Balaio de Ideias: Mulheres lindas e guerreiras

Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé | aul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre 

No último domingo comemoramos o Dia Internacional da Mulher, embora, para mim, essa data seja diária. Quero, portanto, falar de mulheres como minha bisavó Flaviana Bianch. Ela veio da África ainda pequena com a mãe, Margarida de Xangô, que instalou na Barroquinha o Terreiro do Cobre. Lá ele funcionou até que Flaviana, há 127 anos, o trouxe para o Engenho Velho da Federação, onde permanece até hoje.

Foram guerreiras, como a minha mãe Moura ou Maura – seu nome de batismo. Ela teve 13 filhos e criou a metade deles sem o companheiro e nosso pai, pois ele morreu quando eu tinha 11 meses. Para ganhar dinheiro, minha mãe carregou água, trabalhou como lavadeira, doméstica e fazia bolachinhas de goma e sequilhos para vender e poder completar a renda.

Desse grupo de batalhadoras fazem parte Mãe Tatá, ialorixá do Terreiro do Engenho Velho Casa Branca, conhecida pelo amor, carinho, respeito e dedicação aos orixás e à comunidade; a linda e saudosa Iyá Nitinha de Oxum, que ajudou muito o candomblé, deixando centenas de filhos iniciados; Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que, com sua experiência e inteligência, enriquece a nossa tradição religiosa.

Vale também destacar: Lélia Gonzáles, que tanto lutou pelos movimentos negro e de direitos humanos; Vilma Reis, socióloga, que trabalha pela formação de mulheres jovens; Yeda Pessoa de Castro, sempre empenhada na construção de uma sociedade melhor; a professora Makota Valdina Pinto, educadora de tantos jovens do Engenho Velho da Federação e adjacências, que batalha pela valorização do candomblé de nação angola-banto; Alaíde do Feijão, que criou seus filhos vendendo sua deliciosa feijoada; professora Ana Célia da Silva, incansável militante do movimento negro; Ivone Lara e Clementina de Jesus, que com suas vozes lindas, fortes e únicas encantam os nossos ouvidos.

Quero homenagear ainda Olga Mettig, por sua luta pela valorização do magistério; santa Irmã Dulce, religiosa da Igreja Católica que dedicou a vida ao amparo dos mais pobres e doentes; Ana Alice Costa, fundadora do Neim-Ufba e militante pelos direitos das mulheres; Amabília Almeida, única mulher do grupo de parlamentares que redigiu a Constituição do nosso estado; e Lídice da Mata, primeira mulher a assumir a prefeitura de Salvador e ser eleita senadora pela Bahia.

Gostaria de citar outras, mas o texto tem limite. Portanto, a partir das citadas, parabenizo todas, em especial as mulheres do Engenho Velho Casa Branca, que são minhas irmãs, mãe e tias de santo, e as do Terreiro do Cobre, minhas lindas filhas. Peço a Deus que continue a fazer surgir mulheres como essas e que a sociedade reconheça os seus valores e dê o espaço que elas merecem. Imagino estar incluída nesse grupo de guerreiras, mas não posso ter a pretensão de falar sobre mim. Como acho que sou um ser humano do bem, vou deixar para que outros falem (risos). Que Deus abençoe essas mulheres e suas famílias, pois só Ele pode tomar conta dos filhos daquelas que, para trabalhar e estudar, precisam deixar suas crianças tomando conta umas das outras, em creches ou até sozinhas, à mercê dos perigos da vida.

Fonte: A Tarde Online

Entrevista a Margarida Cardoso, a partir de Yvone Kane

O último filme de Margarida Cardoso, Yvone Kane, traz a força de três mulheres num enredo de memórias e desencontros. Pensar o colonialismo em África, o fim dos impérios, a mutação das sociedades, a figura das revolucionárias, as dores incuráveis, a relação do indivíduo com a História faz parte do seu universo cinematográfico. Filmou em Angola alguns testemunhos da geração envolvida nos conflitos de 1977. A propósito de Yvone Kane, refletimos sobre o peso dos acontecimentos esmagadores na história pessoal.

Como começou o seu interesse em filmar África?

Fiz duas curtas-metragens antes do meu primeiro documentário, Natal 71 com o qual comecei a pesquisar em relação ao meu pai, à guerra, tentando dar uma forma a um passado que não se conhece bem. Quando se teve uma infância num território geograficamente longe, é mais difícil, não há ninguém para contar e aquilo que era deixou de existir. As poucas relações tinham partido, restam as ruínas, os espaços transformados.

Um edifício tem as marcas do tempo inscritas.
Foi para Moçambique nos anos 1960 porque o seu pai era militar.

