fazer, colocando à disposição dos interessados.

Perdoem, lembro-me de alguns, e deixo espaços para outros, que você, leitor, poderá enviar ao blog Mundo Afro, do jornal A TARDE. Na minha modesta lista, temos: Cecília Soares (iyalorixá do terreiro Maroketu) – Mulher negra na Bahia no século XIX; Valnízia Pereira Bianch (iyalorixá do terreiro do Cobre) – Resistência e fé, Aprendo ensinando; Júlio Braga (babalorixá do Ilê Oyá Tundé) – Jogo de Búzios, Na gamela do feitiço, O antropólogo na encruzilhada; Vilson Caetano Júnior (babalorixá do Ilê Obá L’Okê) – Nagô, a nação dos ancestrais itinerantes; Valdina Pinto (makota do Tanuri Junçara) – Meu Caminhar, meu viver, e a distinta acadêmica Mãe Stella.

Esperamos ampliar esta lista, acrescentando autores e autoras que têm, como caráter particular, a qualidade da sua produção literária nos mais diversos estilos, como também a sua filiação na condição de iniciado às expressões religiosas de matriz africana. Laroiê Exu, patrono e senhor dos sonhos das letras e palavras.

* Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando em História Social

 

 

Fonte: A Tarde

Brasileiros continuam a viver em negação sobre peso do racismo na sociedade

Manifestantes carregam cartazes durante Marcha da Consciência NegraEm uma noite de sexta-feira no mês passado, faltava luz nas ruas da Palmeirinha, uma favela no Rio de Janeiro. Três adolescentes negros estavam

brincando em frente de suas casas. Um deles começou a correr e os outros seguiram, rindo. Naquele momento, a polícia saiu atirando. Chauan Jambre Cezário, 19, foi gravemente ferido. Alan de Souza Lima, 15, morreu no local com celular nas mãos – ele registrou tudo em vídeo, incluindo seus próprios últimos momentos agonizantes.

Segundo a nota oficial divulgada no dia seguinte, os rapazes foram baleados depois de um confronto com a polícia. Os policiais alegaram ter encontrado duas armas no local e acusaram Cezário de resistir à prisão. O rapaz, que vende chá gelado na praia de Ipanema, foi levado para o pronto-socorro e algemado ao leito do hospital.

Dias depois, o vídeo por celular de nove minutos se tornou público. As imagens mostram claramente que os adolescentes não tinham nenhuma arma e que não houve nenhum confronto ou resistência. Segundos após os disparos, um policial perguntou porque estavam correndo, ao qual um Cezário sangrando respondeu: “A gente tava brincando, senhor”.

As acusações foram retiradas, mas sua experiência, e a morte de seu amigo mais jovem, reflete a história da violência contra os homens negros jovens no Brasil.

Os afro-brasileiros – pessoas que identificam a si mesmas como negros ou morenos – correspondem a 53% de nossa população, um total de cerca de 106 milhões de indivíduos. É a maior população negra fora da África e a segunda maior depois da Nigéria. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), brasileiros negros com idades entre 12 e 18 anos apresentam uma probabilidade três vezes maior de serem mortos do que seus pares brancos, e uma pesquisa pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que os negros brasileiros representam 68% de todas as vítimas de homicídio.

A probabilidade também é maior de serem vítimas de mortes pela polícia. Um estudo pela Universidade de São Carlos mostrou que 58% de todas as pessoas mortas no Estado de São Paulo pela polícia militar eram negras. Elas correspondem a 72% de toda a população carcerária do país.

“Quando você vê uma viatura de polícia, seu coração gela”, me disse Luiz Roberto Lima, um fotógrafo negro do Rio de Janeiro, que morou nas ruas na adolescência. “Eles podem matar você por estar na rua ou por defender seus direitos, e também podem matar você por prazer. Mesmo que não tenha ficha criminal, eles podem inventar algo contra você.” Ele se referia às infames “mortes por resistência”, quando as vítimas são baleadas após supostamente dispararem contra a polícia e não há maior investigação –o que provavelmente teria acontecido em Palmeirinha se não fosse pela evidência em vídeo.

A desigualdade racial tem raízes históricas óbvias. A escravidão no Brasil durou por aproximadamente três séculos, do início do século 16 a meados do século 19, um período durante o qual cinco milhões de escravos foram trazidos da África para cá – cerca de 11 vezes mais do que para a América do Norte. A nação foi a última nas Américas a abolir a escravidão, em 1888.

Mas muitos afro-brasileiros ainda estão confinados às margens da sociedade. Hoje, quase 70% das pessoas que vivem na pobreza extrema são negras. E estão quase totalmente ausentes das posições de poder. Todos os 39 ministros do gabinete da presidente Dilma Rousseff são brancos, com exceção de um: a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Em uma recente entrevista para jornal, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse que “o Brasil está em negação sobre a questão racial”. Ela ficou surpresa ao saber, durante uma visita poucos anos atrás, que não falávamos muito sobre o assunto aqui, como se racismo não fosse uma questão. Ela acrescentou: “Não consegui deixar de notar como raça e classe estão conectadas no Brasil. Eu ia a restaurantes bons e não via uma única pessoa negra”.

Essa observação pode ser confirmada pelo que alguns brasileiros chamam de “teste do pescoço”. Cunhado pelo servidor público Francisco Antero e pela professora de história Luzia Souza, ele consiste de contar o número de pessoas brancas e negras em papéis diferentes em circunstâncias diferentes. Estique o pescoço em uma joalheria, por exemplo, e conte quantos vendedores são negros, e então conte quantos são clientes. Ou espie em uma escola particular cara e conte quantos alunos e professores são negros, e quantos são serventes.

Eu apliquei recentemente o teste do pescoço em uma sorveteria cara em um bairro rico de São Paulo. Cinco dos sete funcionários eram negros, em comparação a um entre 30 clientes – e suspeito que ele era estrangeiro. Então, em um ônibus municipal, dentre duas dúzias de passageiros, eu notei que era uma das apenas três pessoas brancas.

Para melhorar esta situação, o governo brasileiro introduziu nos últimos anos alguns poucos programas afirmativos, como destinar para minorias raciais um certo percentual de empregos no Serviço Público e vagas em universidades públicas. Ele também concedeu direitos parciais de propriedade para nove comunidades formadas por quilombolas (descendentes de grupos de escravos fugitivos). Apesar desses direitos de propriedade serem garantidos pela nossa Constituição, apenas estimados 5,8% das 214 mil famílias que vivem em quilombos as receberam.

O mais antigo programa de ação afirmativa em universidade existe há 10 anos, mas ainda enfrenta fortes críticas. Um dos maiores jornais do Brasil assumiu uma firme posição editorial contra as cotas raciais em universidades, argumentando que um sistema que encoraje a diversidade socioeconômica bastaria. Os críticos às vezes consideram as cotas como discriminação reversa ou temem que possam incitar o ódio racial em nossa imaginada “democracia racial”, onde negros e brancos brincam lado a lado nas ruas sem serem baleados no peito.

É como Adichie disse. O Brasil ainda está em negação.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

 

Fonte: UOL

A força da capoeira

A força da capoeira

Marginalizada no passado, mistura de dança e luta afro-brasileira é reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco

O registro da capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, anunciado em novembro de 2014 pela Unesco, é mais um passo no reconhecimento dessa cultura de matriz afro-brasileira que mistura jogo, dança, luta, música e canto nas suas animadas rodas. Em 2008, o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) já havia considerado a roda de capoeira e os saberes dos mestres como patrimônio imaterial do Brasil. Por que essa prática de origem escrava, marginalizada pelas elites e perseguida pela polícia até a metade do século XX tornou-se valorizada?

Na primeira metade do século XIX, o termo capoeira carregava três significados diferentes: terreno com mato ralo, cesto grande para transporte de aves e dança/luta praticada em ruas, praças e fontes majoritariamente por escravos oriundos da África Central (atuais Congo e Angola), que tinham autonomia para trabalhar mediante pagamento ao seu senhor. Tal associação capoeira-escravo era tão marcante para a estamental sociedade brasileira do período que, em 1829, um estudante de São Paulo utilizou-a para desqualificar seu desafeto. Em um jornal, citou a “estranheza” do diretor pelo hábito de seu professor de francês “jogar capoeira no Largo do Chafariz, o lugar mais público e frequentado desta cidade, servindo de espetáculo aos negros, que quando o veem dar bem uma cabeçada, o aplaudem com bastantes assobios, palmas, gargalhadas”.

