Curta sobre samba de bumbo promove debate e festa no Jongo Reverendo

Curta sobre samba rural paulista será exibido com debate e festa no Jongo Reverendo

 

 

No  dia 27 de agosto, sábado, às 18h, o espaço Jongo Reverendo irá exibir o curta-documentário “Esse bumbo é meu”, seguido de bate-papo com personagens do filme e apresentação do grupo Samba de Bumbo de Dandara. O evento tem como objetivo a reflexão e celebração do empoderamento da mulher no samba rural paulista.

 
“Reúne-se um grupo de indivíduos, na enorme maioria negros e seus descendentes, pra dançarem o samba. (…) Instrumentos sistematicamente de percussão, em que o bumbo domina visivelmente. (…) As mulheres nunca tocam. Os homens, pelo contrário, todos tocam, e indiferentemente qualquer dos instrumentos passando estes de mão em mão”, Mário de Andrade (1933).

 
Programação:
18h – Documentário “Esse bumbo é meu”
https://www.facebook.com/essebumboemeu/
18h30 – “Mulher, candidate-se.”
Coletivo Pagú prá Ver de Teatro do Oprimido. Formado por trabalhadoras das áreas de assistência, saúde, educação e administrativa apresentará cena que trata da questão da objetificação da mulher na mídia e propaganda.
19h – Bate-papo sobre o filme e empoderamento da mulher, com realizadores e personagens.
20h – Empoderamento da mulher e preparação para fazerem o samba de bumbo junto com o grupo Samba de Bumbo de Dandara
21h – Apresentação do grupo Samba de Bumbo de Dandara

ESSE BUMBO É MEU
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Sinopse “Esse bumbo é meu”

O filme registra o samba de bumbo, expressão musical tradicional do interior paulista, herança do tempo da escravidão. O documentário apresenta a luta das mulheres do samba para manterem viva a cultura de seus ancestrais, enfrentando diversos conflitos. Soluções se apresentam, mas afinal, de quem é esse bumbo?

Direção colaborativa de  Ruy Reis, Paula Simões, Dagmar Serpa, Marina Chekmysheva e Daniel Mirolli. Co-produçao Academia Internacional de Cinema.

Grupo Dandara - Lançamento do Livro Barbara Esmenia
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O grupo de Samba de Bumbo de Dandara surgiu de um desejo de mulheres fazerem o samba de bumbo que originalmente é tocado por homens, cabendo as mulheres o papel de apenas dançarem. É comum encontrar puxadores do samba mulheres, mas tocando é algo que ainda não esta presente nessa manifestação.
Muitas das quadrinhas remontam o período da escravatura, parte dessas quadrinhas narram esse momento e com o tempo foi incorporando outros temas.  Infelizmente poucos valorizam a importância da mulher nessa manifestação.  O Samba de Bumbo de Dandara é uma tentativa de valorizar o samba tradicional e seus batuqueiros, mas principalmente homenagear as matriarcas e reafirmar o papel da mulher negra à frente dessas manifestações, apoderando-se daquilo que é dela por ancestralidade. Ao homenagear a guerreira Dandara estendemos para as Marias, Antonias e outras guerreiras que carregam no sangue a história de lutas do povo e da mulher negra.

Sobre o Jongo Reverendo
Terreiro contemporâneo de cultura e entretenimento. Conteúdo e diversão voltados para riqueza da da herança ancestral afro brasileira.
Serviço
Local: R. Inácio Pereira da Rocha, 170 – Pinheiros, São Paulo – SP, 05432-010
Horário: 18h
Entrada: franca
Página do Facebook: https://www.facebook.com/essebumboemeu/
Evento: https://www.facebook.com/events/103220066797688/

“Jornada da Cultura Silenciada” reúne representantes da cultura negra do Litoral Norte

A programação do evento ainda inclui a participação do grupo de Jongo Ô de Casa, do Quilombo da Fazenda Picinguaba, de Ubatuba. (Foto: Divulgação/PMI)

O Espaço Cultural Pés no Chão promove, entre os dias 30 de maio e 5 de junho em sua sede na Barra Velha, em Ilhabela, a “Jornada da Cultura Silenciada”.

O evento faz parte da segunda etapa do projeto Memórias Reveladas, realizado pelo Pés no Chão com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental – Seleção Pública Comunidades.

O evento conta também com o apoio da AMAI (Associação do Movimento Afrodescendente de Ilhabela).  Esta fase do projeto tem como propósito realizar um mergulho na memória da população afro-brasileira do Litoral Norte, com o intuito de conhecer sua contribuição para o universo caiçara.

A equipe do projeto realizou pesquisas, entrevistas e registros audiovisuais, visitou Quilombos e convidou lideranças de comunidades afrodescendentes para participar do evento.

Por outro lado, os alunos do Projeto prepararam, nos últimos meses, apresentações artísticas de dança, teatro, capoeira, canto, e também fizeram pinturas relacionadas ao universo da cultura negra.

Esse movimento resultou num evento plural, que se volta tanto para o público infantil em sua programação quanto para os adultos, incluindo professores, estudiosos e interessados pela cultura afrodescendente.

Na noite de sábado (4/6), a partir das 18h, acontecerá uma Roda de Conversa, organizada pelo professor Beto, da AMAI. Ela será formada pela Dra. Cintia Bendazzoli, arqueóloga e historiadora, e figuras de expressão no contexto da religiosidade afrodescendente como o sacerdote de candomblé Ataualpa de Figueiredo Neto (Tatá Cajalacy).

Também marcarão presença, representantes de organizações ligadas à cultura negra, como Teresinha de Oliveira Marciano Costa, presidente da Zambô do Movimento Negro de Caraguatatuba, Ditinho Elegância, músico e atual Secretário Municipal de Cultura de Ilhabela, Nega da Capoeira, responsável pelo grupo organizado Semear, de Ilhabela, Noemi, presidente da AMAI e da Liga das Escolas de Samba de Ilhabela, Marcos Cardeal, da Associação dos Congueiros, Dona Izanil, da Congada de Ilhabela e integrantes da Capoeira e do Movimento Hip Hop. Nessa noite também haverá uma Mesa de Autógrafos do livro “O fuxico de Janaína”, escrito por Janaína de Figueiredo e Tatá Cajalacy.

A programação ainda inclui a participação do grupo de Jongo Ô de Casa, do Quilombo da Fazenda Picinguaba, de Ubatuba.

No domingo, dia 5, a partir das 19h, serão realizadas as apresentações artísticas dos alunos do projeto Memórias Reveladas. Os grupos de teatro mostrarão um esquete sobre os preparativos da Congada de Ilhabela e outro sobre a Lenda da Escrava Josefa, de Ubatuba.

Os grupos de dança apresentarão coreografias inspiradas no Jongo, o grupo de canto apresentará uma música do cancioneiro tradicional, e os alunos de capoeira farão uma roda.

O Espaço Cultural Pés no Chão fica na Rua Macapá 72, na Barra Velha. Maiores informações pelo fone (12) 3896-6727 ou no site http://www.pesnochao.org.br. Entrada Franca.

Fonte: Portal R3

Onde o tambor bate mais forte

No coração da Vila Madalena, Jongo Reverendo recorre à matriz africana para promover shows e atividades culturais

Jongo

Há um espaço em São Paulo onde o tambor bate mais forte e convida à celebração, à festa, ao congraçamento. O Jongo Reverendo, no coração da Vila Madalena, buscou na matriz africana a inspiração para se tornar uma casa que alia shows e atividades culturais.

No amplo espaço de 300 metros, cabe do jongo tradicional, remanescente quilombola, a espetáculos de samba, rap e forró. “Nosso universo é bem rico e temos muita coisa a trabalhar”, diz a empresária Adriana Carvalhaes. “Sempre fui ligada à cultura popular, sou publicitária, trabalhei no Bar Brahma, tive uma experiência na escola de samba Mangueira relacionada a projetos de marketing. Sou preta… (risos)”.

Adriana cresceu entre aulas de balé e piano, mas acabou por se encontrar nas origens, no trabalho com a matriz africana. No Jongo Reverendo, busca a diversidade. “Aqui na Vila Madalena temos uma demanda grande para um único público, pessoal voltado à economia criativa, da PUC e da USP. Mas também quero gente que consiga ver essa cultura afro, a celebração de tambores”, diz. A seguir, trechos da entrevista de Adriana a CartaCapital.

CartaCapital: Qual o modelo que Jongo Reverendo segue?

