Em abril de 1895, as lutas políticas das facções partidárias do estado da Bahia chegavam a tal tensão que a toda hora se esperava irromper uma guerra civil programada, segundo se dizia, para o dia da abertura do parlamento estadual. A população, sobressaltada, abandonava a cidade com medo dos acontecimentos. Um dia, foi depositado um feitiço ou “coisa feita” na porta do edifício das câmaras. A imprensa ridicularizou o caso. Raimundo Nina Rodrigues, médico e antropólogo que primeiro estudou as religiões ditas hoje de matriz africana, revoltou-se com a forma com que essas religiões e o povo que as professava estavam sendo tratados. Para Nina Rodrigues, a manifestação fetichista era tão lógica e legítima quanto a intervenção de um prelado que, conversando com os dois lados das facções partidárias em disputa, procurava restabelecer a paz na Bahia. Segundo o médico e antropólogo, o “despacho” procurava também intervir nessa disputa para o bem da cidade. 

Nina Rodrigues descreveu este caso em seu livro “O Animismo fetichista dos negros baianos” para afirmar a universalidade das crenças nos orixás na Bahia e combater a perseguição às religiões áfrico-baianas, como dizia. Embora preso às teorias racistas de seu tempo, na virada do século XIX para o século XX, o médico e antropólogo foi o primeiro a denunciar as perseguições às casas de culto em Salvador e o primeiro a se contrapor à ideia de que essa era uma religião menor. Segundo Nina Rodrigues, todos na Bahia estavam aptos a se tornarem negros, a professarem a fé e a crença nos orixás. Sua revolta contra os que ridicularizavam as religiões afro-brasileiras levou-o a escrever inúmeros artigos denunciando a falsidade daqueles que se consultavam com os afamados pais-de-santo e mães-de-santo às escondidas e criticavam-nos em público.

Mais de cem anos se passaram e os jornais noticiaram outro “despacho”– desta feita sentença, e não “trabalho feito” –, do juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17a Vara Federal do Rio de Janeiro, negando provimento à ação do Ministério Público Federal originada por uma denúncia da Associação Nacional de Mídia Afro (Anma) pedindo ao Google que excluísse do YouTube quinze vídeos considerados ofensivos à umbanda e ao candomblé.

Em seu “despacho”, o juiz federal afirmou: “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”. Segundo o juiz, a umbanda e o candomblé “não contêm os traços necessários de uma religião por não terem um texto-base (como a Bíblia ou o Corão)”, uma estrutura hierárquica nem “um Deus a ser venerado”.

O juiz não só não mandou retirar os vídeos do YouTube como emitiu sua opinião favorável a um dos lados em disputa, as religiões evangélicas autoras dos vídeos em pauta, ao afirmar que umbanda e candomblé não são religiões. Anunciada a decisão, a grita foi geral e duras críticas foram feitas pelos adeptos das religiões de matriz africana e também pela sociedade civil de um modo geral. O representante da lei, diante dos reclamos, refez o seu “despacho” afirmando: “o forte apoio dado pela mídia e pela sociedade civil, demonstra, de forma inquestionável, a crença no culto de tais religiões”. Porém não voltou atrás na sua posição quanto aos vídeos do YouTube. Os vídeos tratam de testemunhos de conversão religiosa e são parte do arsenal de instrumentos na disputa por clientes entre grupos religiosos.

Qual o significado dessa disputa e qual o papel de um juiz diante do pleito de uma associação religiosa que quer o seu direito de professar sua crença preservado?

Voltarei novamente à virada do século XIX para o século XX no sentido de entender o caso presente. Naquele tempo, o artigo 157 do primeiro código penal republicano era acionado para perseguir aqueles que usavam seus poderes sobrenaturais para praticar o mal. O artigo em pauta punia com pena de prisão:

“Art. 157 – Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio e amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim para fascinar e subjugar a credulidade pública.”

Lendo com atenção os dizeres dessa lei, podemos concluir que o legislador acreditava no poder da magia e dos “sortilégios”, pois afirmava que não se pode usar tais poderes para despertar sentimentos de ódio e amor. Conclui-se que acreditava que esses poderes eram eficazes. Em nome deste artigo, muitas casas de culto ou de santo foram invadidas e seus médiuns e pais-de-santo presos. O artigo do código penal era sempre utilizado para cumprir o mandado de uma denúncia, em geral feita por algum vizinho ou consulente e  algumas vezes serviu de apoio a campanhas contra os ditos “feiticeiros”.

