Uma freira guardiã do espelho

Numa livre interpretação, o espelho do orixá Oxum, sempre associado à vaidade e à feminilidade, também serve para que as pessoas se reconheçam, se identifiquem e elevem seu amor próprio e sua autoestima. E quem diria que uma freira franciscana faria desse espelho sua vida?

Foto: Arquivo pessoal
Irmã Telma usa a dança para trabalhar a autoestima de crianças e adolescentes da periferia de SP

Deus escreve certo por linhas tortas, diz um ditado cristão. Às vezes, porém, essas linhas são tão tortuosas quanto o gingado dos corpos que executam algumas danças de origem africana. E é com vibração que a irmã Telma Maria Coelho Barbosa conta o quanto suas aulas de dança e os desfiles que organiza têm ajudado crianças da periferia de São Paulo e de cortiços na região central da cidade a se sentirem mais belas, mais ricas culturalmente, mais felizes. Para irmã Telma, “essa é uma forma de Deus operar em suas vidas, tornar esses meninos e meninas mais fortes para enfrentarem, com dignidade, todas as adversidades, que não são poucas.”

Maranhense, dançarina e professora de danças populares brasileiras, como o Tambor de Crioula, típico de seu estado natal, irmã Telma atua nos Centros Franciscanos de Acolhimento (CFA’s) do Jardim São Luís, na zona sul da capital paulista. “Nossas aulas e oficinas culturais são ministradas nesses espaços de ensino não formal, que funcionam no contraturno escolar das crianças e adolescentes, em situação de vulnerabilidade”, explica a freira que também é massagista, especializada em massoterapia, capoeirista e percussionista. O mesmo trabalho com crianças ela também executa no bairro da Liberdade, onde existe um grande número de moradores de cortiços.

Militante de carteirinha do Movimento Negro, irmã Telma coordena o Grupo de Religiosos Negros (as) e Indígenas (Greni), de São Paulo, e também é integrante da Coordenação dos Agentes de Pastorais Negras (APN’s), do Estado de São Paulo, além de fazer parte da diretoria da Educafro onde, há mais de 20 anos, trabalha com o Frei David, na inclusão de afro-brasileiros em universidades e no combate às desigualdades raciais.

Foto: Arquivo pessoal
“Todo o meu trabalho tanto dentro da Congregação quanto fora sempre foi e será com o recorte racial, falando de cultura negra”, diz irmã Telma. As imagens comprovam sua afirmação
Foto: Arquivo pessoal

Negra, mulher, religiosa 
“Quando alguém afirma que esse tipo de atividade à qual me dedico, desde muito nova, pode ser conflituosa com minha vida religiosa, eu sempre respondo que não nasci freira. Essa é minha vocação e opção de vida. Nasci mulher e negra. A causa feminina, porém, tem muito mais respaldo da mídia e de instituições, mas a de nossa origem étnica é sempre subestimada. Por isso eu a priorizo. E sei que assim agrado a Deus e cumpro a missão que a mim ele destinou. Todo o meu trabalho tanto dentro da Congregação quanto fora sempre foi e será com o recorte racial, falando de cultura negra.” Diante dessa afirmação da freira, não causa estranheza vê-la com suas roupas coloridas e adereços, ora dançando, ora tocando atabaque ou jogando capoeira, geralmente em função de liderança e promovendo eventos, como os do Projeto Beleza Negra, que ela criou. “Nosso grupo Conexão Dançar África Brasil, por exemplo, resulta da luta pela afirmação de homens e mulheres, orgulhosos de nossa cultura e de nossos ancestrais. Somos sujeitos de direito, comprometidos com uma causa comum”, garante.

Hoje, um grande sonho dessa freira é obter um espaço em que possa acomodar e expandir seu Acervo Afro, composto por tecidos dos mais variados, utilizados em amarrações de roupas de inspiração africana, indumentárias originárias da África, bonecas negras, instrumentos de percussão, além de fotografias, DVDs que documentam trabalhos realizados e outros que são utilizados nas aulas e oficinas.