Adriana Carvalhaes: A casa surge dentro da matriz africana, com tudo o que se pode receber como legado no aspecto de cultura, música. Podemos falar que aqui cabe desde a apresentação de um jongo tradicional, que vive em Guaratinguetá, remanescente quilombola, até uma festa como a Pilantragi, de música brasileira, que atrai um público mais jovem, mais desligado da cultura popular. Dentro desse espectro vêm o forró, o rap, as rodas de samba. Nosso universo é rico e temos muita coisa a trabalhar.

CC: Que público a casa quer cativar?

AC: Queremos diversidade, não só as turmas de universitários. Buscamos pessoas que consigam ver que existe uma celebração de tambores, o que pode criar uma identificação positiva para congregar tudo o que temos de influência da matriz africana, tudo o que foi transformado aqui, como as aulas de capoeira. Assim como o forró e o jongo, queremos colocar luz nessa cultura ainda desconhecida. Nossa base forte é o samba, não há outra expressão de cultura popular tão conhecida. Em relação ao jongo, perdemos a tradição por ser passado de forma oral, difícil de disseminar. Quando fui estudar o assunto, vi que há três funções básicas, a sagrada, ritualística, com rezas para os orixás, outra ligada à maçonaria, com trocas de informação, daí haver tantos pontos de jongo enigmáticos, e a função em que me agarrei, a da diversão. O momento do batuque era o de alívio para os escravos. A hora de se expressar, cantar, congregar.

CC: Como é a programação do Jongo Reverendo?

AC: Às quintas estamos com a temporada do grupo Sambeto, com o projeto Vozes do Morro, em formato de show. Todo mundo dança muito. Às sextas entramos com formato variado, com base em roda de samba, Os Batuqueiros e Sua Gente. Na sequência, na sexta seguinte, entra Batuque Bantu, roda de samba com Ivisson Pessoa, uma pegada bem ancestral, com influências da nação bantu nagô. Na terceira sexta volta o Sambeto com o instrumental Na Boca do Povo, um projeto um pouco mais pop. A quarta sexta do mês deverá ter samba de quadra, de terreiro, com compositores. O sábado à tarde vamos trabalhar com o Samba da Feira, grupo da Zona Norte que faz samba há 12 anos e lota uma feira de lá. São 11 meninos na roda. No dia 2 de agosto, domingo, vamos estrear o projeto La Rumba no Jongo, do cubano Jorge Ceruto.

 Fonte: Carta Capital

Do jongo ao samba: baianos do jongo, do santo e do samba, no Rio de Janeiro (RJ)

Encontro de baianas do jongo, do santo e do samba é uma iniciativa cultural simbólica do Rio de Janeiro, para enfatizar os mais relevantes patrimônios culturais: a Pedra do Sal e o samba, em sua ancestralidade. O Centro Cultural Cartola brinda o público com show musical gratuito, reunindo a Velha Guarda da Mangueira, a Velha Guarda do Império Serrano, o jongo do Pinheiral e convidados – além da participação especial das baianas do santo e do samba.

A Pedra do Sal é um lugar histórico, localizado aos pés do Morro da Conceição, na Gamboa. Em 1984, em 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, o sítio, no coração da Saúde, foi tombada pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac), como um fragmento de memória rupestre da Pequena África. Em 2007, o samba carioca tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, sob registro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

A energia feminina fez do samba uma das maiores manifestações populares. Sua origem ainda hoje é discutida. Seu nome, segundo alguns autores, provém de semba, que quer dizer “umbigada” – união do baixo ventre, no batuque de angola. Pode-se afi rmar que a música africana entrou no País com os primeiros escravos negros. E esse encontro das baianas do santo, do jongo e do samba visa difundir esses patrimônios material e imaterial do Rio de Janeiro e do Brasil.

PROGRAMAÇÃO

14h. Exibição do vídeo Matrizes do Samba no Rio de Janeiro e degustação de quitutes dos tabuleiros das baianas.

15h. Apresentação musical, com baianas em trajes típicos. Elenco: Jongo do Pinheiral, Velha Guarda do Império Serrano, Velha Guarda da Mangueira e de baianas do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, dentre outros artistas convidados.