Em meu livro, “Medo do feitiço”, analisei muitos processos criminais de 1890 a 1942 e descobri que a lógica dos juízes era a mesma das casas de culto: eles nãos perseguiam  todos os que professavam as religiões afro, mas apenas os acusados de praticar o mal, a feitiçaria. Descobri nesses processos que juízes, advogados, policiais e acusados participavam da mesma crença. O Estado se imiscuía nos assuntos da magia e tentava separar o joio do trigo, muitas vezes com o apoio dos estudiosos do tema e dos próprios pais e mães-de-santo.

Ao contrário da lei brasileira, a lei que imperava nas colônias britânicas proibia a acusação aos feiticeiros deixando assim para os médiuns e clientes a tarefa de se defender do mal e punir os feiticeiros. Mas esta nunca foi a postura do Estado brasileiro. O juiz que analisou o pleito da Anma não poderia ter se pronunciado da forma com que fez porque não se trata de julgar se uma das partes envolvidas é ou não uma religião e fez bem ao mudar o seu “despacho” e reconhecer que umbanda e candomblé são religiões.

A luta religiosa e a busca de novos adeptos revela que o País está em outro momento de sua história religiosa. No século XX, reinavam soberanas as religiões afro-brasileiras e o catolicismo, com seus sincretismos e empréstimos. O primeiro código penal republicano imiscuiu o Estado na crença ao punir a magia e os “sortilégios”, e impor a perseguição aos que usavam seus poderes sobrenaturais para o mal, disciplinando assim o campo religioso e hierarquizando as casas de culto. No século XXI, as igrejas evangélicas, em suas várias denominações, avançam e parecem ganhar terreno. Qual deverá ser o papel do Estado nessa nova configuração?

O universo religioso é hoje, passados quase cento e quinze anos dos escritos de Nina Rodrigues, muito mais complexo e cheio de divisões e os juízes deveriam se manter numa atitude laica, deixando a briga ou a disputa para aqueles que querem converter o próximo. Não é próprio do Estado laico legislar em favor de um dos polos da disputa.

Fonte: G1

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

 

Maria Stella de Azevedo Santos

Mais uma polêmica para que possamos refletir e dar um passo rumo a um estágio evolutivo elevado que ajude a construir uma sociedade harmônica e equilibrada. O noticiário televisivo deu a seguinte manchete: “Juiz não reconhece manifestações afro-brasileiras como religiões. A decisão gerou polêmica e surpreendeu líderes do candomblé e da umbanda e o Ministério Público Federal.” Sou uma líder do candomblé e confesso que eu não fiquei nem um pouco surpreendida.

Venho de um tempo em que a referida religião era perseguida pela polícia, em virtude de na época o Brasil ter uma religião oficial – o catolicismo. A atitude do juiz precisa ser compreendida, porém jamais pode ser aceita. Optei por não dizer seu nome, pois o nome de uma pessoa é tão sagrado que não deve ser pronunciado quando o dono dele comete atos impensados e infelizes.

Um belo e significativo ensinamento da Ordem Rosa Cruz diz: “Eu te compreendo, mas em nome do verdadeiro amor não posso aceitar.” Podemos compreender uma atitude que tem por base o preconceito, que é fruto da ignorância sobre o tema que o juiz ousou julgar. O ignorante é assim mesmo: é insolente, “grosseiro nos gestos, nas palavras ou nas ações.”

Não fiquei surpresa, fiquei indignada. Senti repulsa, não pelo cidadão em si, mas pelo seu ato vergonhoso. Quanto a meu irmão que praticou tal ato, verdadeiramente, senti pena e, consequentemente, desejo de ajudá-lo. Afinal, ele é meu irmão, somos filhos de uma única energia, que para o candomblé é chamada de Olorum – o Deus Supremo, que vive no céu (no orum), o qual se expandiu e Dele fez surgir todos os seres vivos que habitam a Terra.

Essa é uma explicação que dou para ajudar meu irmão a entender que as religiões de matriz africana têm, sim, um texto base no qual se baseiam para realizar seus rituais, mas principalmente para ajudar seus adeptos a se tornarem cidadãos “assentados” no bem e na verdade. Esse texto base nos ensina que não basta sentir pena. O Código de Ifá, conjunto de ensinamentos no qual se baseia o candomblé, ensina a seus adeptos que a ignorância precisa ser perdoada, compreendida, mas nunca aceita, e que cabe àquele que conhece os mistérios, instruir aqueles que não os conhecem. Obedecendo, portanto, às orientações dadas pelos seres superiores, esclareço a meu irmão alguns detalhes do candomblé sobre o qual ele demonstra não ter o conhecimento necessário para realizar um julgamento.

A religião trazida para o Brasil por um povo possuidor de dignidade e generosidade inigualáveis tem um texto base, o qual é inclusive codificado através de códigos matemáticos. Não podemos, nem devemos esquecer-nos que um texto, em seu sentido amplo, é um conjunto de palavras expressas de maneira oral ou escrita, que pode ser longo ou breve, antigo ou moderno. Preciso pacientemente repetir que o texto base do candomblé é o Código de Ifá, pois um educador é educado para ser paciente. E nós, sacerdotes de qualquer religião, somos educadores de almas. Explicando ainda mais um pouco, o Código de Ifá é um sistema longo e antigo, considerado axiomático por revelar verdades universalmente dignas e válidas, ditas de maneira simples para expressar a complexa realidade da vida.

Também pacientemente repito que o candomblé possui um Deus Supremo, sendo os orixás divindades que servem como intermediárias entre Olorum e os humanos. Quanto à hierarquia, este é um dos grandes e fortes pilares dessa religião milenar, tanto no que se refere ao mundo das divindades quanto à comunidade dos “terreiros”.

No mundo sagrado se tem: Olorum, orixás funfun (descendente direto do hálito do Deus Supremo), orixás vinculados ao ar, água, fogo e terra, seres humanos, animais, vegetais e minerais. Nas comunidades do candomblé a hierarquia está em tudo: nos cargos (iyalorixá, iyakekere egbomi, yaô, abian); no respeito à idade de nascimento do corpo (os “nossos mais velhos”) e à idade de nascimento, na Terra, da essência divina de cada um. Encerrarei este texto com um provérbio contido no Código de ifá: “O tempo pode ser longo, mas uma mentira não cai em esquecimento.”

 

Fonte: Mundo Afro

 

Oswaldo Faustino conta a história de Angela Davis, ícone contemporâneo que representa a força da mulher negra

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | Adaptação web: David Pereira

Angela Davis e a força da mulher negra

Algumas imagens entram em nossa mente e ficam registradas feito tatuagem. Uma delas, dos anos de 1970, é a da bela e altiva jovem negra de cabelos black power, que se tornou imagem-símbolo dos Panteras Negras e que entrou para a lista dos dez foragidos mais procurados pelo FBI, acusada de conspiração, sequestro e homicídio.

Por motivos óbvios, em tempos de ditadura militar em nosso país, eram poucas as informações que nos chegavam, tanto sobre sua biografia, quanto sobre suas atividades político-revolucionárias e dos grupos pelos quais militou. Mais de 40 anos depois, essa professora e filósofa socialista mantém o mesmo espírito combativo anticapitalista, debatendo soluções para melhoria da qualidade de vida da população afro-americana e participando de eventos no mundo todo, com a mesma altivez e determinação.

À parte de sua personalidade guerreira, podemos dizer que Angela Yvonne Davis é fruto do meio em que viveu. A cidade de Birmingham, a maior do Alabama, onde ela nasceu em 1944 é um dos estados mais racistas da federação e foi palco de inúmeros conflitos raciais e ataques da Ku Klux Klan contra negros e negras. Foram tantos os atentados a bomba que a cidade passou a ser conhecida como “Bombingham”. O mais famoso foi contra uma igreja batista frequentada por afro-americanos, em 15 de setembro de 1963, que resultou na morte de quatro meninas, com idades entres 11 e 14 anos, e ferimentos em outras 20 pessoas. Thomas Blanton, o único sobrevivente dos membros da facção acusada do crime, só foi condenado à prisão perpétua em 2001, 38 anos após a tragédia. O julgamento foi adiado tantas vezes que até mesmo o diretor do FBI duvidava que um júri, no Alabama, o condenaria.

Em meio a essa realidade repleta de humilhações e perigos, aos 14 anos, Angela conquistou uma bolsa de estudos que a levou para Nova Iorque, onde foi viver entre artistas e intelectuais do Greennwich Village. Ali, fascinou-se pelo comunismo e o socialismo, e ingressou numa organização com propósitos revolucionários. Sempre focada nas questões raciais e feministas, filiou-se primeiro ao SNC – Student Nonviolent Coordinating Committee, liderado por Stokely Carmichael, cuja proposta era a luta não violenta pelos direitos civis dos afro-americanos. Na década seguinte, acompanhou Carmichael na mudança para o Movimento Black Power, pautado no orgulho racial negro, na criação de instituições culturais e na busca de uma autonomia para a população afro-americana. Diante da repressão, Angela Davis radicalizou e partiu para luta armada, pelo Partido dos Panteras Negras.

O nome de Angela foi vinculado a um episódio sangrento: a invasão de três Panteras Negras ao Palácio da Justiça do Condado de Marin, em São Francisco, quando fizeram reféns um juiz, um promotor e alguns jurados. Seguiu-se perseguição policial, tiroteio e a morte do juiz, baleado na garganta. Um disparo de uma das armas da polícia atingiu o promotor, que ficou paraplégico. O objetivo dos invasores, além de ajudar a fuga de um companheiro que havia esfaqueado um policial, era exigir a libertação dos militantes George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, encarcerados no presídio de Soledad, em Monterrey. A arma utilizada por um dos invasores do palácio da justiça estava registrada em nome de Angela Davis, que fugiu da Califórnia. Alvo de uma das mais intensas caçadas humanas, ela foi presa em Nova Iorque, depois de dois meses de perseguição. Seu julgamento foi o centro da atenção da mídia norte-americana por 18 meses.

Não lhe faltou apoio em todos os setores sociais, em especial no mundo artístico. No banco dos réus estava uma jovem negra, linda, culta, de discurso brilhante. John Lennon e Yoko Ono a homenagearam com a canção intitulada “Angela”, e os Rolling Stones cantaram sua história e exigiram sua libertação, com o rock’n’roll Sweet Black Angel”. Os crimes dos quais foi acusada ficaram em segundo plano, ante os debates sobre as questões raciais naquele país. E Angela foi considerada inocente.

Após sua libertação, em 1972, partiu para Cuba, onde já se encontravam o Pantera Negra Huey Newton e o Black Power Stokely Carmichael. Ali, foi aclamada pela população negra nativa das ilhas, até então aparentemente apática com relação a questões raciais, segundo o escritor, pesquisador e cientista social Carlos Moore. Filiada ao Partido Comunista, retornou a seu país em 1980 para concorrer à vice-presidência da república, na chapa de seu partido, que recebeu quantidade inexpressiva de votos. Angela Davis, porém, iniciou ali seu embate por uma causa que a ocupa até os dias atuais: a luta pela extinção da pena de morte em todos os estado da federação e pela melhoria das condições carcerárias. Afinal, a grande maioria da população carcerária dos EUA tem raça e classe social: é negra ou latina e é pobre. Por isso ela se considera uma “abolicionista”. Ela já esteve algumas vezes em eventos realizados no Brasil e tem bastante proximidade com entidades dedicadas às questões de etnia e de gênero, como o Geledés – Instituto da Mulher Negra. Em uma de suas falas, advertiu sobre a importância da classe média negra não apartar-se da população mais pobre. E relembrou o slogan de um antigo grupo de mulheres negras com maior visibilidade, voltado àquelas que viviam às custas da Previdência Social: “Puxar para cima enquanto a gente avança”. Angela Davis, sem dúvida, está entre os melhores vinhos produzidos pela diáspora africana.

Fonte: Raça Brasil

Nanã

Nanã

Veja a participação de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros no fim da escravidão
O escritor brasileiro Machado de Assis | FOTO: Creative Commons

Em dezembro de 1861, pelas colunas do jornal Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis se referia assim ao amigo Paulo Brito, que acabava de morrer: “…foi um exemplo raro e bom. Tinha fé nas crenças políticas, acreditava sinceramente nos resultados da aplicação delas.” E, mais adiante, afirmava, com a certeza de quem conhecia bem o morto: “… tolerante, não fazia injustiça aos adversários; sincero, nunca transigiu com eles.” Francisco de Paula Brito (1809-1961) foi poeta, contista, dramaturgo, tradutor, mas passou à história como o primeiro grande editor brasileiro, responsável, inclusive, em sua tipografia, pela publicação dos primeiros jornais do país dedicados às lutas contra opreconceito racial, que foram O Mulato e O Homem de Cor, que ocolocaram como precursor da imprensa negra.

A simbologia do legado desse homem de origem negra é que fomenta no jovem Machado de Assis, seu aprendiz de tipógrafo, o seu principal ofício: o gosto pela escrita e o da defesa de questões sociais, como a escravidão e a república. Como seguidor de Paula Brito, defensor intransigente e acolhedor de novas e progressistas ideias, Machado de Assis passa a encarar o mundo com outros olhos, levando para sua vasta obra temas sobre a escravidão e a luta política que resultaria com a derrocada do regime monárquico brasileiro. E, logo ele, vindo da camada pobre da população, nascido no Morro do Livramento, filho de Francisco José de Assis, um mulato pintor de paredes, e Maria Leopoldina da Câmara Machado, lavadeira portuguesa dos Açores, Portugal, ambos agregados de Maria José de Mendonça BarrosoPereira, viúva do senador Bento Barroso Pereira, que abriga os pais de Machado de Assis, consentindo que morassem com ela.