A despeito do aspecto lúdico, os capoeiras também eram temidos por outros escravos, homens livres pobres e, principalmente, pela população branca (inclusive a polícia) que receava uma rebelião escrava, como a ocorrida no Haiti, em 1791, e em Salvador, em 1835. Era comum brancos reclamarem nos jornais das desordens públicas, ferimentos e mortes causados pelas brigas a murros, pontapés, facas e navalhas. Não por acaso, as mais recorrentes referências à capoeira, no Rio de Janeiro e Salvador do século XIX, constam na documentação policial, evidenciando o tratamento repressor dado pelas autoridades aos que a praticavam.

A repressão continuou após a interrupção do tráfico em 1850, quando os grupos de capoeiras (maltas), que dividiam e disputavam entre si o controle das freguesias do Rio de Janeiro, passaram a ser integrados por escravos nascidos no Brasil, homens livres, libertos, negros, brancos, imigrantes portugueses, sertanejos e, ocasionalmente, até membros da elite do Império. Apesar de acusados de vadios, os capoeiras eram em geral trabalhadores de rua, domésticos, estivadores, jornaleiros e artesãos.

A repressão não os impedia de combater pelas elites do Império em ocasiões específicas. Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), capoeiras voluntários ou forçados notabilizaram-se em combate e foram cooptados. Apesar dos embates com a polícia, alguns eram protegidos por fazerem capangagem política para os partidos da época, principalmente o Conservador, coagindo os eleitores a votar nos seus candidatos.

A ligação com as forças políticas da Monarquia pesou sobre os republicanos, combatidos pela Guarda Negra, formada em 1888 e fiel à princesa Isabel. A resposta veio após a mudança do regime: em 1890, o chefe de polícia Sampaio Ferraz deu fim às maltas no Rio de Janeiro, prendeu e enviou vários capoeiras para Fernando de Noronha. Ao mesmo tempo, incorporou-se ao Código Penal o famoso artigo 402, que condena à prisão de dois a seis meses o ato de “fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação capoeiragem”.

A despeito da criminalização, foi na Primeira República que apareceram os primeiros textos valorizando a capoeira, escritos sobretudo por intelectuais que a praticavam. Apesar de considerá-la tradição popular de rua, procuraram ressaltar o aspecto de luta e ginástica inventada no Brasil, associando as discussões sobre o caráter brasileiro ao moderno ideal de culto ao corpo, valorizando esportes, danças e lutas nos centros urbanos. Fez parte do coro o oficial da Marinha Aníbal Burlamaqui, responsável por sistematizar os movimentos na sua Ginástica Nacional (capoeiragem) Metodizada e Regrada) (1928), e o escritor Coelho Neto, defensor da superioridade da capoeira perante as lutas estrangeiras que propôs, sem sucesso, seu ensino como ginástica e luta em colégios, quartéis e navios em 1922.

Foi na década de 1930, porém, que a capoeira se associou à nacionalidade. A valorização da identidade nacional disseminou-se pela intelectualidade e foi encampada pelo Estado getulista, que a visibilizou nos meios de comunicação de massa e nas escolas. Diferente da década de 1920, quando os modernistas associaram os indígenas à brasilidade, nos anos 1930 tais símbolos foram buscados nas manifestações negras outrora perseguidas, como samba e, em menor grau, o candomblé e a capoeira, chamando a atenção de etnógrafos e literatos baianos ligados à esquerda política como Edson Carneiro e Jorge Amado.

Ao mesmo tempo, a difusão da capoeira ocorreu a partir das reformulações operadas em Salvador por mestres negros como Manuel dos Reis Machado (1899-1974), o mestre Bimba, e Vicente Joaquim Ferreira Pastinha (1889-1981), o mestre Pastinha.
Baseado na capoeira das ruas e em antigas práticas negras como o batuque, às quais incorporou golpes de outras lutas, Mestre Bimba delimitou os aspectos lúdicos e enfatizou o aspecto marcial e esportivo na sua Capoeira Regional Baiana (1928). Após levá-la para os ringues em desafios contra lutadores de outras artes marciais, o que deu prestígio social à capoeira, foi o primeiro a registrar uma academia em 1937 – um marco na descriminalização. O prestígio de Bimba cresceu e, em 1953, chegou a fazer uma apresentação em Salvador para o presidente Getúlio Vargas.