18h. Saída do cortejo para Pedra do Sal (e todas as baianas do santo, do jongo e do samba)

SERVIÇO

Data: 22 de agosto

Local: Rua Sacadura Cabral, 154 (The Week), com cortejo para a Pedra do Sal

Horário: a partir das 14h

Entrada franca: confi rmar presença pelo e-mail aniversariopalmares.rj@gmail.com

Fonte: Palmares

LANÇAMENTO CD JONGO CONTEMPORÂNEO/BANDA CAIXA PRETA

A Banda Caixa Preta completa 10 anos e nessa oportunidade lança seu segundo CD JONGO CONTEMPORÂNEO.

O trabalho é fruto da pesquisa e do diálogo com o Jongo Tradicional destacando-se o trabalho de Augusto Bapt, produtor musical responsável pela concepção sendo, também, autor das letras e intérprete.

Composta por músicos experientes como Joe Lima, Katia Preta, Robertinho de Paula e Regis Gonçalves, o trabalho híbrido da CAIXA PRETA representa o que há de mais autoral e portanto inovador nessa última década.

*Quando*

dom, 4 de julho, 19:00h

*Onde*

CENTRO CULTURAL DA JUSTIÇA FEDERAL ( Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro)

Ginga, rodopio e… uma umbigada

Ambos gingam , giram e lascam uma umbigada

A roda está formada. Homens de um lado da roda e mulheres do outro. Depois, o mestre tira versos cantados e o povo repete o refrão, ao ritmo marcado pelos tambores rústicos. Um dos bailantes avança em direção a uma pessoa do lado oposto. Ambos gingam de um lado e do outro, giram e (plaft!) lascam uma umbigada. Mais uma ginga e outra umbigada. Giram de novo e mais um encontro de corpos.

Impressionado com a sensualidade dessa dança, que assistiu em São Luiz do Paraitinga, na década de 30, o pesquisador, poeta e escritor Mário de Andrade a descreve e analisa, num livro, e a chama de “samba rural paulista”.

Quem dança, porém, chama de batuque, tambu, samba de umbigada, caxambu, jongo… em cada região, dá-se um nome diferente à cerimônia – que é mais que dança -, de origem bantu, lá dos antigos reinos de Ndongo e do Kongo, na região de Angola.

Como as demais manifestações oriundas da África, esta também não se presta apenas à diversão, ao lazer. É sensual, sim, mas é sagrada. O jongueiros juram mistérios envolvem o jongo e lhe dão um quê de magia.

E deve dar mesmo, pois o ancestral bantu do jongo, o jinongonongo, é um jogo batucado de perguntas e respostas, com o oráculo esclarecendo as dúvidas dos consulentes, através do canto e da dança, como fazem os búzios, na tradição nagô.

Não. Não é exótico. Não é só folclore. Não é para intelectuais e burgueses assistirem com ar de tédio ou de complacência. É a cultura do nosso povo e nos pertence.

O ENFORCAMENTO DE UM REI

Depois da revolta dos Malês, na Bahia em 1835, os donos de escravos de todo o País temiam a possibilidade de uma rebelião. Por isso, o tratamento aos escravizados tornou-se ainda mais cruel, o que tornava o clima, na região cafeeira e canavieira da Baixada Fluminense e do Vale do Paraíba, propício para uma revolta A gota d’água aconteceu em novembro de 1938, qunado escravo Camilo Sapateiro, foi assassinado pelo capataz de uma das três fazendas do capitão Manuel Francisco Xavier e ficou impune. Liderados pelo ferreiro Manuel Congo, cerca de 300 escravos, homens e mulheres fugiram das fazendas de Xavier. Entre eles estava a Marianna Crioula. Manuel era chamado de “rei” pelos revoltosos e Marianna, “rainha”. Todos se embrenharam na floresta, onde se estava formando o quilombo de Santa Catarina. Sob o comando do oficial Luiz Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, a Guarda Nacional perseguiu os revoltosos. Foram presos 16 negros, entre homens e mulheres. Manuel foi condenado à morte por enforcamento. Marianna foi absolvida, mas obrigada a assistir à execução do companheiro. Enforcado em 6 de setembro de 1839, Manuel Congo não foi sepultado, para servir de exemplo aos demais. No local do enforcamento, junto à pedreira de Vassouras, hoje existe um memorial em sua homenagem. Ao lado de Zumbi, Luiza Mahin e outros, Manuel Congo é símbolo da resistência de nossa gente à escravidão.

