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‘A nossa função é fazer as pessoas entenderem que a religião não é uma coisa de outro mundo’, afirma pai Dario Firmino – Domingos Peixoto / Agência O Globo


  

 

RIO – George Rômulo Pereira Silva era ainda um pré-adolescente quando o jogo de búzios determinou: o menino herdaria o Asé Ilê Yamin, terreiro instalado em Santa Cruz da Serra, Duque de Caxias, da bisavó, mãe Regina de Iemanjá, morta aos 95 anos, em 2009. O legado recebido pelo jovem pai de santo é dar continuidade à tradição da família Bangbosé, que teria chegado da África dois séculos atrás. Com 15 anos, George simplifica a descrição da tarefa:

– Foi bom pensar que tudo a que ela se dedicou não seria jogado fora.

Fundamentados na cultura ancestral, candomblé e umbanda também se renovam. Os jovens de até 29 anos adeptos das religiões afro-brasileiras eram quase 260 mil em 2010, segundo dados do Censo, num total de quase 600 mil adeptos. Eles herdam dos antepassados a tradição e também o desafio de enfrentar o preconceito dirigido aos cultos afro.


Pai George é herdeiro de tradicional família do candomblé – Domingos Peixoto / Agência O Globo

A tarefa se impôs para George na escola, há cerca de quatro anos. Filho de Xangô Baru – qualidade do deus ligado à justiça e à coragem, na mitologia do candomblé -, o menino saiu em defesa de um amigo xingado por colegas de “gordinho”. Os agressores passaram a chamá-lo de “macaco” e “macumbeiro”, em troco. Sua mãe, a ialorixá Lina D´Oxumaré, decidiu, então, mudar o menino de colégio.

– Hoje todos os meus colegas sabem que sou da religião, e me respeitam. Mas, as vezes, ainda me fazem perguntas engraçadas: se matamos pessoas, por exemplo – conta o menino que, quando crescer, quer conciliar a função de sacerdote com a carreira de juiz.

NO LAZER, NAMORO E ATABAQUE

Franzino e tímido, George fica à vontade quando, frente a ele, senhoras com pesadas roupas de ração – como são chamadas as vestes usadas nas cerimônias do candomblé – descem ao chão e abaixam a cabeça, em sinal de reverência. Fora do terreiro, o menino gosta de “jogar bola e conversar” e sair com a namorada, Caroline Flórido, de 17 anos. Ele também dedica horas ao atabaque, instrumento de percussão tocado nos ritos afro.

À frente do Ilê Asé Onisègún, em Guapimirim, pai de santo Dario Firmino, de 30 anos, fez da disseminação da cultura africana compromisso. Há cerca de quatro anos, leva a escolas o projeto Herdeiros do Axé, da Companhia de Aruanda, cujo tema central é a difusão e valorização das tradições afro-brasileiras e sua ligação com futuras gerações.

– A casa de candomblé precisa se movimentar e se abrir. A nossa função é fazer as pessoas entenderem que a religião não é uma coisa de outro mundo. E que está associada a manifestações culturais como a dança afro e a capoeira. O terreiro deve ser um espaço relacionado à comunidade – observa. – Preservamos e respeitamos muito os mais velhos, mas já há quem entenda que o candomblé precisa de jovens bem preparados para dar continuidade à religião.

A ideia de criar o projeto Herdeiros do Axé nasceu quando Pai Dario fazia uma visita a uma escola e identificou uma menina acanhada, no canto de uma sala de aula.

– Percebi que ela tinha feito santo (iniciação no candomblé) e estava com vergonha de dizer aos colegas, com medo de ser discriminada – lembra o jovem, acrescentando que acredita que ações culturais podem conter a discriminação.

Ele conta que já foi alvo da intolerância religiosa por ir a supermercados e lojas com vestimentas típicas. E reagiu.

– Sempre respondi não com agressividade, mas tentando esclarecer que aquilo (as roupas) faz parte de uma tradição – explica.

MANUTENÇÃO DA TRADIÇÃO

Unidos na mesma fé, outros terreiros oferecem atividades para jovens. No Ilê Asè Ala Koro Wo, em Venda Velha, São João de Meriti, Mãe Torodi de Ogum recebe crianças e adolescentes para atividades de canto e dança africanos. A sacerdotisa crítica a falta de efetividade da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em escolas públicas e particulares:

– O assunto precisa ser tratado também nas salas de aula. A juventude sempre foi a forma de comunidades de matrizes tradicionais garantirem o seu futuro. Passar essa cultura é manter a nossa tradição.

Fonte: O Globo

Duas horas com Mia Couto numa envolvente conversa que atravessa vários aspectos dos seus interesses e percursos. Como chegou até aqui, as suas geografias afectivas, Moçambique e os duros momentos de violência, a utopia da Independência, a diversidade de povos e seus modos de vida como inspiração para as histórias, o ambiente e o modelo de desenvolvimento a descobrir. Não é uma entrevista onde predomine o assunto literário, apesar do autor moçambicano desejar ter mais tempo para se dedicar à escrita. Pensando também em como levar o prazer da leitura mais longe e como ajudar a fazer surgir novos escritores.

 

Um escritor no terreno 

Como consegue articular o mundo corrido de escritor, cheio de entrevistas e viagens, com a vida de biólogo em Moçambique?

É difícil. Antes era um problema, agora é uma angústia. Tenho de resolver isso, retirando tempo de algum lado. A questão não é ter mais tempo, pois inventamos o tempo que se tem, é mais ser um tempo nosso, que a escrita nos pede. Um tempo para estar com as personagens. É inevitável que transporte problemas, o que me faz ser menos disponível para as histórias.

 

E como pensa resolver isso?

Para escrever mais a tempo inteiro preciso de criar condições no meu trabalho para que possa continuar a dar assistência à empresa e trabalhar no mato como biólogo, que gosto muito.

 

Ser biólogo é também uma ferramenta para a escrita?

Sim, o trabalho de campo é muito enriquecedor pelo contacto com a diversidade. Com este trabalho atravesso Moçambique de norte a sul, muitas vezes em tendas, próximo da vida das pessoas. Falo com elas e recolho histórias que são núcleos para outras histórias.

 

Tem preferência por algum território ou etnia específica? Pressente-se por vezes um certo animismo e o mundo invisível dos macuas ou aquelas aldeias com rituais religiosos…

Essa religiosidade é uma espécie de chão comum, apesar de ter variantes. Sabe-me bem estar na região onde nasci. Alguma coisa me recorda das línguas que ali se falam, embora já não as fale, mas acredito que rapidamente conseguiria recomeçar. É curioso como é importante conhecer essa música de infância.

Mia Couto, fotografia de José Eduardo Agualusa. Mia Couto, fotografia de José Eduardo Agualusa.

 

Foi vencedor do Prémio Camões e este ano integrou o júri. O que este prémio muda na carreira de um escritor?

Na minha não mudou muito. Mas, claro, fiquei muito feliz com o prémio.

 

Não manifesta interesse em estreitar as literaturas de língua portuguesa?

Alguma coisa tem de mudar na própria natureza do prêmio. Pode contemplar um autor, claro, mas percebe-se que a nossa comunidade linguística é mais uma utopia do que uma coisa real. No Brasil, o Camões é pouco divulgado. Uma das intenções do prémio Camões era a de suscitar a curiosidade e divulgar a obra. Por exemplo, no caso do vencedor deste ano, Alberto da Costa e Silva, não se percebe porque é que a sua obra é tão pouco conhecida fora do Brasil. Este fundo deveria permitir que a obra dele fosse contemplada, que editoras a pudessem publicar e o escritor viajar. No Camões, deve ser importante a obra não especificamente o autor. Há prémios que se organizam num sentido mais formal e de reconhecimento, mas outros organizam-se para que jovens e alunos conheçam a obra. Quando há festa, toda a gente nova que está empenhada participa. Festa é isso, é um processo, não só um momento.

 

O prêmio está de costas voltadas para quem pode realmente beneficiar com o conhecimento?

Acho que sim, alguma coisa tem de mudar. Mas é também uma preguiça nossa. Os escritores têm de brigar mais, não se pode abdicar e dizer “são eles”. Estamos numa posição estranha, deixamos que as iniciativas sejam daqueles de quem dizemos mal, dos políticos etc. Temos de ocupar esse espaço.

 

Concorda que a lusofonia constrói-se mais na base dos interesses económicos do que culturais e está muito centrada em Portugal?

Acho que tem de haver uma aprendizagem. Este projecto ou é de todos ou vamos ter Institutos Camões como institutos de Portugal. É preciso que exista uma instituição da lusofonia suportada por todos. Porque é que no júri do Camões estão Portugal, Brasil e África em conjunto? Não é justo. Mas a verdade é que os países africanos nunca deram um passo em frente para dizer que também queriam participar. O que custa a Angola e a Moçambique participar? Estão só numa posição de reclamar. Preocupa-me que Moçambique tenha uma posição menos ambivalente, menos de queixa. Mesmo em relação à língua. Depois destes anos todos, a língua portuguesa ainda é vista como a língua dos outros? Ou se assume e vamos tratar dela como coisa nossa, ou não se pode pedir aos portugueses que tenham acções em relação à língua como se fosse deles.

 

A língua inglesa também vai ganhando terreno em Moçambique…

Sim, mas é um pouco um fantasma. A língua portuguesa não tem comparação com o que era, no tempo da independência só 4,5 % dos moçambicanos falavam português, hoje, nos centros urbanos, já são 40% a tê-la enquanto língua materna.

 

E as outras 20 línguas, como são cuidadas?

É um pouco hipócrita, publicamente toda a gente faz um grande discurso sobre as línguas indígenas, mas isso implica trabalho e financiamento, e não está a acontecer nada.

 

Por serem línguas mais ligadas à oralidade?

Acho que é sobretudo uma grande preguiça. Como sempre, está-se à espera que o mundo venha resolver, se não há fundos… não há prioridades.

 

Que próximo africano poderia ganhar o Prémio Camões?

Entre outros, o Agualusa, o Ungulani Ba Ka Khosa, o João Paulo Borges Coelho ou o Ondjaki.

 

 

Os vindouros

 

Como justifica não surgirem mais vozes novas?

A guerra em Moçambique ajudou a destruir a ligação, que já era tão frágil, à escola, e as pessoas só tinham contacto com a língua portuguesa através do livro. Houve uma geração que foi sacrificada na relação com a leitura e o livro. Nas cidades talvez não tanto. Agora estão a ressurgir valores, e é curioso que Moçambique retoma a espécie de natureza mais ligada à poesia – como Angola, mais ligada à prosa – e há muitos jovens promissores no domínio da poesia. É que os escritores nascem de outros escritores, as ideias nascem de onde há ideias. Lembro-me da geração do Ungulani Ba Ka Khosa, frequentavam a esplanada do Charrua, Goa, das cervejarias, debates, tertúlias em Maputo, o café Scala, onde se reunia o Rui Knopfli e o Craveirinha, isso agora não existe.

 

Espaços de contágio onde se começa a discutir, a ver filmes e a ler livros.

Sim, e não existindo esses espaços, os jovens estão desamparados. Não há semana que não me apareça um com um papel: “Ó Mia Couto, veja lá isto!” Na nossa família tivemos a ideia de criar uma fundação com o nome do meu pai – que morreu o ano passado – ele teve uma editora, queria fazer escritores, trabalhava muito com jovens. Foi agora aprovada no Conselho de Ministros e pus parte do dinheiro do prémio de maneira a que haja como acolher esses jovens, oficinas de escrita etc. Existem pessoas que criam grupos de trabalho, clubes de leitura, há uma grande vontade de quem ama os livros para fazer coisas, mesmo que não se saiba como.

 

Presentemente escreve um novo romance…

Sim, sobre o Gungunhama mas entretanto fui atropelado por um livro de poesia. É sistemático, sempre que estou a fazer um livro de prosa só me aparece a poesia.

 

É o tal ‘poeta que conta histórias’ que às vezes se fica só pela poesia.

A poesia diz “olha lá, que não sais daqui”. Mas funciona, com essa emanação da poesia a história que quero ver fica limpa.

 

livros de Mia Couto, excerto de infografia de Ivone Ralha Livros de Mia Couto, excerto de infografia de Ivone Ralha

 

Parece ter algumas resistências à narrativa realista, crua, ao compor todo um idiolecto literário. Na Confissão de Leoa tentou abrandar essa marca estilística, experimentar outras coisas. Isso acabou por fixá-lo num certo estilo? 

Sentia-me muito sufocado, de repente parecia que aquilo tinha uma só dimensão, engraçada, bonita, da qual não me apetecia ficar prisioneiro. Não quero fazer um exercício estilístico, quero contar uma história e aquela história pedia aquilo. Quero surpreender-me. Nunca vou fazer uma coisa puramente realista, não sou desse estilo.

 

É impossível reportar a realidade sem a transformar mas, ao encobri-la com essas outras formas, de dizer as coisas às vezes parece perder-se a violência da própria situação, não concorda?

Nisso, de facto, sou mesmo moçambicano, nós não falamos directamente, não conseguimos dizer não, andamos às voltas, em discursos concêntricos, até chegarmos a algum lado. A distância da guerra talvez me ajude, ela foi tão cruel que, para falar dela, da maneira que me tinha ensinado, tinha de fazer de conta que não a aprendi, precisava de manter uma certa elegância metafórica para conservar o meu lado poético perante uma coisa tão cruel. Haverá histórias que pedem para dizer as coisas puras e duras como elas são. Mas tenho dificuldade, agora a escrever o Gungunhana volto a confrontar-me com coisas que foram muito violentas. Tenho uma relação muito difícil com a violência. Quando me ofereci para a Frelimo, felizmente havia aqueles que não tinham de lidar directamente com a violência, senão não sei como iria fazer.

 

Na sua vida desiste facilmente de uma discussão?

Não me interessa ter razão, não tenho apetência para esse tipo de poder, de marcar uma posição, dar um murro na mesa. Se entro numa discussão é à maneira chinesa, simplesmente para sugerir que pode haver outra maneira de olhar para as coisas.

 

O consenso também nem sempre faz sentido.

Eu retiro-me, há uma sabedoria de evitar o confronto que não tem a ver com a falta de coragem.

 

Não gosta do imediato?

Não, se nos colocarmos no território de ganhar, vamos suscitar no outro apetites enormes numa vida onde se perdeu quase sempre, e as pessoas agarram-se a esses pequenos triunfos. Se conseguirmos retirar o assunto do território da disputa é mais fácil convencer as pessoas de que há outros modos de olhar. Dou-me bem com esta forma de fazer guerras. O provérbio chinês “o general que ganhou a guerra sem fazer nenhuma batalha” é um lema da minha vida.

 

Em Maputo ou Luanda é fácil “deixar de ver” e embrutecer pelo facto de as imagens das desigualdades sociais estarem banalizadas.

Como ver e dar resposta a isso é uma das grandes questões nestes territórios. Por exemplo, fiz uma intervenção numa escola, e surgiu a questão do transporte de trabalhadores em carrinhas de caixa-aberta como se fossem gado, o seu perigo e etc. Mas as pessoas, com rapidez e certeza, acham que é assim e que deve continuar a ser. Mas o meu discurso foi repetido passou a olhar-se para isso de outra maneira.

 

Como vê a “luandização” de Maputo: uma cidade cara, extremamente classicista, com territórios demarcados para os brancos, com inseguranças e todas essas coisas de uma grande cidade capitalista?

Para mim é quase fúnebre, apesar de não ser muito dado à nostalgia. Mas também entendo que é difícil de escapar pois é este o modelo, não sei se temos uma grande força para fazermos outra coisa. Faz-me confusão a falta de resistência civil que pelo menos entrasse em confronto com a facilidade com que se toma a cidade de Maputo.

 

Certamente não vem das ONGs.

 As ONG’s andam sempre à volta dos direitos das mulheres, de questões políticas, as questões de espaço urbano, património, quase que não existem.

 

Como vê a realidade angolana?

Vejo com alguma preocupação, por perceber que uma certa elite moçambicana olha para Angola como modelo do ponto de vista dos comportamentos, economias, gestão da sociedade, o lado fashion. Os angolanos passam férias em Moçambique e vêm buscar namoradas, há um certo fascínio. Claro que Angola não é só isso, há muitas Angolas.

 

A literatura angolana tem documentado a história do país, vai acompanhando?

A minha preocupação é ler bons livros. Angola ao mesmo tempo é um país muito curioso para nós porque tem algo que nunca tivemos: um grau de urbanização mais apurado, muito mais consolidado e antigo. Como a literatura é um fenómeno da cidade, Angola tem de facto uma literatura mais sedimentada que a nossa, tem várias gerações, é resultado de sociedade crioulas. É uma experiência que gostava de visitar em Angola.

 

E a oralidade?

O fenômeno do português ser a língua principal interessa-me, como os vários traços sociais que manejam a língua, como a tornam plástica.

 

Em defesa do Ambiente

 

Enquanto biólogo, como vê a procura de recursos e o quadro de Moçambique enquanto nova potência econômica? Será possível um equilíbrio entre o “desenvolvimento” e a agricultura sustentável?

 

Essa dualidade está mal desenhada. Não sei está relacionado com este modelo de desenvolvimento, se há outros mais felizes. Talvez seja uma coisa utópica, mas não deve deixar de ser dita e pensada. Acabamos por aceitar como modelo único possível. Pode haver problemas ambientais, mas as grandes questões são de ordem social: como são desarrumados os modos de vida, culturas inteiras arrancadas do seu habitat social e histórico. A solução não pode ser deixar como está. Existe a ideia irrisória de que as coisas estão bem porque as comunidades estão lá, mas elas estão dentro deste modelo e são empurradas para modos de sobrevivência muito agressivos.

 

As populações utilizam os recursos de forma inconsciente, por exemplo o caso dos mangais.

Por exemplo, nesses mangais, os viveiros dos peixes estão a ser assaltados pelas próprias comunidades que precisam de sobreviver e pescam com redes-mosquiteiro, cortam onde antes não cortavam. Dantes havia gestão e códigos próprios, e até zonas sagradas que eram poupadas.

 

Mangal perto de Pemba, fotografia de António Gouveia Mangal perto de Pemba, fotografia de António Gouveia

O fenómeno do land grabbing, o ataque a zonas de cultivo para massificar explorações, condenando populações à fome. Temos o hemisfério sul a produzir menos para sustentar as energias renováveis do norte?

Obedece a modas. Os biocombustíveis eram uma palavra de ordem e não chegou a acontecer com a dimensão que se pensava. Mas a questão está lá, mesmo em menor grau.

 

Como se combate esse aproveitamento?

Isto é quase uma questão psiquiátrica, é preciso dizer a estas pessoas como é que se pode combater, mas de maneira a que não surja como um fantasma, para não parecer: “estes tipos estão a travar o desenvolvimento, estes tipos não olham pelo seu país, estão a impedir que as pessoas saiam da pobreza com este discurso”. Até em nome dos próprios povos se acaba por empurrá-los para uma situação sem saída.

 

Para a dependência?

É preciso ter alguma criatividade e perceber que há um momento em que se tem de negociar. Por exemplo, com os mangais, se dissermos “é preciso defender a biodiversidade” não vamos ter sequer a adesão das comunidades, a biodiversidade é um conceito abstracto. Outra coisa é alertar aqueles que mandam na economia – que não são, obviamente, só os nacionais – e falar na língua deles, no economês: “Se se perde o mangal, perde-se o camarão”. Uma das principais exportações do país acaba por estar em risco. Alertar que as próprias lógicas de rentabilidade desse modelo ficam em risco com esta maneira selvagem. Não faço parte de ONGs, algumas são sérias mas a maior parte vivem de retro-alimentação, podem ser empresas disfarçadas, são discursos que se repetem. Um discurso alternativo que possa surgir tem de ganhar espaço e tempo, ter possibilidade de recuo táctil. Sem esse diálogo não funciona, não sabem a tua língua, não pensam da tua forma.

 

Faz muitas vezes esse papel de intermediário?

Sim, com o risco de ser acusado de transigente, demasiado aberto, evitando o confronto. Se acho que isto tem de mudar radicalmente? Sim. E o que tenho a sugerir? Não sei, mas há coisas que se pode ir pensando. Por exemplo, aquilo a que chamamos “recursos”. A palavra está errada à partida, significa que se está a legitimar uma ideia de que aquilo que lá está, seja renovável ou não, existe em função da nossa necessidade. Como se a espécie humana estivesse feita para fazer uso disso, credenciada por uma ordem qualquer divina.

 

Antropocentrismo?

E a maneira como nós chamamos, recursos humanos. São pessoas!

 

Mas as empresas de impacto ambiental – e o Mia tem uma empresa nessa área – apresentam muitas condicionantes, pela clara promiscuidade com os clientes que lhes encomendam os estudos. Sente alguma frustração com isso?

As empresas de impacto ambiental são pagas pelo próprio cliente, pode-se questionar a idoneidade deste processo, sim. O que seria correcto era as empresas pagarem ao Estado, que constituía um fundo, que indigitasse uma empresa que estaria à vontade para chumbar uma empresa. Percebemos que isso é uma limitação. Há casos que não aceitamos à partida, e outros que chumbamos ou obrigamos a redesenhar.

 

Na questão dos 300 mil hectares da Portucel, conseguiram minimizar alguma coisa?

Ainda está em andamento.

 

Podiam mostrar que a eucaliptização é um erro repetido?

Os projetos de plantio têm regras estabelecidas pelo Banco Mundial para ser seguidas. Hoje acredito que esses critérios são dos mais bem construídos, do ponto de vista técnico, para defesa do ambiente. Se fossem respeitados estaríamos bem melhor. O que falta é a capacidade de controlar e fazer alguma fiscalização. A Portucel teve que redesenhar o seu próprio projecto. Onde as comunidades não querem, nem onde há florestas nativas eles não entram, há uma contenção.

 

Sente-se um combatente nesses assuntos?

Um pouco, na luta para aproveitar zonas de fratura para poder ocupar terreno.

 

Se a alteridade fosse uma coisa a aprender e não uma ameaça, o que seria interessante valorizar fora da lógica hegemónica de que “este é o único modelo”? O que teríamos a aprender com essas outras formas de vida, outros modelos económicos e sócio-culturais sem ser o da economia do crescente?

Parece que é uma coisa muito filosófica – e sou um homem que vem de uma cultura misturada -, noto que para mim foi muito benéfico ter aprendido a necessidade de harmonia com os outros, com o espaço, o convívio com os mortos etc.

 

Não falar da natureza como um “recurso” mas como um amigo?

Ou como uma coisa que não tem nome. Uma das dificuldades que tenho no campo é dizer que sou biólogo e estou a trabalhar na natureza. Não tem tradução para as línguas locais.

 

Estamos a começar a preocupar-nos?

Com este lado mais holístico e a compreensão humana, parece que também andamos à procura. Mas estas pessoas já vivem num certo entendimento daquilo que as circunda. Com uma certa religiosidade mais permissiva, que não se guia pelo Livro, seja ele qual for. Há uma relação que me parece mais livre entre o corpo. As pessoas parecem mais felizes.

 

 

Como se defende isso sem defender um certo obscurantismo? Por exemplo, se existe electricidade não é melhor ser para todos?

Mas isso é o logro que faz com que as pessoas que vivem em sistemas rurais, na pobreza, muito carentes, acreditem que esse modelo dá resposta a tudo. Essa é a ilusão, de que para terem água, energia ou infra-estruturas têm de pagar e engolir a pastilha toda. Não sei se haverá uma maneira de fazer diferente.

 

E atrás disso vêm todas as outras necessidades que são criadas.

O problema é que quem não tem torneira, não quer ter só a torneira, quer ter a casa e outro tipo de vida. É como dizer a um filho para não namorar com determinada pessoa. O direito a fazer a aprendizagem, a ter opções, tem de estar lá. A grande esperança destes países está em gerações que possam ter algum distanciamento crítico em relação ao próprio país, gente que sai e olha para Moçambique de outra maneira.

 

Que já não têm tanta voracidade de enriquecer?

Percebem que há outras coisas, que estas sociedades não são felizes. É uma questão de tempo.

 

 

A violência

Nos últimos anos tem havido situações de violência em vários contextos. Os miúdos do subúrbio que vieram para as ruas manifestar-se, houve motins. Agora este regresso do fantasma da guerra. Os moçambicanos aparentam ser pessoas muito passivas e tímidas mas depois há uma certa cultura de violência, concorda?

Podemos explicar desta forma: predomina uma sabedoria antiga de sociedades que não tinham Estado, nem instituições mediadoras para a violência. Resolvia-se pela via das famílias, dos chefes tradicionais, etc. Quando chegámos à Independência, muitas das comunidades ainda estavam assim, o Estado colonial era muito frágil, só localizado nas cidades. No pós-independência, também se manteve frágil, não teve tempo, houve a guerra. A mentalidade é “eu não me vou expor, nem vou criar um conflito com o meu vizinho se não tiver a certeza de que vou ganhar.” Na Europa é fácil: tenho um problema, vou à polícia, acredito que há tribunal, uma força mediadora. Aqui não, a pessoa não expõe a sua opinião, e não vai arriscar individualmente, só fala quando pode gritar ou quando se está em maioria. É a explosão que acontece.

 

O peso da sociedade gregária, o indivíduo por si não tem muito valor?

O indivíduo está feito para negociar, entrar em consenso. Os moçambicanos recebem bem, não conseguem dizer não, algo muito oriental. Como é que este mesmo povo, tão cordial, fez uma guerra com um milhão de mortos? Mas acontece, não quando é gota, mas quando é onda, gota somada a gota.

E agora com a iminência de algo que pode destroçar o dia-a-dia, como se sentem as pessoas, afastam-se sentindo que é uma coisa localizada?

Primeiro receio: haver outra vez guerra é inaceitável. É difícil imaginar, quem viveu 16 anos de guerra nunca mais quer guerra. A grande força que une os moçambicanos é precisamente “não queremos guerra”.

 

Ainda se tem medo de pronunciar a palavra guerra. Nas cheias de 2000 havia pessoas a saltarem dos telhados nos resgate com medo dos helicópeteros sul-africanos ainda com a memória da guerra.

Está a acontecer uma situação caricata, a certa atura põe-se ao mesmo nível Renamo e Frelimo, sentem-se, dialoguem. Tem de se pedir isso à Renamo, um partido político que tem armas.

 

 

Contra a chantagem da força, não há vontade política pela via diplomática?

 

Mia Couto, fotografia de José Eduardo AgualusaMia Couto, fotografia de José Eduardo Agualusa

Existe alguma ambivalência. Não culpo o governo porque acho que se estivesse a governar não iria aceitar esta chantagem da força. A primeira coisa é que a Renamo tem de se convencer a ser um partido político. Se lhes pedem para entregar as armas e não entregam, tem sentido então utilizar a força para tirar aquela gente da via da violência. Eu próprio estou dividido, nas negociações, a Frelimo foi fazendo cedências e não me parece que se possa continuar a ceder só de um lado, principalmente porque agora o discurso da Renamo é que, em nome da despartidarização do Estado e das Forças Armadas, quer uma partidarização a meias. E eu como cidadão também quero ser consultado.

 

Não pode ser um aviso para que a promiscuidade entre Estado e partido acabe, a exigência de uma democratização?

Sim, mas que o façam de outra maneira, todo o argumento é discutível. A Renamo tem assento no parlamento. É uma coisa esquizofrénica: acontecem ataques, estão a morrer pessoas e os tipos sentados a discutir a lei do Orçamento ou qualquer coisa como se fosse noutro país. Portanto, pode-se acusar este governo de muita coisa, mas não de falta de tolerância. E sendo que isto é intolerável.

 

E o fator econômico, alguém estar a sentir-se fora do “acontecimento” não é uma das razões para a chantagem da Renamo? Porque é que nos anos em que se vivia numa pobreza extrema não aconteceu nada e agora, assim que a economia cresce, vêm ao de cima estes conflitos?

Acho que tem mais a ver com o Dlakhama perceber que é a última vez que se pode candidatar, é um processo pessoal. Acredito que na própria Renamo haja gente que também discorda desta via.

 

Democracia e participação

 

Apesar disso, em Moçambique tem havido alguns passos no sentido da democratização, novos partidos etc.

Sim, e a atitude do cidadão que perdeu o medo de falar e dá a cara. O risco de alguém que se assume como cidadão, estou aqui e digo o que tenho a dizer, é muito recente. É um avanço, e está a causar medo. Mas é isso ou 2010 com jovens a partir tudo. Essa fase de manifestação serviu de grande aviso, e depois começaram a acontecer coisas no mundo.

 

Foi uma conquista, os jovens indignaram-se e houve recuo da parte do governo…

Sim. Há pouco tempo também, uma manifestação de 20 mil pessoas, com elegância, organizaram-se e mostraram um grande grau de civismo. Até então uma manifestação significava partir tudo, e esta foi um grande exemplo.

 

Jornal do povo, fotografia de Marta Lança Jornal do povo, fotografia de Marta Lança

 

Em Luanda as manifestações são reprimidas com prisões e repressão policial. Em Moçambique é mais brando?

Desse ponto de vista não tenho vergonha do meu país. Há uma atitude civilizada do governo que aceita. Obviamente que há intimidação, mas é feita num quadro que hoje é comum em todo o lado.

 

 

Os tempos de militância

 

E então vai para Maputo aos 16 anos para estudar, e um ano depois entra na clandestinidade.

Em 1973 comecei a ter algumas ligações com a Frelimo, a fazer algum trabalho no movimento estudantil a que eu tinha aderido. Em 1974 era formalmente da Frelimo.

 

Viveu a Independência com 20 anos. Foi uma grande utopia?

Foi o grande sonho da minha vida. Mesmo quando a Frelimo me pediu para abandonar o curso de Medicina, e eu naquela altura queria mesmo ser médico, psiquiátrico…

 

Não era compatível, não era altura para estudar, não havia condições?

Porque se pensava que havia poucos jovens capazes de infiltrar-se nos órgãos de informação dos portugueses, quer dizer, portugueses de extrema-direita. E isso tomava-me o tempo todo. A ideia era que eu ficasse um ano, mas fiquei doze. Foi um tempo muito feliz, de grande generosidade, estávamos todos muito empenhados num país, um mundo e homem novo. Os principais erros dessa altura deveram-se à grande ingenuidade, uma simplificação do mundo. As coisas são mais complexas.

 

Não se sentia limitado?

No princípio não, quando havia dúvidas o argumento da guerra fazia suspender essas questões, estava envolvido numa coisa maior. Em 85 pensei “já não acredito”, e tinha uma grande urgência sair.

 

A figura do Samora Machel cativava-o?

No próprio momento percebi alguns grandes erros que ele cometeu. Eu era director de um jornal e nessa condição assistíamos às reuniões do Comité Central. Era o modo dele nos envolver naquilo que chamava o “Pensamento Comum”, que eu não percebia que era o pensamento único. Mas havia uma certa confiança, éramos envolvidos no processo. Havia coisas muitos grandiosas e violentas, sim. O meu amigo Carlos Cardoso foi preso a mando do Samora. Eu próprio seria preso se não fosse a poesia. Chamavam-me e diziam “ah, ele é poeta”, como se fosse assim uma doença. O Samora tinha uma visão, uma entrega aos outros e uma sensibilidade que o fazia ser ele, não estava auto-centrado, queria saber de cada um.

 

E a imprensa que dirigia na altura era o braço direito do pensamento único?

O direito e o esquerdo.

 

Samora tinha consciência do valor da comunicação, valorizava as pessoas da imagem. No interesse de criar uma unidade nacional?

Sim, ele tinha a noção de que era preciso construir uma nação e isso nasce de uma narrativa, por via da rádio e da imprensa. A primeira coisa que ele pensava era nos órgãos de informação, nos jornalistas, se havia meios. Era o primeiro a saber tudo, onde vão dormir, etc. Era formidável, vinha visitar-nos a saber se tínhamos comido e se estávamos bem.

 

Só nas cidades, ou havia delegações nas províncias?

Havia a preocupação de descentralizar, criaram-se redes de correspondência populares. Era gente muito humilde. As primeiras notícias que chegavam à Agência de Informação eram impressionantes, distribuímos bicicletas para virem entregar as notícias. A ideia era o país reconhecer-se nas suas diferenças.

 

 

O caso Carlos Cardoso

 

Carlos Cardoso já era perseguido nessa altura, preso pelo Samora?

Foi preso com a mais alta acusação de Sabotagem ao Estado Popular. O homem podia desaparecer e foi graças a um grupo de colegas que reunimos provas que ele não tinha feito o que se pensava. Mas Samora falava com ele em particular e gostavam-se. Foi pontual. A reportagem do Cardoso contrariava a versão oficial do que o Exército fizera numa operação militar. O Cardoso era várias pessoas ele tinha essa crença turco, sueco e norueguês.

 

Foi assassinado em 2000. Teve a persistência da luta pela verdade, justiça. Como era?

Ele aparecia em casa de uns amigos de casa em casa, sabia que já andava a ser perseguido. Quando se foi ver nos dossiers que ele andava a mexer, nos bolsos e nas gavetas descobrimos umas 12 razões para ser assassinado. Era uma pessoa incrível, tinha perfeita noção do que ia ser na próxima reencarnação.

 

O que há a preservar da lição do Cardoso?

O nome dele está vivo, e entre alguns sectores acha-se que o jornalismo de intervenção é a via certa. Mas acho que aí houve um grande recuo. O que ele fazia era ímpar, apontar nomes, apresentar provas.

 

 

Filho da terra

 

Como está a Beira?

Luta para não se reconhecer morta. A Beira era um porto que servia as economias do interior, através do seu corredor, sendo a sua razão de ser o Zimbabué.  A Beira entrou em decadência, e até que o Zimbabué volte a ressurgir das cinzas… Uma hipótese seria servir de escoamento ao carvão que se está a descobrir em terra, mantendo a vocação de linha de saída. Por outro lado, o carvão também foi uma história cor-de-rosa que não acabou bem.

 

Beira, Annie CoelhoBeira, Annie Coelho

 

Nota-se um certo esplendor de outrora que contrasta com a decadência. Ainda tem ligações ou família por lá?

Tenho um primo e amigos. Por ser filho da terra, na Beira sempre me cobram para lançar os livros primeiro lá. Sinto essa obrigação. Eu e os meus irmãos juntámo-nos para reabilitar a escola primária onde estudámos. Demos livros para a escola secundária. Aquela cidade deu-nos muito, fui muito feliz por lá. Apesar do período difícil de quando comecei a perceber o mundo, foi na Beira que despertei para essa consciência.

 

Do que sente mais saudades?

Das férias nas montanhas do Rovuma, perto do Zimbabué, aquilo era a ausência quase absoluta do medo. Nós ficámos durante um mês, nas férias grandes, acampados nessas montanhas. Não havia telemóveis, os pais não sabiam nada de ninguém, mas não lhes passava pela cabeça que pudesse acontecer algum mal. Esse mundo já acabou.

 

 

Tinha contato com o Grande Hotel da Beira, que entrou em colapso muito antes da independência?

Tenho uma lembrança muito vaga mas nunca vi aquilo vivo. E até morei perto desse bairro. Saltitávamos muito, quando o meu pai tinha um problema mudava de bairro, se tinha um problema maior mudava de cidade.

 

 

Publicado originalmente no jornal Rede Angola.