As terras do Morro do Livramento, no entanto, cuja velha ladeira existe até hoje, permanentemente íngreme e estreita, eram ocupadas pela chácara da família de Dona Maria José e já em 1818 o terreno começa a ser loteado por ser tão extenso, dando origem à rua Nova do Livramento. Não obstante, Dona Maria José é convidada, pelos pais do menino, para ser sua madrinha e Joaquim Alberto de Sousa da Silveira, escolhido o padrinho, de modo que, ao resolverem homenagear os dois, o filho foi nomeado com seus nomes debatismo: Joaquim Maria Machado de Assis.

Com a perda da mãe aos dez anos de idade, logo a seguir, o pai se casa com Maria Inês da Silva, uma mulata que confeccionava doces que eram vendidos pelo menino Machado numa escola reservada para meninas. Dessa época, sua referência biográfica, na área educacional, é o padre Silveira Sarmento, a quem se tornou mentor de latim e amigo.

Enganam-se os que pensam que Machado de Assis não teve uma militância política. Desde jovem, o jornalismo e a poesia servem como os principais instrumentos para a sua atuação. Fosse no romance, na poesia, na dramaturgia, ou na crônica, erguia a bandeira aguerrida de defensor, à sua maneira, das causas sociais que tanto apaixonava o povo brasileiro, sobretudo os de origem africana. Em um importante livro sobre o tema, Machado de Assis Afrodescendente, o professor Eduardo de Assis Duarte, ao traçar-lhe o perfil, assegura que Machado “trabalhou por vários anos na segunda seção da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura, órgão que se ocupava justamente da política de terras e do acompanhamento da aplicação da Lei do Ventre Livre, e que chegou a ser dirigida pelo escritor”.

De acordo ainda com a mesma fonte, no ano da abolição, a Secretaria da Agricultura, pasta de Machado de Assis, cuidava bem dos processos referentes “ao elemento servil”. Segundo os relatos, a essa secretaria “deve-se a liberdade de milhares de escravos, liberdade que provinha da fiscalização vigilante dos dinheiros públicos, e da qual resultava grande aumento do número de alforrias pela diminuição do exagerado valor do escravo, pela irregularidade de matrículas e não cumprimento de preceitos legais.”

Portanto, é Machado de Assis, diga-se grosso modo, o gerente dessa operação que resultou no Treze de Maio. Logo ele que, desde menino, conviveu coma presença de negros escravos e livres; que, desde cedo, presenciou e conviveu com a realidade de negros e escravos, habitués das velhas chácaras do Morro do Livramento. O resultado disso foi o desenvolvimento de uma personalidade psicologicamente sensível aos temas da sociedade de então. Suas obras literárias e jornalísticas refletem bem esse estado de coisas.Como romancista e jornalista, poeta ou contista, cronista e ensaísta, Machado de Assis reproduziu temas factuais, presentes no dia a dia do cidadão carioca e fluminense da época.

Desde suas primeiras obras, a temática do negro, como um discurso contra a escravidão, mesmo sutil, é abordada de forma categórica, como o retrato de uma época desigual, o que pode ser encarado à guisa de denúncia ao opressor sistema político e econômico então vigente.

Tais temas perpassam, de algum modo, romances como Ressurreição, Helena, Iaiá Garcia, Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e, seu último, Memorial de Aires. Assim também ocorre nos chamados “contos da escravidão”: Virginius (1864), Mariana, de 1871, ano da Lei do Ventre Livre, O caso da vara, de 1899, e o clássico Pai contra mãe,de 1906. Machado de Assis prima pelo talento, com requinte e estilo.

Machado de Assis e a abolição dos escravos

Aliás, nessa categoria exprime todo o seu dom pelo deboche e ousadia, mostrando-se velhaco e menos caramujo. É assim que vamos encontrar Machado de Assis nos anos finais da escravidão no Brasil. E a data de 13 de maio de 1888 vai encontrar outra cidade e outro país.

As ruas estão tomadas de gente. Caras alegres, contentamento geral;casas e lojas comerciais adornadas para o grande domingo de sol: a Regente Isabel vai sancionar no Palácio do Paço, que fica na atual Praça XV, a Lei Áurea. Uma multidão segue para aguardá-la. A sanção se dá em meio a grande ovação. “Não há mais escravos no Brasil”, gritam bocas entremeadas de choros e sorrisos. Casais se abraçam, namorados se beijam, crianças festejam com seus pais, homens públicos comemoram em bares, damas da sociedade abarrotam as confeitarias.

Um tumulto toma conta da cidade. Mas ao contrário dos anos de turbulência, é a festa, uma espécie de entrudo fora de época, que ataca as pessoas, de todas as classes sociais, seja dito. E no meio de tudo isso, está o caramujo Machado de Assis, já a essa época um dos escritores mais respeitados e queridos do país. É um homem como qualquer outro. Disse que nunca se sentiu melhor. Numa crônica da Gazeta de Notícias, descreve a cena: “Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos saímos à rua. Sim, também eu saí à rua, eu, o mais encolhido dos caramujos, também eu entrei no préstito, em carruagem aberta, se me fazem o favor, hóspede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delírio.” E concluída: “Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembro ter visto.”

O júbilo popular, do qual estava integrado Machado, o levou ainda a escrever um lindo poema, dedicado à gloriosa data, impresso e distribuído em papel cartão por ocasião da procissão cívica que varreu o centro da velha Corte. Nesse poema, ao celebrar o fim da escravidão e se colocar ao lado dos vitoriosos, os ex-escravos e abolicionistas, ele conclamava a “união, brasileiros!”, e solicitava que todos entoassem “o hino ao trabalho”.

Fonte: Raça Brasil

Filme traz às telonas a história da rainha guerreira Njinga, símbolo do povo angolano

A produção “Njinga, Rainha de Angola” conta a história da rainha guerreira Njinga | FOTO: Divulgação

Merecidamente, Angola está na moda. Seja nos campos da economia e do desenvolvimento, puxados pela produção de petróleo, seja no cultural, com a difusão cada vez maior de suas manifestações populares, em especial o Kuduro. Hoje, ao ligarmos a TV, já podemos ver jovens angolanos numa dança frenética ao som de uma música herdeira de ritmos como Sungura, Kizomba, Semba, Ragga, Afro House e até mesmo do Rap.

Nos últimos anos, Angola tornou-se um dos maiores mercados consumidores dos produtos televisivos do Brasil – além de comprar novelas, os espectadores angolanos assistem ao vivo, por satélite, à programação da Globo e da Record. Hoje, esse país também já começa a ser conhecido por seus produtos culturais, como a novela “Windeck”, indicada ao EMMY Internacional, uma produção da Semba Comunicação.

Foi essa mesma produtora, da qual faz parte o músico Coréon Dú, filho do presidente da República, que lançou, durante as comemorações do aniversário da independência daquele país, a superprodução “Njinga, Rainha de Angola”. Trata-se da saga da herdeira do rei mani Ngola Kiluanje Kia Samba, que vivia em Mbanza Kabassa, matriarca dos reinos de Matamba e Ndongo. Uma aula de história que, quando for exibida no Brasil, trará às nossas escolas maior conteúdo para o cumprimento da Lei 10.639/03, pois fala das origens de um dos povos que a diáspora africana espalhou pelo mundo e que representa o maior número de africanos trazidos para cá, entre os séculos XVI e XIX.

A edição de número 44 do Cultura – Jornal Angolano de Artes e Letras, do jornalista José Luiz Mendonça, nos informa que o filme apresenta uma bela recriação de época e traz um enredo recheado de conflitos, da resistência africana aos colonizadores, ora portugueses, ora holandeses, à disputa pelo trono do império entre os irmãos Njinga Mbandi – também conhecida por Nzinga ou simplesmente Rainha Jinga –, Ngola Mbandi e Ngola Ary, o filho bastardo de Kiluanje.

Cena do filme “Njinga, Rainha de Angola” | FOTO: Divulgação

Conheça a atriz do filme

Esse filme valoriza as línguas locais, em especial o Kimbundo, e seus apelos dramáticos apresentam uma Njinga estrategista e obstinada, disposta a sacrificar seu amor em favor da luta para libertar seu povo. Outro foco fundamental é a força da mulher africana, destacada pela lealdade à rainha, das irmãs Kifunje e Kambo.