Era da Força Aérea, fez três comissões, em 1966-75. Deslocavamo-nos para as zonas onde havia as bases, alternando entre Lourenço Marques [hoje Maputo], Beira e Nampula.

Era normal as famílias acompanharem os militares para criar uma certa normalidade?

Era incentivado pelo regime. Levámos até a minha avó. A ideia era os militares ficarem, a logística até estava bem organizada, diziam que era uma campanha, não uma guerra.

Como foi crescer nesse contexto?

Fomos viver para uma casa no Macuti, na Beira, que ficava colada ao bairro indígena, onde se ouvia tambores. Nós nunca tínhamos tido empregados, e ali era normal tê-los. Então havia o Domingos, que a minha mãe tratava como filho e de quem ficou amiga. Nunca mais tivemos empregados, fazia-nos confusão.

Provoca-se relações de subalternidade que não se deseja?

Sim, e eram pessoas que eu sabia serem muito fortes, mas depois havia aquela barreira da comunicação.

Andou em escolas de brancos e assimilados?

Sempre em escolas públicas. Tinha gente de todo o tipo, mas dava-me mais com as pessoas do prédio, a escola era um bocado opressora, com professoras muito rigorosas, tareia, e a obrigação de cantar o hino.

Margarida Cardoso, fotografia de Ana Brígida
Margarida Cardoso, fotografia de Ana Brígida

Foi-se apercebendo de alguma resistência ao regime colonial?

O meu pai evoluiu muito politicamente, passou de uma fase cega para se aperceber logo do absurdo da situação. Havia focos de contestação. A coisa que mais me lembro, do ponto de vista infantil, era os livros interditos, como a Mafalda do Quino que arranjávamos secretamente numa livraria da 24 de julho, em Maputo. Tinha a sensação que se passava algo esquisito, isso de haver livros proibidos. Depois percebia-se muita tensão e problemas, pessoas muito perdidas, militares que bebiam muito, etc. Dos meus pais havia uma recusa à “situação”, incomodavam-se com as pessoas que queriam lá ficar, fazia-se sempre trocadilhos com Salazar e Caetano.

Eram os últimos anos do Império… como foi recebido o 25 de Abril?

Na Beira, houve a revolta dos civis contra os militares, a guerra começou a aproximar-se e cortaram a cabeça a um padre, perto do Macuti. Os civis, liderados por um grupo do Jorge Jardim, que “mandava” naquela cidade, impediam os militares de sair das messes, rodeavam os prédios e gritavam “oh Chico, vai pró mato, vai matar o preto”. Cercaram um hotel de pára-quedistas a cercar um hotel. Enfim, vivia-se uma onda muito tensa entre militares e civis, até houve granadas numa esplanada.

Quando aconteceu o 25 de Abril, já tínhamos a percepção de que aquilo estava prestes a explodir. Percebia-se que militarmente seria impossível resolver aquilo. Lembro que o meu pai estava a ler Portugal e o Futuro, do Spínola e comentou que ia haver uma revolução.

Identidades

E com o cinema recupera alguns cenários da sua vida.

Eram coisas muito fortes, relacionadas com a morte. Percebia a angústia da minha mãe: havia aviões abatidos, chegaram a deixar de fazer o abastecimento às bases.  Afectava-me ver a minha mãe sempre em pânico.

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

O que é que a desterritorialização lhe trouxe de aprendizagem?

Uma certa melancolia de não pertencer a lado nenhum. Neste tipo de experiência, relacionada com uma culpa histórica, há um pudor em reclamar os territórios, parece que se está a usar algo. E depois, conhece-se muita gente mas não nos ligamos a ninguém, temos muitas imagens soltas, etc, então dá vontade de colar as peças numa narrativa mais sólida do que foi. Provoca um percurso muito solitário.

Em que se reflete no seu trabalho?

Traz algo muito rico, abre as perspectivas, aguça a curiosidade. Faço muitas coisas sozinha, mas sem pena. Não me ligo muito a grupos, não tenho essa vocação. Como no filme a personagem Rita diz à mãe: “Sei que fez o que pode”. Tenho em conta que as pessoas fazem o melhor que podem.

O percurso da sua obra vai fazendo um sentido histórico: da Guerra colonial para o pós-independência. Um olhar retrospectivo sobre algo que acabou.

Tinha a sensação, nos outros filmes que fiz em África, que me estava sempre a referir ao passado. E pensava: estou no presente mas não estou a guardar nenhuma memória do presente. A mutação nesses países é delirante, nada a ver com os tempos da Europa. Vivo a angústia de estarem a desaparecer coisas que ainda podem ser testemunhos. Relaciono-me muito com os lugares, os arquivos, os testemunhos. Percebi que tentava guardar e reconstituir um tempo à beira do fim, tal como o tempo colonial, como se a relação com África estivesse num precipício, e o mais difícil de recuperar fosse o período pós revolucionário e o fim da relação ideológica. O movimento e a necessidade de captar e guardar essas figuras que estão a desaparecer tem a ver com aquilo que gosto.