Também em 1937, capoeiristas da tradicional vertente angola foram convidados para participar do 2º Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador, porque seus organizadores, entre os quais Edson Carneiro, a consideraram mais autêntica que a regional. Mestre Pastinha integrou-se a esse grupo no início dos anos 1940 e articulou-o para formar o Centro Esportivo de Capoeira Angola, principal referência nessa modalidade. Diferentemente de Bimba, Pastinha enfatizou o caráter genuíno e africano da capoeira angola ao colocar no mesmo patamar o esporte, a luta, o lúdico e a dimensão cultural. Inspirado no batuque e no candomblé, formatou a prática, os golpes do jogo, os cantos e toques rítmicos do berimbau e demais instrumentos da orquestra.

A trajetória e atuação de Pastinha e Bimba são emblemáticas das transformações operadas na capoeira no século XX. Aprenderam-na na adolescência com mestres de origem africana e praticavam-na em locais públicos como o cais do porto, nas folgas e intervalos dos empregos informais. Conhecendo a marginalização e a repressão policial que pesavam sobre a capoeira de rua soteropolitana no início do século XX, buscaram dissociá-la dos “malandros” ou “valentões”, reforçando sua ligação com os trabalhadores e estudantes, além de enfatizar a ética e no companheirismo nos grupos e rodas.

Navegando por ventos favoráveis a partir de uma concepção esportiva, também facilitaram a aprendizagem da capoeira: levaram-na para as academias e introduziram os uniformes, níveis, regras, hierarquias e sistematizaram os movimentos. Pessoalmente ou por meio das gerações de mestres que formaram, Bimba e Pastinha contribuíram para a expansão da capoeira pelos principais centros urbanos do País e assistiram ao princípio de sua difusão pelo mundo.

Apesar de prestigiados, os mestres morreram pobres: Bimba em situação precária ao se mudar para Goiânia, sem o reconhecimento esperado. Pastinha, cego, em Salvador, só não ficou na miséria porque foi ajudado pelos amigos. É justamente aí que a inclusão da capoeira como Patrimônio Imaterial da Humanidade se torna importante. Como expressa a representante da Unesco no Brasil, ao dar-lhe visibilidade o registro estimula a adoção de políticas públicas de salvaguarda e sustentabilidade pelos governos e sociedade civil. Dois projetos de lei em tramitação no Congresso procuram suprir essa lacuna: o PLC 31/2009 dispõe sobre a profissão de capoeira e o PLS 17/2014 reconhece seu caráter educacional e formativo, possibilitando parcerias com as escolas.

Das ruas para as academias, com a agressividade regrada e malandragem controlada, a capoeira perdeu seu caráter explosivo de marginalidade e subversão, ainda presente nas letras e canções que louvam a valentia e irreverência de figuras como Besouro de Santo Amaro. Foi o preço pago pela difusão social, que possibilitou não somente sua sobrevivência como a sua integração no circuito esportivo, ainda em curso com a proposta de transformá-la em esporte olímpico em 2016, e cultural, a partir do qual, com a chancela do Estado Nacional, tornou-se patrimônio.

* Leandro Almeida é professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

Fonte: Carta Fundamental

Cabelo bom

Cabelo bom
Oficinas de tranças, turbantes e maquiagem para a pele negra fazem parte dos projetos

 

Duas perguntas acompanharam a infância e a adolescência da educadora Raissa Rosa, de 23 anos. A primeira era por que as mulheres que estampavam as capas das revistas nunca se pareciam com ela. A segunda, por que as pessoas insistiam em chamar os cabelos que se assemelhavam aos dela de “ruim”. “Por ser negra, eu não me encaixava no padrão de beleza vigente e vivia ouvindo que o único cabelo bom era aquele esticado, liso. E, claro, o meu não era nada daquilo.” Depois, já adulta e com a confiança resgatada, Raissa passou a ver as mesmas cenas e discursos de descriminalização se repetindo com as meninas de sua comunidade. “Elas viviam com os cabelos presos ou alisados por terem vergonha de como eles eram naturalmente”, conta.