 
Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal
A vida religiosa não impede irmã Telma de utilizar a arte em seus trabalhos
Foto: Arquivo pessoal

Que mulher é essa? 
A história de Telma Maria começa de uma maneira tão inusitada quanto ela: grávida, a quebradeira de coco babaçu, Nila viajava na cangalha sobre o lombo de um jumento, vinda do interior, em direção à capital maranhense de São Luís. Na cidade de Vitória do Mearim, a menina nasce. Firmino, o pai, é lavrador e arranja um trabalho por ali, numa roça. Um tempo depois vão para São Lourenço, no sertão e depois seguem para São Luís, onde ele vai trabalhar de pedreiro. Anos depois, seguem para o Rio de Janeiro, Brasília e Tucuruí, no Pará, onde ajuda a construir a barragem de uma hidrelétrica. Das seis crianças de Nila, só quatro meninas sobrevivem e, mais tarde, uma delas também morre. “Mamãe também já se foi. Hoje tenho apenas duas irmãs, uma das quais cuida de meu pai, com 82 anos, que anda muito doente”, comenta.

Confessa que era a mais moleca de todas as filhas do casal. “Eu vivia empoleirada nos galhos mais altos de um ingazeiro. Ali, sonhava mais alto ainda. Queria conquistar o mundo. Criada com leite de cabra e de babaçu, apesar de pequenina, sempre fui muito forte. Com oito anos, conheci uma freira que trabalhava com crianças e decidi que eu queria ser como ela. Mamãe era contra. Dizia que negra em convento vai direto para a cozinha, feito escrava. Mas, em 1971 ela morreu e eu entrei para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Ingolstadt”, conta Irmã Telma.

Essa ordem religiosa nasceu na Alemanha, há 774 anos. Depois de realizar os primeiros estudos em Londrina, Telma fez os votos de pobreza, obediência e castidade. Realizou seu trabalho de apostolado em vários pontos do Brasil. “Mas o que eu queria mesmo era trabalhar com as crianças. Por isso hoje me sinto realizada.” Além de ensinar danças de origem africana, ela também toca atabaque, agogô, afoxé, pandeiro, xequerê e panderola de bumba meu boi na bateria do Akomabu, um bloco afro do Maranhão, cujo nome quer dizer a luta não deve morrer.

Com suas lentes de contato verdes, irmã Telma confessa: “Sou muito vaidosa. Gosto de meu cabelo de mulher negra e ora o deixo black, ora trançado, algumas vezes com fitas e miçangas, gosto de deixá-los ao estilo abanjá. Já usei dreads, turbantes e amarrações com tecidos. Somos feitos à imagem e semelhança de Deus e, se não nos amamos, não O amamos também. E é só me amando que conseguirei estimular as crianças a se amarem.” Ela garante que a vaidade e suas atividades não ferem nenhum de seus votos religiosos e que mantém sua fé inabalável. Uma fé que ela jamais dissociará de sua negritude, esse espelho no qual quer ver todas as crianças refletidas.

“JÁ USEI DREADS, TURBANTES E AMARRAÇÕES COM TECIDOS. SOMOS FEITOS À IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS E, SE NÃO NOS AMAMOS, NÃO O AMAMOS TAMBÉM. E É SÓ ME AMANDO QUE CONSEGUIREI ESTIMULAR AS CRIANÇAS A SE AMAREM”

Fonte: Raça Brasil

A mãe de hoje, a de ontem, a de sempre

O papel das mães do ponto de vista religioso é destacado por Mãe Stella. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE| 29.01.2009

Por Mãe Stella d’Oxossi*

É comum dizermos que dia das mães é todo dia, mas é muito bom termos um dia especial, em que todos podem e devem fazer uma homenagem mais específica àquelas que não só proporcionam o maior dom – o da vida, como também dedicam uma grande parte de seu tempo e energia para, numa vigília constante, tentar formar cidadãos de verdade.