 

 

 

por Marta Lança

Fonte: Buala

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Leia o que a atriz Ruth de Souza falou em entrevista à Raça Brasil sobre sua carreira

atriz Ruth de Souza | FOTO: Kadão Costa/Estúdio Líquido

Entre existir e ser notado há uma única diferença: a coragem. Coragem é aquilo que faz com que uma pessoa subverta a ordem, desobedeça as regras, rasgue os dogmas e aja. Assim fez Ruth de Souza, que ressignificou a presença da mulher negra no mundo das artes cênicas. Ela ousou ver mais do que estava à mostra e desbravou horizontes até então desconhecidos para a maioria das atrizes negras brasileiras. Historicamente, a mulher negra de sucesso faz da audácia e do novo sua bandeira. Nesta entrevista, nada mais justo que recordar algumas revoluções que uma profissional negra precisou enfrentar para obter êxitos que ainda hoje ecoam na arte – mais precisamente na televisão e no teatro. Foram mudanças que, de uma forma ou de outra, influenciaram a vida e a obra das gerações seguintes. Ela poderia ter sido mais uma que não se libertou dos serviços domésticos, no entanto encontrou neles a matéria-prima de seu talento. Foi a primeira negra a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, está na TV globo desde que a emissora foi inaugurada, e ainda hoje se destaca pelo longo currículo, feito que pouquíssimos profissionais tem a honra de alcançar. Ruth recebeu a equipe da Raça Brasil no apartamento onde vive, na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo um pouco debilitada fisicamente, mostrou que a cabeça continua atuante como sempre. Com bom humor e irreverência ela falou sobre sua trajetória profissional, racismo e os estereótipos que os negros enfrentam na carreira de ator.

Veja trechos da entrevista com Ruth de Souza

Sua trajetória profissional já é bastante conhecida. E pessoalmente, quem é Ruth de Souza? 

Alguém simples que adora as pessoas, gosta de fazer amigos e de manter os amigos. Sou eu, Ruth.

A senhora é uma atriz que trafega aparentemente à margem das querelas estéticas que sempre marcaram a teledramaturgia. Fale um pouco sobre sua infância e suas heranças culturais.

O meu trabalho é uma espécie de terapia. Adoro trabalhar, bom seria se todos fossem assim. Meu pai era analfabeto, era lavrador no interior de Minas Gerais. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro, mas fui para Minas ainda pequenininha. Quando meu pai morreu, voltamos para o Rio e minha mãe foi trabalhar como lavadeira para sustentar a casa.

Qual foi a primeira personagem que a senhora interpretou?

Eu fiz uma velhinha. Na época eu tinha 18 anos e interpretei uma velhinha caquética igual eu estou agora (risos). Era a história do imperador do Haiti. Atravessei o palco do Theatro Municipal com uma trouxinha nas costas. 

“Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um” | FOTO: Kadão Costa/Estúdio Líquido

 

 

É verdade que você foi a primeira atriz negra a pisar no palco do Municipal?

É verdade, eu fui a primeira atriz negra.

E como a senhora se sente quanto a esse pioneirismo?

Foi uma responsabilidade muito grande, e ao mesmo tempo me encheu de orgulho. Era uma fase muito difícil para o ator, muito difícil para o negro. Não havia negro na TV, só havia o Grande otelo fazendo comédia. 

Qual foi a personagem que mais marcou sua vida e que fez seu coração bater mais forte?

Fiz diversos papéis que gostei muito, fica difícil dizer apenas um. Gostei muito de fazer na TV a “Cabana do Pai Tomás”, “ossos do Barão”, onde eu fazia a neta de um barão e “Sinhá Moça”, que foi um grande sucesso. Já no cinema foi muito bom fazer “Filhas do Vento”. 

A senhora já viveu alguma situação de racismo em sua vida ou em sua carreira?

Senti que em alguns papéis eu tive que cobrar, aquela coisa que o papel tem que ser assim e que negro fala assado. Me lembro de uma vez que o diretor da Companhia Cinematográfica Vera Cruz me disse que eu era muito magra para interpretar uma escrava de fazenda, na época eu pesava 45 quilos. Ele tinha a concepção que a negra tinha que ser gorda risonha e ser boa de fogão. Logo após esse trabalho, fui interpretar outra personagem com o mesmo nome da anterior, aí perguntei ao diretor: “Por que toda vez eu tenho que fazer um personagem de nome Bastiana? Porque toda negra se chama Bastiana, ele respondeu. Eu disse: Não. Eu me chamo Ruth”. Eles estavam habituados ao negro na fazenda e à negra dentro da cozinha. Mas sofrer discriminação eu não sofri, sempre tive uma postura que me ajudou muito. Às vezes nossa gente tem certas posturas que não ajudam muito.

Como a senhora avalia o trabalho dos nossos autores de novelas, hoje, especialmente os que rejeitam os personagens negros? O negro brasileiro recebe os papéis que merece nas telinhas?

Não, de jeito nenhum. Agora, por acaso, o Lázaro está conseguindo, a Camila e a Taís também. Está aí o meu orgulho de ter começado a abrir caminho para essa família toda, tanto que eu recebi uma homenagem da Academia de Cinema. Na ocasião, chamaram todos os atores jovens para me homenagear, me deu um acesso de choro… Foi tão lindo saber que eu abri o caminho para todos aqueles que estavam ali presentes.

 

Fonte: Raça Brasil

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No ano em que lembramos os 50 anos do golpe que instaurou uma ditadura militar no Brasil veja a participação do negro na militância contra a ditadura

TEXTO: Daniel Keny | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Cartaz do filme “Onde Está Osvaldão?” | FOTO: Divulgação

Entre tantas vidas perdidas, pouco se fala das vitimas negras da ditadura. Muitos dirigentes e guerrilheiros negros ficaram no limbo. Quem conhece a história de Osvaldão, que lutou bravamente no Araguaia? Ele foi a  gura mais emblemática da guerrilha, e além das habilidades físicas e do porte atlético, foi descrito como um homem generoso e de grande coragem por quem conviveu com ele. Na região do Araguaia, até hoje é tido como herói, mas sequer aparece nos livros didáticos quando o assunto é ditadura e, ao contrário de vários militares, seu nome não intitula nenhuma escola pública.

Apesar do destaque, Osvaldão não é o único ocultado, conforme destaca o diretor e editor da Afropress, Dojival Vieira. “Durante os anos de chumbo, houve a resistência armada ao regime militar. Naquela época, muitos foram presos, torturados e mortos. Hoje, ainda são mais de 400 pessoas desaparecidas. Como a luta contra o regime foi constituída principalmente por organizações guerrilheiras brancas, ou seja, a classe média branca urbana, pouco se fala e se lembra que a participação dos negros foi muitos importante. Muitos deram as vidas pela democracia e poucos são lembrados. Por exemplo, Osvaldão, Carlos Marighella, que era filho de um imigrante italiano com uma negra descendente de escravos, Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, entre outros.