Para viver a protagonista, foi escolhida a modelo e atriz Lesliana Pereira, de 26 anos, a miss Angola 2008, que também é apresentadora do programa Revista África, da Globo internacional. Quando miss, veio ao Brasil conceder uma entrevista a Jô Soares e fez um teste que lhe rendeu sua estreia em cinema, como a personagem Fadona, do filme brasileiro “Xuxa em O Mistério de Feiurinha”, de 2010.

A pré-estreia de “Njinga, Rainha de Angola”, no Centro de Convenções de Belas, no Futungo II, foi um acontecimento hollywoodiano que parou Luanda e contou com a presença do presidente da República, José Eduardo dos Santos, e da primeira-dama, Ana Paula dos Santos. Ao final da exibição, as três mil pessoas, entre políticos, artistas, escritores, jornalistas, historiadores e amantes da sétima arte, aclamaram o filme, aplaudindo em pé por longos minutos. O filme deve se transformar numa minissérie para TV e inaugurar uma série de cinebiografias de heróis e heroínas angolanas. Na primeira semana de exibição, em Angola, sua bilheteria superou à de “Avatar”.

Fonte: Raça Brasil

O ano de 2014 promete para Lupita Nyong’o. Depois de ganhar o Oscar de atriz coadjuvante pelo filme “12 anos de escravidão” e ser anunciada como o novo rosto da Lancôme Paris, a atriz foi eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista “People”.

“Foi emocionante e um enorme elogio. Minha mãe sempre disse que eu era bonita, e agora, finalmente, acredito nela de certa forma”, disse a atriz.

Jess Cagle, diretor da “People”, explicou a escolha no programa de televisão “Today”. “Ela é fantástica. (…) Ela é a última moda. Não houve competição possível. Ela era a única opção. Geralmente, há muito debate, mas, desta vez, estávamos todos de acordo. Ela é obviamente talentosa, obviamente bonita, incrivelmente estilosa, mas o jeito com que ela se porta, com tanta graça e humildade, foi o que a colocou no topo”

Fonte: globo.com

Salve Ogum!

Publicado: abril 23, 2014 em Candomblé, Umbanda
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Ògún laka aye
Osinmole
Olomi nile fi eje we
Olaso ni le
Fi imo bora
La ka aye
Moju re
Ma je ki nri ija re
Iba Ògún
Iba re Olomi ni le fi eje we
Feje we. Eje ta sile. Ki ilero
Ase.

Ogum

“Branco significa puro” argumenta a cantora nigeriana Dencia, durante uma entrevista para o canal britânico de televisão “Channel 4″, em defesa do creme clareador de manchas escuras Whitenicious, desenvolvido por ela. O produto se tornou polêmico após a artista negra aparecer com a pele significativamente mais clara após usá-lo, causando um furor entre jovens africanos que, como a estrela pop, desejam se tornar brancos.

O site do cosmético apresenta informações vagas sobre sua composição, informando apenas a presença de ingredientes naturais de alta qualidade. O rótulo do creme clareador menciona extrato de aloe vera e vitamina C, componentes que, segundo a dermatologista da Unifesp (Unifersidade Federal de São Paulo) Valéria Petri, não são capazes de promover um clareamento extenso total quanto o apresentado pela estrela pop africana. Ela ainda alerta que o uso de vitamina C em grande quantidade pode provocar alguns tipos de câncer de pele.

NEGROS REJEITAM CREME CLAREADOR E FALAM DE PRECONCEITO EM SP

A dermatologista acredita que o Whitenicious contenha hidroquinona em sua fórmula, derivado da borracha com grande potencial carcinogênico que é proibido no Brasil pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). De acordo com ela, a substância também pode provocar lúpus (uma doença autoimune), hipertensão e até mesmo a modificação do DNA com prejuízo a gerações futuras. “Não há sentido em clarear uma pessoa negra, porque ela foi preparada pela natureza com aquela quantidade de pigmento para ser protegida do sol”, afirma Valéria.

Mesmo com tantos riscos à saúde, jovens africanos, indianos e norte-americanos estão pagando até U$S 160 por um frasco de 60 ml do cosmético da empresa de Dencia, com sede na Califórnia, nos Estados Unidos. O produto também tem causado a curiosidade de alguns brasileiros, que aparecem pedindo informações em páginas de redes sociais de sites especializados em importação.

Atacada pela imprensa internacional e por comunidades negras, Dencia rebate dizendo que a polêmica alimenta suas vendas e usa o Twitter para provocar seus críticos, como ao retuitar uma seguidora: “o creme é para manchas escuras, mas se você sentir que todo o seu corpo é uma mancha escura, use nele todo”.