Os anos pós-independência

Em Yvone Kane aparecem brancos que foram para África. Essas pessoas de origem europeia que se entusiasmaram com movimentos revolucionários ou que iam fazer uma missão faziam-no para colmatar uma culpa?

O conceito pós-colonizador aplica-se às pessoas que já lá estavam e às que foram depois para ajudar. Acabam por nunca se integrar naquelas sociedades, portam em si o estigma do pós-colonizador. “Tiraram-me do museu porque eu era muito branca”, diz uma personagem. Falas a língua e portas a cor do colonizador, mesmo que rejeites as ideologias, não há como escapar a esse estigma. Sara diz no filme “sinto-me rejeitada pelo poder, não pelas pessoas.”

Transporta-se sempre uma relação de poder, as pessoas não são elas próprias, têm de jogar com a percepção do outro.

É uma dificuldade intransponível, é para ser assim. Em “Yvone Kane” há pessoas que reconhecem muitas coisas políticas e históricas, para lá da história íntima, mas tentei que tendesse mais para o lado em que não é precisas identificar geograficamente.

Daí não ter localizado a ação em nenhum país.

Dá um lado muito etéreo, as personagens são muito misteriosas e fantasmagóricas, representam muitas coisas. É o que mais gosto mas faz também a fraqueza do filme.

Sim, há verosimilhança mas sente-se falta de realidade.

Há pessoas que se ligam só às questões identitárias do filme. “Yvone Kane existe? Mas o filme é sobre África, e não fala do racismo? o que é isto?”

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

Quando Rita (personagem de Beatriz Batarda) investiga sobre a misteriosa Yvone Kane é uma tentativa de se aproximar do universo da mãe?

Ao revelar-se o passado da Yvone, que coincide com o passado de vários países, Rita vai entrando no universo da mãe. Separam-se e não se encontram mais: a mãe morre, é enterrada com o kuduro e serras mecânicas como música de fundo, a piscina está metaforicamente a ser enterrada. No final, a sul-africana faz um sorriso contente. Há um lado bright naquilo tudo: vamos enterrar este passado, mas é assim a vida. Essas pessoas hoje não têm território de origem, falam línguas esquisitas. No filme, era importante que não se percebesse bem de onde vêm aquelas personagens. A morte da filha no início cria uma espécie de vazio. Não vamos saber quem matou Yvone Kane, era só um pretexto.

O Anjo da História 

O que a atrai nesta relação do indivíduo com a História, nos momentos de aceleração da história?

Nessa altura as coisas são muito radicais, entra-se em ruptura com determinadas rotinas. São momentos intensos nos quais estão coisas a acontecer, a ser criadas, têm uma existência muito forte. Interessa-me porque consigo reconhecer. Estou à frente do tempo, a pensar o que é que daqui a uns anos será aquilo que estamos a viver agora e a tentar perceber se alguma coisa na História nos pode dar uma lição. Raramente encontro. Afinal não se aprende com a História, cometemos os mesmos erros. Interessa-me o que vai ser lido das nossas acções de hoje.

 É o anjo da História benjaminiano a caminhar voltado para as ruínas do passado.

Vi muitas perspectivas de todo o lado de quem foi filmar a luta de libertação. Levei um grande banho de montagens de arquivo.

Nesses arquivos não há imagens iconográficas de guerrilheiras?

As figuras revolucionárias femininas, como por exemplo a Josina Machel, são representadas como santinhas, sem corpo. Para mim a Yvone Kane é, de certa forma, aquilo do que deveria ter sido representado da Josina Machel. Há um lado muito púdico dos revolucionários, como se as mulheres fossem perfeitas. Nem nos livros de história vamos saber quem verdadeiramente eram.

Yvone Kane e Sita Valles
Pode associar-se Yvone Kane a outras guerrilheiras, e talvez um pouco à história da Sita Valles. O que a inspirou?

O que me inspirou na história da Sita Valles foi a traição, um caldeirão que está ali a ferver do qual nem ela nem Yvone se aperceberam.

Devido a uma certa ingenuidade?

Uma força de espírito faz com que não se tenha apercebido de algo ali que as transcendia. São pessoas muito diferentes, mas tem-se associado.

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

Eram figuras eloquentes, muito carismáticas, bonitas, convictas, formadas.

Sim, ao se tirar todo o tipo de história íntima pessoal, transformamo-las em ícones, sem sexo. É isso que acontece com as heroínas. Por isso, na história, a Yvone tem uma relação de amor com uma pessoa mais nova, era uma maneira de dizer que ela existia, não tinha um comportamento insuspeito e para ficar mais tricky.

Construiu a figura da Yvone a partir de imagens de arquivo. Gosta de mostrar a facilidade de manipular a História e fabricar realidades?

Primeiro montei as imagens de arquivo e depois construí a Ivone, ou seja, ponho-a num contexto que já existe: a Yvone a falar num estádio a dizer “a luta continua”, ou a tomar posse num governo, a relação com o presidente.

Ficamos a pensar noutro rumo para aqueles governos: como seria se determinadas figuras que foram arredadas tivessem ganho poder.
Como está a preparação do filme Sob o olhar silencioso, a partir do 27 de Maio de 1977 angolano?

Revelou-se difícil de conciliar esse material, tudo aquilo tem de ser muito sustentado. Os testemunhos, de pessoas que viveram determinados acontecimentos com outras de quem eram quase irmãos, estão impregnados de emoções. Não é fácil construir uma narrativa fria sobre esse assunto. O que mais me dificulta são questões éticas, tentar perceber de onde conseguir olhar para tudo, onde me colocar, não posso saltar de eixo para eixo. Em relação aos testemunhos: são pessoas da mesma geração, uns optaram por ficar outras por voltar, todas passaram por coisas horríveis, foram presas, humilhadas, dissidentes políticos, mas conseguiam contar isto com uma certa neutralidade. Quando chegam a coisas íntimas como a família que vai embora, ou a casa que se desfaz, coisas que até ligamos aos colonos ou assim, desfaziam-se numa dor terrível. Algo muito básico que é o fim de tudo.

E os testemunhos de Angola?

São muito interessantes, gostei muito. É engraçado relacionar isso com um mapeamento de Luanda, os bairros. Em Angola, as questões raciais, ideológicas, de classes sociais faz com que haja muitos factores em jogo. Não posso ser simples e passar por cima disso tudo. Quero falar de determinada coisa mas quando se sobrepõe uma tensão que está para lá do que eu quero falar é difícil, vai sempre parecer que estou a fugir ou a descontextualizar. Senti que me encontrava numa situação estranha, bastava dizer o ano de 1977 para ter um peso tão grande que me fazia sentir como uma traidora, alguém que está à procura de algo que não devia. Isso atrapalha-me imenso pois não me sinto bem a trabalhar assim.

Sentiu resistência nas pessoas para falarem?

Muitas pessoas falaram abertamente, ouvimos histórias humanamente fortes, pessoas que estão muito bem apesar de terem passado muito mal.

filme 'Yvone Kane'
Filme ‘Yvone Kane’

Como se já tivessem arrumado aquilo?

Há coisas que nunca se consegue resolver mas pode-se arrumar.

“Em Angola, interessa-me saber que tipo de sociedade se criou, tão diferente de Moçambique nos modos e nos costumes. Em Moçambique, há um racismo muito mais evidente”.

Talvez porque em Angola se passou por situações muito conturbadas depois disso. Já em Portugal, as pessoas cristalizaram mais essas memórias.

Sim, em Portugal há um lado traumático, em Angola tens de conviver com os agressores e entretanto as pessoas mudaram e têm outras perspectivas.

 Porque se interessou por Moçambique e por este momento da História angolana?

No caso de Moçambique foi  a história pessoal, voltar lá e tentar perceber o que aconteceu. Em Angola, interessa-me saber que tipo de sociedade se criou, tão diferente de Moçambique nos modos e nos costumes. Em Moçambique, há um racismo muito mais evidente. Angola teve um colonialismo que tomou conta das pequenas coisas.

Porquê a Sita Valles?

Porque o seu fim é metafórico para muitas coisas que aconteceram, mas também pelo seu contexto: família que vem de Goa, estabiliza-se em Luanda, fazem parte de uma sociedade com muitos cambiantes, ela vem estudar para Lisboa. O passado da Sita revela uma riqueza sócio-cultural muito peculiar e interessante. E também a atracção pelo lado mais duro, as elegias, as revoluções, as injustiças, o absurdo dos fraccionistas. Angola interessou-me pela figura da Sita, senão acho que nunca teria ido por aí.

Foi uma armadilha da história?

De uma certa ingenuidade. Tenho a certeza que a Sita Valles cometeu imensos erros, e de repente, por determinadas circunstâncias, as coisas transformam-se no horror. Isso faz-me pensar nas nossas acções, como, de repente, tudo pode ser tão esmagador. Também me interessa perceber porque algumas pessoas saltam do comboio e outras não.