Existe uma lacuna histórica a ser preenchida, senão as gerações futuras continuarão com a ideia de que luta contra a ditadura foi travada unicamente pelos brancos”, afirma. Em 1978, a repressão feita sobre a imprensa, os sindicatos e os movimentos políticos ainda era violenta. Na região do ABC, João Rodrigues da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, um homem honesto e trabalhador, acabou morto quando saía de uma reunião sindical, onde havia decidido deflagrar uma greve. Como em centenas de outros assassinatos de brasileiros que lutavam por um país melhor, até hoje não se sabe quem cometeu o crime.

Dinalva Oliveira Teixeira, uma guerrilheira do Araguaia | FOTO: Divulgação

O caso de Santos Dias é mais um que simbolizou a truculência do regime militar. Visto como um homem tranquilo, atuava no movimento operário e era engajado em diversos agrupamentos sociais que visavam melhorias comuns. No começo dos anos 1960, acabou expulso do campo de sua cidade natal, Terra Roxa, São Paulo, devido a sua atuação social. Na capital, passou a trabalhar como ajudante geral em uma fábrica e participava da pastoral operária. Já como inspetor de qualidade da Filtros Mann, em 1979, pouco depois da promulgação da Lei de Anistia, Santos aderiu à greve da categoria metalúrgica por 83% de aumento salarial.

Alguns dias após o início da reivindicação, quando tentava negociar a libertação dos companheiros presos, foi atingido pelas costas por um policial. Após o episódio, Santos Dias tornou-se um símbolo de luta e resistência contra a repressão política.

Movimento Negro não escapou da perseguição da ditadura, por conta das suas manifestações de cunho racial. Os militares conseguiram distorcer o mito da democracia racial a seu favor e tacharam os militantes de impatrióticos, racistas e imitadores dos ativistas norte-americanos (que lutavam pelos direitos civis).

O movimento acabou esmagado, assim como todas as lutas ditas “identitárias”, como a questão da mulher também. A luta ideológica esquerda contra direita, proletário contra burguês, se sobrepunha a todas as demais. “A esquerda brasileira, neste período, não considerou a questão de raça um elemento central em sua resistência, em sua ideia de construção de um país democrático. A luta de classes sempre foi o eixo central. Hoje, muitos historiadores dizem que o racismo, a herança dos quase 400 anos de escravidão vai se resolver no contexto das transformações sociais necessárias. Isso é um engano que a esquerda brasileira precisa resolver. É preciso compreender que apesar da questão de classe ser a frente para a luta anticapitalista, a questão racial não pode ocupar uma posição lateral, não pode ficar à margem. O Brasil foi o último a abolir a escravidão, foi o pais que mais sequestrou negros da África, é o país onde a abolição não representou a inclusão da população negra”, avalia Dojival.

Fonte: Raça Brasil

“Por um mundo sem armas, sem drogas, sem violência, sem racismo”. Esse é o tema o tema de uma campanha feita pelos alunos do 9º ano da escola I. L. Peretz, de São Paulo.

O projeto Cartão Vermelho ao Racismo começou nas aulas de história e está sendo divulgado nas redes sociais.

Além das publicações nas redes sociais, os estudantes também têm promovido oficinas para o restante da escola sobre diversidade. Entre as atividades, estão contação de histórias e confecção de bonecas abayomi (feitas com retalhos de pano e que não têm demarcação de boca, nariz e olhos).

Na sala de aula, os alunos estudam a abolição da escravatura do Brasil e teorias como o darwinismo social. Também têm contato com casos de preconceito no futebol.

Leia abaixo o texto produzido pelos alunos do 9º ano na íntegra.

*

Nós, alunos do 9º ano do Colégio I. L. Peretz, estamos escrevendo para falar de um assunto deveras revoltante.

Nas aulas de história, aprendemos e enxergamos uma triste realidade ainda presente no mundo atual: o racismo.

Estudamos as famosas teorias racistas do século 19, quando se fortaleceu a ideia de que o ser humano está subdividido em raças, sendo uma superior e outras inferiores. Vimos como essas teorias tentaram destruir culturas e causaram conflitos, como na África em tempos de imperialismo, quando negros, ou melhor, seres humanos, foram humilhados e tratados como subumanos.

Também falamos sobre o racismo durante a escravidão, bem aqui no Brasil, terra em que os indígenas também foram submetidos a tal situação. A escravatura e o tráfico negreiro causaram muito sofrimento aos negros, nossos irmãos, ao serem maltratados em uma das piores passagens da história da humanidade.

O pensamento racista em relação aos negros continua mesmo após o fim da escravidão. Os negros além de viver o passado de seus ancestrais, ainda convivem com esse preconceito inaceitável.

A forma como a abolição foi feita tem consequências até hoje. As condições atuais da grande maioria dos negros são frutos da escravidão que teve um péssimo encerramento, já que os ex-escravos não tiveram para onde ir, tampouco moradia e trabalho. Para piorar a situação, os governos seguintes não criaram medidas para integrá-los à sociedade.

Depois de analisarmos os casos velhos e atuais de racismo no futebol, que merecem toda a preocupação por serem pesadíssimos também, chegamos às conclusões de que só existe uma raça: a Raça Humana e de que devemos ser tratados todos igualitariamente e com respeito.

Então, estando já no século 21, e não suportando ver esses inaceitáveis casos racistas ainda acontecerem, decidimos criar a nossa campanha “Cartão Vermelho Ao Racismo”, que possui contas em redes sociais.

Sendo jovens, não temos muito poder para divulgar a campanha, mas o que não nos falta é a vontade e o amor. A vontade de um mundo melhor, onde as diferenças estejam livres de preconceito. Queremos fazer a diferença, espalhando o amor entre as pessoas, pelo bem de todas elas.

Nossa campanha abrange todos estes pontos relatados em nossas reflexões, pensamentos, ideias e muito mais. Acreditamos que nós podemos mudar o olhar das pessoas e que temos poder de ação para transformar o mundo. Precisamos de apoio para alcançar mais e mais pessoas. Por isso, pedimos sua ajuda para divulgar a campanha, não como favor a nós, mas à humanidade.

 

Fonte: Folha

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