Comunidade negra reflete sobre a autoestima

Para a cantora Sandra de Sá, este tipo de produto pode abalar a autoestima do negro, mas a palavra-chave deve ser consciência. “Não sou contra alisamento de cabelo, por exemplo, desde que seja feito de forma consciente”, e alerta: “pior que o preconceito, é o complexo”.

A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) lembra que todos têm direito a se submeter a tratamentos de beleza e que alisamento de cabelo é um procedimento procurado não apenas por negros, mas por pessoas de diferentes etnias. “Não podemos chegar ao ponto de perder nossa identidade”, afirma ao referir-se ao clareamento de pele da população negra.

O gerente de projetos da Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Felipe da Silva Freitas afirma que discutir por que os negros não são valorizados como belos na sociedade é fundamental para entender o interesse por esse tipo de produto: “É lamentável que este clareador de pele se beneficie dos problemas que o racismo provoca na autoestima das pessoas negras. E alerta: “existe uma tendência negativa de responsabilizar a pessoa negra, que é vítima do racismo, pela reprodução do racismo”.

Já o músico Macau –compositor da música “Olhos Coloridos”, que ganhou fama na voz de Sandra de Sá– acredita que, embora os negros brasileiros tenham avançado nos últimos anos, muitos também queiram clarear a pele com a intenção de abrir as portas da sociedade. “Na hora de procurar emprego, por exemplo, o negro vai concorrer com o branco, por isso ele imita a roupa e o cabelo do branco”, afirma Macau. “O negro deve deixar os porões da sociedade e abandonar a cruz da escravidão”, complementa o músico.

O rapper paulistano Max Dmn acredita que o hip hop tem contribuído para que o negro brasileiro aceite sua cor e seu cabelo e lamenta que exista um produto capaz de clarear a pele das pessoas. Ele associa a baixa autoestima dos negros à falta de referência para as crianças da etnia: “Você liga a TV e só vê desenhos animados com pessoas brancas de cabelo liso e artistas brancos. Se não houver orientação da família sobre o valor das diferenças étnicas, é claro que a criança vai querer reproduzir o mundo maravilhoso que vê na TV”, analisa Dmn.

Manifestações de racismo não devem intimidar os negros

Benedita da Silva, que hoje tem 72 anos, diz que o cargo político não a livrou do preconceito e recorda que, na infância, a discriminação racial a fez ter vontade de não ser negra: “tive atitudes horrorosas de negação da cor da minha pele. Mas o apoio de uma criança branca me fez dar a volta por cima antes de chegar à adolescência”.

Diferentemente da deputada, Sandra de Sá diz que nunca se apavorou com preconceito, mesmo na ocasião em que, há 28 anos, foi obrigada a usar o elevador de serviço para subir ao apartamento do padrinho de seu filho Jorge de Sá, o músico Cazuza. De acordo com a cantora, ela e seus pais agiram com tranquilidade, já sabendo o que aconteceria quando o porteiro do prédio, que também era negro, proibiu que eles subissem no elevador social: “O Cazuza e a mãe dele, a Lucinha Araújo, desceram querendo prender o cara”, lembra com bom humor.

Macau conseguiu transformar a revolta do episódio em que foi vítima de racismo, no início da década de 80, na letra de uma música que virou um dos principais hinos da comunidade negra. O músico conta que estava com um amigo em uma exposição escolar no Estádio do Remo da Lagoa, na zona sul do Rio de Janeiro, quando foi abordado por um policial.

“Eu apresentei minha identidade e ele queria que eu o acompanhasse. Uma discussão se iniciou quando eu não quis acompanhá-lo. Então eu fui chamado de crioulo e apanhei”. A confusão terminou na delegacia onde Macau passou a noite até ser libertado por um padre. “Quando saí de lá, fui para a praia do Leblon e chorei”, lembra ao contar como a letra de “Olhos Coloridos” surgiu em sua cabeça.

Mais de 30 anos se passaram e histórias como a de Macau ainda se repetem, como a do ator Vinícius Romão, preso por engano no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2014. “Estes episódios recentes demonstram que a luta contra a discriminação não está concluída na sociedade”, afirma Freitas.

Max Dmn lembra que há 15 dias saía de uma agência bancária quando uma mulher em sua frente se virou para trás e segurou a bolsa assustada: “Eu também me assustei e olhei pra trás com medo, mas percebi que era pra mim que ela estava olhando, era a mim que ela temia”, conta o rapper que lamenta ter ouvido da mulher um “obrigado”, ao invés de “desculpa”, quando ele disse a ela que não iria assaltá-la.

Fonte: Raça Brasil