UM HERÓI, À SOMBRA DO APARTHEID

Eis um herói deve ser compartilhado por todos. Sim, porque não há outra classificação para Hamilton Naki, um dos maiores cirurgiões da África do Sul, que o apartheid se incumbiu de ocultar.

Aos 38 anos, em 1967, Naki fez parte da equipe que realizou, na cidade do Cabo, o primeiro transplante do coração. Mas ele não saiu na foto. Quando, acidentalmente, apareceu numa fotografia, a direção do hospital teria explicado que se tratava de um faxineiro. Não revelaram que foi o Dr. Naki quem retirou do peito de uma mulher morta o primeiro coração a ser transplantado em humanos, que deu tanta fama ao líder da equipe, o famoso cardiologista Christiaan Barnard.

O heroísmo de Hamilton Naki está na obstinação com que perseguiu o sonho de ser médico. Aos 14 anos, teve de abandonar os estudos para trabalhar no chiqueiro e, depois, no jardim da Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Observando os transplantes de órgãos em porcos e cães, durante as pesquisas, passou a auxiliar os pesquisadores e desenvolveu novas técnicas. Assim se tornou cirurgião e foi requisitado por Barnard. Sem direito a diploma de medicina, trabalhava clandestino.

Naki lecionou cirurgia por 40 anos, enquanto vivia num gueto, em um barraco carente de iluminação elétrica e água corrente. Aposentou- se com salário de jardineiro. Com o fim do apartheid, porém, foi condecorado e recebeu título de doctor honoris causa. Conta-se que jamais reclamou das dificuldades. Ao contrário, era grato e se sentia feliz por poder salvar vidas.

Hamilton Naki lecionou cirurgia por 40 anos, enquanto vivia num gueto, em um barraco carente de iluminação elétrica e água corrente. Aposentou-se com salário de jardineiro
Hamilton Naki lecionou cirurgia por 40 anos, enquanto vivia num gueto, em um barraco carente de iluminação elétrica e água corrente. Aposentou-se com salário de jardineiro

 

Fonte: Raça Brasil

JONGO

De estrutura matriarcal os quilombos mantêm viva essa dança de roda conhecida popularmente como o pai do samba

Até dois anos não havia luz elétrica no Quilombo São José, no município de Valença, próximo à cidade de Conservatória, no interior do Rio de Janeiro. O isolamento geográfico (560 metros do nível do mar e quase 20 km de estrada de terra que separa o quilombo de Conservatória) contribui para que a vida por lá permaneça praticamente igual à época da escravidão, nos idos de 1850 – quando seus antepassados chegaram à fazenda São José. Cerca de 200 quilombolas, divididos em 31 famílias, ainda vivem em casas de barro com telhado de sapê, cozinham em fogões a lenha e usam ferros a carvão. O ritmo da comunidade – marcado pelo batuque do tambor do jongo – comprova: a tradição vive!

Neste cenário, o Quilombo São José, aconteceu o lançamento do livro e CD, Jongos do Brasil, durante o 11° Encontro de Jongueiros. O trabalho, selecionado pelo projeto Natura Musical, reuniu a história de 11 quilombos e a sonoridade de 23 jongos interpretados pelos próprios jongueiros. “Percebemos que havia uma demanda da arte não atendida.

Este projeto prova o quanto é importante o registro desse trabalho para dar continuidade ao que essas comunidades tentam preservar. Queremos torná-las visíveis no mundo”, explica Renata Sbardelini, gerente de marketing institucional.

HERANÇAS AFRICANAS

O autor, olhando de longe, não tem nada a ver com o universo que retratou. Marcos André, 33 anos, nasceu na zona sul carioca, mas foi levado, ainda criança, por seu avô a freqüentar um terreiro de umbanda. O contato com as heranças africanas o tem marcado desde então. “Sou branco, de classe média, nasci no Leblon, mas não sofri preconceito ou desconfiança. Fui recebido em todas as comunidades com carinho e amizade”, conta ele, que também é músico e produtor cultural. A primeira surpresa de Marcos – que viajou pelo Brasil e pesquisou por 11 anos – foi descobrir que as famílias quilombolas, mesmo há mais de 100 anos após a Abolição, continuam a dançar o jongo, como seus ancestrais escravos. Todos os moradores do Quilombo São José são primos e descendentes do fundador, o escravo Pedro, que veio de Angola para a colheita de café da fazenda. Hoje, ele é representado por seu neto, Tio Mané.

É ele quem detém a sabedoria da cura através das ervas e é o mais antigo jongueiro da comunidade. Uma das moradoras mais tradicionais, Tia Santinha – que aos 83 anos ainda lida na roça – passou a vida inteira no quilombo. “Sou nascida e criada aqui. Fiquei apenas três anos fora trabalhando numa casa de família, em Niterói”, conta, lúcida, enquanto compara o quilombo de ontem e hoje: “Antes tudo era com muito sacrifício, agora temos até luz!”. Quilombolas como Tia Santinha são a memória viva da comunidade. “Cada idoso que morre é um arquivo de jongo, da história e da cultura que se vai. Os jovens do quilombo estão gravando depoimento dos idosos para deixar para as próximas gerações”, conta Marcos André.

AQUI, MULHER MANDA!

Os quilombos são estruturas matriarcais, como na África, o São José foi liderado por Mãe Zeferina, que faleceu aos 78, ano passado. Hoje está sob o comando da sua filha, Terezinha Fernandes de Azedias, a Mãe Tetê, que também é a Mãe de Santo da comunidade e há 30 anos a merendeira da escola local. “Enquanto a raiz estiver firme, nós também estaremos”, decreta a matriarca, de 62 anos. Antônio Nascimento Fernandes, conhecido como Tonico Canecão, irmão de Mãe Tetê, foi o primeiro vereador negro do município de Valença e é o presidente da Associação da Comunidade Negra Remanescente de Quilombo São José da Serra. “Aos 16 anos eu já era líder da comunidade. Quando nasci, meu avô Geraldo ficou cego e eu passei a ser sua bengala e seus olhos. Ele me passou vários ensinamentos que não passou nem ao meu pai. Temos coisas que ainda mantemos em segredo por aqui. São mistérios do quilombo que não podemos revelar…”

O Quilombo São José está a um passo de conseguir a posse definitiva da terra. Será o primeiro quilombo de proprietário particular a conseguir o feito. Os outros beneficiários estavam localizados em terras do governo. “A terra é nosso alicerce. É tão importante que todos somos agricultores. Respeitamos a terra como nossa mãe”, diz Tonico. “A próxima festa da comunidade será dia 13 de Maio – que para nós não é o dia da abolição dos escravos e sim dos ancestrais, dos pretos velhos. Esta data só será considerada a nossa abolição se for para comemorar a posse definitiva da terra”, conclui Marcos André.

Mais que dança – um ritual

Segundo o livro Jongos do Brasil, o jongo foi trazido da região africana Congo-Angola para o Brasil Colônia. Os negros escravos podiam dançar o jongo nos dias dos santos católicos – era o único momento permitido para a confraternização. É uma dança dos ancestrais, dos preto-velhos escravos, do cativeiro. A dança é profana, para divertimento, mas guarda uma atitude religiosa e misteriosa. Os antigos eram muito rígidos e exigiam respeito para ensinar os segredos do jongos e os fundamentos dos seus pontos. Por isso, no início, só os mais velhos entravam na roda de jongo, os jovens ficavam apenas observando. Dança-se na maioria das vezes descalço, com roupas do dia-a-dia. O jongo é acompanhado por dois tambores (grave e agudo). A dança do jongo acontece ao ar livre. Os negros montam uma fogueira e iluminam o terreiro com tochas. Armam uma barraca de bambu, onde os casais dançam ao ritmo do calango. À meia-noite, a negra mais idosa interrompe o baile caminha para o terreiro de terra batida, se benze nos tambores sagrados, pede licença aos preto-velhos (antigos jongueiros que já morreram). O primeiro casal entra na roda e começa a dança. Dança-se o jongo no dia 13 de maio, consagrado aos preto-velhos, nos dias santos católicos de devoção da comunidade, nas festas juninas, nos casamentos e recentemente em apresentações públicas.

CONTATOS: ASSOCIAÇÃO BRASIL MESTIÇO (21) 3852-0043 – 3852-0053 BRASIL@BRASILMESTICO.COM.BR WWW.BRASILMESTICO.COM.BR

Fonte: Raça Brasil