A constatação levou Raissa a criar, ao lado de Camila Christian e Marina Gabriela, o Projeto Pérolas Negras, desenvolvido dentro da ONG Casa Cultural do Morro, em Viçosa (MG). Em funcionamento desde 2013, a iniciativa promove semanalmente a troca de experiências de meninas de diferentes idades sobre o cuidado e a manutenção de seus cabelos crespos naturais. “O objetivo é mostrar para essas meninas como elas são bonitas e especiais do jeito que são e que o cabelo delas não tem nada de ruim. Digo que é uma iniciativa de reeducação, pois procura desconstruir a ditadura da beleza da mulher branca presente na nossa sociedade”, explica Raissa. Para isso, o projeto conta com a parceria de uma empresa de cosméticos da região, que fornece os produtos de tratamento e de beleza.

Nos encontros, muitos deles sediados em escolas, as participantes compartilham suas histórias pessoais e discutem temas ligados ao racismo, como o estereótipo da mulher negra como objeto sexual. Depois deste momento, são desenvolvidas atividades que estimulam o brincar com os cabelos. Fazem parte da programação oficinas de tranças, turbantes e maquiagem para pele negra e, até mesmo, ensaio de fotos. “Procuramos dessa maneira resgatar sua autoestima, mostrando que elas podem ser modelos, médicas, o que quiserem. E que cabelo crespo deve ser motivo de orgulho e não vergonha”, conta Raissa.

Com proposta semelhante nasceu o Coletivo Manifesto Crespo, que visa reconhecer o valor da cultura afro-brasileira, suas produções artísticas e estéticas e, consequentemente, fomentar a autoestima de homens e mulheres negros. “O coletivo tem como foco a discussão sobre como o cabelo crespo pode e deve ser encarado de forma criativa por meio de oficinas de tranças,dreads e turbantes”, explica Thays Quadros, uma das responsáveis pelo projeto.

As oficinas começam com a apresentação das pessoas, de onde vierem e o que esperam da atividade. A partir dos relatos dos participantes, conversa-se sobre estética, a transição capilar, o preconceito enfrentado em ambientes de trabalho e escolas. “Com isso explicamos a origem das tranças e a amarração de tecidos e partimos para a parte prática”, explica Thays, que acredita que conhecer tais técnicas é uma maneira também de aprender sobre a cultura e herança do povo africano. “Os penteados indicavam status, estado civil, identidade étnica, região geográfica, religião, classe social, status dentro da própria comunidade e até detalhes sobre a vida pessoal do indivíduo”, conta.

Além das oficinas de penteados, outra atividade desenvolvida pelo coletivo são oficinas infantis de contação de histórias. “Usamos o livro Betina, da autora Nilma Lino Gomes, que conta a história de uma neta e sua avó sobre os ensinamentos das tranças passados de geração em geração. E também o livro O Mundo Black de Tayó, de Kiusam de Oliveira, que narra a história de uma princesa negra”, conta Thays. As discussões são levadas para as escolas acompanhadas de um bate-papo, das oficinas de tranças ou amarração de tecidos. Tudo para desmistificar a ideia de que existe “cabelo ruim”. “O Manifesto Crespo trabalha com as crianças a conscientização de que existe vários tipos de cabelo como o crespo, o liso e o enrolado e que todos são lindos.”

O grupo é também responsável pelo documentário Tecendo e Trançando Arte, realizado em 2011 através do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), da Prefeitura de São Paulo. O filme resgata a cultura das tranças afros e suas histórias, buscando a valorização das trançadeiras(os) e dessa arte tão difundida na cultura negra, porém pouco valorizada como patrimônio imaterial. “As tranças afro carregam consigo uma identidade cultural, artesanal, um conhecimento passado de geração em geração”, lembra Thays.

Ao que tudo indica, projetos como o Pérolas Negras e o Manifesto Crespo já têm feito a diferença na vida de muitas meninas. Segundo Raissa, ao término de cada oficina, é visível a felicidade no rosto da criança ao perceber-se bonita e aceita. “Elas saem com os cabelos soltos, orgulhosas”, diz. Thays acredita que as iniciativas ajudam a resgatar a autoestima negra, mas que a discussão e valorização para serem duradouras precisam adentrar o espaço da família e da escola. “Os professores precisam entender a história do negro no Brasil. Não apenas da escravidão, mas da cultura rica que trouxeram de seus países de origem”, defende.

 

Saiba mais

Manifesto Crespo

http://www.manifestocrespo.blogspot.com.br

 

Fonte: Carta Fundamental