Entrevista publicada originalmente no jornal Rede Angola.

por Marta Lança

Fonte: Buala

Balaio de Ideias: A guerra segue

Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés no Cabula, realizada ontem na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE
Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés (Cabula)

 

Por Wlamyra Albuquerque* 

Nunca se tinha ouvido falar da Vila Moisés antes da chacina. O lugar não existia no mapa da cidade, exceto nas escalas da RONDESP. Lá não tem qualquer sinal de presença do Estado, lá não tem iluminação pública, asfalto, rede de esgoto, escola nem creche. Na Vila Moisés, o Estado se faz presente com as patrulhas policiais. O Cabula é um bairro repleto de histórias de insurgência, revoltas e pobreza negra desde os primeiros tempos da escravidão. Quilombolas, escravidos fugidos, libertos, adeptos do candomblé e tantos outros insurgentes viveram lá. Nem por isto se trata de um lugar marginal na Salvador do século XXI. No Cabula estão a Universidade do Estado da Bahia, escolas públicas e particulares, condomínio pra classe média e shoppings center. Nada disso existe na Vila Moisés.

A chacina aconteceu pouco antes do carnaval, nem os fartos confetes do Momo baiano enterraram doze cadáveres de jovens, que tinham entre 15 e 24 anos. Assim que os camarotes e arquibancadas baixaram as cordas e acordes carnavalescos, o Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! conseguiu mobilizar diversos setores da sociedade civil e instituições ligadas aos Direitos Humanos para uma audiência pública mediada pela Ordem dos Advogados da Bahia. A audiência publica fez a sede da OAB transbordar com cerca de duas mil num auditório onde só cabiam 150 pessoas. A tensão se espalhava até a Praça da Piedade, de onde se podia ver e ouvir as representações dos sindicatos dos policiais distribuindo panfletos, exibindo cartazes e amplificando com carro de som o protesto contra os protestos que têm se multiplicado desde a chacina do Cabula.

Foi trazida pra o centro da cidade a ação policial que vitimou, no último 6 de fevereiro, doze jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula.

Ficaram lado a lado no auditório apertado, militantes do movimento negro, muitos policiais a paisana,–  alguns deles, armados – familiares dos jovens mortos, representantes da OAB nacional, lideranças políticas, o secretário da Justiça do Estado da Bahia, estudantes, dois vereadores (apenas dois) e outros tantos oportunistas seduzidos com o emaranhado de tripés e lentes das Tvs. Não demorou muito e um militante gritou o que todas as estatísticas confirmam: a juventude negra tem sido condenada a pena de morte, sem qualquer julgamento. A dois passos dele estava um policial que reagiu erguendo o braço e dizendo “eu sou preto também e não sou criminoso”. Foi só o começo. Durante mais de três horas, a questão racial pôs em situações limites quem exigia a investigação isenta do que houve na Vila Moisés e os que inocentavam os policiais envolvidos na chacina enquanto defendiam a própria Polícia, como instituição militar.

Na voz de policiais exaltados na platéia e representados na mesa por lideranças da categoria, dois argumentos se repetiam: a “Polícia defende os cidadãos de bem contra os criminosos que estão no tráfico de drogas” e os policiais também são vítimas, também são mortos. Não há quem duvide que os policiais também estão em risco. Hamilton Borges , do Movimento Reajá ou será morto! Reaja ou será morta!, tentou apaziguar os ânimos quando militantes e policiais se enfrentaram, dizendo que nesta guerra só morrem negros. Pois é, em nome da luta contra o tráfico de drogas, cada vez mais, só morrem negros sejam eles descalços ou fardados.

Também se ouviu todo tipo de absurdo. Certo capitão aposentado e mulato se disse vítima de racismo às avesas por ser branco. Outro, negro retinto, desafiava os presentes a entrarem numa viatura e não apertarem o gatilho. Em meio a tanto racismo, foi ficando evidente que o Movimento Negro tem rumo e propostas para a tal questão da Segurança Pública que tanto aflige aos governantes e aos “ cidadãos de bem”. Como disse Vilma Reis, as balanças de precisão, os helicópteros recheados de cocaína não nascem nas comunidades, onde a maioria é negra. Se a justificativa é o combate às drogas, o endereço é outro. A defesa de investigação federal sobre os grupos de extermínio na Bahia, a desmilitarização das polícias, a extinção dos Autos de Resistência foram propostas que mostram o quanto os movimentos sociais estão maduros e cientes de que a Segurança Pública no Brasil e, principalmente na Bahia, é uma questão racial.

O Mapa da Violência no Brasil, divulgado em 2014, mostra o quanto a vitimização tem cor. Entre 2002 e 2012 morreram 146,5% mais negros do que brancos na guerra urbana. Não faltam números, nem cadáveres negros para serem somados aos jovens do Cabula. Quem atendeu ao chamado de protesto do Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! estava de luto por muito outros sepultados em covas rasas. O luto era ainda mais visível na atitude das mães e avós dos jovens mortos. A maioria dos parentes das vítimas não foi. Estavam com medo. Quem sofre uma violência policial sabe que quanto maior a visibilidade maior é o risco. Nenhuma delas se pronunciou durante a audiência. Silêncio de luto e medo, afinal como disse um policial, enquanto se retirava da sala de audiência, “a resposta a isto a Polícia dá é na área”. Quem é da área sabe o que isto quer dizer.

Entre quem defende uma discussão honesta, democrática e sem metáforas futebolísticas sobre Segurança Pública, o Brasil dos tempos da escravidão aparece como a raiz dos nossos problemas. Foi o que disse João Jorge, presidente do Olodum, e Humberto Ádamo, representante da OAB nacional. Os discursos deles convergiam para entender as razões do problema. A criminalização e a vulnerabilidade da população negra no século XXI, quando os números apontam um crescimento do número de assassinatos de jovens negros, seria explicada pelo terrível passado escravista que ainda nos assombra. É consenso, a escravidão é abominável e nos marca até hoje. Mas, o que o genocídio negro nos diz sobre os nossos dias e expectativas de cidadania numa sociedade ultra consumista? Será que dá pra por só na conta da escravidão a Vila Moisés só existir no mapa da RONDESP?

Ainda somos herdeiros do passado escravista, concordo; entretanto, por que a expressão cidadãos de bem é cada vez mais usada para dizer quem são os supostos bandidos a nos ameaçar? Colocar na conta, já bem e devidamente avolumada do passado escravista, a responsabilidade pela tensão racial no Brasil, dramatizada  na audiência da OAB, não pode ser uma maneira de libertar o Estado Republicano, de livrar seus sucessivos governos, democráticos ou não, que ainda relutam em dizer com todas as letras a quem ele chama de cidadão de bem. Não cabe só ao Movimento Negro apostar na nossa juventude. Os mortos dos pelourinhos ainda nos cercam mas é sobre o futuro e as políticas que reeditam, sorrateiramente, o racismo institucional que tratamos ao gritarmos no auditório transbordando de raiva e ressentimentos recentes o mesmo coro: Povo negro livre, povo negro forte que não teme a luta, que não teme a morte!

E a guerra segue na Bahia.

* Wlamyra Albuquerque é doutora em História, professora de História do Brasil na Ufba e autora, dentre outros livros, de O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil,  São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

 

Fonte: A Tarde On Line

O Racismo é um tabu em Portugal, entrevista a Mamadou Bâ

O SOS Racismo Portugal luta contra o racismo através de interpelações políticas e civis. Esta conversa parte de um encontro em Lisboa com Mamadou Bâ, membro da direção nacional da associação.

Pode resumir-nos a história das imigrações em Portugal?

Portugal, historicamenente, é mais um país de emigração do que de imigração, exceto entre 1996 e 2005. Nessa época, grandes obras públicas obrigam Portugal a apelar à mão-de-obra estrangeira. As regularizações em massa, a partir de 1993, atraem africanos de outros países da Europa. A partir de 2005, com a crise, Portugal deixa outra vez de ser um país de imigração. Os migrantes vêm dos PALOP, do Senegal, da Guiné, do Brasil e da Europa de leste.

Qual é a filosofia de integração em Portugal: assimilação à francesa, comunitarismo ou anglossaxonica?

Na altura da Revolução dos Cravos em 1974, não se discutiu sobre a relação com as antigas colónias. A filosofia oficial permaneceu a do mito do lusotropicalismo*. Em Portugal, a palavra racismo é um tabu.

Mamadou Bâ
Mamadou Bâ

Como nasceu o SOS Racismo Portugal?

O SOS Racismo nasce em 1990, depois do assassinato, em 1989, de José Carvalho, um militante antirracista branco. Os skinheads de extrema-direita reivindicaram o crime.

Quais são as vossas relações com os outros SOS Racismo?

O SOS Racismo existe também em França, Austria, Itália e Noruega. Cada um tem a sua cultura própria, consoante as suas realidades nacionais. Nós tínhamos relações com SOS Racismo França, mas rompemo-las em 2001 por divergências.

Como é que vocês atuam?

Organizamos debates nas escolas. Intervimos também por meio de petições, manifestos, pondo as associações de imigrantes em rede, dando visibilidade à diversidade cultural para contrabalançar a influência da extrema-direita.

Quais foram as vossas principais vitórias?

A lei contra a discriminação racial em 1999 no seguimento de uma petição de SOS racismo. E a lei sobre a nacionalidade, em 2006. Em Portugal, não basta ter nascido no território para ter direito à nacionalidade. Há crianças imigrantes que se encontram sem nacionalidade. A lei de 2006 resolveu alguns casos, mas é incompleta.

Há outros movimentos antirracistas?

Há também a Frente antirracista. E existem imensas associações de imigrantes de carácter cultural. Também começam a surgir associações de 2ª geração mais politizadas, como a Plataforma Gueto.

Pensa que, hoje, na sociedade portuguesa, há menos racismo?

Eu não diria que o racismo diminuiu. Em contrapartida, assiste-se a mais conquistas do espaço público pelas minorias étnicas. Mas o Parlamento ainda conta apenas com um negro. Estruturalmente, o Estado e o país continuam a ser racistas. E isso não irá desaparecer enquanto não se abrir um debate nacional sobre o racismo, sem crispação nem tabu.

*O lusotropicalismo

Teoria do antrpólogo brasileiro Gilberto Freyre, do princípio do século XX: Portugal seria por essência uma nação mestiça. Esta retórica persiste no imaginário de numerosos portugueses, que recusam abordar a questão do racismo, percebido como ausente da sociedade «por essência».

 

Fonte: Buala

LIDERANÇA FEMININA NA ÁFRICA

Documentário mostra a importância da liderança feminina nos países africanos
Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura | FOTO: Divulgação| Adaptação web: David Pereira

Elas são cerca de 500 milhões, espalhadas pelos 54 países que formam o continente africano. Em diversas áreas, enfrentam, com coragem e sensibilidade, problemas cotidianos que atingem a todos que vivem por lá, homens inclusive. São o esteio de culturas ancestrais, que desejam seguir em frente e se modernizar, com paz, justiça social, desenvolvimento econômico e educação. A política, a vida em comunidade, o comércio, a paz (e a falta dela em muitos casos recentes) têm como principal base de sustentação as mulheres, que se orgulham em lutar para defender seus países e comunidades. Elas, de forma silenciosa, porém verdadeira, estão escrevendo um novo capítulo na trajetória africana.Elas são cerca de 500 milhões, espalhadas pelos 54 países que formam o continente africano. Em diversas áreas, enfrentam, com coragem e sensibilidade, problemas cotidianos que atingem a todos que vivem por lá, homens inclusive. São o esteio de culturas ancestrais, que desejam seguir em frente e se modernizar, com paz, justiça social, desenvolvimento econômico e educação. A política, a vida em comunidade, o comércio, a paz (e a falta dela em muitos casos recentes) têm como principal base de sustentação as , que se orgulham em lutar para defender seus países e comunidades. Elas, de forma silenciosa, porém verdadeira, estão escrevendo um novo capítulo na trajetória africana.

A história de vida destas mulheres é o fio que conduz o documentário Mulheres Africanas – a Rede Invisível. O filme centra os depoimentos em cinco mulheres de grande representatividade em seus países: a moçambicana e ativista política Graça Machel; a liberiana Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2011; a tanzaniana Sara Masari, empresária; Luisa Diogo, ex-primeira-ministra de Moçambique; e a sul-africana Nadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura (1991). Porém, mais do que traçar um perfil destas importantes figuras, o documentário usa a visível trajetória delas para traçar um panorama da atuação de milhões de mulheres que, mesmo anonimamente, fazem a diferença. É como se todas elas pudessem falar por meio da voz de Graça, Leymah, Sara, Luisa e Nadine. A ideia de contar esta história partiu da produtora pernambucana Monica Monteiro, uma apaixonada pela riqueza da cultura e do povo africano que, desde 2007, desenvolve trabalhos com emissoras de TV em Moçambique e outros países da região. Ela conta que ao conhecer mais o continente e suas características ficou impressionada com a importância da mulher naquela sociedade. “A gente escolheu cinco mulheres e queríamos mostrar como elas chegaram ao patamar em que estão. São poucas vozes femininas no mundo, não apenas na África.” E para esta missão,Mônica convidou o cineasta Carlos Nascimbeni, responsável pela edição e pelo roteiro do documentário. “Quando cheguei, levei um choque porque a África que eu imaginava era outra. Passada a crise inicial, comecei a compreender a vida em comunidade, as semelhanças com o Brasil. Entrei em um processo de entender esse universo que é muito diferente daquele que estamos condicionados a perceber. Foi um grande aprendizado”, contou ele.

Mônica afirma que também aprende a todo momento: “A África me deu muito mais do que eu poderei dar a ela. Ela me ensinou a ser solidária, a ser generosa. Eu aprendo a cada dia com o povo africano. Quero que o documentário possa contribuir na multiplicação dessas vozes e que inspire as mulheres a transformarem o meio onde vivem”, deseja Mônica.

Com uma narrativa contada pela atriz Zezé Motta, o documentário, de forma sensível, mostra as distintas nuances que formam a África hoje, algo que transcende o estereótipo da África selvagem, pobre e violenta. Por meio da história destas cinco mulheres, o filme fala de um continente diverso, com características, culturas, religiões, comidas e hábitos que diferem de país para país, mas que em comum têm a força e a determinação da mulher, que, nas palavras da moçambicana Luisa Diogo “sustenta metade do céu”. Impossível não se deliciar com a história, contada por ela, de seus avós. O avô, grande líder comunitário em sua aldeia em Moçambique, aconselhava a todos que o procuravam. Porém, os problemas mais graves ficavam para serem opinados no dia seguinte. Isso porque quem os resolvia, de fato, era a avó de Luisa. Ela sim, a grande conselheira da aldeia.

Difícil também não se emocionar com o relato da guerra na Libéria feito por Leymah Gbowee, que liderou um movimento pacífico que culminou com o fim do conflito armado no país. “O que Martin Luther King, Gandhi e Nelson Mandela fizeram, as mulheres africanas fazem todos os dias em suas comunidades. E isso deve ser celebrado. Somos poderosas”, diz ela no filme. A importância da educação neste processo de visibilidade das mulheres fica bem nítida nos depoimentos, principalmente no de Graça Marchel. As africanas estão estudando mais, mas é preciso confrontar as tradições e os ritos, não para que elas se acabem, mas que se transformem para que não sejam elementos que impeçam as mulheres, em sua fase adolescente, de seguirem estudando.

Mulheres Africanas – A rede invisível é uma produção estritamente pertinente. Um filme que, além de visto, deve ser sentido porque comprova que o berço da humanidade pode ser também o futuro dela. Coragem e determinação para que isso aconteça, os milhões de guerreiras africanas têm de sobra.

 

Fonte: Raça Brasil

Mulheres do Candomblé contra a Intolerância

carmem

De vestido branco rendado e sorriso maroto no rosto, Mãe Carmem de Oxaguiã, a sucessora da célebre Mãe Menininha do terreiro do Gantois, na capital baiana, analisa o poder feminino na religião afro-brasileira: “As mulheres dão conta do candomblé. A mulher sabe mandar… Com carinho, ela manda”. E vai desfiando os nomes das matriarcas antes dela, antes de sua mãe, e antes ainda… Guardiãs dos segredos dos orixás.

Lançado em 2013, o livro Mulheres de Axé reuniu perfis de mais de 200 ialorixás (mãe-de-santo) de Salvador, região metropolitana e Recôncavo. E foi transformado em um documentário que o Socialista Morena reproduz com exclusividade. No tom calmo de falar, no jeito doce, a sabedoria das mulheres do candomblé contrasta com a perseguição e a intolerância que até hoje sofrem no Brasil os seguidores das religiões de matriz africana.

mulheresdeaxé

Embora desde 1939 tenha sido garantida a liberdade de culto no País, não é mais a polícia quem pretende destruir os terreiros de candomblé e umbanda –mesmo com o decreto de Getúlio Vargas, até 1976 havia uma lei na Bahia que obrigava os terreiros de candomblé a se registrarem na delegacia. Atualmente, quem persegue os seguidores das religiões afro-brasileiras é gente dita “cristã”: fundamentalistas evangélicos que disseminam o preconceito e o ódio aos fiéis do candomblé e também da umbanda.

No ano passado, o Disque 100, número disponibilizado pelo governo para denunciar agressões aos direitos humanos, registrou 149 casos de intolerância religiosa, quase todos relacionados às religiões de matriz africana. Em 2007, foi instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro), em homenagem à mãe-de-santo Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda, do Ilê Axé Abassá de Ogum, no bairro de Itapuã.

Em outubro de 1999, Mãe Gilda teve sua imagem estampada na primeira página da Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, sob os dizeres: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. No dia seguinte, seu terreiro foi invadido e depredado. Mãe Gilda acabaria morrendo dois meses depois, vítima de um infarto. A família da mãe-de-santo acabou obtendo indenização na Justiça contra a Universal, condenada a pagar 145 mil reais por danos morais.

Agora que temos um fundamentalista evangélico no poder na Câmara dos Deputados, é preciso ficar alerta. Que bom seria se todo mundo pensasse como a Mãe Jaciara de Oxum, herdeira de Mãe Gilda: “Não existe uma religião melhor do que a outra. Seja Deus, Olorum, Javé ou Buda”. Assistam ao documentário de Marcos Rezende, é muito bacana.

http://youtu.be/BwvGFPmVUlQ

Fonte: Carta Capital