Pelas razões anteriormente descritas, é que em nossa prática religiosa, Culto aos Orixás, é fundamental que comecemos o dia louvando as mães. No meu caso, em que minha mãe cedo partiu para o Orún (mundo dos ancestrais), digo: “Yiá mi, ki tobi mi, ló jó, gbà mi lóni efiedeno” = “Minha mãe, que me deu nascimento e educou, mas que já se foi, proteja-me neste dia, tenha paciência comigo”.

E elas precisam ter paciência mesmo! Como sabiamente diz o povo: “uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe”. Imaginemos, então, uma mãe de quinhentos filhos. Impossível?… Não! Assim são algumas Iyalorixás, termo que na língua yorubana significa Mãe de Orixá, comumente denominada de Mãe de Santo. Nunca é demais lembrar que Orixá é a Essência Divina de cada um de nós.

Uma pessoa é Iyalorixá porque através de rituais religiosos é capaz de trazer esta energia para se manifestar no Aiyé – a Terra. Dizem que mãe é tudo igual. Isto pode até parecer verdade. Um olhar mais apurado, no entanto, identifica as características individuais que elas possuem, tanto no mundo espiritual, como no humano. No geral, toda mãe é doadora, mas a vida também nos mostra mães que jogam seus filhos no lixo, que os colocam para roubar, fazendo deles veículos para sustentar seus vícios físicos e morais.

Estes comportamentos, que nos parecem monstruosos, servem para mostrar que não somos capazes de compreender mais profundamente os mistérios da vida e que não podemos julgar o que não compreendemos. Só nos resta, diante de tais fatos, fazermos exercícios diários de compreensão, perdão e pedidos ao Superior, no sentido de nos dar condições para, através do auto-aperfeiçoamento, sermos capazes de estimular as pessoas que cometem tais atos a buscarem uma evolução maior.

A diversidade do comportamento maternal nos é mostrado através dos mitos das Àyabás – orixás femininos. Nanã simboliza a mãe que deposita uma expectativa nos filhos e que se aborrece quando esta não é correspondida. Iyemanjá é a mãe rigorosa, é ela a responsável por orientar a conduta de sua descendência. Oxum, a delicada, que com ”dengo” se ocupa dos aspectos físicos das crianças, ensina comportamentos de higiene e aparência social, valor de extrema importância, pois a vaidade física facilita toda e qualquer conquista. Yansã é a guerreira, aquela que ao precisar sair para a luta diária deixa um par de chifres de búfalo com seus filhos, para que possam chamá-la a qualquer momento para socorrê-los; quando isso acontece, ela chega rápida como o vento – Oyá tètè (Yansã vem rapidamente).

Chegamos à sacralidade da palavra mãe, que representa o cuidar do outro como uma parte de si. É amor no sentido mais belo da palavra. Uma criança aceita tudo, menos que xingue sua mãe, ela é sagrada, ela é amor. Também, quando somos cuidados com esmero por outra pessoa, dizemos que ela é uma mãe para nós. Nada mais justo, então, que louvemos da forma que a cultura de cada um pede, aquelas que sacralizaram seu ventre ao gerar uma criança.

Temos o dever de guardar em nosso coração um lugar de gratidão por todas as mães vivas, demonstrando este amor com palavras ou atitudes, a fim de que a graça da maternidade as faça felizes e dê força e energia para enfrentar e vencer com dignidade a nobre tarefa que lhes foi confiada. Como diz a tradição oral: “Filhos criados, trabalhos dobrados”. Quanto às mães que nos anteciparam na partida, nunca devem ser esquecidas, pois temos certeza de que não apenas foram, mas que continuam sendo as guardiãs dos frutos que geraram. A alegria maior de toda mãe, além de receber presentese carinhosos abraços e beijos, é saber que o fruto de seu ventre está feliz e é capaz de transmitir esta felicidade para todos.

*Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá